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Até onde vai Geert Wilders, o político mais anti-Islão da Europa?

12 Março 2017540

Geert Wilders, o político mais islamofóbico da Europa, pode vencer as eleições na Holanda. Os outros partidos não querem viabilizar um Governo dele — mas isso será a maior prenda que lhe podem dar.

Para Geert Wilders, é tudo uma questão de nomes. Grande parte da retórica deste político com quase duas décadas de experiência parlamentar, e que agora as sondagens apontam como possível vencedor das eleições de 15 de março na Holanda, passa por falar para o “Henk” e para a “Ingrid”. Não se trata de ninguém em particular, mas antes dos holandeses em geral — daí “Henk” e “Ingrid”, dois nomes bastante comuns entre os holandeses nativos.

Foi a pensar nesse casal imaginário de holandeses que o líder do Partido pela Liberdade (PVV) lançou o seu programa eleitoral mais de meio ano antes das eleições. Porém, o programa, que tem o tamanho de uma página, não foi feito a pensar apenas no “senhor Henk” e na “dona Ingrid”, mas também em “Mohamed” e “Yasmine” — e outros tantos, de origem árabe, sobretudo marroquina.

O primeiro ponto do programa apresentado por Geert Wilders é direto: “Desislamizar a Holanda”. Depois, seguem algumas subpropostas, que incluem o fecho das fronteiras a refugiados e imigrantes de países islâmicos, a proibição do véu islâmico “em funções públicas”, tal como das “expressões islâmicas que violem a ordem pública”. Também quer retirar a cidadania holandesa aos “criminosos” que tenham dupla nacionalidade — e depois expulsá-los do país. Além disso, acredita que é necessário “encerrar todas as mesquitas e escolas islâmicas” e “banir” o Corão. Este último, o livro sagrado dos muçulmanos, é descrito por Geert Wilders como sendo “equivalente” ao Mein Kampf, de Adolf Hitler.

As eleições holandesas, de 15 de março, acontecem pouco menos de um mês da primeira volta eleitoral em França, onde Marine Le Pen é favorita (Jan Hennop/AFP/Getty Images)

O facto de Geert Wilders ser filho de uma mãe que emigrou para a Holanda da Indonésia, o país muçulmano com maior população do mundo, não parece ser um travão para a sua crença anti-islâmica. Quanto às suas raízes naquele país asiático, Geert Wilders prefere escondê-las — tal como as do seu cabelo escuro, que pinta de louro oxigenado, a sua imagem de marca.

“Estamos perante um problema existencial”, disse Geert Wilders, em fevereiro, numa entrevista à BBC. “Se continuarmos a deixar as nossas fronteiras abertas, se escolhermos ignorar os problemas que hoje temos pela frente, mais à frente neste século, tendo em conta a situação demográfica em África, nós vamos deixar de existir.”

Por “nós” entenda-se Henk e Ingrid, ou seja, os holandeses nativos da Holanda, que se opõem ao “relativismo cultural” e que defendem os valores judaico-cristãos — Geert Wilders, que na sua juventude passou um ano num kibbutz em Israel, é um acérrimo defensor daquele Estado.

“Um dos políticos mais radicalmente anti-Islão que há na Europa”

Mais do que qualquer outro tema, tem sido a imigração, e consequentemente a islamofobia, que tem catapultado Geert Wilders para o estatuto de possível vencedor nas eleições holandesas, no dia 15 de março. Segundo o site Peilingwijzer, que agrega os resultados das seis sondagens mais importantes da Holanda, o PVV deverá ter cerca de 15% dos votos e terá entre 21 a 25 deputados no parlamento holandês. Este resultado coloca-o muito próximo do Partido Popular pela Democracia e Liberdade (VVD), o parceiro maioritário da coligação governativa do primeiro-ministro Mark Rutte.

Em vários países da Europa, 15% seria resultado de meia-linha. Mas, na Holanda, onde o parlamento é composto por 11 partidos, um resultado como este pode tornar o partido de Geert Wilders na maior força política do país.

Como é que isto se tornou possível num país até aqui conhecido por ser um dos mais liberais do mundo, tal como a sua capital, Amesterdão, é uma das cidades mais multiculturais do globo? A estes dois superlativos, Wouter van der Brug, professor de Ciência Política na Universidade de Amesterdão e especialista na direita radical e populista, responde com um terceiro superlativo.

“Geert Wilders é um dos políticos mais radicalmente anti-Islão que há na Europa”, diz o académico holandês ao Observador, por telefone. “A ameaça do Islão político tem sido o seu grande tema e é sobre isso que ele faz campanha. É isso que o motiva e, pelos vistos, isso cativa muitas pessoas.”

"Ao contrário de Donald Trump, que sempre quis governar e que agora vemos que está a aplicar um programa que assentava em questões económicas e de imigração, Geert Wilders não parece estar verdadeiramente disposto a governar. Ninguém sabe ao certo o que é que ele quer para a economia, para a saúde ou para a segurança social. Ele só fala dos muçulmanos."
Saskia Bonjour, professora de Ciência Política na Universidade de Amesterdão

A ascensão política de Geert Wilders começou precisamente quando este percebeu que a chave para subir a pulso dentro da máquina política holandesa era concentrar-se na mensagem islamofóbica que tem para oferecer ao eleitorado. Foi assim que começou a ganhar notoriedade, depois de ter sido, entre 1990 e 1998, assessor de um deputado do VVD. Em 2002, foi eleito para a bancada parlamentar daquele partido, mas dois anos depois saiu das fileiras do centro-direita em protesto. Geert Wilders era cada vez mais anti-Islão e o apoio do VVD à entrada da Turquia na União Europeia foi a deixa perfeita para virar as costas ao partido.

Os anos que se seguiram foram os da radicalização e também da afirmação de Geert Wilders. Em 2002, quando a ameaça do terrorismo islamista crescia no mundo ocidental, um ativista ecologista holandês matou Pim Fortuyn, à altura o político anti-Islão mais conhecido na Holanda. O homicida viria a justificar o seu crime como uma retaliação pelo discurso islamofóbico. Dois anos depois, em 2004, seria a vez do assassinato do realizador Theo Van Gogh, também ele anti-Islão, por um homem de dupla nacionalidade holandesa-marroquina.

Depois do homicídio de Theo Van Gogh, a investigação das autoridades holandesas apurou que o homicida tinha uma lista de futuros alvos a abater. Entre eles, estava Geert Wilders. Desde então, este político que hoje tem 53 anos nunca mais voltou a dar passeios ao ar livre, encontra-se com a mulher apenas uma ou duas vezes por semana e diz-se que nunca dorme duas vezes no mesmo sítio. A presença de guarda-costas é uma constante. Em 2012, publicou a sua autobiografia, onde explicou as preocupações que tem com a segurança. O título deixa pouca margem para mal-entendidos: “Marcado para Morrer: A Guerra do Islão contra o Ocidente e Eu”.

No seu primeiro mandato, o atual primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, chegou a ter o apoio de Geert Wilders (Carl Court/Getty Images)

Foi nesta altura que Geert Wilders passou a ser um político cada vez mais conhecido na Holanda. O mais próximo que esteve do poder foi em 2010, quando decidiu dar apoio parlamentar ao primeiro executivo de Mark Rutte — puxando-lhe depois o tapete debaixo dos pés em 2012, precipitando o país para eleições antecipadas. Ao princípio da sua carreira na política, o cabelo, volumoso e louro oxigenado, era o que mais atenção atraía. Mas, depois, foram as suas palavras que foram colhendo cada vez mais apoio dentro da sociedade holandesa.

“A história da Holanda é a mesma da que vemos noutros países do nordeste da Europa”, explica ao Observador o académico Wouter van der Brug. “As pessoas acham que os seus problemas vão ser resolvidos se o país voltar a ter o controlo das suas fronteiras, se voltar a comandar plenamente os destinos da nação e, especialmente, se se conseguir proteger do que se diz ser a ‘invasão’ do Islão.”

Os “valores” que preocupam e a “invasão” que não o foi

Numa sondagem publicada a 24 de fevereiro, 86% dos 1.100 inquiridos disseram estar “preocupados” ou “muito preocupados” com o respeito pelas “normas e valores” na Holanda, e apenas 10% previam que essa situação irá melhorar. Além disso, 80% declararam estar “preocupados” com a entrada de refugiados e imigrantes no país.

Segundo números oficiais, do autoridade pública de estatísticas da Holanda, o CBS, em 2015 um total de 56.400 estrangeiros foram viver para a Holanda. Entre estes, a maioria vem da Polónia, com 22.200 mil entradas em 2015. O segundo país mais representado é a Síria, com 20.800 imigrantes.

Quanto a refugiados, segundo o Conselho Holandês para os Refugiados, o número de pedidos de asilo à Holanda no ano de 2015 — o ano em que estes aumentaram de forma inédita na Europa — foi de 34.958. Destes, apenas 4.430 foram aceites — sendo que 2.385 têm nacionalidade síria, a mais comum.

Ao todo, vivem aproximadamente 17 milhões de pessoas no Holanda. Estima-se que 11,5% tenham nascido no estrangeiro.

"A história da Holanda é a mesma da que vemos noutros países do nordeste da Europa", explica ao Observador o académico Wouter van der Brug. "As pessoas acham que os seus problemas vão ser resolvidos se o país voltar a ter o controlo das suas fronteiras, se voltar a comandar plenamente os destinos da nação e, especialmente, se se conseguir proteger do que se diz ser a 'invasão' do Islão."
Wouter van der Brug, professor de Ciência Política na Universidade de Amesterdão

Os números estão longe de demonstrar a invasão que Geert Wilders sugere e que, nas suas próprias palavras, podem levar a população nativa holandesa a “deixar de existir”.

Este aparente paradoxo intriga Saskia Bonjour, também ela professora na Universidade de Amesterdão e especialista no estudo das comunidades de imigrantes na Holanda. “Os números da imigração e dos refugiados não são assim tão grandes, nós temos conseguido gerir a situação consideravelmente bem e não estamos propriamente numa situação que indique que os nossos tecidos sociais estejam a romper”, diz ao Observador por telefone. “Mas as pessoas estão muito preocupadas com isto na mesma.”

"Há pessoas que têm medo de que o Estado não chegue para todos."
Saskia Bonjour, professora de Ciência Política na Universidade de Amesterdão

Para esta académica, o receio do “outro” que parece motivar o eleitorado de Geert Wilders e do PVV “nasce de questões económicas e não tanto de questões culturais”. “Depois da crise económica, e à medida que o sistema de segurança social parece estar mais apertado, cria-se um sentimento de insegurança de que as coisas estão mais perto de ficar mal do que estão de ficar bem”, explica. “Nesse contexto, há pessoas que têm medo de que o Estado não chegue para todos.” E, acrescenta que, quando nesse “todos” se encontra um grupo que pode ser designado como os “outros”, as fraturas ficam expostas. “A xenofobia é uma condição humana”, explica. “Faz parte da natureza humana preferir aqueles que estão dentro do nosso grupo do que aqueles que estão fora dele.”

A Geert Wilders coube a “sorte” — e a persistência, já que é o terceiro deputado com mais antiguidade no parlamento — de poder explorar isso como nenhum outro político tem sido capaz em 2017. E “Henk” e “Ingrid”, mais do que nunca, parecem querer prestar-lhe atenção.

Em 2014, depois de umas eleições autárquicas, Geert Wilders dirigiu-se a uma plateia que até aí aguardava o seu discurso e perguntou: “Querem mais ou menos marroquinos?”. Os apoiantes apressaram-se a responder em coro, de forma ritmada e volumosa: “Menos! Menos! Menos!”. Depois disto, garantiu: “Então nós vamos tratar disso”. Mais de dois anos depois, a 9 de dezembro de 2016, e já em clima pré-eleitoral, Geert Wilders foi declarado culpado, mas sem que lhe fosse atribuída uma pena, de ter incitado à discriminação naquele discurso. Os juízes declararam que aquela declaração atingiu um grupo étnico e que foi “redutor e por isso insultuoso para a população marroquina”.

Na altura, Wilders contestou essa decisão e prometeu um recurso. “A Holanda tornou-se num país doente”, disse. “Eu não sou racista nem são os meus eleitores. Esta sentença prova que os juízes estão completamente desligados. O apoio ao PVV é cada vez mais forte e cresce a cada dia. Os holandeses querem o seu país de volta.” Numa entrevista recente à BBC, sublinhou que não está arrependido das suas palavras. “Como é que poderia estar?”, perguntou ao jornalista.

O intocável que muitos tentam imitar

O estilo de Geert Wilders e do seu partido, tal como a retórica que lhes é conhecida, são hoje copiados pelos partidos da direita holandesa — a começar pelo VVD, do primeiro-ministro, Mark Rutte. Depois de quase sete anos no poder, o primeiro-ministro holandês assumiu na campanha eleitoral para as eleições de 15 de março uma postura mais agressiva daquela que lhe era conhecida em relação à imigração e aos imigrantes.

Em meados da década passada, Mark Rutte expulsava elementos do VVD por wilderismo e em 2012 viu o seu Governo cair graças ao enfant terrible da extrema-direita holandesa. Em 2017 passou a seguir algumas das suas pisadas. Nesta campanha, o VVD comprou um anúncio de uma página inteira no jornal AD onde deixava uma mensagem aos imigrantes: “Ajam normalmente ou vão-se embora”.

Wouter van der Brug explica que isto já era de prever. “Em todos os países onde a direita radical ganha protagonismo, a direita mainstream começa a chamar para si alguma da retórica e também o programa da direita radical”, diz o académico especializado em populismo.

Para Saskia Bonjour, os partidos políticos mainstream “têm tido muita dificuldade em contrariar o estilo retórico e o tipo de argumentos apresentados por Wilders”. Isto porque, no que toca ao PVV e ao seu líder, “a mentalidade e a maneira de fazer política são completamente diferentes”. “O que eu mais temo é que tudo isto prejudique e esvazie a nossa democracia a partir de dentro”, adianta Saskia Bonjour.

Mas se Geert Wilders é hoje um político que outros tentam copiar na sua forma ou no seu conteúdo, por vezes em ambos, também não é menos verdadeiro que ele é também um intocável na política holandesa. Antes das eleições, entre todos os partidos que têm expectativas realistas de preencher os 150 lugares do parlamento em Haia, todos disseram que não estariam abertos a formar uma coligação com o PVV de Geert Wilders.

“Uma vez que ele fugiu em 2012, eu não tenho nenhuma vontade de alguma vez voltar a trabalhar com ele, já que ele foge quando as coisas se complicam”, disse ao Financial Times, em dezembro, o atual primeiro-ministro, Mark Rutte, que de acordo com as sondagens é também o maior adversário de Geert Wilders nestas eleições.

Assim, é pouco provável que Geert Wilders suba ao poder nestas eleições. Mesmo que o PVV se torne no maior partido em Haia, o facto de nenhum partido estar disposto a dar-lhe a mão impossibilita-o de formar um executivo. As alternativas são várias, mas de difícil conceção. Com Mark Rutte à cabeça, o VVD pode vir a liderar um executivo composto por outras cinco forças partidárias ou assumir um Governo minoritário com apoio parlamentar dessa mão cheia de partidos. Entre estes, estarão os social-democratas do PvDA, atualmente coligados com o VVD no Governo, e que deverão ser um dos partidos mais prejudicados nestas eleições. Se em 2012 tiveram 24,2%, agora as sondagens preveem apenas 8% para o partido-irmão do PS português.

Até agora, todos os partidos têm dito que não vão viabilizar um Governo de Geert Wilder, mesmo que o seu partido vença as eleições (ROBIN UTRECHT/AFP/Getty Images)

Se esse cenário se confirmar, Geert Wilders sentir-se-á, mais do que nunca, em posição de marcar uma posição. “Se ele tiver mais votos, ou muitos, a partir desse momento vai criar um movimento de protesto e vai dizer que foi barrado do poder, que os poderosos da Haia lhe fecharam a porta e que é uma conspiração contra ele e os ‘verdadeiros holandeses'”, diz Saskia Bonjour.

Esse, explica a politóloga holandesa, poderá ser o maior triunfo de Geert Wilders. Até porque, aventa Saskia Bonjour, aquele político de 53 anos não quer verdadeiramente chegar ao poder. “Ao contrário de Donald Trump, que sempre quis governar e que agora vemos que está a aplicar um programa que assentava em questões económicas e de imigração, Geert Wilders não parece estar verdadeiramente disposto a governar”, diz. “Ninguém sabe ao certo o que é que ele quer para a economia, para a saúde ou para a segurança social. Ele só fala dos muçulmanos.”

Assim, para esta académica da Universidade de Amesterdão, Geert Wilders — e tudo o que ele representa — verá nos próximos anos novas rampas de lançamento. “Geert Wilders tem muito mais a ganhar se ficar do lado de fora a criticar”, diz. “Ele tem crescido enquanto forma de protesto e é assim que ele vai continuar a crescer.”

Basta para isso que “Henk” e “Ingrid” continuem a ouvi-lo.

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