As dez maravilhas portuguesas em três décadas de Campeonatos do Mundo de atletismo

11 Agosto 2017158

Nelson recebeu a quarta medalha dos Mundiais e igualou Fernanda Ribeiro. Inês Henriques ganhou o ouro na marcha, E ainda há Manuela Machado, Sacramento, Rosa Mota, Castro, Rui Silva, Calado e Feitor.

Este artigo foi publicado originalmente na passada sexta-feira, dia 11, quando Nelson Évora recebeu a medalha de bronze do triplo salto nos Campeonatos do Mundo de Londres

Inês Henriques conseguiu descolar de vez aos 30 quilómetros e travou uma dura batalha durante mais de um hora e meia contra si própria e um desgaste acumulado que colocava em causa os limites do corpo. Aguentou, com força. Mesmo a gerir essa parte física, foi mantendo o ritmo e bateu mesmo o seu recorde mundial. Mas alguns metros antes, fez um pequeno desvio na passada para ir buscar uma bandeira portuguesa que estava na assistência e erguê-la após ultrapassar a meta.

A atleta de 37 anos tornou-se a décima portuguesa a ganhar medalhas em Mundiais e logo o ouro, nos 50 km marcha, prova que fez a sua estreia em Londres. Foi um dia fabuloso, o melhor na carreira, e que nunca mais será esquecido. Pela edição inaugural da distância no setor feminino, pelo recorde ou pelo triunfo.

Portugal conseguiu a 19.ª medalha em Campeonatos do Mundo, num registo que começou há 30 anos com o ouro de Rosa Mota na maratona e a prata de Domingos Castro nos 5.000 metros, em Roma. Além deles, existem ainda Nelson Évora, Fernanda Ribeiro, Manuela Machado, Carla Sacramento, Carlos Calado, Rui Silva, Susana Feitor e Inês Henriques. São eles as dez maravilhas nacionais na segunda prova mais importante do calendário internacional do atletismo, apenas superada pelos Jogos Olímpicos.

Nelson Évora (ouro em 2007, prata em 2009, bronze em 2015 e 2017)

O saltador ganhou de forma brilhante a medalha de ouro no Campeonato do Mundo de Osaka, em 2007, e conseguiu a prata dois anos depois em Berlim, na ressaca da vitória olímpica, atrás do britânico Phillips Idowu. Depois vieram as lesões, graves lesões, e o aparecimento de uma nova vaga de saltadores de grande potencial. Nada que conseguisse dominar o espírito competitivo de campeão de Nelson Évora, que conseguiu ir sacar dois bronzes a Pequim (2015, atrás de Taylor e Pichardo) e a Londres (2017, com Taylor e Claye à frente).

Com este triunfo, Nelson Évora igualou Fernanda Ribeiro como o atleta português com mais medalhas em Mundiais (quatro) e passou a ser o segundo de sempre com mais medalhas no triplo salto em Campeonatos do Mundo, apenas superado pelo recordista mundial Jonathan Edwards (cinco). Mas o currículo do saltador de 33 anos não fica por aqui, longe disso: além do ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e das quatro medalhas em Mundiais, ganhou um bronze nos Mundiais de Pista Coberta (2008) e dois ouros em Europeus de Pista Coberta (2015 e 2017), entre muitos outros títulos nacionais e em meetings internacionais.

Fernanda Ribeiro (ouro em 1995, pratas em 1995 e 1997 e bronze em 1997)

Mais do que igualar as quatro medalhas em Mundiais por uma atleta portuguesa, Nelson Évora igualou Fernanda Ribeiro. E quando estamos a falar deste patamar, percebemos melhor a excelência do feito do saltador – a fundista nascida em Penafiel, hoje com 48 anos, tem um invejável currículo que a coloca como uma das melhores atletas de sempre a nível mundial. E as quatro medalhas em Campeonatos do Mundo são apenas uma parte desse currículo: ganhou o ouro e a prata nos 10.000 e nos 5.000 metros, respetivamente, em Gotemburgo (1995), e a prata e o bronze nas mesmas distâncias na edição seguinte, realizada em Atenas dois anos depois.

Hoje com uma Academia de atletismo com o seu nome, Fernanda Ribeiro tem um currículo sem paralelo: além dos Mundiais, somou um ouro (1996) e um bronze (2000) em Jogos Olímpicos; um ouro (1994) e uma prata (1998) em Europeus; um bronze em Mundiais de Pista Coberta (1997, 3.000 metros); dois ouros (1994 e 1996) e uma prata (1998) nos 3.000 metros de Europeus de Pista Coberta; e vários títulos nacionais e internacionais pelo FC Porto ou por Portugal na pista, na estrada e no corta-mato.

Manuela Machado (ouro em 1995, prata em 1993 e 1997)

Era pequenina mas difícil de torcer. Muito mesmo. Sobretudo em Campeonatos do Mundo, onde conquistou um total de três medalhas na maratona: foi prata em 1993 (Estugarda), atrás da japonesa Junko Asari mas à frente da também nipónica Tomoe Abe; ganhou o ouro em 1995 (Gotemburgo), superando a romena Anuta Catuna e a italiana Ornella Ferrara; e repetiu a prata em 1997 (Atenas), de novo atrás de uma japonesa – neste caso, Hiromi Suzuki – mas ganhando à romena Lidia Simon.

Hoje com 53 anos, foi uma das melhores maratonistas europeias e também aí ganhou dois ouros, nos Campeonatos da Europa de 1994 (Helsínquia) e 1998 (Budapeste). Nas três participações em Jogos Olímpicos, terminou duas vezes no sétimo lugar (1992 e 1996, em Barcelona e Atenas, respetivamente) e por uma ocasião no 21.º posto (2000, Sidney). Ganhou ainda uma maratona de Lisboa e um Campeonato Nacional, entre outros títulos como as sete Taças dos Campeões Europeus de corta-mato e de estrada pelo Sp. Braga.

Carla Sacramento (ouro em 1997 e bronze em 1995)

Tem 45 anos, vive em Espanha com o marido e é professora e treinadora no colégio dos filhos. Carla Sacramento é uma das melhores meio-fundistas portuguesas e europeias de sempre, tendo um impressionante currículo nas seis participações em Campeonatos do Mundo nos 1.500 metros: 11.º lugar em Estugarda (1993), medalha de bronze em Gotemburgo (1995) – atrás da argelina Hassiba Boulmerka e da britânica Kelly Holmes –, medalha de ouro em Atenas (1997) – superando a americana Regina Jacobs e a suíça Anita Weyermann –, quinto lugar em Sevilha (1999), quarta posição em Edmonton (2001) e meias-finais em Paris (2003).

Carla Sacramento nunca conseguiu subiu ao pódio das quatro participações que teve em Jogos Olímpicos (o melhor que fez foi o sexto posto em Atlanta, no ano de 1996), mas ganhou muitos outros títulos internacionais como a prata nos Europeus de 1998; a prata nos Mundiais de Pista Coberta de 1995; e o ouro (1996, 1.500 metros), a prata (2002, 3.000 metros) e o bronze (1994, 800 metros) nos Europeus de Pista Coberta. Somou ainda vários triunfos em Nacionais dos 800 e dos 1.500 metros ao Ar Livre e em Pista Coberta.

Rosa Mota (ouro em 1987)

Aos 59 anos, já não corre como antigamente mas tem andamento para ir apadrinhando as provas que consigam promover aquele que foi sempre um dos grandes amores da sua vida: o atletismo. Só participou três vezes em Campeonatos do Mundo, sempre a correr a maratona, e teve o bom, o mau e aquele quase bom que sabe a derrota: em Helsínquia (1983), terminou no quarto lugar; em Tóquio (1991), desistiu; pelo meio, em Roma (1987), ganhou a medalha de ouro, batendo por quase três minutos o antigo recorde dos Mundiais (2.25.17) à frente de Zoya Ivanova (URSS, 2.32,38) e Jocelyne Villeton (França, 2.32.53).

Rosa Mota é uma das melhores atletas portuguesas, europeias e mundiais de sempre, com um currículo impressionante na década de 80 e início dos anos 90. Entre os muitos feitos, nota para a medalha de bronze na maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984 (quando Lopes conseguiu o primeiro ouro de sempre para o nosso país) e para o ouro em Seul, quatro anos depois. Ganhou ainda três medalhas de ouro em maratonas do Campeonato da Europa (1982, 1986 e 1990), entre muitos outros sucessos internos e triunfos nas maiores maratonas mundiais como Roterdão, Chicago, Tóquio, Boston ou Londres.

Inês Henriques (ouro em 2017)

Os Mundiais de Londres tiveram pela primeira vez uma prova dos 50 km marcha femininos (no setor masculino existe desde a primeira edição). Foram apenas sete atletas, devido aos avanços e recuos que a decisão foi tomando, mas ficou na história para Portugal: Inês Henriques conquistou a medalha de ouro e logo superando o seu recorde mundial, fixando a nova marca em 4.05.56, à frente das chinesas Hang Yin (4.08.58) e Shuqing Yang (4.20.49).

Inês Henriques, campeã nacional dos 50 km marcha e três vezes vice-campeã nos 20 km, já tinha ganho antes uma Taça do Mundo, além de outros pódios em provas do Circuito Internacional de Marcha. Participou também três vezes nos Jogos Olímpicos, tendo como melhor resultado a 12.ª posição no Rio de Janeiro, em 2016. Esteve ainda em Mundiais e Europeus, com um sétimo e um oitavo postos, respetivamente, como melhores resultados.

Domingos Castro (prata em 1987)

Já depois da medalha de ouro de Rosa Mota na maratona, Domingos Castro fechou da melhor forma os primeiros Campeonatos do Mundo onde Portugal conseguiu levar atletas ao pódio: na final de 1987, em Roma, um dos gémeos que marcaram o atletismo nacional conseguiu vencer ao sprint o britânico Jack Buckner nos 5.000 metros com o tempo de 13.27,59 (13.27,74 do adversário) e garantiu a prata, só atrás do então recordista mundial, o marroquino Saïd Aouita, que bateu a melhor marca do evento (13.26,44).

Aos 54 anos, trabalha com o irmão Dionísio numa empresa ligada ao futebol mas ainda se mantém como um dos atletas com maior currículo nacional nas décadas de 80 e 90. Entre as conquistas internacionais, destaque para as duas maratonas ganhas em 1995 e 1997 (Paris e Roterdão) e para a medalha de prata no Campeonato da Europa de corta-mato de 1994. Ajudou ainda o Sporting a vencer no plano coletivo cinco edições da Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta-mato. Foi a quatro Jogos Olímpicos, ficando em quarto em Seul (1988).

Carlos Calado (bronze em 2001)

Começou no corta-mato, passou pela velocidade (chegou a ser campeão nacional) mas foi no salto em comprimento que mais brilhou. E em termos de Campeonatos do Mundo, à terceira foi mesmo de vez: na edição de 2001, em Edmonton, conseguiu um fantástico salto a 8,21 metros (melhor registo da temporada, a 15 centímetros do recorde nacional) que lhe valeu a medalha de bronze, batendo o americano Miguel Pate. Iván Pedroso, atual treinador de Nelson Évora, conquistou o ouro com 8,40 à frente de Savante Stringfellow (8,24).

Aos 41 anos, Carlos Calado, campeão nacional várias vezes em 60, 100 e 200 metros, salto em comprimento e triplo salto, esteve duas vezes nos Jogos Olímpicos (décimo lugar em 2000), ganhou uma medalha de bronze nos Mundiais de Pista Coberta em 2001 – que se realizou em Lisboa – e uma prata no Europeu de Pista Coberta de 1998. Olhando apenas para as grandes provas internacionais, o saltador conseguiu ainda um ouro e uma prata em Europeus Sub-23.

Rui Silva (bronze em 2005)

Ainda corre aos 40 anos (é também treinador), tendo feito o movimento inverso a Nelson Évora no último defeso, trocando o Sporting – onde esteve duas décadas – pelo Benfica. Participou seis vezes em Campeonatos do Mundo e chegou a Helsínquia, em 2005, com um quinto e um sétimo lugares nos 1.500 metros. Aí, com uma ponta final muito forte onde por pouco não subiu mais um degrau no pódio, conquistou a medalha de bronze com 3.38,02, apenas atrás de Rashid Ramzi (Bahrein, 3.37,88) e Adil Kaouch (Marrocos, 3.38,00).

Rui Silva tem um currículo invejável a nível internacional, com o principal destaque a ser a medalha de bronze nos 1.500 metros dos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. Além do supracitado bronze em Mundiais, ganhou uma prata (1998) e um bronze (2002) nos 1.500 metros do Campeonato da Europa; um ouro nos Mundiais de Pista Coberta de 2001, em Lisboa (1.500 metros), e uma prata em 2004 (3.000 metros); e três ouros nos 1.500 metros (1998, 2002 e 2009) e uma prata nos 3.000 metros (2000) em Europeus de Pista Coberta. O atleta já tinha também conseguido um primeiro lugar no Europeu Sub-23 e três medalhas (uma individual, duas coletivas) em Europeus de corta-mato.

Susana Feitor (bronze em 2005)

A marchadora de Rio Maior ainda continua a competir aos 42 anos e tem um dos maiores currículos a nível internacional. Até a nível de Mundiais, está no top de um dos maiores registos: é a segunda atleta com mais presenças em Campeonatos do Mundo (11 participações entre 1991 e 2001). Em 2005, conseguiu alcançar uma medalha de bronze em Helsínquia nos 20 quilómetros marcha com o melhor registo da temporada (1.28.44), numa prova onde a russa Olimpiada Ivanova ganhou o ouro com recorde mundial (1.25.41) e a bielorrussa Ryta Tuvara estabeleceu um novo registo nacional (1.27.05).

Entre provas de 10 e 20 quilómetros marcha, Susana Feitor somou cinco participações em Jogos Olímpicos (conseguiu o 13.º lugar em Atlanta, em 1996), conseguiu sete vezes acabar entre as dez primeiras em Mundiais e conquistou ainda uma medalha de bronze no Europeu de Budapeste, em 1998 (10 quilómetros). Entre vários títulos e recordes nacionais, venceu também um ouro e uma prata em Mundiais e Europeus de Juniores (cinco quilómetros) e um bronze no Campeonato da Europa Sub-23 (10 quilómetros).

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