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Anos 80. A década em que “tudo era possível”

23 Outubro 20161.263

Época nostálgica por excelência, os anos 80 são afinal muito mais do que séries de televisão e cromos. Retrato da década em que Portugal entra na CEE e Lisboa no Frágil, à boleia do novo livro "LX 80"

Uma década? Não, uma rampa ascendente

O Vitinho mandava os meninos para a cama, mas o país estava a acordar. Para a CEE, para o consumo, para um admirável mundo novo. “Nos anos 80 está tudo por fazer e há muita urgência em fazer”, diz Joana Stichini Vilela. “Há energia.”

A jornalista fala no presente porque nos últimos meses instalou-se na década de António Variações, do incêndio no Chiado e do Frágil, a cabeça quase sempre mergulhada em revistas e jornais antigos. Objetivo? Escrever LX 80, terceiro volume da coleção em que viaja ao passado para fazer o retrato de Lisboa — e Portugal — durante uma época. Um retrato espelhado no retrovisor, mas nem por isso nostálgico ou enviesado.

“Quando falamos dos anos 80, é quase sempre do kitsch que as pessoas se lembram”, diz Stichini Vilela. “O excesso, os chumaços, os bigodes. Nós temos essas coisas no livro, mas os anos 80 foram muito mais do que isso. É o mesmo que nos anos 60 não poder falar só de Estado Novo.”

A coleção nasceu precisamente aí, a olhar para além da ditadura, quando foi lançado o primeiro livro, em 2012. A LX 60 – A vida em Lisboa nunca mais foi a mesma, seguiu-se LX 70 – Do sonho à realidade, e agora este novo volume, onde o subtítulo aponta para a entrada “numa nova era”.

LX 80

O livro chega esta terça-feira às livrarias numa edição Dom Quixote (PVP: 24,90€)

“Nos anos 70 aconteceram muitas coisas mas a política acabou por se sobrepor a tudo, e é natural, porque tivemos uma ditadura de 40 anos”, diz a autora. “Mas quando volta tudo à normalidade, olha-se à volta e percebe-se: não há nada. É preciso fazer tudo.”

O contexto, com dados retirados do livro, não é animador: no início da década há 18,6 por cento de analfabetos — 23 por cento entre as mulheres –, um défice orçamental de 160 milhões de contos, uma taxa de desemprego que “vai trepando aos poucos” e uma inflação que “atolou em níveis sul-americanos”: 22,4 por cento em 1983, quando chega — déjà vu — um novo resgate financeiro do FMI.

“A década começa mal mas é uma rampa ascendente”, diz Joana Stichini Vilela, sobretudo quando a música dos GNR se concretiza e Portugal se vê finalmente na CEE, em 1986. “Começam a entrar os fundos e o dinheiro torna-se um valor muito forte, o que é um contraste absoluto com os anos 70, que era ideologia”, diz a jornalista. “A comparação que eu faço é que a década de 70, com o 25 de Abril, é quase uma infância — és muito ingénuo, vai ser tudo perfeito, e cometes uma série de erros — e os anos 80 são aquele momento em que ainda vives em casa dos pais mas já trabalhas, portanto achas que tens muito dinheiro e já consegues fazer imensa coisa, mas na verdade é uma ilusão.”

"Quando falamos dos anos 80, é quase sempre do kitsch que as pessoas se lembram. O excesso, os chumaços, os bigodes. Nós temos essas coisas no livro, mas os anos 80 foram muito mais do que isso. É o mesmo que nos anos 60 não poder falar só de Estado Novo."
Joana Stchini Vilela

Com ou sem magia, uma coisa ninguém retira a esse tempo: “Sobretudo no Bairro Alto, mas não só, há uma sensação de que tudo é possível, o que é totalmente diferente de hoje, onde ouvimos constantemente que não vai dar, ou que é difícil”, defende Joana Stichini Vilela. “Essa sensação atravessa toda a década, e é crescente.”

Verde, código, verde. Olá consumo

Com o dinheiro e a estabilidade chega uma nova ordem: o consumo. “Vamos atrás do resto do mundo”, diz a jornalista. E vamos com sacos. Da abertura das Amoreiras — onde as famílias vão descobrir as malhas da Benetton ou simplesmente andar nas escadas rolantes –, aos primeiros hipermercados, as compras massificam-se e nasce a semente do que hoje é tão banal para a geração dos logótipos: a afirmação pelas marcas. Tudo está feito para facilitar: nas novas revistas femininas — Elle, Marie Claire e Máxima — fica-se a par das tendências e das novidades, e a partir de 1985 já se pode até levantar dinheiro ou “medir os sinais vitais às poupanças” nos terminais multibanco que vão invadindo a cidade.

Tudo isto está no livro, em histórias dispersas que vão sendo contadas de forma cronológica, mas que se podem ler separadamente, como artigos de revista. O esquema é o mesmo que foi usado nos volumes anteriores: durante a pesquisa selecionam-se os temas a tratar e cada história tem direito a uma forma narrativa e a um grafismo próprio. Exemplos: o pujante rock português dá origem a uma infografia em forma de vinil, o bestseller de Mário Zambujal é transformado num jogo em que se podem recortar as personagens da Crónica dos Bons Malandros, há uma receita de “iscas com elas” para acompanhar a Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, o episódio da cassete de Tomás Taveira — e outras polémicas do “architecte-terrible” — é contado numa banda desenhada, e o Bairro Alto — epicentro da cidade que mexe — tem direito a um roteiro que se espalha por várias páginas e culmina com “10 razões porque adoramos o Frágil”, o bar de Manuel Reis na Rua da Atalaia. Duas delas: “porque está lá dentro grande parte do PIB do país” e “porque as festas são as melhores”.

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Duas das páginas do livro que transmitem uma sociedade tomada de assalto pelos estrangeirismos. © LX 80

“Tentamos sempre encontrar a forma mais adequada a cada história, e também que dê prazer ler e seja quase lúdica, mesmo quando estamos a falar de coisas sérias”, diz Joana Stichini Vilela, que assina o livro com Pedro Fernandes, responsável pelo projeto gráfico, e teve a colaboração de outros dois jornalistas em áreas pontuais: Rui Miguel Tovar, que ficou com as histórias de desporto — incluindo o famoso 7-1 do Sporting que muitos benfiquistas prefeririam esquecer — e André Rito, que assina dois episódios de crime.

Da Rua Sésamo ao Casal Ventoso, nem tudo era maravilhoso

O livro viaja entre essas vertentes: numa página tanto aparece uma entrevista a Paulo Futre e uma composição dos mais famosos bigodes da praça, como o relato da bebé raptada no Hospital Particular que haveria de dar origem ao medo tantas vezes repetido por pais já noutras décadas — “nos anos 80 roubavam-se bebés”. “O objetivo é mostrar uma realidade multifacetada”, diz Joana Stichini Vilela, para quem também é importante “que a narrativa não seja linear”. “Isto não é uma tese, não são 600 páginas sobre um tema, mas também não é um livro que está só ali a fazer um retrato cor-de-rosa. Porque nem tudo é cor-de-rosa ou maravilhoso”, continua a jornalista. “A memória tem isto, de apagar as coisas más e deixar só as boas, e os anos 80 têm muito um lado de nostalgia, não só por causa do [Nuno] Markl [e do programa Caderneta de Cromos], mas também porque se pensarmos bem, muitas pessoas que estão neste momento a fazer e a escrever coisas são pessoas que eram crianças naquela altura, e normalmente nós sentimos nostalgia em relação à infância, ou a momentos felizes da nossa vida. Mas e o desastre do Sá Carneiro?”, atira a jornalista. “E o julgamento do Otelo Saraiva de Carvalho e das FP-25? Isto não tem nostalgia nenhuma mas foi uma coisa que marcou a década.”

Vitinho e Rua Sésamo de um lado, heroína e Casal Ventoso do outro, há coisas que deixam saudades, outras nem por isso. De todos os livros já publicados, este foi o primeiro cuja época a autora conheceu, ou não tivesse nascido no início dos inícios: 1980. “É o primeiro livro em que há coisas de que eu me lembro realmente e que vivi”, conta, garantindo, no entanto, que isso não teve qualquer influência na pesquisa ou no resultado final. “A grande diferença em relação aos primeiros livros é que, por estarmos a falar de uma época mais recente, a informação está muito mais dispersa, e ao mesmo tempo muito mais fresca. Ainda não há uma narrativa oficial, o que torna mais delicado falar de certos temas, mas ao mesmo tempo há muito mais fontes vivas.”

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No lado kitsch, os bigodes prometidos. © LX 80

Em pequenas citações, na primeira pessoa ou em pergunta-resposta, LX 80 está recheado de entrevistas, do produtor Paulo Branco ao médico dos emagrecimentos milagrosos José Maria Tallón, passando por oito dos fundadores d’O Independente, naquela que é uma espécie de história coletiva dos anos loucos do jornal. Entre as entrevistas está também a que é feita a Pedro Caldeira, corretor que viveu o boom da Bolsa em pleno, e que chega a dizer: “[Toda a gente investia na Bolsa], de doutores a engraxadores. O meu escritório tinha acções até ao telhado. Até na retrete. Às oito da manhã chegavam ao escritório, vindas dos bancos, em carrinhos de mão.”

Os loucos anos 80 não se viviam apenas nas apostas e nas noites do Frágil, mas também nas obras megalómanas que se iam erguendo na cidade — do “mamarracho” das Amoreiras ao edifício monumental da Caixa Geral de Depósitos –, nas novas rádios-piratas e discotecas, e até na esfera política, com as campanhas que começam a investir no marketing e que, por isso mesmo, fazem parte das memórias da maioria dos portugueses com mais de 30 anos — do embate presidencial entre Freitas do Amaral e Mário Soares ao famoso mergulho de Marcelo Rebelo de Sousa no Tejo. Marcelo entra de cabeça para chegar à Câmara de Lisboa, mas é Jorge Sampaio o sucessor de Krus Abecasis. Na cadeira de primeiro-ministro senta-se, desde 85, Cavaco Silva, engordando os 7.825 dias — um recorde — que há-de estar no poder.

"[Toda a gente investia na bolsa], de doutores a engraxadores. O meu escritório tinha acções até ao telhado. Até na retrete. Às oito da manhã chegavam ao escritório, vindas dos bancos, em carrinhos de mão.”
Pedro Caldeira, corretor, numa entrevista do livro

Isso ainda não há cá

Portugal faz finalmente parte da Comunidade Económica Europeia, as crianças vestem-se finalmente com roupas coloridas (da Cenoura) e a moda invade a rua com pompa e extravagância nas Manobras de Maio, mas nos ginásios, por exemplo, há quem tenha resistência em introduzir aulas de aeróbica. “No resto do mundo, é uma forma de exercício físico. Em Lisboa, explica o Diário de Lisboa, trata-se da ‘resposta urbana de mulheres sós'”, lê-se na página 73. A “revolução em perneiras” chega, como ao resto do mundo, com Jane Fonda. Mas se o livro da atriz tornada guru do fitness é editado em Portugal logo em 1984, pelo Círculo de Leitores, a cassete VHS é preciso trazer de fora.

“Quando estava a entrevistar o Jorge Colombo sobre as noites no Frágil e O Independente“, conta Joana Stichini Vilela, “ele lembrou uma coisa que costumava ouvir e que define bem a década: nos anos 80 as pessoas diziam muito ‘ainda não há cá’, e nos anos 90 passaram a dizer ‘já há cá’. É engraçado e ao mesmo tempo provinciano. E hoje em dia não sentimos isso, de todo.”

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Marcelo mergulha no Tejo na campanha para as autárquicas mas é Jorge Sampaio que sucede a Krus Abecasis na Câmara Municipal de Lisboa. © LX 80

A sociedade moderna que pode comprar tesouros dos cinco continentes na Loja da Atalaia ou admirar obras de arte no recém-inaugurado Centro de Arte Moderna da Gulbenkian contrasta com a sociedade homofóbica que comete crimes contra travestis e tenta silenciar, com um desmentido oficial das autoridades, os primeiros casos de sida. Nem o prometido 3D funciona — na noite de 29 para 30 de novembro de 1985, a RTP faz uma “emissão experimental em três dimensões” há muito aguardada. Meia cidade compra os óculos de cartão com lentes azul e vermelha para ver O Monstro da Lagoa Negra sair da televisão. Mas à hora prometida, nada. “Nem o monstro sai do ecrã, nem o filme mete medo. E no rescaldo, num sábado de sol e frio, as reações andam entre o ‘fiasco’ e a ‘banhada’.” Como lembra o livro, há quem tenha dores de cabeça. “Divertidos seguem os miúdos, agora com o monopólio dos óculos especiais.” Nos anos 80, é indiscutível: há sempre outro ponto de vista e um sem fim de possibilidades.

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