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António, o santo de tudo e de todos: a história das Festas de Lisboa

12 Junho 2017287

A tradição das Festas de Lisboa mistura-se com a história da própria cidade. Das celebrações pagãs aos tronos de Santo António, os arraiais não foram sempre os mesmos.

Quem vive num dos bairros típicos de Lisboa dirá, com toda a certeza, que sempre se lembra de ver no mês de junho os arraiais a invadirem as ruas estreitas da capital. E não estará muito errado. As Festas de Lisboa — dedicadas a um dos santos padroeiros da cidade, Santo António — existem há vários séculos e sempre seguiram, mais ou menos, os mesmos moldes. Arraiais que se prolongam madrugada fora, música e dança: foi sempre assim que, na capital, se celebraram os Santos Populares. Até quando não havia santos para celebrar.

São vários os autores que remetem as origens das Festas de Santo António — ou Festas de Lisboa — a antigos rituais pagãos, que estão relacionados com a comemoração do Solstício de Verão (que calha em finais de junho) ou das colheitas. A verdade é que, independentemente do motivo, as festas de junho sempre tiveram o mesmo objetivo — celebrar o verão e a vida. Com vinho e muita música.

António Miranda, em “Ai! Vai Lisboa… Com as marchas populares”, defende que as origens estão em “ancestrais cultos pagãos”. E não é o primeiro (e nem o último). Os arqueólogos José Leite de Vasconcelos e Luís Chaves, que viveram na primeira metade do século XX, chegaram mesmo a debruçar-se sobre as semelhanças entre alguns atributos e práticas de culto de Santo António e velhos ritos pagãos. Teófilo Braga fez o mesmo. De acordo com Miranda, “desde tempos remotos que o mês de junho é cenário para festividades coletivas e popularmente vividas por todo o país”. Durante estas, relacionadas com o solstício e as colheitas de verão, fazia-se uma grande fogueira, dançava-se e cantava-se, muito à semelhança do que se faz ainda hoje em Lisboa e noutras zonas do país na altura dos Santos Populares.

Nada disto é certo e a dúvida, como refere autor, irá sempre persistir. O que parece óbvio para todos é que as Festas de Santo António conseguiram persistir ao longo dos tempos, independentemente do evento que lhes deu origem. Perdem-se no tempo e misturam-se com a história da própria cidade.

António, o santo de tudo e de todos

A história já se sabe: António — ou melhor, Fernando de Bulhões — nasceu em Lisboa por volta de 1191, no mesmo local onde, mais tarde, foi construída a Igreja de Santo António, junto à Sé, no seio de uma família da pequena nobreza. Foi ao pé de casa que iniciou os estudos com os cónegos da Sé de Lisboa, ingressando aos 18 anos como noviço na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora.

Estudou em Coimbra, onde decidiu abandonar a regra de Santo Agostinho e ingressar na Ordem de São Francisco, mudando-se então para o Convento de Santo Atão dos Olivais, onde adotou o nome de António em homenagem ao eremita (o nome latino de Atão é Antonius e, por isso, em algumas traduções o eremita surge como António). Foi nesse ano que partiu para Marrocos para pregar as escrituras e, durante a viagem de regresso a Portugal, que foi desviado para Itália por uma tempestade. Morreu a 13 de junho de 1231, perto de Pádua, onde passou os últimos anos de vida.

Apesar de português — e, acima de tudo, lisboeta –, terá sido só depois da sua morte que o seu culto começou a ganhar adeptos em Portugal. Para isso terá contribuído o estabelecimento e crescimento da Ordem de São Francisco no país — nomeadamente em Lisboa –, sobretudo graças ao apoio da nobreza. Um dos mais antigos e nobres devotos do santo terá sido nada mais nada menos do que D. Sancho II (1209-1248). Segundo as crónicas, Sancho, “O Piedoso”, terá sido sepultado a seu pedido com um traje semelhante ao de António.

Mas terá sido com D. João I e a Dinastia de Avis que o culto se terá consolidado, principalmente depois da chegada, em 1428, de uma importante relíquia — uma parte do crânio do santo, que o infante D. Pedro, filho do rei, trouxe de Pádua no fim de uma viagem pela Europa.

Para Irisalva Moita, contudo, foram os milagres a ele atribuídos que contribuíram decisivamente para a sua popularidade entre os portugueses (e principalmente entre os lisboetas). Estes foram adulterados e moldados em função dos “anseios” a quem a ele rezava e a autora sugere até, em Do culto e das festas de Santo António em Lisboa, que algumas das características do santo — assimiladas posteriormente –, teriam origem em “velhos cultos pagãos”, explicando assim a existência de “aspetos mais profanos e menos ortodoxos” no “culto antoniano local”. Um exemplo disso é uma das características mais peculiares do santo — a capacidade de ajudar a encontrar objetos perdidos.

Teófilo Braga, em Tradições Populares Portuguesas, procurou explicar este dom através de um poder semelhante atribuído à divindade pré-romana Ataccina. Irisalva Moita defende que a explicação do antigo Presidente não tem fundamento, preferindo outra teoria: uma aproximação com Mercúrio, o endiabrado deus dos ladrões que tanto gostava de pregar partidas. Segundo a autora, nas imediações do Largo de Santo António havia uma lápide consagrada a este deus romano. Terá sido aí que nasceu a crença antonina, que se foi depois enraizando. De tal forma que a Câmara de Lisboa determinou, a certa altura, que todos os papéis “perdidos” fossem entregues na Igreja de Santo António.

Além deste dom, Santo António tem ainda sob a sua alçada os barqueiros, os marinheiros, os náufragos, os viajantes, os velhos, os pobres e oprimidos, as solteiras, as grávidas, as estéreis e os namorados. Protetor de Lisboa, das casas e famílias, advogado das almas do Purgatório, é também a ele que muitos recorrem como intermediário, principalmente para chegar perto de Jesus e da Virgem Maria. É por isso que, desde cedo, os lisboetas começaram a dedicar-lhe as maiores e mais belas festas — apesar de algures autores referirem que, durante muito tempo, Santo António teve de partilhar o altar com São João, que já era celebrado em Lisboa.

As festas duravam toda a noite, com muita música e dança à mistura

Quando as Festas de Santo António aconteciam duas vezes por ano

Desde há uns anos para cá que as Festas de Lisboa (ou de Santo António) se prolongam por todo o mês de junho. Mas nem sempre foi assim. Antigamente, as festividades em nome do santo padroeiro aconteciam duas vezes por ano e duravam apenas alguns dias. A primeira grande festa acontecia a 15 de fevereiro, data da trasladação do seu corpo para a catedral de Pádua, onde ainda hoje permanece. A outra celebração acontecia nos dias 12 e 13 de junho, data da sua morte. Com o passar dos anos, as festas de junho — as mais celebradas –, foram ganhando maior relevância, à medida que as outras — as de fevereiro — se iam restringindo a uma mera cerimónia religiosa.

No que diz respeito à liturgia, da responsabilidade das irmandades e confrarias, e às festas oficiais, estas realizavam-se em todas as igrejas e capelas dedicadas a Santo António em Lisboa. Mas as mais bonitas aconteciam na igreja construída no local onde o santo nasceu, e nelas participavam também a nobreza e a realeza. A igreja era decorada a rigor, com flores e velas, e era costume receber a visita da família real, que distribuía bolos ao povo.

As Festas de Santo António terminavam sempre com espetáculo de fogo de artifício e uma tourada, que se prolongava por vários dias, oferecidos pela Câmara Municipal. Segundo Irisalva Moita, a tourada realizava-se em Lisboa desde finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e, mais tarde, no Rossio. A iniciativa era uma das mais esperadas e era acompanhada por música e outros divertimentos. Os músicos sentavam-se num estrado de madeira, sustentado por um poste, espetado no centro da praça. A tourada deixou de ser realizada depois do Terramoto de 1755, quando foi dado ao Rossio outros destinos.

Sardinhadas, marchas e arraiais

E os arraiais? Também os havia, claro, espalhados pelos bairros históricos lisboetas, na véspera de 13 de junho. Antes do início das festividades, era costume os lisboetas encontrarem-se junto a chafarizes, cumprindo o velho ritual de lavar o rosto em água fresca. Um desses pontos de encontro era o chafariz da antiga Rua Formosa, atual Rua do Século.

O ponto alto da festa acontecia na Praça da Figueira, onde era organizado um mega-arraial pelas vendedeiras do antigo mercado. Era aí que, quando a noite já ia longa, se juntavam os foliões de todos os arraiais da cidade, enchendo as ruas até ao Rossio. Dançava-se, comiam-se sardinhas e bebia-se vinho — muito daquilo que se faz ainda hoje. Acendiam-se grandes fogueiras, queimavam-se alcachofras e deitavam-se as sortes — práticas que terão tido origem nos festejos de São João e que terão sido apropriadas pelas gentes de Lisboa. Esta grande festa desapareceu em finais da década de 1940, quando o velho mercado da Praça da Figueira foi demolido.

O último arraial da Praça da Figueira aconteceu em 1948. Esta fotografia mostra os últimos festejos de Santo António ali realizados

A festa era tal que William Beckford, escritor inglês do século XVIII, as refere no relato das suas viagens por Portugal. Beckford, que estava em Lisboa na véspera de Santo António de 1787, escreveu que não conseguiu pregar olho durante toda a noite por haver “um rebentar de bombas, um crepitar de fogueiras e um soar de trompas em honra do dia de amanhã” por toda a parte. É também da autoria do inglês uma das descrições mais antigas dos Tronos de Santo António, pequenos altares que costumavam adornar as janelas e soleiras das portas de Lisboa. “Em todas as casas ao longo da costa de Belém, havia hoje a imagem de Santo António, no seu altar, ornada de flores e de longos pavios de cera”, registou Beckford.

Os primeiros Tronos de Santo António surgiram no século XVIII como forma de pedir esmolas para a reconstrução da Igreja de Santo António, parcialmente destruída durante o Terramoto. A sua construção tornou-se rapidamente popular, principalmente junto das crianças. Estas costumavam criar pequenos tronos, que colocavam à porta de casa. Durante o dia, costumavam andar pelas ruas a pedir “mil reisinhos” para o santo, um costume que acabaria por se tornar no “tostão ao Santo António”.

Apesar de populares, os tronos rapidamente caíram em desuso. No século XIX, já se dizia que a tradição estava a desaparecer. Em 1949, de modo a reavivar esta prática, a Câmara de Lisboa começou a promover concursos entre as crianças dos bairros de Alfama, Bairro Alto, Madragoa e Mouraria. O primeiro contou com 74 participações, e teve como sede a Repartição dos Serviços Culturais, localizada no Palácio Galveias, no Campo Pequeno. A avaliar as construções estiveram o vereador Arménio Cortês Pinto, o diretor dos Serviços Centrais do Município, Jaime Lopes Dias, dois etnógrafos e representantes do grupo Amigos de Lisboa e da Federação das Sociedades de Educação e Recreio.

Os tronos a concurso, construídos nas soleiras das portas e em janelas, em cima de estrados ou em bancos, foram depois expostos na via pública, junto à Repartição dos Serviços Culturais, entre os dias 12 e 13 de junho. Nos anos seguintes, o concurso alargou-se a outros bairros e foram surgindo iniciativas semelhantes, organizadas por associações e até por jornais, como era o caso do Diário Popular, que viria a ser responsável pela promoção de uma outra tradição dos Santos Populares em Lisboa — os Casamentos de Santo António. O prémio era sempre pecuniário e funcionava como incentivo.

Em 1949, a Câmara Municipal de Lisboa começou a promover concursos de Tronos de Santo António. Esta fotografia é do ano seguinte

As marchas, há muito um dos pontos altos das Festas de Lisboa, terão aparecido no século XIX. Segundo António Miranda, estas surgiram graças à adoção de uma tradição francesa — a marche aux flambeaux, conhecida popularmente como “marcha ao flambó” ou “filambó” –, na qual grupos, que desfilavam em pares, transportavam balões iluminados pendurados em canas.

Foi só mais tarde, porém, já em pleno século XX, que surgiram os primeiros concursos, colocando frente a frente os bairros típicos de Lisboa. O primeiro terá acontecido em 1932, por iniciativa particular, para promover o Parque Mayer. Dois anos depois, foram integradas no programa das Festas de Lisboa, organizadas pela autarquia, acabando por se tornar, com o passar dos anos, num dos pontos altos dos festejos da capital, em boa parte graças ao papel divulgador do cinema.

Casamentos de Santo António, uma tradição tardia

Ao contrário de outras tradições, os Casamentos de Santo António só surgiram mais tarde, no final da década de 1950, por iniciativa do olisipógrafo Augusto Cortês Pinto. Promovidos pelo Diário Popular e patrocinados pela Câmara Municipal de Lisboa, tinham como principal objetivo possibilitar o casamento aos casais lisboetas com maiores dificuldades financeiras — tal como hoje.

O casamento acontecia (e acontece) sempre na manhã de 13 de junho , dia do santo padroeiro, seguido de um almoço. Entre as numerosas ofertas que os noivos recebiam, contavam-se peças para o enxoval e mobília e eletrodomésticos para a futura casa. O vestido de noiva também era oferecido, e as costureiras de Lisboa costumavam competir pelo mais bonito.

Depois de 16 edições de sucesso, a tradição foi interrompida no conturbado ano de 1974, só sendo recuperada 30 anos depois. Hoje, tal como antes, o propósito continua a ser o de “proporcionar a união a 16 casais num dia memorável para as suas famílias e para todos os lisboetas”, como refere o site dos Casamentos de Santo António. É hoje uma das tradições mais icónicas de Lisboa que, à semelhança de todas as outras, tem sobrevivido graças ao amor dos lisboetas às festas e ao santo que lhes deu o nome.

Fotografias do Arquivo Municipal de Lisboa.
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