Canção a canção: tudo o que queria saber sobre a Eurovisão e tinha vergonha de perguntar

10 Maio 20175.505

Alexandre Borges viu a gala a partir do sofá e chegou à melhor das conclusões: Salvador Sobral, ou a razão de voltar a ver o Festival da Eurovisão mais de 20 anos depois. Uma crónica canção a canção.

Somos daqueles que deixaram de ver o Festival RTP da Canção e seu nirvana, Eurovisão, nos idos de 90. Foi ali algures entre a Lúcia Moniz e a maioridade. Naquele tempo, o festival era o acontecimento televisivo do ano: toda a família se reunia no sofá para assistir, escolher as suas canções favoritas e acabar, inevitavelmente, a perorar sobre a teoria da conspiração segundo a qual a Maria Guinot só não tinha ganho por causa de “interesses”. Entretanto, passaram mais de 20 anos. Os novos talentos musicais são arrancados do berço e revelados ao mundo como pequenos budas a cada novo talent show e a popularidade do eurofestival relocalizou-se entre a comunidade gay e a Europa de Leste.

Até que qualquer coisa diferente aconteceu. A RTP acreditou na ressurreição do conceito, encomendou as canções a compositores consagrados e, da combinação, surgiu um rapaz de nome Salvador Sobral, a cantar uma pequenina pérola orgulhosamente anacrónica chamada “Amar pelos Dois”. Limpou o Festival da Canção e até os adversários pareciam felizes por ele, varreu as redes sociais e, pelos vistos, continuou por aí afora a arrebatar casas de apostas e imprensa da especialidade.

E foi assim, amigos, que volvidas duas décadas e em noite de meia-final da Liga dos Campeões, demos por nós no sofá a assistir à Eurovisão. Era a edição 62, primeira de duas meias-finais com 18 concorrentes cada, de onde 10+10 sairiam rumo à final, sábado, 13 de Maio. Aconteceu assim…

20 horas: Começa o espectáculo em Kiev. Palco circular e a malta de pé. Se, por acaso, ganharmos isto e trouxermos o festival para Portugal, já não o podemos organizar no Casino Estoril. Ninguém se senta; o público está de pé e vai sendo varrido pelas câmaras em mergulhos de grua e travellings para lá dos limites de velocidade. É um festival de Verão, mas só em néons. José Carlos Malato e Nuno Galopim fazem os comentários para Portugal, enquanto três – três – anfitriões masculinos conduzem a cerimónia no local. O slogan do festival, escrito por toda a parte, clama: “Celebrate Diversity”. “Celebrar a Diversidade”. Dá vontade de rir, como se verá.

Depois da actuação de Monatik, super-estrela local e uma espécie de Justin Timberlake ucraniano, começa o desfile. Façamos isto à antiga, numerado e tudo, esperando que, na sua cabeça, todo este texto passe em voz de Eládio Clímaco:

Canção nº 1: Suécia, “I Can’t Go On”, canta Robin Bengsston

Trata-se de uma espécie de Ken a quem nem se deram ao trabalho de pôr pilhas novas. Tem bateria para dançar, mas já não chega para mover os músculos do rosto. É acompanhado por quatro bailarinos, todos homens, que dançam como quem está na passadeira do ginásio. Robin diz que já não pode e nós também não. Mexe tanto no casaco que talvez se trate de um anúncio ao fato. Nunca chegam, porém, a dizer o preço.

Canção nº 2: Geórgia, “Keep the Faith”, canta Tamara Gachechiladze

Tamara apresenta-se num belo vestido vermelho saído talvez de 1985, isto é, alguns anos depois do seu penteado. O tom épico-dramático com qualquer coisa de banda sonora de James Bond na melodia e nos arranjos contrasta com a letra supostamente esperançosa: “Keep the Faith / Remember you’re not alone / Hold my hand / And come along”. A originalidade manda beijinhos.

Canção nº 3: Austrália, “Don’t Come Easy”, canta Isaiah

Sim, caro leitor. Há realmente muito tempo que não víamos o Festival. Naqueles tempos remotos, aconteciam coisas estranhas como a Eurovisão ser, imagine, um concurso para países europeus. Agora, não. Agora, entra malta da Austrália, que, como sabemos, é praticamente já ali, a seguir a Ponte de Lima. O representante é um rapaz de 17 anos que parece uma menina de 13 e canta como um homenzarrão de 40. Quando é bom, soa a James Blake; quando é mau, desafina e lembra-nos que devia era estar a estudar para o teste de Métodos Quantitativos e deixar esta brincadeira para os adultos.

Canção nº 4: Albânia, “World”, canta Lindita

A Lindita será boa moça, mas não se decidiu entre vir mascarada de noiva ou de patinadora no gelo. A canção é uma banalidade sobre deixarmos que o amor nos una – e a Lindita, quando diz a palavra “amor”, faz um coraçãozinho com as mãos. Lindita vai andando por ali enquanto os músicos tocam e, de vez em quando, cruza-se com a nota.

Canção nº 5: Bélgica, “City Lights”, canta Blanche

Se Lindita entrou no “American Idol” da terra dela, Blanche foi ao “The Voice”. É obviamente uma versão belga de Florence Welch, o que a torna instantaneamente na coisa mais interessante que vimos até agora e, ao mesmo tempo, em nada do outro mundo.

Canção nº 6: Montenegro, “Space”, “canta” Slavko Kalezic

Slavko apresenta-se de longa trança, saia e camisolinha de renda a mostrar os músculos. Basicamente, parece o fruto do amor proibido entre a Conchita da Áustria e um Dothraki da “Guerra dos Tronos”. O tema é disco sound para saunas e ginásios; o Slavko é que peca um bocadinho ao nível do ter de cantar.

Canção nº 7: Finlândia, “Blackbird”, cantam os Norma John

Os Norma John são uma senhora que canta e um senhor que toca piano. Quão longe estamos dos Lordi, finlandeses que espatifaram isto tudo vai uns anos, com heavy-metal para viquingues. É uma cançãozinha suave, que escorre imediatamente memória abaixo. Armando Gama, que é feito de ti? Lembramo-nos dele ao ver o finlandês tocar piano e pensando no salero que lhe falta; na Valentina Torres que não tem.

Canção nº 8: Azerbaijão, “Skeletons”, canta Dihaj

Dihaj não é agradável à vista e vem acompanhada por um senhor com cabeça de cavalo, empoleirado num escadote, que tanto pode estar a dançar como a ter um ataque epiléptico. Mas há atitude no modo como canta e uma certa integridade no modesto cenário que trouxe e plantou à frente do palco de ficção científica que, até agora, ninguém mais tinha recusado.

Canção nº 9: “Amar pelos Dois”, canta (digam todos) Salvador Sobral

Salvador é tão quilometricamente o melhor que por aqui passou que é difícil saber por onde começar. É claro que se achará sempre que estamos a ser parciais, mas que fazer? O único – leiam bem: único – concorrente a cantar na própria língua (foi você que disse “Celebrar a Diversidade”?), que borrifou no inglês e nas coreografias e nos beats de ginásio e de discoteca, arrasa esta grande aula de step com a delicadeza de algo tão simples como uma canção, um poema e a intenção autêntica de tocar alguém. A figura nada óbvia de Salvador, nem na aparência, nem na interpretação, põe a sala em silêncio e, por uma vez, não há voos rasantes de câmara: só a voz, no fino fio de quase desaparecer para logo regressar volteando, o piano e o violino. A técnica e a música contra a produção em esteroides de quase tudo o resto. Quando termina, é abafado por uma ovação. “Muito obrigado”, diz, ainda em Português. É um grande momento e já justificou tudo. Voltar a ver a Eurovisão mais de 20 anos depois, não estar a ver a meia-final da Champions, isso tudo.

Canção nº 10: Grécia, “This is Love”, canta Demy

Aparentemente, a organização reservou este cantinho para as economias problemáticas. Demy é uma miúda bonita e tem uma racha no vestido que quase nos distrai do desafino com que abre a canção. Em volta dela, dançam dois tipos de fralda. O mundo precisava tanto de mais uma cançãozinha destas como a China de mais um chinês.

Canção nº 11: Polónia, “Flashlight”, canta Kasia Mós

Não sabemos o que Trump lançou no Afeganistão; Kasia é que é a mãe de todas as bombas. E também sabe cantar. Sai um vozeirão inesperado daquela silhueta curvilínea. No palco, lê-se “Freedom”, não sabemos para quem, mas, se Kasia diz que sim, nós apoiamos.

Canção nº 12: Moldávia, “Hey Mamma”, cantam os Sunstroke Project

O tema mais alegre e dançante da noite, interpretado por três rapazes que têm aplicado aquele mesmo produto que fez do Abel Xavier a cabeça mais platinada do futebol português. Um canta, outro toca violino, outra brilha no saxofone. Atrás, um coro de três noivas que acabam a actuação lançando os bouquets à plateia. Apesar de tudo, do melhorzinho até agora.

Canção nº 13: Islândia, “Paper”, canta Svala

Svala é uma experiente cantora islandesa que é jurada no “The Voice” da ilha. Na sua fatiota – branco total, com capa, decote tapado à última da hora com vinil por causa de alguma corrente de ar e plataformas de 30 centímetros – lembra-nos que vários dos participantes deste certame se têm apresentado como pessoas que perderam o casting para figurantes no próximo filme de super-heróis da Marvel. A música? Não temos a certeza, mas julgamos que era Svala a dizer qualquer coisa sobre destruir o mundo — muah-ah-ah.

Canção nº 14: República Checa, “My Turn”, canta Martina Bárta

Enquanto Malato partilha connosco que foi muito feliz na República Checa e nós nos coçamos, Martina apresenta-se num fato próprio de quem veio para lidar com resíduos tóxicos. Na projecção, há de novos tipos a dançarem de fralda – aparentemente, uma maldição ucraniana qualquer. O tema é um baladão de piano absolutamente visto, mas que sempre tem o condão de fugir ao tom hiper-produzido de quase tudo o resto nesta noite.

Canção nº 15: Chipre, “Gravity, canta Hovig

Hovig é uma mistura de Ben Affleck com Ricky Martin, mas em mais badocha. Ganhou o “Factor X” do Chipre e vem cá para mais uma aula de ginásio. Apresenta dois bailarinos, rimas vistas e a batida do costume – estranhamos não ver a Bimby entre os nomes dos compositores. Mas Hovig tem uma farta cabeleira. Poderá sempre tentar uma carreira nos anúncios a tónicos capilares.

Canção nº 16: Arménia, “Fly with Me”, canta Artsvik

Uma rapariga sem decote nem bailarinos de fralda – uma raridade. Só por isso, já conquistou o nosso respeito. A canção – mais uma pop electrónica e a enésima com um título batido – tem ao menos o condão de levar um travo étnico qualquer. O refrão é fácil de acompanhar: qualquer coisa como “Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”.

Canção nº 17: Eslovénia, “On my Way”, canta Omar Naber

Omar tem ar de bom rapaz e canta uma musiquinha saída da Disney. Veste o fato da primeira comunhão que foi à lavagem errada e ficou cheio de borbotos brilhantes. A letra é mais um portento de originalidade sobre a luz que te há-de guiar pela noite.

Canção nº 18: Letónia, “Line”, cantam os Triana Park

O cortejo termina, por fim, com esta tema interpretado por uma rapariga com ar de cabeleireira dos subúrbios de uma qualquer grande cidade dum planeta hostil. A canção é mais uma popzinha electrónica inofensiva, igual a tudo o mais, que a moça esganiça no refrão como quem quer ficar com o lugar do Nuno Matos a gritar golo na Antena 1. À medida que se solta, a personagem adquire contornos mais nítidos. É, na verdade, uma amazona da Brandoa que agita o seu microfone de pé cor-de-rosa, fazendo temer pela segurança das pessoas em volta. Felizmente, tudo termina sem vítimas a lamentar.

E pronto. No nosso tempo, seguir-se-ia o longo périplo de chamadas para ouvir os jurados de todos os países darem as suas votações, expressando-se no melhor inglês ou francês que podiam e sempre com muito som ambiente. Hoje, nesse admirável mundo da Eurovisão do século XXI, tudo é ágil e enxuto. A parte das variedades – belo termo que se perdeu mais ou menos na época dos Da Vinci, ou quem sabe, duns Nevada – tem a duração mínima obrigatória para que os telespectadores façam o seu voto através de chamadas de valor acrescentado. Canta Jamala, a vencedora do ano anterior, e dá-se um cheirinho de três das canções directamente apuradas para a final: a espanhola (UB40 em versão nuestros hermanos, mas até eles cantando em inglês), a britânica e a favoritíssima italiana, “Occidentali’s Karma”, que envolve um tipo com ar de Rodolfo Valentino e um gorila.

Minutos depois, vinha o veredicto: os apresentadores anunciavam uma a uma, e sem ordem particular, as dez apuradas para a final. E lá estava Salvador, como só podia estar, levando Portugal de regresso ao dia decisivo da Eurovisão, aonde não chegávamos desde 2010. Com ele, vão os noivos da Moldávia, a durona do Azerbaijão, o Ken da Suécia, a moça da Grécia, a bomba da Polónia, a senhora do “Iiiiiiiiii” da Arménia, o puto da Austrália, o Ben Affleck do Chipre e a Florence Welch da Bélgica. Será a 13 de Maio, dia em que o Papa vem a Portugal, está um milhão de pessoas em Fátima e pode haver novo campeão nacional de futebol.

Salvador é, até ver, muito melhor do que todo aquele mundo higienizado de fórmulas musicais e suplementos de proteínas, vergonhosamente normalizado em língua inglesa e em que forma e conteúdo competem pelo topo do ranking da vulgaridade. Será que a Eurovisão o vai reconhecer ou ainda mandarão os “interesses” que, segundo os nossos pais, impediram a vitória estrondosa de Maria Guinot tantos anos atrás? Não sabemos. Sabemos que há muito tempo não se falava de Maria Guinot na imprensa nacional. E só por isso esta noite já valeu a pena.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).

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