Ali Babá não nasceu no Oriente, nasceu em Paris

07 Agosto 2017420

"Ali Babá e os Quarenta Ladrões", um dos contos mais famosos de "As Mil e Uma Noites", é na verdade uma invenção do século XVIII. Uma nova tradução promete desmascarar estes e outros velhos enganos.

Hugo Maia leu pela primeira vez As Mil e Uma Noites há quase 20 anos, numa tradução de Martim Velho Sotto Mayor feita a partir da edição francesa de Antoine Galland. Apesar da fama que o livro gozava, Hugo não ficou particularmente impressionado. “Até fiquei um bocado dececionado quando cheguei ao ‘Ali Babá’ e ao ‘Aladino’”, contou ao Observador. “Lembro-me que quando li aquilo fiquei com a sensação de que as histórias que eram menos conhecidas até eram as mais interessantes.” O que Hugo não sabia na altura é que os contos mais famosos eram, na verdade, invenções publicadas por Galland no século XVIII. Só anos depois, quando foi convidado por Hugo Xavier, editor da E-Primatur, para traduzir As Mil e Uma Noites, é que descobriu a verdade sobre a obra que é, possivelmente, uma das mais forjadas da história.

“Quando o editor me fez a proposta não aceitei de imediato, e pensei mesmo que não ia aceitar”, confessou em conversa com o Observador. “E a razão disso foi porque tinha uma série de ideias erradas sobre As Mil e Uma Noites. Tinha uma versão em árabe em casa e já tinha lido algumas partes, mas única que tinha lido do princípio ao fim tinha sido a de Antoine Galland, uma das mais conhecidas e talvez uma das traduções mais disparatadas que alguma vez foram feitas das Mil e Uma Noites. Pus-me a ler a edição árabe corrente que tinha e aquilo não me pareceu muito interessante. Eram historiazinhas.”

Tal como muitos outros leitores, Hugo julgava que As Mil e Uma Noites não passavam de uma coletânea de 1001 contos fantásticos, originalmente escritos em árabe, que incluíam histórias como “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” — sobre um pobre lenhador que descobre o esconderijo secreto de um grupo de ladrões — e “Aladino” — sobre um jovem cuja vida dá uma verdadeira reviravolta depois de encontrar uma lâmpada mágica com um génio dentro –, esta última adaptada ao cinema pela Walt Disney em 1993. Até que se apercebeu que “todas as edições que circulam das Mil e Uma Noites em árabe foram, na realidade, fabricadas durante o século XVIII e XIX”.

“Comecei a descobrir outros manuscritos mais antigos que, ainda que incompletos, eram muito mais interessantes.” E mais: Hugo percebeu que As Mil e Uma Noites não eram, afinal, compostas por 1001 contos. Isso fê-lo mudar rapidamente de ideias e decidir aceitar o convite de Hugo Xavier. Depois de dois anos de muito trabalho, que o obrigou a comprar uma nova coleção de dicionários de árabe, o primeiro volume da sua tradução, a primeira em português feita a partir dos manuscritos árabes mais antigos de As Mil e Uma Noites, está finalmente pronto. Chega às livrarias no próximo dia 8 de agosto com uma promessa: revelar os contos que séculos de falsificações e invenções rebuscadas esconderam. Se tudo correr bem, o segundo volume sairá em 2018, por altura da Feira do Livro de Lisboa.

O primeiro volume de As Mil e Uma Noites chega às livrarias a 8 de agosto

Este primeiro volume, com 400 páginas, percorre 101 das 282 histórias contadas por Xerazade (apesar do título, As Mil e Uma Noites nunca tiveram 1001 contos) ao rei Xariar que, depois da traição da rainha, decide casar todos os dias com uma nova mulher e matá-la no dia seguinte. Depois de Xariar levar à morte grande parte da população feminina do seu reino, Xerazade, filha do vizir, decide voluntariar-se para casar com rei na esperança de conseguir acabar com o massacre. Para entreter o rei e evitar que este a mate, começa a contar-lhe histórias, que interrompe sempre ao final da noite. Ansioso para ouvir o final, Xariar decide poupar Xerazade.

Os contos surgem acompanhados por perto de 70 notas de rodapé, um número que poderia ser muito superior caso Hugo Maia tivesse optado por fazer uma edição académica, o que não é caso. “Uma pessoa não conseguia entrar na história se o livro fosse traduzido assim”, explicou o tradutor. “E em Portugal não se justifica uma edição assim, por mais interessante que seja. Até porque não há uma academia de estudos árabes.” Um extenso preâmbulo (com mais de 60 páginas) serve de introdução à obra, relatando a fantástica viagem das Mil e Uma Noites até aos dias de hoje. Porque, como diz Hugo, “a história da evolução do texto de As Mil e Uma Noites acaba por ser tão fantástica quanto os próprios contos”.

A descoberta do manuscrito mais antigo (e a aldrabice que se seguiu)

Não é possível falar da história de As Mil e Uma Noites sem falar de Antoine Galland. Nascido em 1646, em Rollot, uma localidade no norte de França, Galland passou grande parte da sua vida na zona do Levante, nomeadamente na Síria, onde copiou um grande número de inscrições e desenhou muitos monumentos hoje desaparecidos. Reconhecido orientalista e também arqueólogo, foi após o seu regresso definitivo a França, no início do século XVIII, que se dedicou à tradução e publicação de contos árabes, começando pelo ciclo de Sinbad, o Marinheiro, que descreve as sete viagens realizadas pelo navegador de Bagdade.

Galland tinha encontrado o manuscrito de Sinband em meados de 1690, durante uma viagem a Constantinopla, e decidiu traduzi-lo para francês. Enquanto trabalhava na sua tradução, foi-lhe parar às mãos, por mero acaso, um outro manuscrito, proveniente da Síria, com o título sugestivo de As Mil e Uma Noites. Galland ficou logo interessado e decidiu traduzi-lo para francês. Sem saber, o orientalista tinha encontrado o manuscrito mais antigo que se conhece dos contos das Mil e Uma Noites.

"Prometeu a si mesmo que nunca mais tornaria a casa, a não ser por uma só noite e que na manhã seguinte mataria aquela com quem se havia casado no dia anterior para não voltar a ser vítima da esperteza e da malvadeza das mulheres."
De "As Mil e Uma Noites" (edição da E-Primatur)

Galland publicou o primeiro volume da tradução do manuscrito (também conhecido por “Manuscrito Galland”), que se estima ter sido produzido no século XIV, em 1704. O sucesso foi imediato. Contudo, como este só continha 282 das 1001 noites a que o título fazia referência, o orientalista decidiu introduzir, a partir do terceiro volume, o ciclo de Sinbad. “Introduziu-as no meio do nada, como se fizessem parte das Mil e Uma Noites”, comentou Hugo Maia. “As histórias de Sinbad são, de facto, muito interessantes, mas nunca fizeram parte das Mil e Uma Noites. E mais do que isso — ele não tinha necessidade de por mais histórias, mas se calhar achava que podia pôr lá tudo…”

Terminadas as sete viagens do marinheiro, Antoine Galland regressou novamente ao manuscrito original, seguindo daí para a frente a ordem original. Talvez apercebendo-se que só muito dificilmente iria arranjar 1001 histórias, Galland decidiu acabar com a divisão em noites a partir do sétimo volume, lançado em 1707. Numa nota de advertência anexa à edição, o autor explicava que a decisão, além de procurar evitar o enfado dos leitores, se devia ao facto de alguns dos contos originais não estarem divididos em noites. “O que não era verdade”, explicou Hugo. “É curioso, porque as edições que circulam hoje em dia que foram traduzidas do Gallant, e mesmo as versões francesas, eliminaram a divisão em noites a partir da quinta. Mas na primeira tradução, foi a partir das 236.”

Felizmente para Galland — que parecia estar determinado a chegar ao fim das tais 1001 noites –, dois anos depois da publicação do sexto volume conheceu em Paris um cristão maronita de Alepo, Hanna Diab, que lhe disse ter conhecimento das histórias em falta. O que Diab lhe contou mudou completamente o rumo das Mil e Uma Noites, contribuindo decisivamente para a fama que o conjunto de histórias viria a gozar nas décadas (e séculos) posteriores.

Hugo Maia começou por aprender árabe em Portugal, mas foi na Tunísia, onde tirou um curso avançado, que se tornou fluente na língua. A fotografia foi tirada na Livraria Sá da Costa, no Chiado

Hanna Diab é, por si só, uma personagem e tanto. Nascido provavelmente no final do século XVII em Alepo, Síria, no seio de uma família cristã maronita (uma minoria religiosa naquela cidade). Depois de vários anos a trabalhar para um mercador francês chamado Rimbaud e de uma tentativa falhada de entrar para um mosteiro, acabou por se juntar à caravana onde seguia Paul Lucas, um viajante, mercador e colecionador de antiguidades francês. Depois de uma longa viagem pelo Médio Oriente e sul da Europa na companhia de Lucas, acabou em Paris, onde o viajante que lhe tinha prometido um cargo de tradutor na corte do rei Luís XIV. Contudo, uma vez chegados à capital francesa, Diab rapidamente percebeu que o que Paul Lucas queria era fazer boa figura perante a realeza — vestiu Diab com trajes orientais, colocou-lhe na cabeça um chapéu vindo do Cairo e apresentou-o em Versailles como uma espécie de troféu, um objeto exótico que tinha trazido do oriente, dentro de uma gaiola e rodeado por duas feras vindas da Tunísia.

Foi precisamente em casa de Paul Lucas que, a 25 de março de 1709, Antoine Galland conheceu Hanna Diab, na altura com cerca de 20 anos. Diab, que “conhecia alguns contos árabes muito bonitos” (nas palavras do próprio orientalista), contou a Galland um conjunto de 16 histórias, dez das quais acabariam por entrar para os três volumes finais de As Mil e Uma Noites (publicados entre 1712 e 1717, sendo que os últimos dois saíram já depois da morte de Galland, em 1715). Entre estes contos — que viriam a ficar conhecidas como “histórias órfãs” — contavam-se alguns dos contos mais famosos das Mil e Uma Noites, como “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” e “Aladino”. Como refere Paulo Lemos Horta, em Marvellous Thieves: Secret Authors of the Arabian Nights (2017), os encontros entre Diab e Galland, constituíram “um contributo duradouro para uma coleção de histórias que ganhou o seu lugar entre os cânones da literatura mundial”.

O que é o Orientalismo?

Na sua tradução de As Mil e Uma Noites, publicada pela E-Primatur, Hugo Maia explica que “por orientalismo entende-se a produção cultural que o ocidente desenvolveu num contexto de dominação colonial, produzindo uma visão imaginária do outro, neste caso do oriental e do árabe, baseada em preconceitos e fantasias que serviam os interesses dessa dominação colonial”.

O termo foi cunhado em 1978 por Edward W. Said, que o usou pela primeira vez na obra Orientalismo — Representações ocidentais do Oriente (editada em Portugal pela Cotovia). Nela, Said define “orientalismo” da seguinte forma: trata-se de um estilo de pensamento que estabeleceu “a distinção entre oriente e ocidente como ponto de partida para elaborar teorias, epopeias, romances, descrições sociais e relatórios políticos a respeito do oriente, a sua gente, costumes, ‘mentalidades’, destino, etc.”.

O único problema é que as histórias do maronita nunca fizeram parte das Mil e Uma Noites originais. “Este senhor sírio convenceu o Antoine Galland, ou o Antoine Galland convenceu-se a si próprio, de que sabia histórias de As Mil e Uma Noites. As histórias que lhe contou são conhecidas como ‘histórias órfãs’ porque não se conhece nenhum manuscrito árabe onde elas figurem”, salientou o tradutor Hugo Maia. A única exceção parece ser o conto “O Cavalo de Ébano”, que surge numa outra recolha de histórias, proveniente da Tunísia, chamada As 101 Noites. Mas, se assim é, de onde é que vieram as histórias de Hanna Diab?

“Hoje em dia sabemos que as histórias foram inventadas por ele”, esclareceu Hugo. “Era um homem muito criativo, também deixou um livro de viagens. Ainda não tive oportunidade de o ler mas, pelo que ouvi falar, é muito interessante. Descreve as suas viagens até França. É engraçado porque ele descreve o Palácio de Versailles com o mesmo tipo de fantasia com que descreve os palácios das suas próprias histórias — há uma criatividade muito semelhante entre o seu livro de viagens e as histórias que ele contava.”

Apesar de as “histórias órfãs” de As Mil e Uma Noites serem da autoria de Diab — que, depois de perceber que nunca iria alcançar o tão ansiado cargo na corte de Luís XIV, acabou por regressar à Síria em 1710, de acordo com Paulo Lemos Horta –, este inspirou-se em contos tradicionais que circulavam no mundo árabe. Exemplo disso é a história de Hogia Babá, personagem que ficou conhecida para a posteridade como Ali Babá, um nome escolhido por Galland. Mas não foi só o nome que o orientalista mudou — à semelhança de Diab, que adaptou uma história sua conhecida, também Antoine Galland fez as alterações que lhe convinham.“A história contada pelo Hanna Diab”, retratando Ali Babá como um pobre lenhador ao qual saiu a sorte grande, “é muito mais materialista, o Galland tentou dar-lhe uma carga mais moralista”

À semelhança do que viriam a fazer muitos outros “tradutores” das Mil e Uma Noites, Antoine Galland adaptou a obra ao seu próprio gosto e ao gosto da época, alterando-a profundamente. Retirou partes, mudou finais, preencheu lacunas, usando muitas vezes para isso textos que pouco ou nada tinham a ver com o manuscrito original, construindo um conjunto de histórias que é mais seu do que das fontes em que se inspirou. Tornou-a mais moralista, mais romântica e mais sentimental. “O Antoine Galland moralizou o texto todo. Retirou tudo o que fosse erótico. Por exemplo, onde havia uma orgia, aparece um simpático jantar à luz das velas”, exemplificou Hugo Maia. “Adaptou as histórias ao seu público, que era um público mais burguês e aristocrático. As histórias das Mil e Uma Noites eram muitas vezes contadas a populações mais desfavorecidas e sem grande formação literária.”

“O Antoine Galland moralizou o texto todo. Retirou tudo o que fosse erótico. Por exemplo, onde havia uma orgia, aparece um simpático jantar à luz das velas.”
Hugo Maia, tradutor

Além disso, numa altura em que o orientalismo estava muito em voga, Galland procurou explicar os costumes árabes através dos contos que se propôs a contar. “Fez uma série de adições que são absolutamente incríveis. Por exemplo, logo no início, é dito que o rei Xariar, depois de ter passado a primeira noite com Xerazade, se levantou muito cedo. Isto, de facto, vem no original, mas Galland acrescenta que o rei se levantou muito cedo como é habitual entre os muçulmanos para fazer a primeira oração do dia. Ora, em nenhuma parte das Mil e Uma Noites é dito que o rei Xariar era muçulmano, muito pelo contrário. Só o facto de ter um nome persa indica que era pagão.” Para Hugo Maia, notas explicativas como esta, “absolutamente despropositadas”, apenas “atestam a sua própria ignorância em relação a muitos costumes árabes”. “E, aliás, acho que estas histórias acabaram por contribuir não para um maior conhecimento dos europeus em relação ao mundo islâmico e ao mundo árabe em particular, mas até para uma maior ignorância. Acabaram por fazer com que as pessoas imaginassem o mundo árabe como uma fantasia da Walt Disney que, muitas vezes, não corresponde à realidade.”

É que, independentemente da adulteração de que foram alvo, As Mil e Uma Noites são na sua génese um trabalho de ficção. E é importante não esquecer isso. “Isto é literatura, e um tipo de literatura exótica e fantástica”, afirmou o tradutor. “Foi feita pelos próprios autores para ser fantástica e [estas histórias] não refletem necessariamente os costumes das pessoas que as produziram. Não faz sentido nenhum tentar fazer etnografia com literatura fantástica de ficção” que, de acordo com Hugo Maia, “era muito apreciada no mundo árabe”. “Temos muitos casos disso, tanto contos orais como produzidos pela elite. Até de ficção científica.”

É por estas e outras razões que defende que a tradução de Antoine Galland não pode ser considerada uma tradução, “de forma nenhuma”. “Aquilo é uma adaptação. Mesmo para os padrões da época.” Contudo, a verdade é que As Mil e Uma Noites do orientalista francês fizeram despertar um maior interesse pelo tema, originando até uma procura pela versão completa do conjunto de contos. Surgiram rapidamente várias traduções em países como Inglaterra e Alemanha e até uma onda de falsificações que se prolongou até finais do século XIX. Foi também depois do sucesso publicação da “tradução” de Galland em França que apareceu a primeira edição imprensa em língua árabe.

"Estas histórias acabaram por contribuir não para um maior conhecimento dos europeus em relação ao mundo islâmico e ao mundo árabe em particular, mas até para uma maior ignorância. Acabaram por fazer com que as pessoas imaginassem o mundo árabe como uma fantasia da Walt Disney."
Hugo Maia, tradutor

“Estas histórias vieram a aparecer em manuscritos que foram forjados ou fabricados, geralmente por orientalistas e intelectuais sírios e libaneses ou por equipas de orientalistas franceses, alemães, libaneses e sírios. Foram estas versões que, mais tarde, acabaram por resultar nas versões árabes correntes, como a célebre versão de Bulaq, que têm a história do ‘Ali Babá e os Quarenta Ladrões’ e as restantes ‘histórias órfãs’”, explicou Hugo Maia. “Hoje em dia sabemos perfeitamente que estas histórias que figuram nas versões árabes ou nesses manuscritos forjados são, na verdade, traduções do francês. Não existe nenhuma versão em árabe anterior à publicação de Antoine Galland que as tenha, e a comparação entre as duas versões prova que as árabes são traduções do francês.”

As Mil e Uma Noites chegam ao mundo árabe… No século XIX

Apesar da circulação de alguns manuscritos, a primeira edição impressa em língua árabe só surgiu em meados do século XIX, na Índia, mais precisamente na cidade de Calcutá. A Índia fazia então parte do vasto Império Britânico (só conseguiu a independência em 1947), e a tradução para árabe das Mil e Uma Noites foi feita para integrar um manual didático para os oficiais da Companhia Britânica das Índias Orientais aprenderam árabe. Apesar de não ser uma língua que seja falada na Índia, o árabe era “uma língua de cultura”, falada pela população muçulmana indiana, ainda hoje em grande número.

A tradução foi iniciada em 1814 mas foi interrompida a meio, em 1818, tendo sido publicados dois volumes com um total de 100 noites. “A edição foi interrompida a meio porque a administração colonial britânica decidiu abandonar o ensino da língua árabe e de outras línguas faladas na altura na Índia, adotando a política de obrigar os indianos a saberem inglês”, explicou Hugo Maia. Esta edição, que ficou conhecida como “Calcutá I” (para se diferenciar de uma segunda edição, mais tardia, a que os especialistas chamam “Calcutá II”), teve como base um manuscrito editado por um tal Shaykh Ahmad ibn Muhammad Shirwani al-Yamani, que fez questão de corrigir várias partes e alterar o final de pelo menos duas histórias. À semelhança da edição de Galland, continha também o ciclo de histórias de Sinbad, o Marinheiro.

A esta seguiu-se a muito mais interessante edição de Christian Maximilian Habicht, publicada entre 1824 e 1843 na Breslávia (atual Polónia), em doze volumes, que incluía também as “histórias órfãs” de Hanna Diab. Esta teria sido baseada num manuscrito original proveniente da Tunísia que, na verdade, tinha sido forjado pelo próprio Habicht tendo como base uma tradução francesa e um outro documento falsificado por um monge sírio chamado Dom Denis Chavis e por Jacques Cazotte, em finais do século XVIII. Além do manuscrito de Chavis e Cazotte, Habicht terá baseado a sua versão num outro documento, criado pelo intelectual sírio Michel Sabbagh, já no século XIX. A falsificação de Sabbagh era tão sofisticada que até incluía notas de margem feitas por copistas e leitores.

A primeira edição produzida num país árabe e por intelectuais árabes só surgiu em 1836. Publicada em Bulaq, um subúrbio do Cairo, em dois volumes, incluía também as “histórias órfãs” da edição de Galland. “Essa edição fez imenso sucesso. Foi considerada como sendo uma edição completa das Mil e Uma Noites”, tornando a obra conhecida no mundo árabe. “Mas hoje sabemos que a edição foi feita com uma grande pressão orientalista. Havia o desejo de agradar aos intelectuais europeus que faziam viagens de propósito ao Egito e à Síria à procura do manuscrito das Mil e Uma Noites. As histórias que lá figuram, o ‘Ali Babá’ e o ‘Aladino’, são traduções do francês”, salientou o tradutor Hugo Maia, acrescentando que, apesar das alterações feitas, “não se eliminou algumas das partes mais eróticas”.

O famoso explorador, geógrafo e orientalista inglês Richard Burton publicou a sua edição de As Mil e Uma Noites em 1885 (Foto: Hulton Archive/Getty Images)

Em 1839, começou a ser publicada em Calcutá uma nova versão. Editada pelo britânico W.H. MacNaghten, Ahmad ibn Muhammad e pelo assistente deste, dois intelectuais indianos que dominavam a língua árabe, a obra foi publicada em quatro volumes que continham mais uma vez as histórias francesas. Na sua base estaria um manuscrito encontrado no Egito pelo major Turner Macan que, à semelhança de todos os outros, também se tratava de uma falsificação. Tal como a edição de Bulaq, a “Calcutá II”, como acabou por ficar conhecida, fez também um enorme sucesso no mundo árabe e foram muitos os que defenderam tratar-se da edição definitiva de As Mil e Uma Noites. Foi nesta edição que Richard Burton baseou a sua famosa tradução.

Richard Burton, famoso explorador, geógrafo e orientalista inglês, publicou a sua edição de As Mil e Uma Noites em 1885, em dez volumes. A estes seguiram-se outros 17, entre 1886 e 1989, com o título The Supplemental Nights to the Thousand Nights and a Night. À semelhança de editores anteriores, Burton também alterou o texto original como lhe apeteceu e acrescentou uma parafernália de notas e apêndices com a sua própria interpretação dos contos, que incluíam algumas teorias sobre a homossexualidade no mundo árabe que, apesar de interessantes, não tinham qualquer fundamento histórico.

O que acaba por ser engraçado no que diz respeito às edições das Mil e Uma Noites é que cada editor acabou por construir a obra que mais lhe convinha. “Cada um criou as Mil e Uma Noites à sua maneira”, salientou o tradutor. “[Joseph Charles] Mardrus [autor de uma famosa tradução em francês, que saiu entre 1898 e 1904] ainda acrescentou mais histórias, incluindo histórias de origem indiana. Richard Burton abordou um tipo de tradução com um inglês muito literário e arcaico, que a meu ver se distancia muito da oralidade dos textos originais. Antoine Galland moralizou o texto todo.”

“A história da evolução do texto de ‘As Mil e Uma Noites’ acaba por ser tão fantástica quanto os próprios contos. Foi falsificação atrás de falsificação.“
Hugo Maia, tradutor

É por esta razão que, “a história da evolução do texto de As Mil e Uma Noites acaba por ser tão fantástica quanto os próprios contos”. “Foi falsificação atrás de falsificação. A mim não me faz confusão nenhuma a falsificação de escritos, acho que é um processo criativo muito interessante. O que eu acho é que quando se compara as versões correntes que circulam hoje em dia em árabe com 1001 noites ou as traduções destas versões com as versões mais antigas, nomeadamente com o manuscrito do século XIV, apercebemo-nos que estas são muito mais ricas”, defendeu Hugo Maia. “Têm um vocabulário muito mais interessante, uma linguagem espontânea. Não estão escritas no árabe das belles-lettres árabes. As versões correntes têm muito mais histórias, mas acho que a qualidade das histórias em si é menor. É menor mesmo tendo em conta que as versões antigas têm contradições flagrantes, típicas dos contos orais, que se encontram menos nas versões correntes modernas.”

Além disso, as edições impressas costumam ser compostas por 1001 noites quando, na realidade, nunca existiram 1001 noites. Se assim é, de onde é que vem, afinal, o famoso título?

Afinal, havia ou não havia 1001 noites?

“Na realidade, os manuscritos mais antigos nunca têm 1001 noites, e hoje ainda se discute se estes documentos que sobreviveram até aos nossos dias tinham de facto 1001 noites”, explicou Hugo Maia, para quem o título em árabe é sobretudo simbólico. “A minha opinião é que não tinham, mas nada impossibilita que tivessem e que se tivesse perdido. Os três manuscritos mais antigos só vão até à noite 200 e tal.” No caso do documento datável do século XIV, que o tradutor utilizou para a edição portuguesa da E-Primatur, a história termina na 282ª noite.

As referências mais antigas a um texto com um título semelhante remontam ao século IX. Sabe-se que, nesse tempo, circulava um conjunto de histórias chamado As Mil Noites que, de acordo com alguns enciclopedistas árabes se trataria de uma tradução de um livro persa chamado Os Mil Contos. “Logo aí há uma série de contradições”, alertou Maia. “O título do alegado original em persa seria Os Mil Contos, mas o enciclopedista árabe diz que não tinha 1000 contos, mas sim um conjunto de quase 200 contos divididos em 1000 noites. Não se percebe porque é se chamaria assim se depois não tinha 1000 contos, uma vez que cada conto era interrompido no final de cada noite. A única coisa que sabemos dessas Mil Noites — que não chegaram aos dias de hoje e que alimentaram o mito de que As Mil e Uma Noites seriam uma coisa de origem persa ou até mesmo uma tradução de um livro persa que, a meu ver, é um mito bastante errado –, por várias referências feitas noutros livros da época, é que já englobava a história principal do rei Xariar e de Xerazade.”

As duas primeiras páginas do chamado “Manuscrito Galland”, datável do século XIV, que se encontra depositado na Biblioteca Nacional de França, em Paris

É só mais tarde, já em pleno século XIV, que surge a primeira referência ao título As Mil e Uma Noites. “Sabemos que mais tarde aparece uma coisa chamada As Mil e Uma Noites. Pelo menos no século XIV já havia algumas coisas compiladas por escrito com esse título. A única coisa que terá restado nas Mil e Uma Noites das tais Mil Noites terá sido o quadro principal da história e, talvez, duas ou três histórias que terão vindo dessa época. Todas as outras foram acrescentadas depois.” Esta coincide, coisa menos coisa, com o aparecimento do café, que veio criar um novo espaço de convívio no mundo árabe — o café. Espaço de eleição de músicos e poetas, era também frequentado por contadores de histórias, que relatavam aventuras fantásticas seguindo um esquema muito semelhante ao que é apresentado no livro da Mil e Uma Noites. “Era normal os contadores interromperem a história a meio e desaparecem de repente. As pessoas tinham de lá ir no dia seguinte para ouvir o resto.”

Hugo Maia acredita que, originalmente, As Mil e Uma Noites nunca tiveram 1001 noites. “Era só um número simbólico para refere um conjunto grande de histórias. Duvido que alguma vez tenha tido 1001 noites. Aliás, a minha teoria é a de que As Mil e Uma Noites se formaram no século XII, XIII, por influência de um conjunto de histórias e de fontes literárias da época, resultando naquele conjunto de contos que, se calhar, nunca chegou a ser terminado. Ou, pelo menos, até agora nunca descobrimos nenhuma prova de que tivesse sido terminado.”

“Era só um número simbólico para refere um conjunto grande de histórias. Duvido que alguma vez tenha tido 1001 noites."
Hugo Maia, tradutor

O texto original das Mil e Uma Noites também permite tirar algumas conclusões curiosas. A linguagem simples e direta com que foi escrito, muito próxima da oralidade, e as cenas sexuais e eróticas que enchem os contos podem chocar alguns leitores, tal como na altura. “Acho que encontramos nas Mil e Uma Noites uma certa resistência às conceções da altura, tanto a nível cultural como a nível religioso. Ou seja, há aqui uma série de histórias que eu acho que eram mal vistas pelas elites”, afirmou o tradutor. “Aliás, os tais enciclopedistas e escritores que lhes fazem referência no século IX e X, referem-nas como uma coisa sem interesse nenhum, como um livro de mau gosto. E é impressionante que não se encontra nenhum escritor árabe do século XIII, XIV ou XV, em pleno apogeu da criação das Mil e Uma Noites, a fazer referência às Mil e Uma Noites. Estou convencido de que qualquer membro das elites tinha desprezo por aquele tipo de histórias.”

Além disso, ao contrário do que tradutores como Galland quiseram fazer parecer, os contos originais não têm nada de moralizador, muito pelo contrário — eram histórias feitas para entreter. “As referências que são feitas pelos escritores árabes no século IX e X, [que falam de As Mil Noites], referem um tipo de conto que equivale mais à fábula moral e que encontramos, por exemplo, no célebre livro Calila e Dimma [um livro de fábulas de origem persa que terá sido traduzido por Ibn Almufaqqaa], que muitas vezes é comparado às fábulas de La Fontaine. Mas As Mil e Uma Noites não têm esse tipo de conto, de fábulas moralistas. Só existem três deste género.” Duas destas histórias surgem logo no início da obra — são as que o pai de Xerazade conta para tentar dissuadir a filha de se entregar ao rei. Além destas, há ainda a “História do marido e do papagaio” e outras três, que terão tido origem nas Mil Noites.

As Mil e Uma Noites em Portugal

De um modo geral, as edições portuguesas de As Mil e Uma Noites trataram-se sempre de traduções mais ou menos diretas de outras edições. As primeiras seguiram as versões de Antoine Galland ou de Joseph Charles Mardrus, e as duas mais importantes são a de Aquilino Ribeiro (ilustrada e com traduções do francês de Branquinho da Fonseca, Carlos de Oliveira, Celeste Andrade, Domingos Monteiro, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, Manuel Mendes e Nataniel Costa) e a de Manuel João Gomes, esta última uma tradução integral da versão de Mardrus. Ambas foram feitas já em pleno século XX. A tradução de Martim Velho Sotto Mayor da edição de Galland, que Hugo Maia leu há quase 20 anos, saiu no final da década de 1970 pela Editorial Estampa.

A única tradução que não terá seguido de uma ponta à outra as obras de Galland ou Mardrus terá sido a de Eduardo Dias, publicada em 1943. Dias, que teria alguns conhecimentos de árabe, apresentou a sua edição como tendo sido baseada “nos melhores textos orientais”, mas sem nunca especificar que textos seriam estes. Além disso, “nunca apresenta a sua versão como sendo traduzida diretamente no árabe mas, na introdução, mostra conhecer as versões que circulariam nessa altura e faz referência não só suas às traduções, como também às de Galland e Mardrus”. No mesmo texto introdutório, Eduardo Dias mostrou-se muito crítico da edição de Galland, acusando o francês de ter eliminado todas as partes eróticas. “É uma crítica muito interessante porque ele fez exatamente o mesmo”, afirmou Hugo Maia.

A edição de portuguesa de As Mil e Uma Noites publicada em 1958 foi, em parte, traduzida por Aquilino Ribeiro

Esta não é, porém, a única contradição que parece existir na edição de Dias. Apesar de o português mencionar edições como a de Bulaq ou a dos jesuítas de Beirute, a sua tradução parece ter sido feita a partir de outras já existentes. “É uma mistura entre o Mardrus e o Richard Burton, que ele também refere no prefácio. É uma versão criada por ele e aceitável aos padrões morais do Estado Novo, da época.” À semelhança de muitos dos seus antecessores, Dias também fez questão de eliminar todos os pormenores eróticos e sexuais da obra original. “A meu ver, é uma versão muito má. Muitos dos detalhes que eram super interessantes foram simplesmente eliminados.”

Este é um dos pontos onde a edição da E-Primatur é pioneira em Portugal — é a primeira vez que são publicados em português os contos originais das Mil e Uma Noites, tal como aparecem no manuscrito mais antigo, o tal datável do século XIV e que se encontra depositado na Biblioteca Nacional de França, em Paris. E é datável porque, em boa verdade, não se sabe ao certo quando é que foi fabricado — a data é apenas uma estimativa.

“O rei disse de si para si: ‘Meu Deus, poupar-lhe-ei a vida até amanhã para ouvir o resto da história’. Quando o sol se ergueu e o dia raiou, o rei levantou-se e saiu para reinar e exercer o seu cargo, e o vizir, pai de Xerazade, ficou espantado e radiante de alegria”
De "As Mil e Uma Noites" (edição da E-Primatur)

Outra das diferenças está na reprodução dos poemas, que a maioria dos tradutores procurou evitar. Mardrus, por exemplo, transformou-os numa espécie de prosa poética, com versos muito longos. Galland ignorou-os por completo. Hugo Maia admite que esta foi a parte que mais dificuldades lhe criou, “por razões óbvias”. “Resolvi abordar um estilo de tradução que algumas pessoas acham que nem sempre é o mais apropriado porque está muito na moda as chamadas versões. Quem traduz poemas, gosta de fazer a sua própria versão e de captar qualquer coisa como o espírito original. Pessoalmente, não acredito nisso”, disse. “Para mim, o espírito original do poema fica sempre perdido na tradução. Não há volta a dar.”

Por essa razão, decidiu optar por uma tradução mais literal, procurando aproximar o texto o mais possível ao do original. “Espero ter conseguido”, admitiu entre risos. “Em certos casos em que não havia como fazer a rima, abdiquei dela e preferi fazer uma coisa que pudesse ser lida como um poema. Obviamente que se fosse 100 por cento literal soaria a tudo menos um poema.” Como os poemas em árabe são, geralmente, de versos longos, optou por desdobrá-los. “É uma prática comum que eu resolvi fazer, senão cada verso ficaria extremamente longo e as rimas deixavam de fazer sentido. As rimas são muito importantes. Quando lemos um poema em árabe, aquilo tem um certo ritmo, que se baseia em métricas estabelecidas que combinam sílabas longas e curtas numa determinada ordem.”

O grande cânone da literatura que ninguém conhece

O facto de a grande maioria das edições de As Mil e Uma Noites serem traduções de versões adulteradas criou uma situação curiosa. É que, se pensarmos bem, aquele que é considerado um dos grandes cânones da literatura é, em boa verdade, uma falsificação. E mais: são poucos aqueles que realmente leram o original. Até entre os falantes de língua árabe existe uma ideia errada quanto ao conteúdo da obra, com muitos a julgarem que histórias como “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” foram criadas por quem quer que tenha escrito As Mil e Uma Noites. Mas, na verdade, como já podemos ver, estas foram inventadas por um antigo monge sírio. Além disso, são histórias que foram originalmente contadas em francês, e não em árabe.

O mais estranho é talvez a falta de interesse que sempre existiu pela tradução dos manuscritos mais antigos, em detrimento das traduções francesas ou inglesas. Nos dias que correm, continua a ser mais fácil encontrar à venda a versão de Richard Burton do que uma edição que tenha tido como base algum dos documentos sírios. “A meu ver, isto acontece por várias razões”, disse Hugo Maia. “Uma delas é que não há muitos tradutores em Portugal a traduzir do árabe. Não existe uma grande tradição de traduções diretas do árabe, temos pouquíssima coisa traduzida.” Mas e lá fora?

“Acho que uma das principais razões é que as pessoas se habituaram a uma ideia das Mil e Uma Noites que é uma ideia fabricada pelo orientalismo e pela Walt Disney, a tal ponto que mesmo as versões que circulam no mundo árabe foram traduzidas do francês. Portanto, mesmo no mundo árabe as versões que circulam foram fabricadas pelos orientalistas. Tenho amigos árabes e, quando lhes falo nisso, eles ficam surpreendidos. Então quando lhes digo que a história do Aladino é uma tradução do francês, perguntam logo: ‘A sério?!’.” Além disso, o tradutor acredita que “as pessoas também se habituaram a pensar nisto como um livro menor, como um livro para crianças até”. “O que é engraçado, porque alguns detalhes não me parecem ser propriamente literatura infantil. Mas é engraçado que um dos livros mais adaptados à literatura infantil seja As Mil e Uma Noites.”

“A imagem que se criou das ‘Mil e Uma Noites’ é tão forte que até custa a acreditar que aquilo que as pessoas conhecem é uma invenção muito recente e que não tem nada a ver com o espírito dos escritos originais.”
Hugo Maia, tradutor

E depois existe outro problema: “A imagem que se criou das Mil e Uma Noites é tão forte que até custa a acreditar que aquilo que as pessoas conhecem é uma invenção muito recente e que não tem nada a ver com o espírito dos escritos originais”. “Acho que ficam um bocado desiludidas [quando descobrem] e a pensar: ‘Ah, mas então o ‘Aladino’ não faz parte das Mil e Uma Noites?’, e se calhar acham que estas versões que foram fabricadas muito recentemente são mais interessantes e ricas”. Uma ideia que Hugo Maia se recusa a aceitar. “Acho que o interessante de irmos a uma versão mais antiga é termos um texto que é pré-orientalista, ou seja, que não tem influência do orientalismo europeu. Acaba por ser mais genuíno por causa disso porque, como já disse, as versões orientalistas dão explicações, fazem acrescentos sobre os costumes árabes que são muitas vezes inventados pelos próprios tradutores consoante lhes dá mais jeito. Tentaram tornar as coisas mais exóticas do que elas são, e sem necessidade disso. Os textos mais antigos das Mil e Uma Noites já são, por si só, muito exóticos para qualquer público, árabe ou não.”

Isto levou a que o livro se tenha tornado num dos “mais conhecidos, mas também um dos mais desconhecidos da literatura universal”. Facto que não deixa de fascinar o tradutor. “A maioria das coisas que as pessoas sabem sobre As Mil e Uma Noites foi, na realidade, feito pela Walt Disney e por estas tradições extremamente duvidosas baseadas em manuscritos por sua vez extremamente duvidosos.” Por essa razão, Hugo Maia espera que a sua tradução venha contribuir para tirar da obscuridade um dos textos mais interessantes da história da literatura.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de João Porfírio, ilustração de Maria Gralheiro.
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