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As reuniões de “CEO anónimos” que ajudam a superar os problemas

14 Fevereiro 2017321

Ser CEO foi "traumático", recorda Miguel Dias. Para evitar que outros sofressem o mesmo, criou o CEO World, onde diretores de 50 países se reúnem para desabafar. O projeto português já faz sucesso.

Miguel Dias ainda nem tinha acabado o curso quando, na agência de branding onde trabalhava, o diretor-executivo — ou CEO — lhe disse que ia deixar o cargo e gostaria que fosse ele a substituí-lo. “Eu tinha 23 anos, todos eram mais experientes do que eu. Exigia muito de mim, achava que tinha de saber tudo.” Esteve perto da exaustão profissional, mais conhecida hoje por burnout, recorda ao Observador.

Com o dobro da idade, Louis Coomans também sentiu dificuldades. Não nos vinte anos que passou na Marsh & McLennan, uma das 500 maiores empresas do mundo para a revista Fortune, como CEO para a Europa de Leste — “aí, podia contratar equipas fortes para me ajudar a tomar as decisões apropriadas”, recorda, para além de poder contar com os outros CEO do grupo. Só quando, em 2015, decidiu começar o seu próprio negócio, fundando a BenFlex Europe, em Bruxelas, é que percebeu o quão solitário pode ser o cargo de um diretor-executivo. Com um orçamento pequeno e sem a possibilidade de alargar a equipa, não resta outra opção: “Acabas por ter de tomar todas as decisões quase sem aconselhamento”.

De um CEO, espera-se que tenha ideias e apresente soluções. Mas e quando a pessoa no topo da hierarquia tem dúvidas, a quem pode recorrer? Miguel Dias até tinha uma estrutura. Mas o medo de mostrar desconhecimento impedia-o de pedir ajuda. Foi “para evitar que outros passassem pelo mesmo processo traumático” que, em 2013, criou o CEO World, um projeto com base no Porto que se descreve como a primeira organização no mundo a colocar em contacto líderes de diferentes idades, países e estatutos. A partir de 2015, passou a dedicar-se em exclusivo aos peer groups, ou grupos de pares, em português. Uma vez por mês, CEO de todo o mundo ligam o computador à mesma hora e reúnem-se na plataforma criada por Miguel Dias, durante 60 minutos, para exporem os seus medos, as suas dúvidas, para procurarem conselhos, soluções e até financiamento. Cada grupo tem seis membros, composto segundo uma lógica de semelhança e complementaridade.

Miguel Dias (em cima, ao centro) participa nas sessões como moderador. À direita, de camisa laranja, está Leo Bottary, que lançou o livro “The Power of Peers”

O Observador pediu autorização para assistir a uma sessão. No entanto, por questões de confidencialidade, foi recusado. Miguel Dias, atualmente com 30 anos, destapa-nos, então, a cortina. “A organização do tempo é um dos temas mais fortes nas reuniões. Às vezes, o CEO fala com o colaborador sobre como é que ele pode otimizar o seu tempo, mas o colaborador não vê no CEO o melhor exemplo. Há CEO que reconhecem que estão a delegar bastante e quem está em baixo fica afogado em assuntos que não têm importância, mas como as ordens vêm de cima têm sempre prioridade máxima. Tenta-se mostrar que só há 20% das coisas que fazemos que geram 80% dos resultados”, exemplifica o fundador do projeto.

Quando os pares notam que um dos membros está a demonstrar sintomas de frustração, cansaço ou falta de confiança nos quadros, “ajudam a pessoa a ver isso sem a magoar”, explica. Porque há quem, mesmo perante a falta de vendas ou de dinheiro a circular, não consiga detetar o problema sem uma chamada de atenção. “Por vezes pensamos que os colaboradores não estão a render o suficiente ou que não estamos a cumprir. Existe a dúvida sobre se somos competentes para estar na função em que estamos.” E, tanto num negócio que está a começar e não tem mais colaboradores como numa empresa onde todos estão hierarquicamente abaixo do diretor-executivo, o problema é comum: como chamar um CEO perdido à razão.

“É quase como uma reunião de CEO anónimos”

Louis Coomans é um dos membros mais antigos desta comunidade online de patrões, chamemos-lhe assim. Mantém-se porque, entre os cerca de 100 membros provenientes de 50 países, encontra profissionais a passar por situações similares. “Pessoas capazes de compreender os meus problemas e eu os delas. Partilhar perguntas e hesitações é uma excelente forma de descobrirmos se estamos na direção certa ou não”, admite. “Não há julgamentos nem críticas ao que estás a fazer, mas sim um sentimento de comunidade, de pessoas que se escutam umas às outras e se apoiam.”

Quando os pares notam que um dos membros está a demonstrar sintomas de frustração, cansaço ou falta de confiança nos quadros, "ajudam a pessoa a ver isso sem a magoar", explica Miguel Dias.

Entre a centena de membros, mais de metade são estrangeiros. Sideral, Andersson Invest, Creative Lemons, Magnomics, Coimbra Genomics, Diesel, Cisco e JiTT são algumas das empresas representadas, com Portugal a reunir “uma fatia grande”, adianta Miguel Dias. Americanos, espanhóis, britânicos, holandeses, belgas, suíços, finlandeses e franceses também bem representados. No CEO World trabalham três pessoas em permanência, às quais se juntam vários colaboradores. Atualmente há um parceiro na Malásia encarregue de penetrar no mercado asiático. A divulgação do projeto é feita sobretudo em redes sociais, como o LinkedIn.

Foi pelo LinkedIn que João Santos Pereira ficou a conhecer o CEO World. “Recebi um contacto do Miguel Dias, que me quis apresentar o conceito e eu achei aquilo interessante. Marcámos uma conversa e eu fiquei de pé atrás, confesso”, diz o responsável pela Magnomics, uma startup portuguesa de tecnologia médica. “Enquanto CEO de uma startup, aparece-me uma montanha de solicitações e tudo é fantástico, programas de mentorias e consultores é ao pontapé”, afirma. Pensou que era mais do mesmo, mas, no verão do ano passado, aceitou experimentar a plataforma, sem compromisso. Nunca mais saiu.

“Ser CEO de alguma coisa é muito solitário”, começa por dizer o empreendedor de 35 anos, para logo dar uma imagem tão solitária quanto asfixiante. “Sofremos do efeito sanduíche, em que a nossa equipa está por baixo e os investidores por cima. Quando as coisas correm mal ou surgem dúvidas, às vezes é difícil saber com quem é que se vai falar”, assume. A Magnomics começou a ser financiada em 2014 pela Portugal Ventures e tem oito pessoas, um Conselho de Administração e uma Assembleia de Acionistas. Problema: “Ninguém está nos meus sapatos. Quando há interesses díspares, é complicado.”

O que mais o atrai na plataforma é o facto de ser “um fórum em que cada um se pode queixar da sua vida e apresentar os seus problemas”. “É quase como uma reunião de CEO anónimos“, brinca, referindo-se aos diversos grupos de ajuda. João Santos Pereira tem na lista de contactos os números de quase todos os diretores de startups portuguesas que trabalham em biotecnologia médica. “Posso telefonar a qualquer um e expor problemas”, atira, para logo reconhecer que nunca o faz. “Há muitas bases de dados, muitas associações, mas numa associação a pessoa paga a quota e esquece-se de que é membro”, admite. O facto de os grupos ali serem pequenos, com seis membros, faz com que cada ausência seja notada.

O facto de os grupos serem pequenos, com seis membros, faz com que a partilha de cada um seja maior (Ilustração de Maria Gralheiro)

Mais: duas vezes por mês, Miguel Dias organiza sessões com um convidado, a que chama mentor. Por norma, um empresário ou um investidor mais bem posicionado no mercado. Outra das sessões funciona por convite. A equipa faz a seleção dos membros que melhor se enquadram no pitch daquele dia. Em março, por exemplo, haverá quatro sessões destas, em que alguns diretores vão tentar angariar investimento. Recentemente, passou pelo CEO World a Venrock, “um dos maiores venture capitalists de Silicon Valley”, destaca Miguel Dias. A E.Ventures também por lá passou e, em breve, estará presente a Balderton Capital. À sessão de segunda-feira, que decorreu na Malásia, foi a Tinkbig.

Há outras organizações que promovem encontros com investidores ou grandes CEO, mas são presenciais. “Vou para uma sala com 50 pessoas, estou lá, eventualmente consigo colocar uma pergunta e cada pessoa fica como se tivesse saído de uma aula”, critica João Santos Pereira, que prefere estas pequenas reuniões online, onde a partilha é maior e mais proveitosa para todos os elementos do pequeno grupo, mentor incluído.

Catarina Carvalho, 30 anos, criou a Darono, um negócio na área de decoração de interiores. É a partir da Holanda, onde está a montar um showroom, que destaca também a presença dos convidados em cada sessão. Uma “oportunidade de acesso a opiniões experientes a que, de outra forma, provavelmente não teríamos acesso”, destaca. A diversidade das áreas empresariais e os diferentes níveis de cada uma permitem que CEO que já passaram por determinado desafio possam partilhar a sua experiência mais real.

A diversidade de género, à semelhança do mundo empresarial, é que não é tão alargada: 80% dos membros do CEO World são homens. “É algo que não podemos evitar porque é a realidade do mercado. Mas é com tristeza que temos esta percentagem”, assume Miguel Dias. Para atrair mais diretoras-gerais, no passado chegou a lançar o CEO World Women. “Mas chegámos à conclusão de que não fazia sentido estar a criar duas estruturas, até porque o que queremos é misturar e não separar.” O tema não costuma passar pelas discussões do grupo. Catarina Carvalho confirma. “É uma questão sociológica e há uma crescente mudança de paradigma”, diz, acrescentando que, “na grande maioria das vezes”, a discriminação que sente no mundo empresarial “é positiva”.

Uma plataforma única no mundo

Para além da gestão de tempo, os temas abordados pelos chefes andam quase sempre à volta de dinheiro, seja como aumentar as vendas ou como angariar financiamento. “Sem ambos não há negócios”, lembra Miguel Dias. Depois, vêm os tópicos relacionados com pessoas. “Há dificuldade em encontrar pessoas chave, talento, o que faz com que tudo caia um pouco em cima deles. É difícil criar as segundas linhas, encontrar pessoas que pensam estrategicamente e que sejam fortes operacionalmente”, conta.

João Santos Pereira recorda uma sessão com um dos mentores em que o tema era, possivelmente, o mais sensível para um diretor-geral: o momento em que é preciso decidir se determinada empresa deve continuar ou “se já não vale a pena”. “É uma coisa muito sensível de se abordar em workshops, ninguém gosta de falar sobre o assunto. Mas como era um fórum muito restrito as coisas foram postas de forma crua e pragmática. Serviu para alargar horizontes.” O facto de a conversa ser online ajuda a que seja assim, reconhece.

“Partilhar perguntas e hesitações é uma excelente forma de descobrirmos se estamos na direção certa, ou não”, diz Louis Coomans (canto superior esquerdo)

“Acho que não há muitas plataformas como esta no mundo”, diz ao Observador Leo Bottary, a partir do avião que o levaria para Buffalo, no estado de Nova Iorque, onde iria orientar workshops para grupos de CEO. Bottary foi vice-presidente da Vistage, uma empresa que se dedica ao treino de líderes e à mentoria de negócios. Em julho de 2016, lançou uma empresa própria. Foi numa pesquisa online que encontrou o CEO World. “Acho que o Miguel está na vanguarda. Claro que há outras empresas do género, já estive com muitas, mas, em termos de perfil, o que o Miguel trouxe para o CEO World… Não conheço nada igual. Acho que faz um ótimo trabalho”, diz o especialista.

Em 2015, Leo Bottary lançou o livro The Power of Peers, juntamente com Leon Shapiro, CEO da Vistage, sobre a importância de os profissionais não estarem isolados, e de como os pares influenciam o sucesso que se pode atingir. “Resumindo, os CEO e líderes de negócios trazem valor uns aos outros, valor esse que não encontra em mais lado nenhum“, pode ler-se na apresentação da obra. “Nem sempre queremos expor dúvidas com outros colegas da empresa. Há algumas conversas que é melhor teres com outro colega que está na tua posição, para poderes perguntar: ‘Já te aconteceu isto? Como ultrapassaste?”

Uma das vantagens que o norte-americano mais valoriza na startup portuguesa é a mistura de nacionalidades e fases profissionais. Algo que é difícil conseguir nos encontros presenciais, que se organizam um pouco por todo o mundo desde os anos 1950. “Cingir-se a uma área geográfica não é benéfico”, sublinha. Depois, a economia de tempo e dinheiro. “Não importa onde estou, posso sempre estar presente nestas reuniões. Sem precisar de viajar.”

Este formato permite discutir temas mais sensíveis, como destacou João Santos Pereira. Leo Bottary deixa, contudo, um conselho: “Encontre um grupo que funcione para si”. Seja ele presencial ou online. O importante é “rodear-se de pessoas que o façam crescer”, como não se tem cansado de repetir em 2017, ano que designou como “the year of the peer“, algo como “o ano do par”, numa tradução literal. “Vivemos num mundo complexo que se altera muito depressa e ninguém consegue vencer sozinho. As pessoas podem aprender umas com as outras como não podem em mais lado nenhum”, afirma o académico, que está neste momento a escrever um doutoramento sobre grupos de pares, aprendizagem e os benefícios dos grupos online.

“Vivemos num mundo complexo que se altera muito depressa e ninguém consegue vencer sozinho. As pessoas podem aprender umas com as outras como não podem em mais lado nenhum”. Leo Bottary

O primeiro encontro presencial pode estar para breve. Um casamento, também

O início da startup portuguesa não foi fácil. Quase nenhum é. Miguel Dias tinha 24 anos e tentava agendar reuniões com diretores-gerais, o que pode ser complicado. A cara de miúdo não ajudava. “Uma vez fui a uma grande empresa do Norte, a WeDo Technologies, do grupo Sonae. Como era tão novo e cheguei num carro fraquinho, quando entrei perguntaram-me para que estágio é que eu ia e disseram-me que tinha de deixar o carro no parque dos estagiários”, recorda, divertido. Apesar de ter encontro marcado com o presidente da empresa, sentiu-se “pequenino, dentro de um projeto tão pequenino mas tão ambicioso”. Durante algum tempo tinha de evitar dizer a idade que tinha. Até deixou crescer a barba, para parecer mais velho. A angariação inicial fez-se com reuniões físicas, presenciais. E, apesar de o online ser o que distingue o CEO World, alguns encontros físicos não estão fora da equação.

Já pensámos fazer algo pessoalmente, é um desafio lançado pelos membros portugueses“, revela. Para começar, estão a pensar fazer um almoço informal, só para se conhecerem. O ideal era “organizar um encontro com os membros internacionais”, nem que fosse anual, mas é aqui que as questões logísticas apontadas por Leo Bottary se fazem sentir. João Santos Pereira é adepto dessa ideia. “O contacto pessoal pode consolidar a empatia, o networking“, diz, salvaguardando que as reuniões online são o que o fazem ser membro da plataforma, e que assim devem continuar. “Por ser fórum restrito, toda a gente está muito confortável e não se está a modelar as palavras por causa da audiência.”

Foi, aliás, num evento físico, que Miguel Dias organizou com a Associação Nacional de Jovens Empresários, no Porto — onde o CEO World está incubado –, e com a Angry Ventures, que conheceu a noiva. O casamento com Rosário Calheiros está marcado para julho. Antes, aconteceu uma espécie de casamento profissional, já que Rosário é hoje a número dois do CEO World.

Projetos pessoais à parte, para o futuro a ideia é abrir a plataforma online também às equipas que trabalham com os diretores. “Por vezes temos sessões sobre marketing e vendas e faz sentido que alguém da equipa assista”. Essa opção está a ser trabalhada e é possível que passe a haver um plano diferente para CEO — cuja mensalidade é de 99 euros, dando direito a uma reunião mensal e duas sessões com mentores — e outro para as equipas, ainda sem preço.

“Se eu quisesse fazer um resumo”, diz Louis Coomans, “a minha experiência com o CEO World fez-me perceber que não estava sozinho na minha ilha, que há arquipélagos de indivíduos em todo o mundo a passar pelo mesmo.” O tal processo traumático que deu origem a tudo isto.

Texto de Sara Otto Coelho, ilustração de Maria Gralheiro.
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