Bergoglio: o Papa que nunca esteve na lista dos favoritos

10 Maio 2017

Austen Ivereigh escreveu uma biografia do Papa: "Francisco, o grande reformador: os caminhos de um Papa radical". Publicamos o capítulo que relata os momentos tensos antes do fumo branco.

Austen Ivereigh é o jornalista que lançou mãos à tarefa de escrever uma biografia de Jorge Mario Bergoglio, o homem que foi eleito Papa a 13 de março de 2013. Neste livro, editado pela Vogais, Austen Ivereigh conta a história do papa Francisco, desde aquele momento em que a os seus avós falharam o embarque num navio que acabou naufragado antes de chegar a Buenos Aires. Foi em 1927. “Os avós de Jorge Mario, Giovanni Angelo Bergoglio e Rosa Margarita Vasallo di Bergoglio, a par dos seus seis filhos — entre os quais, Mario, o pai de Francisco — dispunham de bilhetes de terceira classe para esse navio. No entanto, como o montante da venda do seu café em Turim tinha demorado mais tempo a chegar do que o expectável, à última hora eles trocaram-nos por passagens para o Giulio Cesare um mês mais tarde.” Assim arranca o livro que culmina na chegada de Bergoglio ao Vaticano e do qual publicamos aqui o nono capítulo “Conclave” que, tal como o nome indica, retrata os momentos que antecederam a eleição do primeiro Papa sul-americano e jesuíta.

Conclave

Com o olhar fixo na ligação vídeo na sala de redação da sua agência, Giovanna Chirri sabia mais do que o suficiente de latim para captar o que o Papa proferia num tom impassível: ingravescente aetate non iam aptas esse ad munus Petrinum aeque administrandum… Ele chegava a indicar a data em que aquilo ia acontecer: 28 de fevereiro.

Mas poderia ela divulgar a história sem uma confirmação oficial? A jornalista ligou para o diretor do gabinete de imprensa do Vaticano, padre Federico Lombardi, mas, depois de deixar ficar uma mensagem, concluiu que não podia esperar mais: afinal, ela tinha ouvido o Papa com os seus próprios ouvidos. Divulgou a notícia e telefonou ao seu editor. «O mais surpreendente é…», começou ela, mas interrompeu o que ia a dizer porque tinha uma chamada de Federico Lombardi no telemóvel. «Compreendeu corretamente», disse-lhe este. «O Papa vai resignar.» O furo jornalístico de Giovanna Chirri propagou-se como um raio às agências noticiosas, provocando um tsunami na comunicação social «Deixei-me cair na cadeira», recorda ela. «E chorei.»

O dia 11 de fevereiro de 2013 era feriado no Vaticano, assinalando a data em que o impasse de cinquenta e nove anos entre a Itália e a Santa
Sé relativamente à ocupação dos estados pontifícios teve finalmente o seu desfecho no ano de 1929. Bento XVI tinha convocado um consistório menor, reunindo somente os cardeais residentes em Roma e, segundo a informação oficial, para fazer o anúncio tudo-menos bombástico de três novos santos. Um dos presentes na Sala do Consistório daquele dia era o arcebispo Leo Cushley, um funcionário escocês da secretaria de Estado, que achou Bento com um ar cansado, mas, de resto, em boa forma, e não fazia ideia do que estava para acontecer.

Depois de o cardeal Angelo Amato ler a lista dos três beati, ou «abençoados», que iam ser canonizados, o Papa Bento, ladeado pelo seu secretário, arcebispo Georg Gänswein, começou a falar, lendo, como habitualmente, um texto preparado. O latim de Cushley também lhe
permitiu compreender aquilo que o Papa dizia — «Cheguei à conclusão de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são adequadas exercer capazmente o ministério de Pedro» — e, ao intuir o que ouvia, ele sentiu o estômago a revolver-se.

Papa no Vaticano, em Roma, em Maio de 2017. Foto: AFP/TIZIANA FABI

Algo nunca visto ao longo de seiscentos anos, a resignação voluntária de um Papa, estava a acontecer à sua frente. «Tive a perceção de que à minha frente, num movimento em câmara lenta, um dos assistentes de câmara da televisão levava a mão à boca num gesto de assombro que parecia vir de uma banda desenhada, o monsenhor sentado ao meu lado começou a soluçar discretamente, enquanto os ombros do arcebispo Gänswein pareciam soçobrar. O cardeal inclinou-se para a frente para se certificar de que todos compreendiam aquilo que estava a ser dito, e eu dei por mim a verificar se não estava com o queixo caído. A seguir, fez-se silêncio.»

Em Buenos Aires, Bergoglio enalteceu a decisão como um «ato revolucionário» que tinha sido cuidadosamente ponderado na presença de Deus. Passou a quinzena seguinte a tomar providências para uma ausência de três semanas, partindo então para Roma, num voo noturno, no dia 27 de fevereiro, um dia antes de a resignação de Bento XVI ter efeito. O Vaticano tinha-lhe enviado um bilhete em classe executiva, mas ele alterou-o para a classe económica, pedindo um lugar junto à saída de emergência com mais espaço para as pernas, porque a ciática costumava dar-lhe problemas em viagens de longo curso. O conclave só iria ser agendado depois de os cardeais iniciarem os seus encontros, mas aquilo que muitos esperavam era que ele acontecesse em meados de março, com a investidura do Papa a ter lugar breves dias depois.

O bilhete de regresso tinha a data de 23 de março, para lhe dar tempo para rever as homilias que tinha preparado para as liturgias pascais no final do mês, parte das quais ele tinha enviado aos seus amigos evangélicos e judeus para apreciarem. Tinha ainda dito ao dono do quiosque do outro lado da Plaza de Mayo, Daniel del Regno, que regressava dentro de vinte dias, pedindo-lhe que entretanto continuasse a deixar-lhe os seus exemplares do La Nación. Desta vez — ao contrário de 2005, em que o padre Marcó o acompanhava— Bergoglio viajou sozinho. No aeroporto de Fiumicino, havia limusinas a recolher os cardeais que iam chegando, mas, depois de retirar a pequena mala do tapete rolante, Bergoglio apanhou o comboio para a estação Termini como de costume, e a seguir um autocarro para a Via della Scrofa onde, por 85 euros diários [com refeições incluídas], deu entrada na residência clerical Domus Internationalis Paulus VI.

Enquanto ele desfazia a mala no palazzo de pedra do século XVII, outrora um colégio jesuíta, do outro lado do Tibre, Bento XVI dava a sua última audiência ao público, falando às dezenas de milhares de pessoas na Praça de São Pedro sobre a paz de espírito que a sua decisão lhe trouxera, e de como tinha havido alturas no seu papado de oito anos em que as águas estavam agitadas e «o Senhor parecia adormecido». Ao longo daqueles dias intermédios, estranhos, a comunicação social olhava para os altos e baixos do pontificado de Bento no passado, e procurava no futuro aquele que poderia assumir o comando nesta hora de necessidade da Igreja.

A opinião generalizada dos vaticanisti — dezenas de jornalistas acreditados permanentemente no Vaticano — era a de que havia um campo de candidatos bastante extenso, sem ninguém que se destacasse claramente. As listas de papabili — os cardeais que se enquadravam na invulgar descrição das funções— iam desde as de três ou quatro nomes às de mais de uma dúzia. Quase nenhuma incluía o nome de Bergoglio, embora os mais entendidos o apontassem como um fazedor de reis, um veterano respeitável, cujas opiniões iriam influenciar os seus pares latino-americanos. No entanto, ele estava fora do radar papabili, em parte, devido à idade — a maior parte dos cardeais sustentava que o próximo Papa rondaria mais ou menos os setenta anos — e, principalmente, porque Bergoglio passava pouco tempo em Roma e, quando ali estava, tornava-se invisível, pelo que poucos sabiam grande coisa acerca dele.

"Esta missão implica que a Igreja tenha a parrhesia [coragem apostólica] de sair de si própria. A Igreja é chamada a sair de si própria e a ir até às periferias, não apenas geográficas, mas também as periferias existenciais: as do mistério do pecado, as do sofrimento, as da injustiça, as da ignorância e do absentismo religioso, as do pensamento e as de toda a espécie de miséria."
Papa Francisco

Quase nenhum dos 4000 jornalistas que iam chegando de sessenta e cinco países conhecia a fundo o arcebispo de Buenos Aires, para além da sua fama de austeridade e de ser avesso a entrevistas. Os vaticanisti sabiam que ele tinha sido papabili em 2005, mas acreditavam que aquele fora um momento do passado. Nenhum segundo classificado num conclave tinha alguma vez sido eleito Papa no seguinte, e quem é que ouvira falar dele desde então? A cena comovente da partida de Bento XVI, ao entardecer do dia 28 de fevereiro, rumo à residência papal no castelo Gandolfo, foi narrada através da objetiva do Centro de Televisão do Vaticano, cujo diretor recente era um antigo professor de cinema de Milão, monsenhor Dario Viganò.

Ele preparou uma encenação soberbamente requintada. Depois de o helicóptero branco descolar — ascender seria o termo mais adequado — sobre o Vaticano, ele descreveu dois círculos em torno da cúpula da basílica de São Pedro, antes de cruzar os céus sobre Roma, formando uma sombra que deslizou sobre os monumentos da cidade beijados pelo sol. As imagens prestavam homenagem à famosa cena de abertura de La Dolce Vita, de Federico Fellini, quando a estátua de Jesus, suspensa do helicóptero que a transportava para o Vaticano, parecia abençoar as casas da cidade com a própria sombra.

Viganò também desejava tornar esta «uma viagem de bênção do Papa». Neste momento, a Igreja estava em sede vacante, regida por um Colégio de Cardeais na ausência do Papa. Em 4 de março, estes iniciaram os seus encontros diários nas congregações gerais, realizadas na sala do sínodo, enquanto os operários faziam os preparativos para o conclave, instalando um chão falso e equipamento de interferência na Capela Sistina. A maior parte dos cardeais deslocava-se aqui de limusina para evitar o enxame de jornalistas, mas Bergoglio fazia diariamente o percurso a pé, com a sua gabardina preta, e passando despercebido.

Depois da chegada do último, estavam reunidos 151 cardeais. Destes, 115 tinham menos de oitenta anos de idade e direito a votar, correspondendo ao mesmo número de 2005. No entanto, este conclave distinguia-se do anterior em muitos aspetos. Não havia preparativos para um funeral a ocuparem o tempo das discussões, e os notáveis do colégio — o decano, cardeal Angelo Sodano, e o secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone — estavam demasiado associados aos escândalos do Vaticano para serem papabili.

E, desta vez, os cardeais conheciam-se melhor uns aos outros, depois de Bento XVI os ter reunidocinco vezes ao longo dos oito anos do seu pontificado, antecedendo cada consistório de um dia de encontros. As congregações gerais decorreram à porta fechada, contudo, entre os briefings diários à imprensa do padre Lombardi, as conferências de imprensa dos cardeais dos Estados Unidos na Pontifícia Universidade Norte-Americana [conhecida por NAC], e as fugas de informação de tradutores a soldo dos jornais italianos, sabia-se genericamente que a corrupção e o mau funcionamento do Vaticano eram o fio condutor de todos os discursos.

Os três cardeais nomeados três meses antes pelo Papa Bento para investigarem a podridão do sistema encontravam-se a postos para colocar os seus confrades a par de um relatório confidencial de trezentas páginas e que iria estar na secretária do próximo Papa. Os cardeais americanos estavam particularmente atentos à discussão das irregularidades, já que tinham beneficiado de informações provenientes de alguém por dentro da situação, nos meses antecedentes.

O arcebispo Carlo Maria Viganò [não existe qualquer relação com o diretor da televisão do Vaticano], embaixador da Santa Sé em Washington, DC, tinha alertado Bento XVI para o facto de o secretário de Estado o ter nomeado em outubro de 2011 para o afastar de Roma, depois de ele desmascarar a corrupção na adjudicação de contratos que custaram milhões de euros à Santa Sé. Profundamente chocados com o que Viganò lhes tinha contado, os cardeais dos EU — a Igreja americana, a par da alemã, é uma das principais fundadoras do Vaticano — estavam determinados a que o próximo Papa viesse munido de uma grande vassoura. Conforme o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova Iorque, refere nas suas memórias do conclave: «Nós sabíamos que o mundo aguardava a eleição de um pontífice com a capacidade de conduzir algumas reformas significativas que era forçoso implementar no seio da Igreja.»

Para tempos difíceis, medidas extremas

A disfunção curial ultrapassava a dimensão da corrupção financeira. Ela também envolvia um facciosismo mesquinho, consubstanciado em diversas redes clientelistas — os italianos utilizam a palavra inglesa lobby — que manobravam a nomeação de pessoas sem capacidades para tal e excluíam outras com as qualificações adequadas. O assim chamado lobby gay era uma delas: um grupo formado por laicos e alguns sacerdotes, que protegia e promovia os seus interesses à custa de chantagem e promoções. Na sua maioria, os 4000 elementos laicos e o milhar de clérigos da cúria eram honestos e competentes, e muitos deles eram excecionalmente dedicados, mas enfrentavam uma cultura de direitos adquiridos, ao abrigo da qual os burocratas de nível médio contavam com um emprego para a vida, e a competência era menos importante que as relações pessoais.

Tornava-se imperioso fazer uma alteração radical na cultura — uma nova ética ao serviço da missão do Papa. Registou-se um grande debate em torno da reforma da governação — a necessidade de um Papa acessível, informado e com liberdade de movimentos — e de um contacto escorreito entre Roma e a Igreja local. A colegialidade era «um tema constante nestas discussões», referiu o padre Lombardi aos jornalistas em 9 de março. «Todos tínhamos a firme convicção de que estavam para chegar mudanças profundas e uma nova forma de olhar para a cúria, com mais colegialidade», recorda o arcebispo de Boston, cardeal Seán O’Malley.
O diagnóstico do grupo de St. Gallen no início da década de 2000 era agora o plat du jour.

Todos estavam de acordo em que a disfunção do Vaticano era um obstáculo decisivo à evangelização, e que as suas principais causas residiam no centralismo e na falta de responsabilização de Roma. Enquanto alguns sugeriam a reforma do sínodo de bispos para que este pudesse protagonizar uma verdadeira mudança, outros queriam focar-se no Instituto para Obras de Religião [IOR], conhecido por Banco do Vaticano, e no despedimento misterioso do seu presidente reformador, Ettore Gotti Tedeschi. E todos concordavam que a cúria devia viver menos para si própria e servir melhor a Igreja local. Um cardeal, pelo menos, declarou que a tarefa de governar a Igreja Universal era simplesmente demasiado pesada para um homem só, e que o próximo Papa precisava de ser assessorado por um conselho de cardeais externos a Roma.

Um dos maiores defensores desta ideia foi o cardeal Francesco Coccopalmerio, um especialista em direito canónico do Vaticano que tinha exercido a função de bispo auxiliar ao serviço do cardeal Martini, em Milão. Ele advogou a necessidade de reestruturação da cúria, e de se promover o contacto entre os responsáveis departamentais e o Papa, e entre as dioceses locais e Roma. A implosão do Vaticano tinha até
transformado os rigoristi em reformadores.

O ardentemente conservador cardeal George Pell, de Sydney, por exemplo, ficou estupefacto ao constatar a nomeação, pela cúria, de pessoas sem os conhecimentos técnicos exigíveis, e a fuga permanente de informações para a comunicação social. Nas congregações gerais, ele era um dos que pugnava mais firmemente por uma reforma curial e a necessidade de o Papa ter um aconselhamento exterior a Roma. Na realidade, os únicos a argumentar a favor do status quo eram os cardeais curiais, convencidos de que conseguiam tratar do mal-estar do Vaticano sozinhos.

Regra geral, com o apoio dos cardeais diocesanos italianos, os curiali teriam o conclave já alinhavado à partida, mas desta vez a agulha e a linha tinham-se-lhes escapado das mãos. Os curiali dividiam-se entre as fações pró-Bertone e pró-Sodano, embora todos quisessem travar a
nomeação do cardeal Angelo Scola, o brilhante, embora impetuoso, arcebispo de Milão, encarado por muitos no exterior de Itália como
o natural sucessor de Bento XVI, mas contestado pelos líderes das principais dioceses italianas.

A tentativa de organizar uma alternativa a Scola partiu da fação curial ligada ao poderoso Angelo Sodano, ex-secretário de Estado e atual decano do colégio de cardiais que, embora já tivesse ultrapassado a idade para poder votar, continuava a ser o fazedor de reis da cúria. A estratégia do grupo de Sodano envolvia a promoção do cardeal-arcebispo de São Paulo, no Brasil, Odilo Scherer, um antigo funcionário do Vaticano e considerado uma pessoa manobrável. Se Scherer fosse eleito, pretendia-se que este nomeasse para o cargo de secretário de Estado o funcionário curial argentino Leonardo Sandri, anterior braço direito de Sodano, garantindo assim a manutenção do anterior statu quo.

O grupo acreditava que a eleição de alguém do exterior lhes permitia restabelecer no poder os que estavam no interior. Contudo, o seu plano foi neutralizado, já que ele chegou ao conhecimento da comunicação social ainda antes do início das congregações, provocando no colégio um sentimento generalizado anti-italiano, que se propagou inclusivamente ao povo italiano.

Tirando partido da conjuntura, os reformistas europeus que tinham exercido pressões a favor de Bergoglio em 2005 mobilizaram-se. Alguns deles, como o cardeal Cormac Murphy-O’Connor, já tinham uma idade demasiado avançada para poderem votar no conclave; outros — incluindo Walter Kasper [que estava quase a atingir os oitenta anos quando a sé papal ficou vacante], Godfried Danneels e Karl Lehmann — eram eleitores.

De acordo com o que ditam as regras, não foi perguntado a Bergoglio se estava na disposição de ser candidato. Mas, ao contrário de 2005, eles estavam convictos de que nas presentes circunstâncias, com a crise na Igreja, nenhum cardeal iria recusar se lho perguntassem. [Murphy-O’Connor avisou-o com ar cúmplice para «estar atento», que a sua vez tinha chegado, recebendo em resposta um capisco, «compreendo».] A partir daqui, eles lançaram-se ao trabalho, fazendo um périplo pelos jantares dos cardeais para promoverem o seu candidato, argumentando que a idade de Bergoglio — setenta e seis anos — já não podia ser considerada um obstáculo, dado que os papas podiam resignar. O ano de 2005 tinha-lhes mostrado qual era dinâmica do conclave e eles sabiam que os votos iriam para aquele que tivesse uma posição forte na linha de partida. O seu objetivo era garantir o mínimo de vinte e cinco votos a favor de Bergoglio no primeiro escrutínio.

Um cardeal italiano sénior ocupava-se do registo dos votos com que se podia contar antes do início do conclave. A equipa de Bergoglio confiava no grosso dos dezanove cardeais latino-americanos, que considerava o cardeal argentino o seu líder desde Aparecida. Não obstante, ela precisava de um número sólido de europeus, os quais correspondiam a mais de metade dos eleitores. Outros reformistas como eles — vários alemães, franceses e elementos da Europa Central enquadravam-se neste caso — poderiam dar o seu voto, bem como alguns dos cardeais espanhóis com gratas memórias do retiro de 2006 ministrado por Bergoglio. O cardeal espanhol Santo Abril Y Castelló, arcipreste de Santa Maria Maior em Roma e antigo núncio na América Latina, colocou o seu dinamismo ao serviço da campanha por Bergoglio junto do bloco ibérico. O apoio europeu teve ainda o contributo do cardeal Christoph Schönborn, de Viena, um dos principais apoiantes de Ratzinger em 2005, e do cardeal André Vingt-Trois, de Paris, ambos a favor de Bergoglio no início do conclave, senão mesmo antes.
Havia onze cardeais africanos e dez asiáticos. Para aqueles que vinham de países historicamente anglófonos, o cardeal britânico, Murphy-O’Connor era uma figura de referência e a pessoa chave para captar o seu apoio. A dado momento, Bergoglio foi contactado pelo cardeal Laurent Monsengwo Pasinya, de Kinshasa, no Congo, pessoa com influência decisiva junto dos cardeais africanos, perguntando-lhe como estava o seu pulmão. Bergoglio disse-lhe que tinha sido operado na década de 1950 e que tudo tinha corrido muito bem desde essa altura. Os norte-americanos — onze cardeais dos Estados Unidos e três do Canadá — formavam o maior grupo fora da Europa e da América Latina, e o seu apoio era fundamental. Estes apenas começaram a ter Bergoglio em conta depois do dia 5 de março, no final do segundo dia das congregações, quando decorreu um grande jantar na Sala Vermelha da Pontifícia Universidade Norte-Americana [NAC], com Murphy-O’Connor, de Westminster, e Pell, de Sydney, entre os convidados.

«Os cardeais americanos estavam bastante divididos em relação à sua escolha», recorda Murphy-O’Connor. O seu fazedor de reis era o arcebispo de Chicago, Francis George, o qual tentava escolher entre Scola e o outro papabili de alta craveira, o presidente da conferência episcopal do Canadá, cardeal Marc Ouellet. Murphy-O’Connor lançou o nome de Bergoglio para a mesa, mas não obteve grande sucesso nessa noite. O cardeal O’Malley, de Boston [a quem Bergoglio tinha oferecido um CD da Missa Argentina, a Misa Criolla, quando tinham estando juntos em Buenos Aires, no ano de 2012] estava no campo «pró-Bergoglio».

No entanto, para os outros americanos, ele era uma incógnita. A idade de Bergoglio deixava o cardeal George particularmente apreensivo. «A questão é: “Ele ainda tem energia?”», perguntava ele. Na quarta-feira seguinte, dia de 6 de março, O’Malley, de Boston, Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, declararam aos jornalistas na conferência de imprensa da NAC que os cardeais ainda não estava preparados para marcar a data do conclave e precisavam de mais tempo para discernir o quê e quem faziam falta à Igreja. Este acabou por ser o seu último encontro com a imprensa antes do conclave: nas congregações dessa tarde, foi decidido que as conferências de imprensa iam cessar a bem da privacidade do debate. Os cardeais ficaram furiosos.

Eles tinham respeitado escrupulosamente a confidencialidade das discussões e consideravam as atenções da comunicação social mundial uma oportunidade caída do céu para se dirigirem aos católicos no seu país, e poderem ainda evangelizar a sociedade americana em geral. Vários entre eles, sobretudo Dolan, de Nova Iorque, sentiam que os curiali faziam deles os bodes expiatórios das indiscrições dos cardeais italianos [ou tradutores].

Um Papa bastante popular. Foto: AFP/ TIZIANA FABI

Em resultado a esta interdição, as fugas de informação — pagas e tendenciosas — das congregações gerais para os vaticanisti italianos acabaram por dominar o debate dos media antes do conclave, produzindo uma câmara de ressonância que extrapolava a importância das tensões na cúria e em Itália. A comunicação social mundial, que agora dependia dos órgãos de comunicação italianos para saber o que acontecia antes do conclave, referia que tudo apontava para a existência de uma disputa bizantina entre diversas fações italianas e dentro do Vaticano. Por esta razão, e também porque a sua equipa de apoiantes mantinha uma atitude de discrição prudente, a campanha de Bergoglio, que começara a desenvolver-se ao longo da semana das congregações, passou despercebida à comunicação social, e a maior parte dos vaticanisti acredita até hoje que nunca existiu um esforço combinado antes do conclave para apoiar a eleição de Bergoglio.

Não era a primeira vez que o argentino iria surgir do nada, como um gaúcho a galopar das pampas, à primeira luz da manhã. Bergoglio era uma combinação, única numa geração, de duas qualidades que raramente se encontram juntas: tinha o génio político de um líder carismático e a religiosidade profética de um santo do deserto. Ao levantar-se para usar da palavra nas congregações gerais da manhã do dia 7 de março, ambas se evidenciaram. Numa intervenção concisa, mas vigorosa, ele conseguiu captar a imagem da Igreja da altura, propondo o seu diagnóstico e tratamento.

A sua alocução mal ultrapassou os três minutos e meio, sendo praticamente a única vez que um cardeal não utilizava por completo os cinco minutos a que tinha direito naquela semana de discursos. Pouco mais extensa que o discurso de Gettysburg* [363 palavras em espanhol, em comparação às 271 de Lincoln em inglês. Referência ao discurso de Abraham Lincoln, em 1863 na localidade de Gettysburg, onde uma batalha decisiva na Guerra da Secessão tinha ocorrido quatro meses e meio antes.] e semelhante na simplicidade e qualidade lírica, a intervenção de Bergoglio lembrou àqueles que o escutavam a razão de estarem ali e, num sentido mais lato, quem eles eram. O seu discurso criou uma narrativa nova, ou recuperou aquela que tinha sido enterrada. No meio do novelo de intervenções intermináveis da semana, dedicadas a teorizações e análises, a sua chamada de atenção ressoou com força e nitidez, como a convocação dos sinos de um mosteiro através dos campos. Não teria havido um registo deste Gettysburg papal, se o cardeal Jaime Ortega, de Havana, não tivesse pedido uma cópia a Bergoglio.

O argentino não dispunha do original para fazer a cópia — ele tinha falado em italiano com base em notas — mas redigiu o discurso em espanhol com uma caneta de tinta permanente e entregou-o a Ortega na manhã seguinte. Depois de Francisco ser eleito, Ortega pediu para a imagem digitalizada do discurso ser introduzida no sítio da Internet da diocese de Havana, e foi deste modo que o mundo o descobriu.

“Molto papible”

Se hizo referencia a la evangelización… «Foi feita uma referência à evangelização», começou Bergoglio. «Esta é a razão de existência da Igreja: o Papa Paulo VI fala sobre a “alegria doce e reconfortante de evangelizar”. É o próprio Jesus Cristo que, do interior, nos impele.»
A evangelização, continuou Bergoglio, «implica que a Igreja tenha a parrhesia [coragem apostólica] de sair de si própria. A Igreja é chamada a sair de si própria e a ir até às periferias, não apenas geográficas, mas também as periferias existenciais: as do mistério do pecado, as do sofrimento, as da injustiça, as da ignorância e do absentismo religioso, as do pensamento e as de toda a espécie de miséria.»

Quando a Igreja não procede assim, alertou Bergoglio, «ela torna-se autorreferencial e fica doente: lembra-me a mulher curvada sobre si própria do Evangelho [Lucas 13:11]». Em seguida, ele traçou o diagnóstico sobre o que tinha corrido mal na Igreja, recorrendo a uma imagem que partilhara há uns meses apenas no retiro da Caritas, em Buenos Aires. «Os males que, ao longo do tempo, surgem nas instituições eclesiásticas têm a sua raiz na autorreferencialidade, uma espécie de narcisismo teológico. No Apocalipse, Jesus diz que está à porta e chama. O texto refere, obviamente, que ele bate do lado de fora da porta para entrar… Mas, por vezes, eu penso que Jesus bate do lado de dentro para o deixarmos sair.

A Igreja autorreferencial pretende Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.» Bergoglio prosseguiu, referindo que, sem se dar conta, a Igreja que é autorreferencial crê que tem uma luz própria; deixa de ser o mysterium lunae, o «mistério da lua». A expressão foi utilizada pelos primitivos ministros da Igreja para referirem que, tal como a lua não brilha, por não dispor de luz própria, embora cintile esplendorosamente à noite ao refletir a luz do sol, também a Igreja não tem outro propósito senão refletir Cristo. Quando deixa de o fazer e procura viver a partir da própria luz, disse Bergoglio, ela resvala no «mundanismo espiritual», o que, de acordo como teólogo Henri de Lubac, é «o pior mal que pode ocorrer à Igreja».

A seguir, ele expôs em termos simples a escolha que a Igreja enfrentava: de um lado, uma Igreja evangelizadora que sai de si própria, ouvindo com devoção a Palavra de Deus e proclamando-a com confiança, ou «a Igreja mundana que vive em si própria, de si própria e para siprópria». Isto, disse Bergoglio, «devia dar origem às mudanças e reformas possíveis que é preciso fazer para a salvação das almas». Concluiu: «Pensando no próximo Papa: um homem que, através da contemplação de Jesus Cristo, da adoração a Jesus Cristo, ajude a
Igreja a sair de si própria em direção às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive da “alegria doce e reconfortante
de evangelizar”.» Os aplausos não eram uma prática aceitável, mas o silêncio que se seguiu foi mais forte que os aplausos. O cardeal Schönborn virou-se para o seu vizinho do lado e disse: «É isto que precisamos.»

O cardeal Ortega descreveu o discurso como «magistral, revelador, empenhado e verdadeiro». Ele foi decisivo para o cardeal George, o qual referiu ao cardeal Murphy-O’Connor que agora já entendia — que tinha captado aquilo que eles queriam dizer sobre ele. Bergoglio indicara aos cardeais qual o caminho a seguir: uma reforma que fosse mais profunda que a mera supressão da corrupção na cúria ou a melhoria da governação, que reconduzisse a Igreja ao seu objetivo e à fonte da sua existência. Nessa tarde, os cardeais acordaram na realização do conclave na terça-feira seguinte, dia 12 de março. Ao sair da sala do sínodo, a expressão radiante do cardeal George era reveladora. «Estamos prontos!», afirmou aos jornalistas. Durante o fim de semana, Bergoglio colocou a sua capa de invisibilidade.

A opinião generalizada dos vaticanisti -- dezenas de jornalistas acreditados permanentemente no Vaticano — era a de que havia um campo de candidatos bastante extenso, sem ninguém que se destacasse claramente. As listas de papabili — os cardeais que se enquadravam na invulgar descrição das funções— iam desde as de três ou quatro nomes às de mais de uma dúzia. Quase nenhuma incluía o nome de Bergoglio.
Passagem do livro de Austen Ivereigh, "Francisco, o grande reformador: os caminhos de um Papa radical"

Enquanto os papabili da linha da frente — Scola, Scherer e Ouellet — celebravam a missa dominical nas respetivas igrejas titulares, invadidas pela comunicação social, Bergoglio manteve-se distante da de São Roberto Belarmino, preferindo almoçar em sossego com a irmã de noventa e dois anos do seu velho amigo, arcebispo Ubaldo Calabresi, um antigo núncio da Argentina e falecido em 2004. Nesta altura, ele sabia que era molto papible e sentia o peso disso. Ao encontrar por acaso na Piazza Navona o padre Tom Rosica, um canadiano e produtor de televisão, Bergoglio agarrou-lhe nas mãos e pediu-lhe que rezasse por ele. «Sente-se nervoso?», perguntou-lhe Rosica. «Um pouco», respondeu ele. Mas quando Gianni Valente e Stefania Falasca, dois jornalistas católicos e amigos de longa data, passaram pela Domus no final do dia, encontraram-no sereno e descontraído. «Tenho dormido como um bebé», disse-lhes.

Na manhã seguinte, terça-feira, 12 de março, os cardeais deslocaram-se para a residencial do Vaticano apetrechada com 120 quartos, a Casa Santa Marta, preparados para a abertura do conclave nessa tarde. Entregaram os telemóveis e computadores portáteis, e as suas pastas foram analisadas pela máquina de raios X. Correram-se as persianas das janelas e bloquearam-se as comunicações móveis. Do outro lado do quarto de Bergoglio, no quarto 207, encontrava-se o cardeal Kasper. O teólogo alemão recebera há pouco tempo exemplares da tradução para espanhol do seu último trabalho, Barmherzikeit, sob o tema da misericórdia. Tinha alguns consigo e ofereceu um deles a Bergoglio. «Ah, mercy», disse Bergoglio ao ler o título, La Misericordia. «Este é o nome do nosso Deus.» No seu quarto, Bergoglio encontrou sobre a cama uma rosa branca.

Papa Francisco e a revolução que está a mudar o Vaticano

Depois da missa pro eligendo pontífice na basílica de São Pedro no dia seguinte, os 115 cardeais regressaram à Casa Santa Marta para o almo ço e um período de descanso, antes de se dirigirem à Capela Sistina à tarde para prestarem o seu juramento solene. Em seguida, as portas foram fechadas e eles deram início ao primeiro escrutínio, isolando-se do mundo expetante. Apesar da tensão, o conclave é silencioso e solene, à semelhança de um retiro; os cardeais envergam as vestes corais como se participassem numa liturgia. Os escrutínios, nome atribuído às votações, são ponderosos. Não há perdas de tempo, mas o processo é lento.

Os conclavistas saem das mesas um a um — existem duas longas filas de mesas, colocadas face a face, de cada lado da capela — para irem votar por ordem de precedência. Ajoelhando em frente ao altar e com os olhos postos no Juízo Final de Miguel Ângelo, cada cardeal declara que, com Deus como sua testemunha e juiz, o seu voto se destina ao homem que ele acredita que devia ser eleito aos olhos de Deus. Ao levantar-se, coloca o boletim de voto dobrado — com a inscrição preambular Eligo in Summum Pontificem, «Escolho como Sumo Pontífice…» e o nome que ele escreveu a seguir — num prato de prata, ou patena, sobre o altar, inclinando-o para depositar o boletim numa urna de prata, regressando ao seu lugar, e assim sucessivamente, 115 vezes, até os três escrutinadores escolhidos à sorte entre os eleitores pegarem na urna e fazerem a contagem, entoando cada nome.

A acústica é deficiente: neste conclave, os escrutinadores recrutaram um cardeal mexicano com uma voz forte para repetir os nomes de cada cardeal votado. As negociações e debates necessários a permitir que um candidato atinja uma maioria de dois terços já decorrem em Santa Marta. Ao contrário de 2005, não apareceu nenhum cardeal com um «diário secreto» contendo o registo das votações, obrigando os vaticanisti a terem de juntar os dados dispersos recolhidos juntos dos eleitores a seguir ao conclave. Os relatos variavam consideravelmente entre si.

A fasquia inicial de vinte e cinco votos colocada pelos apoiantes de Bergoglio foi atingida sem esforço, mas fica por esclarecer se ela o colocou à frente no primeiro escrutínio. Scola, Scherer e Ouellet também foram votados, tal como os media italianos tinham previsto. No entanto, aquilo que é consensual é o argentino ter-se destacado na linha da frente no dia seguinte, chegando aos cinquenta votos na segunda votação da manhã, o terceiro escrutínio do conclave. Neste ponto, além de Bergoglio, apenas Scola continuava a ser uma possibilidade. Em Santa Marta, o ambiente esteve tenso durante o almoço.

O cardeal O’Malley, sentado ao lado de Bergoglio, achou-o melancólico, mal tocando na comida. «Aquilo que estava a acontecer parecia deixá-lo muito abatido», disse O’Malley mais tarde. Seja o que for que tenha ocorrido durante o almoço — segundo alguns relatos, Scola pediu aos seus simpatizantes que apoiassem Bergoglio, numa repetição do gesto do argentino em 2005 —, foi quase ao final do primeiro escrutínio da tarde de quarta-feira, a quarta votação do conclave, que Bergoglio se aproximou dos setenta e sete votos necessários. Nessa tarde, segundo o cardeal Dolan, «o cardeal Bergoglio revelava uma calma e serenidade notáveis… Ele sentia obviamente que aquela era a vontade de Deus»

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A seguir, sucedeu um imprevisto. O segundo escrutínio da tarde, e quinto do conclave, foi anulado quando os escrutinadores detetaram um boletim a mais em relação ao número de cardeais. O objeto prevaricador era um boletim em branco agarrado por engano a um preenchido.
Ainda que não afetasse o resultado, as regras eram claras e os cardeais tinham de votar outra vez. Como os boletins só são queimados ao final da manhã ou tarde das votações, tudo o que se soube no exterior é que já deviam ter ocorrido dois escrutínios até então, que o fumo negro ou branco devia ter aparecido por volta das 6h00 da tarde, e que a demora implicaria um problema qualquer: talvez uma emergência médica, ou o funcionamento deficiente de uma máquina de fumo.

Ao canto da Capela Sistina, junto à entrada, encontravam-se os únicos meios através dos quais os cardeais comunicavam os resultados de cada escrutínio ao mundo: dois enormes fogões cor de bronze, quais Daleks de um filme de ficção científica subfinanciado. O que estava à direita, utilizado para queimar os boletins de voto no final dos escrutínios, tinha começado a funcionar em 1939, mantendo-se em atividade ao longo dos cinco conclaves seguintes. Para dar a indicação de que nenhum Papa tinha sido eleito, os funcionários costumavam adicionar palha húmida aos boletins em chamas para obscurecer o fumo, mas esta era uma tarefa arriscada.

No conclave de 1958, que elegeu João XXIII, a primeira sfumata saiu branca por engano [a palha tinha secado; até ser possível fazer uma segunda sfumata, espalhou-se a notícia de que um Papa tinha sido eleito a seguir a dois escrutínios apenas]. Mas tarde, foram adicionadas novas funcionalidades, que deveriam fazer o branco, branco, e o negro, negro; porém, nos conclaves de 1978, que elegeram João Paulo I e II, os problemas não tinham terminado: por mais de uma vez, a multidão foi levada a crer que o fumo era branco, saindo da praça irritada.

E num dos conclaves desse ano, uma corrente de ar descendente tinha reenviado o fumo para o interior da capela, obrigando os cardeais a sair, atacados de tosse e pieira. Em 2005, o fogão não dispunha de capacidade suficiente para reduzir a cinzas os 230 boletins dos escrutínios, além de todos os outros papéis, pelo que houve dois fumos negros na manhã do dia 19 de abril.

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À tarde, isto não constituiu problema, já que Bento XVI foi eleito no final de um único escrutínio, pelo que todos os papéis couberam; mas, mesmo nessa altura, durante algum tempo, ninguém soube ao certo se o fumo cinzento se destinava a ser branco ou negro. [O mundo recebeu a informação de que havia que esperar pelos sinos da basílica de São Pedro para se confirmar a eleição, só que não houve sinos durante mais de dez minutos devido a desentendimentos barrocos sobre quem telefonava e quem tinha autoridade].

Em 2013, ninguém estava disposto a correr riscos. Foi instalado um fogão suplementar, cujo único objetivo era gerar fumo. Ao seu lado, encontravam-se caixas de cartuchos de fumo assinaladas com fumo nero, e apenas uma assinalada com fumo bianco. Ao final da tarde de terça-feira e à hora de almoço de quarta-feira, o fumo negro expelido pelo rebentamento dos cartuchos foi sugado do fogão auxiliar pelo tubo estreito já quente fixado à parede da capela, subindo através do teto abobadado até jorrar pela pequena chaminé de aço do telhado observada por metade do planeta.

Ele saiu em abundância, o fumo, e aguentou-se uns bons sete minutos, ondulando com tamanho vigor que se esperava a todo o momento ouvir a sirene do carro de bombeiros. Com os olhos da comunicação social mundial presos àquela chaminé, a tensão da incerteza do anoitecer de quarta-feira contribuiu para um momento televisivo ímpar. Sobre as plataformas viradas para a praça, os comentadores tentavam arranjar explicações para a demora, enquanto os apresentadores arrastavam a fala, introduzindo pequenas pausas do tipo vivemos-um-momento-histórico para reforçar a expetativa. Era um sistema medieval, o conclave, mas ele podia ter sido concebido para a era das notícias 24 horas ao dia. Que outra organização global iria anunciar o seu líder desta maneira, através de sinais de fumo, com as notícias a chegarem a toda a gente, príncipes e indigentes, precisamente ao mesmo tempo? No interior, enquanto se preparava para o que descreveria mais tarde como a sua «mudança de diocese», Bergoglio estava tranquilo.

«Sou daqueles que fica preocupado, ansioso», confessou posteriormente aos membros das congregações religiosas da América-Latina. «Mas sentia-me em paz. Isso confirmou-me que se tratava de uma coisa de Deus.» Quando os escrutinadores disseram Eminentissimo Bergoglio pela septuagésima sétima vez, houve um suspiro coletivo — um aliviar de tensão, como o ar a sair de repente de um balão a esvaziar-se. Os cardeais levantaram-se a aplaudiram. «Acho que não havia ninguém na sala que não tivesse os olhos húmidos», recorda o cardeal Dolan. Foi então que o cardeal brasileiro Claudio Hummes, membro da ordem fundada por São Francisco de Assis, abraçou Bergoglio, beijou-o e disse-lhe: «Não se esqueça dos pobres.»

Os cardeais voltaram a sentar-se. Só depois de os 115 votos serem lidos em voz alta é que lhe seria perguntado se aceitava. Ele dispunha de alguns minutos. Não se esqueça dos pobres. A palavra poveri revolvia-se no seu pensamento, como um mantra para a meditação, até o nome surgir de repente no seu coração; Francisco de Assis, o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e cuida da criação. A contagem estava terminada: ele tinha recebido mais de noventa e nove votos. Nesse momento, o cardeal Giovani Battista Re estava junto dele com a Pergunta: ele aceitava a eleição canónica para Supremo Pontífice? Eram 7h05 da tarde quando Jorge Bergoglio proferiu “accepto”, no seu latim correto, acrescentando: “embora eu seja um grande pecador”.

Imperfeito, e no entanto chamado. Ele escutava de novo o convite do Rei Bom, e fazia uma escolha conforme Santo Inácio a descreve nos Exercícios, quando Deus nosso Senhor, move e atrai a vontade de tal modo que, sem duvidar nem poder duvidar, a alma devota segue o que lhe foi mostrado, como aconteceu com São Paulo e São Mateus quando seguiram a Cristo nosso Senhor. O seu primeiro «sim» tinha sido pronunciado há mais de meio século, no dia de São Mateus, num confessionário em madeira na Basilica de San José, em Flores. Desde esse «sim» até agora, a caminhada da sua vida tinha sido interligada por um fio, cujos nós eram desenredados por um poder suave e supremo.

Quo nomine vis vicari? «Que nome deseja escolher?», perguntou o cardeal Re.
Vocabur Franciscus. «Escolho o nome de Francisco», respondeu

Bergoglio com firmeza, «em honra de São Francisco de Assis». Os cardeais, atónitos, voltaram a dedicar-lhe um forte aplauso. Francisco foi conduzido à Sala das Lágrimas adjacente, para ser equipado com a batina e a cinta brancas, optando por conservar os seus velhos sapatos pretos e a cruz peitoral em prata. A capela foi aberta para dar entrada aos assistentes, os quais colocaram os boletins no fogão, a par do cartucho de fumo bianco. À medida que o fumo branco brotava da chaminé da Capela Sistina em direção à noite escura e chuvosa, um clamor elevava-se da praça. Em breve, os sinos imponentes da basílica começavam a tocar, misturando um efusivo dlim-dlão aos vivas da
multidão.

Ao regressar à capela vestido com a sua batina branca, Francisco foi recebido com novos aplausos dos cardeais. Trouxeram-lhe uma cadeira
ornamentada para ele se sentar a recebê-los, mas Francisco permaneceu de pé, enquanto os cardeais se dirigiam a ele, um a um, para o
abraçarem. Depois, consciente da multidão molhada que o esperava lá fora, ele começou a dirigir-se para a varanda. Antes de chegar lá, sentiu uma agitação de espíritos. «Estava dominado por uma grande ansiedade», recordou ele mais tarde. Ladeado pelo cardeal Hummes e o cardeal Agostino Vallini, o vigário para a cidade de Roma, Francisco entrou na Capela Paulina, conforme o mandavam as regras da eleição papal reformadas por Bento, e ajoelhou-se no último banco. «O medo da missão», dissera ele uma vez a um grupo num retiro, «pode ser um sinal do espírito bom».

«Quando reconhecemos que somos escolhidos, sentimos que o peso sobre nós é excessivo, e temos medo — em alguns casos, até pânico. Esse é o início da Cruz. Ao mesmo tempo, sentimo-nos profundamente atraídos pelo Senhor, que através do seu próprio chamamento nos seduz a segui-Lo com um fogo a arder no nosso coração.» Enquanto o mundo estava em suspenso, no interior da Capela Sistina, Francisco forçou-se a atingir um estado de recolhimento. Ali, na antecâmara da sua nova existência, ele reservou um momento para ser revigorado por uma força que não era a sua. Por fim, a agitação acabou por desaparecer e ele foi inundado pela alegria e serenidade. «Senti-me preenchido por uma enorme luz», recordou posteriormente. «Ela foi breve, mas pareceu durar muito tempo.»

Só Deus nosso Senhor pode dar consolação à alma sem causa precedente, escreveu Santo Inácio nas suas regras de discernimento para a Segunda Semana. Porque é próprio do Criador entrar e sair da alma, e causar moções nela, conduzindo-a integralmente ao amor de sua Divina Majestade. Monsenhor Dario Viganò, diretor da Televisão do Vaticano, cujo operador de câmara registava tudo para a posteridade numa câmara de alta resolução em 4k, descrevia o que via, à medida que as imagens eram retransmitidas para o seu carro de reportagem.

«O Papa percorre a Capela Sistina de olhos baixos, na companhia do cardeal Vallini e do cardeal Tauran [sic]. Continua a olhar para o chão; não saúda os cardeais, como se transportasse um fardo enorme. Ao entrar na Capela Paulina, já se encontra ali um trono preparado, mas ele não se senta no trono. Conduz energicamente os cardeais para o último banco, fazendo-os sentar junto dele, um de cada lado. Reza em silêncio. Decorreram uns momentos, e o Papa levanta-se. Dá meia volta, sai em direção à Sala Regia e, neste momento, ele é uma pessoa diferente. É uma pessoa que sorri. Como se tivesse confiado o fardo para que foi escolhido, como se Deus lhe dissesse pessoalmente, “Não
te aflijas. Eu estou aqui contigo”. Já não é uma pessoa abatida.O rosto dele deixou de estar inclinado para o chão. É um homem que olha e pergunta a si próprio o que tem de fazer.»

Desde então, Francisco tem confirmado este relato a muitas pessoas, dizendo a um cardeal que «sentiu uma grande paz interior e liberdade a descerem sobre mim, e que nunca me deixaram». E a outro, afirmou: «Acredito que o Espírito Santo me fez mudar.» A era de Francisco começou com um buona sera. Ele surgiu na varanda da basílica de São Pedro, às 8h22 da noite, ladeado pelos cardeais Hummes e Vallini, perante as 200 000 pessoas encharcadas pela chuva que estavam em baixo, e mais alguns milhões através da televisão. Nomeio da escuridão da praça, os telemóveis e os tablets piscavam como estrelas cintilantes.

Francisco falou tímida mas firmemente para o microfone, no seu italiano fluente. Dizendo a brincar que «os meus irmãos cardeais foram quase ao fim do mundo» para «dar um bispo a Roma», ele pediu que rezassem pelo «nosso bispo emérito Bento XVI» e guiou o mundo nas orações do Padre-nosso, da Ave-maria e do Glória ao Pai. Depois, disse-lhes: «E agora, vamos iniciar este caminho. Bispos e povo. Este caminho da Igreja de Roma que preside na caridade a todas a igrejas. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós.» Poucos identificaram a famosa fórmula antiga — «preside na caridade» — que descrevia a relação entre a Igreja Universal e a local, ou captaram as suas implicações: Francisco indicava que o seu pontificado ia empenhar-se no aprofundamento da colegialidade. A Grande Reforma acabava de ser anunciada.

Aquilo que a maioria das pessoas recorda melhor daquela noite foi o que aconteceu a seguir: Francisco a pedir «a bênção de um povo para
o seu bispo — a vossa oração por mim». O Papa curvou a cabeça num gesto de grande humildade, após o que se seguiu um silêncio gratificado. Daquele gesto tocante de reciprocidade nascia um laço duradouro. O novo Papa pedia para ser abençoado pelo santo povo fiel a Deus, antes de conceder a sua própria bênção urbi et orbi, à cidade de Roma e ao mundo, e a «todas as pessoas de boa vontade».

"O medo da missão pode ser um sinal de um espírito bom"
Papa Francisco

Francisco regressou com os seus eleitores para Santa Marta, rejeitando a limusina papal e optando por seguir com eles de autocarro.
Ao jantar, disse-lhes: «Que Deus os perdoe por aquilo que fizeram», afirmação que o cardeal Dolan refere ter «deitado a casa abaixo». No dia seguinte, o primeiro do seu pontificado, ele atravessou Roma num carro da polícia do Vaticano rumo à basílica de Santa Maria Maior, chegando ali pouco depois das 8h00 da manhã.

A basílica alberga a imagem mariana da Salus Populi Romani, protetora dos romanos, cuja autoria é atribuída a São Lucas. Depois de depositar ali um ramo de flores, Francisco permaneceu algum tempo numa capela onde Santo Inácio de Loiola celebrou a primeira missa em 1538. Em seguida, fez uma oração junto ao túmulo de São Pio V, o Papa do século XVI, cujo hábito dominicano deu origem ao uso tradicional da batina branca pelos papas.

No regresso ao Vaticano, fez uma paragem na Via della Scrofa para ir buscar a sua mala — subiu ao quarto e arrumou os seus pertences sozinho — e, Para espanto dos funcionários, pagou a conta, dizendo-lhes que cabia ao Papa dar o exemplo. Nessa tarde, celebrou uma missa com os cardeais eleitores, surpreendendo-os ao aparecer junto deles na Sala das Bênçãos para se paramentar, conforme tinha acontecido ao longo do conclave. Os mestres-de-cerimónia aglomeravam-se à sua volta com instruções sobre o que fazer e quando na sua primeira missa como Papa, mas ele dispensou-os, dizendo: «Está tudo bem, não precisam de se preocupar comigo. Já digo missa há cinquenta anos. Mas deixem-se ficar, caso eu venha a precisar de vocês.»

Durante a missa, ele fez a sua pregação no púlpito, de pé, como costumam fazer os padres das paróquias, e não sentado numa cadeira, conforme é apanágio dos papas; e em lugar de ler um texto preparado, falou de improviso num italiano perfeito, desenvolvendo o seu sermão de sete ou oito minutos, como sempre tinha feito, em torno de três pontos principais: a importância de caminhar, de edificar e de fazer a confissão. «Podemos caminhar o quanto quisermos, podemos edificar muitas coisas, mas, se não nos confessarmos a Jesus Cristo, algo corre mal», disse-lhes. «Podemos tornar-nos uma ONG, mas não a Igreja, a Esposa do Senhor.» Francisco citou ainda León Bloy, um francês radical convertido, que ele costumava ler com os seus amigos da Guardia de Hierro na década de 1970: «Quem não reza ao Senhor, reza ao diabo.»

Ao final do dia, deslocou-se às instalações papais — seladas desde a partida de Bento — na companhia do arcebispo Georg Gänswein, prefeito da casa pontifícia. Enquanto Gänswein ligava o interruptor às apalpadelas, Francisco descobria à sua frente uma gruta dourada: salas enormes com o chão em mármore e mobílias pesadas, no que parecia ser uma sucessão infinita. Reconhecendo em si um sentimento de desolação, ele apenas viu ali a solidão e o isolamento, decidindo nesse momento continuar a viver em Santa Marta, e utilizar as instalações para os encontros. Fez alguns telefonemas: ao seu dentista, em Buenos Aires, a cancelar a consulta, a Daniel del Regno, vendedor dos seus jornais [«É verdade, é o Jorge Bergoglio, estou a ligar de Roma»] para lhe agradecer os seus anos de trabalho, e à sua irmã María Elena, a única sobrevivente dos seus irmãos.

“Ele disse-me: “Olha, aconteceu e eu aceitei””, recorda ela.
“E eu perguntei-lhe: ‘Mas como estás, como te sentes?”
Ele ria às gargalhadas e dizia-me:
“Eu estou bem, não te preocupes.”
Depois, eu comentei:
“Estavas muito bem na televisão, tinhas uma expressão radiante. Quem me dera poder abraçar-te”.
E ele respondeu: “Nós estamos a abraçar-nos, estamos juntos, e tenho-te junto ao meu coração”.
“Não é fácil explicar o que se sente ao falarmos com o nosso irmão, e ele é o Papa”, recorda María Elena, entre risos e lágrimas.
“Es muy complicado.”
No dia seguinte, Francisco teve um encontro com o Colégio de Cardeais completo, incluindo os não-eleitores, na Sala Clementina.
Quando o cardeal Murphy-O’Connor se aproximou, Francisco abraçou-o e advertiu-o com o dedo, dizendo: “A culpa é sua! O que é que me foi fazer?”

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Helena Matos
904

Beija-mão presidencial ao Papa em Monte Real. Um primeiro-ministro a brincar às amas. O país olha para o lado. E indigna-se com o "Correio da Manhã". É a propaganda, senhores. É a propaganda.

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