As 10 inovações disruptivas que (já) estão a mudar o mundo

29 Agosto 20161.101

Na saúde, na eletrónica, no comércio e na energia, o mundo está a mudar diante dos nossos olhos. O banco de investimento Citi ajuda-nos a espreitar o que aí vem.

Uma equipa multidisciplinar de 16 analistas do banco de investimento Citi acaba de publicar a quarta edição do relatório “Inovações Disruptivas“. São “mais dez coisas que nos devem levar a parar e pensar sobre elas“, pela simples razão de que têm potencial para transformar setores produtivos inteiros e proporcionar saltos gigantes em áreas como a saúde e a energia.

Nas primeiras edições deste relatório, o Citi debruçou-se sobre inovações como a impressão 3D, a internet das coisas, os carros autónomos e a imunoterapia, uma técnica que já está a dar resultados no tratamento de vários tipos de cancro. Desta feita, os especialistas do Citi dão-nos a conhecer inovações como o comércio contextual, a robótica de open source e a epigenética. O mundo está a mudar diante dos nossos olhos — e o Citi ajuda-nos a espreitar o que aí vem.

O futuro da oftalmologia. Tratamentos sem gotas nem injeções

São muitas as áreas em que a tecnologia está a mudar o mundo, mesmo à frente dos nossos olhos. E uma das áreas em que está a haver inovação disruptiva é, precisamente, na forma como cuidamos dos nossos olhos e como tratamos as doenças oftalmológicas. O relatório do Citi dedica um capítulo à evolução das terapêuticas oftalmológicas porque existe um “aumento rápido” da população afetada por esse tipo de problemas (o autor refere-se à população norte-americana, mas trata-se de uma tendência global relacionada com fatores como o envelhecimento da população). E a grande inovação de que nos fala o Citi é a possibilidade de tratamentos contínuos aos olhos.

As injeções e as gotas são a base da maioria das terapêuticas oftalmológicas atuais — em ambos os casos trata-se de intervenções episódicas que procuram curar ou controlar a doença em causa. Guilherme Castela, oftalmologista membro da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO), explica ao Observador que “os medicamentos tópicos têm de ultrapassar as barreiras oculares e a drenagem pela via lacrimal, o que reduz significativamente a quantidade de princípio ativo que chega ao interior do olho. Por outro lado, as injeções intraoculares necessitam de administrações repetidas — por vezes, mensalmente –, podendo estar associadas a complicações como infeções, descolamento da retina e hipertensão ocular”.

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As terapêuticas oftalmológicas estão prestes a sofrer um “avanços significativos”, diz o Citi.

“A nova geração (Next gen) da aplicação de terapêuticas supera essas limitações, reduzindo a frequência dos tratamentos e aumentando a disponibilidade das terapêuticas”, escreve o Citi. Em concreto, a inovação nesta área está a criar formas de aplicar implantes (nanopartículas) que podem ser carregados com um dado medicamento, o qual será aplicado de forma contínua e doseada no olho. Falamos de vários meses ou anos, salienta o analista do Citi, em que um mesmo implante pode estar ativamente a tratar o olho, eventualmente abrigado por uma lente de contacto, um processo que dispensa a intervenção do doente ou do médico ao longo do tratamento.

Guilherme Castela sublinha que “a utilização de nanopartículas, lipossomas, lentes de contacto como via de administração tópica na patologia do segmento anterior e compostos como implantes ou insertos como veículos de administração intraocular para patologia da retina e da coroide estão em desenvolvimento e vão ser o futuro“.

O oftalmologista acrescenta que “patologias como a degenerescência macular da idade (DMI), o glaucoma e o olho seco, entre muitas outras, que atingem a nossa população em larga escala e com grandes custos para o Serviço Nacional de Saúde, podem ser mais tratadas de forma mais eficaz. Esta inovação pode contribuir para melhorar a qualidade da saúde ocular da nossa população e reduzir os custos com a saúde“.

Flexíveis, dobráveis ou, mesmo, invisíveis. Os gadgets do futuro

Usa uma película de plástico para proteger o ecrã do seu smartphone? E se essa película fosse o seu smartphone?

Díodo Orgânico Emissor de Luz ou, simplesmente, OLED. Se ainda não ouviu falar nesta sigla, memorize-a porque vai ouvir falar muito desta tecnologia nos próximos anos. Os analistas do Citi acreditam que nos próximos cinco anos esta tecnologia vai afirmar-se como a grande inovação da década no campo da eletrónica de consumo. “Atualmente, o vidro e os invólucros de metal correspondem a uma parte importante do peso de um smartphone. Com o OLED, tanto um como outro podem ser eliminados, permitindo que os aparelhos sejam tão finos e leves quanto uma folha de papel“, escrevem os analistas Arthur Lai e Dennis Chan.

A tecnologia OLED já existe e é comercializada há vários anos, apesar de existir algum caminho a percorrer no que diz respeito a tornar a produção em escala mais economicamente viável. Seja como for, atualmente a tecnologia ainda se baseia numa versão que utiliza substratos de vidro. Os ecrãs são flexíveis mas apenas na produção — isto é, os consumidores finais não podem dobrar os aparelhos. A novidade que está a fazer salivar os designers de produto é a utilização de substratos de plástico flexível (poliimida). Aí, sim, abre-se um mundo de possibilidades que vão permitir dobrar, enrolar e esticar.

Em 2017 ou 2018 já deverão ser comercializados dispositivos flexíveis que irão permitir, por exemplo, que um smartphone se transforme num tablet. Para já, contudo, os dispositivos ainda irão ter uma grande componente rígida. Mas não tardará muito até que os dispositivos sejam quase integralmente feitos de OLED flexível. Aí, o mais provável é que passemos a olhar para os dispositivos não como aparelhos com capacidade de processamento individual mas como janelas para controlar remotamente computadores que podem estar no outro lado do mundo.

A evolução das ligações de quinta geração (5G) irá permitir tirar o maior partido possível dos ecrãs OLED flexíveis. Cada telemóvel deixará de ter poder computacional e armazenamento próprios mas será uma "janela" para um outro dispositivo que pode estar do outro lado do mundo.

Para isso, está claro, é preciso esperar pela conectividade de quinta geração (5G), que com velocidades superiores a 1Gbps (contra 100Mbps do 4G) irá permitir uma utilização fluida e instantânea. As redes de quinta geração podem tornar-se ubíquas dentro de cinco anos, estima o Citi, pelo que os dispositivos completamente flexíveis e elásticos não irão chegar às mãos dos consumidores antes disso.

Porém, dizem os analistas, a evolução não irá parar aí: depois dos ecrãs flexíveis virão dispositivos que usam a realidade aumentada para projetar hologramas que poderemos controlar através da voz e de gestos. “No longo prazo, imaginamos que os dispositivos no futuro serão invisíveis — recorrendo a óculos ou lentes de contacto como projetores capazes de produzir realidade aumentada”, diz o Citi, acrescentando que “com ligações 5G, o armazenamento e o poder computacional estarão numa nuvem, pelo que se dispensam componentes e se permite maior poupança energética”.

Epigenética. Medicamentos capazes de ligar e desligar os genes

A imunoterapia, uma técnica que “reeduca” o sistema imunitário e que se tem afirmado como um dos avanços mais importantes no tratamento do cancro, encontrou o seu “novo melhor amigo” na epigenética. A analogia é feita por um dos especialistas que participam no relatório do Citi — Andrew Baum, um analista com formação médica que é o responsável máximo pela pesquisa na área de saúde do banco de investimento norte-americano.

“Os avanços na epigenética estão, discretamente, a criar uma caixa de ferramentas cheia de terapêuticas poderosas no tratamento do cancro“, escreve Andrew Baum, acrescentando que “os medicamentos epigenéticos, capazes de ligar e desligar os genes, podem aumentar significativamente a percentagem de doentes que têm a possibilidade de registar maiores taxas de sobrevivência graças à imunoterapia”. Por outras palavras, “várias classes de medicamentos têm potencial para alargar e aprofundar a eficácia das imunoterapias para o cancro”.

As técnicas médicas são, naturalmente, complexas, mas Andrew Baum usa uma imagem comum para explicar de que forma é que a epigenética vem ajudar. Quase todas as células no nosso corpo contêm a mesma sequência de ADN herdada dos pais — contudo, apesar de conterem esta informação genética, algumas células tornam-se órgãos como o pâncreas e o coração e outras, por seu lado, transformam-se em cabelo ou em músculo. Ou seja, o ADN é como um “disco rígido” que contém a informação, mas é necessário um “software” para controlar as funções de cada célula.

Esse conceito de software leva-nos, então, para o campo da epigenética, uma designação que vem do grego além da genética e que traduz a forma como as células leem a sequência de ADN e protagonizam as mutações, sejam mutações normais ou mutações perigosas que podem levar a doenças como o cancro. E o meio ambiente pode provocar alterações nos genes, diz a epigenética.

Estimamos que o mercado para as abordagens epigenéticas no tratamento do cancro irão, provavelmente, ultrapassar os 10 mil milhões de dólares até 2025, impulsionado por agentes inovadores, terapias combinadas, longas temporadas de tratamento e avanços no mapeamento epigenético e dos genomas.
Andrew Baum, MD - responsável do "research" em Saúde do Citi

O especialista do Citi defende que a imunoterapia será a principal técnica terapêutica para combater o cancro, que é a segunda maior causa de morte nos países desenvolvidos. E muito já se tem escrito sobre imunoterapia, incluindo aqui no Observador. Já a epigenética terá, afirma Andrew Baum, um percurso mais irregular do que os avanços na imunoterapia, porque “os modificadores epigenéticos terão, provavelmente, diferentes níveis de atividade nos diferentes tipos de tumor, dada a sua ação promíscua”. Porém, “antecipamos que a implantação da imunoterapia como principal tratamento dos cancros mais avançados irá intensificar os esforços de utilização dos medicamentos epigenéticos”, conclui o Citi.

Uma caixa inteligente que vai ser o centro da sua casa

A internet das coisas é um dos filões de inovação tecnológica mais entusiasmantes do momento. Não restam dúvidas de que a casa do futuro terá o frigorífico ligado à Internet e a enviar-nos uma mensagem quando for hora de comprar leite na mercearia, ou até fazer, ele próprio, a encomenda. Será também possível controlar luzes, fornos, aparelhos de ar condicionado e câmaras de vigilância à distância – tecnologias que já existem mas que irão passar a ser banais em todas as casas.

Porém, os analistas do Citi consideram que é ingénuo pensar que todos estes dispositivos estarão ligados à rede Wi-Fi da casa e que os iremos controlar individualmente, de forma atomizada. “Há uma oportunidade que surge nas redes domésticas e na possibilidade de existir um dispositivo (uma smart box, ou caixa inteligente) ou um prestador de serviços que se transformará no portal de acesso à casa conectada”, escreve o Citi. E, aí, “a forma como evoluíram os mercados de TV, banda larga e móvel mostra que se um único player conseguir controlar o dispositivo ou o sistema operativo que é usado para interagir com o mundo digital, será esse player a capturar a fatia de leão da economia“.

A "internet das coisas" não irá basear-se, apenas, na interação entre os eletrodomésticos, por exemplo, e a ligação à Internet. O Citi diz que há uma "oportunidade significativa" à espera de quem perceber que terá de haver uma consola central que irá intermediar a relação entre o utilizador e os dispositivos.

O dispositivo a que o Citi chama Home Hub irá garantir uma melhor experiência de conectividade (eliminando as falhas de sinal Wi-Fi numa casa maior) e de integração de media. E há empresas que já estão a lançar as primeiras versões dos dispositivos que irão, provavelmente, concorrer pelo privilégio de serem a ponte entre o utilizador e os seus equipamentos ligados à Internet: o Amazon Echo, a Apple TV, a Sky Q e o Google Home.

Só nos EUA, quem conseguir o domínio neste setor irá dominar um mercado que o Citi avalia em 727 mil milhões de dólares por ano. “O prémio potencial por ser o portal de acesso ao lar é significativo”, conclui o banco de investimento.

Qualquer um pode escrever o código para controlar um robô

Outra inovação disruptiva que os especialistas do Citi estão a detetar é o surgimento de software de código aberto na robótica.

O Citi explica que até recentemente existia um mercado concentrado de produtores de robôs para uso industrial, o que faz com que o software que gere estas máquinas tenda a ser proprietário, ou seja, de código fechado. “O forte aumento da procura por robôs para uso fora da fábricas, bem como a maior variedade de fins com que a robótica é utilizada, levou a uma outra novidade — a utilização de software de código aberto (open source) para controlar os robôs”, escrevem os analistas Martin Wilkie e Graeme McDonald.

Código aberto significa que qualquer pessoa, com os conhecimentos necessários, tem a possibilidade de criar ou alterar o código informático que rege a atuação dos robôs. Além disso — um aspeto crucial — num ambiente de código aberto, quem faz alterações ao código normalmente não tem qualquer restrição se quiser redistribuir o código que criou. “Isso representa, potencialmente, uma perda de receita para quem tenha a intenção de fornecer código fechado“, diz o Citi.

O mercado de robôs industriais no mundo quase quintuplicou entre 2009 e 2014 e deverá continuar a crescer. "Com o mercado para robôs em indústria a duplicar até 2020, segundo as estimativas, esta capacidade de dispersar custos pode ser tão importante para o cliente quanto os cálculos de quanto tempo o hardware demora a pagar-se".
Martin Wilkie e Graeme McDonald, analistas do Citi

A Open Source Robotics Foundation, nascida nos corredores da Universidade de Stanford, é um dos movimentos mais empenhados na criação de um futuro em que os robôs — industriais e não industriais — são controlados por software que qualquer um pode elaborar. O potencial disruptivo para este setor tem duas faces: por um lado, poderá acelerar a penetração dos robôs (por via da redução dos custos e das chamadas barreiras de entrada); por outro lado, a eventual prevalência de software de código aberto torna ainda mais claro que “o domínio das grandes empresas europeias e japonesas no campo da produção de robôs não está assegurado“.

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Num ambiente de código aberto, quem faz alterações ao código normalmente não tem qualquer restrição se quiser redistribuir o código que criou.

O comércio contextual vai estar por todo o lado

Sabia que 40% dos compradores de produtos de bebés são pessoas que vivem em lares onde não há bebés? A estatística, surpreendente, refere-se apenas ao mercado norte-americano mas foi a conclusão de um estudo da Google/Ipsos: amigos, família e colegas de trabalho são pessoas que, podendo não ter filhos pequenos, são responsáveis por quase metade das compras de artigos para bebé.

Para Ashwin Shirvaikar, analista do Citi, este é um exemplo de como é preciso olhar para o comércio e para o marketing de uma forma mais apurada e perceber a oportunidade que representa o comércio contextual, um filão de inovação que tem potencial para ser disruptivo para o setor da distribuição. Ao passo que um pai ou mãe, com um bebé em casa, terão maior probabilidade de saber onde estão as maiores promoções e ter marcas de eleição, alguém que compra uma prenda para o filho de um amigo estará mais suscetível a uma sugestão de presente que lhe apareça no meio de uma janela de chat em que essa pessoa debate com a sua mulher, por exemplo, sobre que prenda se deve comprar para o bebé do amigo.

É esta a ideia simples por detrás do conceito de comércio contextual: “dar ao consumidor aquilo que ele quer, quando ele quer sem exigir que ele empregue um grande esforço na compra“. E não se fala apenas de prendas: outro exemplo dado pelo Citi é estar a combinar um encontro com um amigo por e-mail e surgir, em plena janela de chat, uma caixinha da Uber a sugerir um transporte até ao local do encontro.

Alguém que compra uma prenda para o filho de um amigo estará mais suscetível a uma sugestão de presente que lhe apareça no meio de uma janela de chat em que essa pessoa debate com a sua mulher, por exemplo, sobre que prenda se deve comprar para o bebé do amigo.

Uma ideia basilar do comércio contextual, na era dos smartphones e das redes sociais, é que o consumidor nem sequer precisa de abandonar as apps em que navega para fazer as compras ou chamar os transportes privados. Algumas redes sociais como o Pinterest, o Instagram e, até, o Facebook, já estão a aplicar anúncios contextuais — pense nos ícones comprar/buy que lhe surgem nessas redes sociais. No futuro, o comércio contextual poderá, mesmo, recorrer a tecnologia de reconhecimento de voz.

A inovação no marketing digital já está a descobrir não só como aplicar soluções de comércio contextual mas como as aplicar bem. Neste contexto, há três grandes prioridades para o Citi, a saber: (1) garantir a privacidade dos dados, (2) garantir a segurança das pesquisas e dos meios de pagamento e (3) “interpretar corretamente o contexto“, porque o spam é irritante mas será ainda mais irritante se a mensagem de um anunciante for considerada mal-vinda num contexto de uma conversa privada.

Para saber mais sobre a inovação disruptiva que é o comércio contextual, um responsável da empresa de pagamentos Braintree tem uma apresentação no YouTube que dá mais detalhes sobre a tecnologia.

Fabricante, retalhista, consumidor. Eliminar o intermediário

O comércio de roupa é o exemplo dado pelo analista Dan Fox Homan para ilustrar outra tendência que se pode revelar disruptiva para o retalho: o comércio direto-ao-consumidor. A expansão das telecomunicações e da Internet está a permitir que, em muitos casos, possa ser possível eliminar o intermediário — o retalhista — e colocar em contacto direto a empresa que produz a roupa e quem a vai vestir. Em jogo está um mercado que vale 1,65 biliões de dólares por ano.

“No modelo tradicional na produção de roupa, as indústrias produzem os artigos conforme o design interno, por encomenda de um designer externo ou uma marca que pode ser apenas um grossista ou um retalhista” (ou ambos, como a Nike, por exemplo, que tem as suas próprias lojas mas também dá licenças para outras lojas venderem os produtos), explica o Citi. Contudo, segundo dados citados pelo Citi, o comércio de roupa online tem crescido a um ritmo de 25% por ano e já tem mais de 12% do mercado de venda de roupa.

É neste contexto que Dan Fox Homan diz que “há um surgimento de mercados direto-ao-consumidor”, modelos que permitem aos consumidores comprarem diretamente ao produtor, dispensando o grossista ou o retalhista. “O que está a tornar isto possível é a tecnologia que permite a ligação imediata entre o inventário disponível nos produtores e o cliente, sem que seja necessário quem controle ou, mesmo, possua o produto [o retalhista ou grossista]”, acrescenta o Citi. O consumidor pode aceder, assim, a preços mais baixos e com as mesmas facilidades de pagamento que se fossem a um retalhista.

"Os fabricantes beneficiam de receitas adicionais, fora do seu fluxo normal de vendas aos retalhistas dominantes, e ganham uma capacidade de controlar diretamente o seu produto, desenvolver a sua marca e expandir a base de clientes. Tudo isto é feito com um investimento muito baixo em tecnologia".
Dan Fox Homan, analista do Citi

Quem, obviamente, arrisca ficar a perder com este modelo são os retalhistas, verdadeiros gatekeepers do mercado do vestuário. Contudo, o modelo vai obrigar os produtores a ganharem novas aptidões, explorar técnicas modernas de marketing e criar mecanismos para gerir a flutuação da produção e dos inventários. O novo modelo traz vantagens para os produtores, mas também traz riscos – que irão fazer com que esta inovação disruptiva, apesar de todo o seu potencial, deva alastrar-se relativamente devagar, diz o Citi.

Termoplástico pode ser resposta aos preços baixos na energia

Não falta petróleo e gás natural no mundo. É, pelo menos, isso que indica a desvalorização brusca dos preços nos últimos dois anos. Há muita oferta e não se prevê que a procura cresça como dantes. Com o preço do petróleo a rondar os 45 dólares por barril, há muitos projetos que estão parados à espera de melhores dias — ou, melhor, de melhores preços para quem explora e vende as commodities energéticas. Mas o Citi fala numa nova tecnologia que pode provocar uma pequena revolução no setor e voltar a tornar viáveis muitos projetos que estão parados.

Perante preços tão baixos, “os custos assumiram uma importância cada vez maior para o setor e acreditamos que há uma tecnologia que irá desempenhar um papel significativo na inovação no setor”, diz o Citi. Fala-se da utilização de tubos de termoplástico, unidos por soldadura, na exploração de petróleo e gás em projetos em águas profundas. No setor, a inovação é conhecida por TCP.

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O TCP está a provocar uma pequena revolução no setor da exploração de petróleo e gás natural. (Imagem: CompositesWorld)

“A transição para uma nova tecnologia de tubagem submarina — os tubos termoplásticos unidos por soldadura — parece ser uma das evoluções tecnológicas mais entusiasmantes dos últimos anos na indústria de exploração em águas ultra-profundas”, escreve o analista Mukhtar Garadaghi, do Citi.

“Reduções significativas no tempo e no custo da instalação são as principais vantagens da ação de TCP nas estruturas de exploração energética. Essas vantagens mais do que compensam os maiores custos de produção”. O Citi diz que instalar uma tubagem deste género pode reduzir em até 90% os custos e em mais de 50% o tempo despendido. Também poderá haver poupanças nos custos com os navios que transportam a estrutura — o que será negativo para quem produz e aluga navios mas poderá ajudar a indústria a tornar-se mais viável.

A outra revolução na energia: o Big Data aplicado à exploração petrolífera

Anthony Yuen, outro analista do Citi que se dedica às matérias-primas, está mais atento a uma outra revolução no setor da exploração de commodities: o recurso às tecnologias do Big Data. Quando se pensa em exploração energética pensa-se mais em maquinaria pesada e em perfuradores portentosos, mas a indústria vai tornar-se, cada vez mais, um setor apoiado em tecnologia fina e análise de grandes quantidades de dados. O Big Data, que se associa mais ao mundo da informática e da alta finança, vai ter um papel importante a desempenhar, diz o Citi.

A computação de bases de dados gigantescas — é isso o Big Data — “vai transformar toda a cadeia de valor na energia, ajudando a encontrar a energia mais rapidamente e produzi-la com custos menores“, afirma o Citi, acrescentando que o Big Data também está a permitir, cada vez mais, uma maior customização dos produtos energéticos e a aumentar a transparência neste negócio.

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A análise computacional de bases de dados gigantescas — o Big Data — está a contribuir para tornar a exploração energética uma atividade cada vez mais fina e eficiente.

O Big Data tem potencial para revolucionar todas as facetas do mercado energético. No chamado upstream, ou seja, na exploração, “a automação baseada em dados vai baixar o custo da produção e as análises avançadas vão ajudar a descobrir e a extrair petróleo e gás natural em maiores quantidades, com menores custos e com maior rapidez (menos desperdício de recursos e tempo, por outras palavras).

Na produção em terra, ou seja, no downstream, este progresso tecnológico irá, também, permitir que a indústria precise de menos refinarias e as empresas do setor terão, cada vez mais, de colaborar com empresas tecnológicas — ou, diz o Citi, elas próprias tornarem-se empresas com maior componente tecnológica. Uma última vantagem é que os consumidores vão beneficiar de um mercado mais eficiente e preços mais baixos — “o resultado final é que estaremos a produzir mais energia com menos recursos“, conclui o Citi.

O mundo cada vez mais tecnológico precisa de novos chips

A função dos chips semicondutores é a transmissão de impulsos elétricos, num movimento controlado que está na base de toda a tecnologia que nos rodeia. O problema é que os componentes estão a avançar de tal forma que “a tecnologia de semicondutores tradicional, baseada em silício, já amadureceu a um ponto que já começa a desafiar as limitações fundamentais da Física”, escreve o Citi.

É aqui que entra uma inovação disruptiva que poderá dar resposta a este problema e viabilizar o progresso contínuo na eletrotécnica: os semicondutores de banda larga, conhecidos pela sigla WBG (wide bandgap semiconductors). “Os semicondutores WBG têm mostrado capacidade para dar resposta às necessidades de performance mais exigentes, ao mesmo tempo que permitem um design de módulos mais pequenos, mais rápidos e mais fiáveis do que os atuais, feitos de silício”, afirma o analista Amit B. Harchandani, um dos especialistas do Citi para a área tecnológica.

Progressos científicos como, por exemplo, a condução autónoma, exigem capacidades computacionais cuja evolução não pode ser travada pelos semicondutores. Daí que várias indústrias tenham um grande apetite por uma nova solução – sobretudo se for mais eficiente do ponto de vista energético. E os semicondutores WBG oferecem essa maior eficiência, de acordo com um estudo feito pelo Departamento de Energia dos EUA e citado pelo Citi.

Um estudo feito em 2010 estimou que a adoção generalizada de eletrónica baseada em WBG poderia reduzir em 25% o consumo anual de energia em todo o mundo, até 2025.
Citi

O setor automóvel e, em especial, os carros elétricos, está entre os setores que mais recetividade terão aos semicondutores WBG, porque a maior eficiência energética vai permitir carregar as baterias dos carros de forma mais rápida e reduzir a dissipação de energia. O setor industrial também irá sorrir perante a possibilidade de tornar as máquinas mais rápidas e mais poupadas do ponto de vista energético. E, claro, os consumidores comuns de dispositivos de eletrónica sairão beneficiados — quem não vai gostar de carregar um smartphone em uma fração do tempo?

Ainda assim, o Citi sublinha que a adoção deste novo tipo de chips tem de ultrapassar alguns desafios, logo a começar com o custo mais elevado dos substratos e a transição exigente que a nova tecnologia tem de superar para derrubar o padrão atual e instalar-se como o novo standard.

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