Cinco livros, cinco teorias: quem matou JFK?

26 Outubro 2017

Quando estão prestes a ser revelados os últimos documentos da investigação sobre a morte do Presidente Kennedy, Miguel Freitas da Costa lembra cinco títulos escritos com base em outras tantas teorias.

É uma das mortes mais mediáticas de sempre. Porque foi vista em directo na televisão; porque até hoje o(s) autor(es) e as razões do homicídio continuam por esclarecer por completo; e porque foi o assassinato de John F. Kennedy, Presidente dos EUA morto a 22 de Novembro de 1963 em Dallas, no estado do Texas. Há filmes sobre o acontecimento, há investigações e conclusões distintas. Os arquivos nacionais dos Estados Unidos vão divulgar os últimos 3100 documentos da investigação sobre o assassinato de JFK que estavam sob segredo de Estado. E a propósito desta revelação, recordamos cinco livros escritos com base em teorias diferentes.

Será desta que sabemos quem matou Kennedy?

“The Warren Report”

1964

Contam-se por milhares os livros publicados sobre o assassinato do Presidente Kennedy em 22 de Novembro de 1963. Mas este é em muitos sentidos a “mãe” de todos eles – que na sua maior parte contestam as suas conclusões. Poucos quiseram acreditar nas conclusões oficiais de que o Presidente fora assassinado por Lee Harvey Oswald e que este agira completamente sozinho; ou que Jack Ruby actuara por sua conta e risco quando assassinou Oswald dois dias depois.

The Warren Report, 1964

Na medida em que suscitou enormes controvérsias e exacerbou as sempiternas suspeitas sobre a actuação e o papel das instituições e das “agências” governamentais, pode dizer-se que esteve também na origem das inúmeras “teorias da conspiração” que desde então passaram a proliferar a respeito de tudo e de nada e tiveram expressão não só na investigação jornalística como também na ficção literária, cinematográfica e televisiva. São exemplo disso filmes como “The Parallax View” (“A última testemunha”, Alan Pakula, 1974) ou, muito mais recentemente, “Shooter” (“O atirador”, Antoine Fuqua, 2007), para não falar do delirante “JFK” de Oliver Stone (1991).

O “Relatório” tem cerca de 900 páginas. Foi entregue em Setembro de 1964 ao Presidente Johnson e tornado público uns dias depois. O nome familiar de Warren Report, como o de Warren Commission para designar The President’s Commission on the Assassination of President Kennedy, vem-lhe do juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que presidiu à Comissão, Earl Warren, cuja reputação de integridade e de homem de impecáveis credenciais progressistas nunca mais foi a mesma.

“Oswald’s Tale: An American Mystery”

Norman Mailer, 1995

Não interessa provavelmente a ninguém, mas quero confessar um fraco especial pelo Mailer da chamada “não-ficção”. Sempre me impressionaram mais as suas “grandes reportagens” como The Armies of the Night ou Miami and the Siege of Chicago, bem como os ensaios ou as peças jornalísticas de Adverisements for Myself, etc., do que a sua ficção (abro uma enorme excepção para Harlot’s Ghost, um dos grandes romances contemporâneos). O Oswald’s Tale está a meio caminho entre a ficção e a não-ficção. É a biografia romanceada e em grande parte imaginada de um pobre diabo desejoso de consideração social, que o destino colocou na posição de “instrumento da história”. Veio na esteira de outro livro de Mailer, bastante mais bem recebido pela crítica, The Executioner’s Song, de 1979, (“A canção do carrasco”), Prémio Pulitzer.

“Oswald’s Tale: An American Mystery”, Norman Mailer, 1995

Mailer escreveu muito sobre Kennedy e manifestou-se muitas vezes sobre o assassinato do Presidente. Num longo artigo relativamente recente, Mailer inclina-se para aceitar a tese oficial sobre os acontecimentos de Novembro de 1963. Diz ele que passados tantos anos sobre os factos, uma conspiração que teria exigido a intervenção ou cumplicidade de milhares de pessoas já teria sido há muito posta a nu – se houvesse a revelar alguma coisa de muito diferente do que se sabe. Mas as pessoas resistem a aceitar que o seu “Príncipe Artur” daquele Camelot moderno tenha sido vítima de um “acidente” e não de uma gigantesca e sinistra conjura. Toda a gente diz de certas mortes fortuitas que são “estúpidas” – e são normalmente aquelas a que mais custa conformar-se.

“Winter Kills”

Richard Condon, 1974

Que eu saiba, dos muitos romances – e alguns muito notáveis – de Richard Condon só foi traduzido e publicado em Portugal O candidato da Manchúria. Saiu na América em 1962, no ano anterior ao “magnicídio” – como dizem nuestros hermanos; tem no entanto muito a ver com teorias da conspiração e com os bas-fonds – ou mais polidamente “bastidores” – da política americana. O filme de John Frankenheimer tirado desse livro foi estreado nos Estados Unidos ainda em 62; em França, diga-se a título de simples curiosidade, estreou no dia seguinte ao assassinato de Kennedy. Em 2004 foi realizado um remake intitulado em Portugal “O candidato da verdade”: a Guerra do Golfo tomava o lugar da Guerra da Coreia e os malvados interesses puramente políticos são aqui substituídos pelos malvados interesses impuramente comerciais.

“Winter Kills”, Richard Condon, 1974

Winter Kills tem uma trama ficcional que alude sem grande disfarce ao assassinato de JFK. É a história de um conluio para o assassinato de um Presidente dos Estados Unidos, em que a própria família conspira. Sabendo-se que Robert Kennedy, foi Procurador-Geral da República entre Janeiro de 1961 e Setembro de 1964 (mês e ano em que saiu o “Relatório Warren”) e foi durante este mandato do Senador “Bobby” Kennedy que o irmão foi assassinado – se encobrimento de alguma coisa houve é difícil perceber como é que o poderoso Attorney General não tinha de ser cúmplice.

O título vem de uns versos que servem de epígrafe e são atribuídos a um imaginário “Manual das Lamentações” ou das carpideiras (The Keener’s Manual) e dizem: “A Primavera seduz, o Verão empolga, o Outono sacia, o Inverno mata”).

“Case Closed”

Gerald Posner, 1993

Este livro do jornalista Gerald Posner tem como subtítulo “Lee Harvey Oswald and the Assassination of JFK”. Uma das suas “novidades” é, como sublinha o subtítulo, a importância que dá ao estudo do assassino, esse Oswald esquecido na maior parte dos estudos mais recentes. Por outro lado, constitui em grande parte um catálogo raisonné das teorias conspirativas que até ao momento da sua publicação vicejavam e que ele pacientemente e, a meu ver, bastante convincentemente, desmonta: Mark Lane, Anthony Summers ou Jim Garrison, são alguns dos críticos do “Relatório Warren” cujas teses e argumentos Posner contradiz.

“Case Closed”, Gerald Posner, 1993

Como ele próprio diz, no seu prefácio, “Durante as três décadas passadas, têm sido levantadas centenas de questões acerca do assassinato. Poucos livros lhes dão resposta. Nenhum volume pode por si só tratar todas as alegações apresentadas. No entanto, pode descobrir-se a verdade do caso consultando os documentos e testemunhos originais e entrevistando os envolvidos.”

Seja como for, ainda há documentos por conhecer. Em 2003, Posner assinava, ao lado, por sinal, de Anthony Summers, por exemplo, de Don De Lillo, de Norman Mailer e de outros, uma petição para a divulgação de certos documentos relevantes sobre um agente da CIA. Foi publicada em The New York Review of Books em Dezembro desse ano e era encabeçada por G. Robert Blakey, antigo General Counsel do House Select Committee on Assassinations. Não sei qual foi o resultado dessa petição. É de assinalar que quarenta anos depois do assassinato, ainda era preciso “ajudar a restaurar a confiança pública”, como lá se lê.

“Libra”

Don de Lillo, 1988 (“Libra”, Presença, 1989)

Este romance do celebrado escritor não é uma das suas obras literariamente mais importantes. Mas a sua teoria ficcional, com personagens reais, sobre o que se passou em Novembro de 1963 é das mais engenhosas e verosímeis. Sem querer estragar a surpresa a nenhum eventual novo leitor do livro, direi apenas que Oswald desempenha na história o papel de “idiota útil” e bode expiatório – embora não inocente. A conjura para atentar contra o Presidente é num primeiro nível relativamente linear nas suas motivações e objectivos mas tem um segundo plano mais sombrio: é a distância entre uma “provocação” que para ter êxito teria de ser incruenta e uma vendetta mortal.

“Libra”, Don DeLillo, 1989

Como diz o autor de Case Closed, o assassinato de Kennedy tem sido imputado aos mais diversos autores, uma “miríade de suspeitos”, muitos deles os do costume, “incluindo a CIA, os cubanos anti-castristas, o FBI, a Máfia”. (Diga-se de passagem que um dos escândalos mais chocantes da Presidência de JFK, absolvido como tantos outros pelo coro dos inúmeros hagiógrafos, foi a sua ligação a uma mulher que era também amante do capo mafioso Sam Giancana.) Chegou a insinuar-se que um dos mandatários poderia ter sido o próprio Johnson, como sugeria a sátira teatral de Barbara Garson Macbird, de 1966.

É no mundo dos cubanos anti-castristas que se passa a acção principal de Libra. Há quem alegue que foi ocultada, de facto, parte da informação sobre os contornos do atentado – mas não era parte de uma conspiração contra o Presidente; era apenas para preservar os Kennedy da revelação da sua responsabilidade em certas actividades clandestinas e ilegais contra o regime cubano.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site