Colson Whitehead: “Memórias da vida de escravo não entram para os livros de História”

21 Outubro 2017

Sete livros depois, Colson Whitehead ganhou finalmente coragem para escrever a história que sempre quis contar. A viagem de Cora a caminho da liberdade valeu-lhe o Pulitzer Prize em 2017.

Passaram 17 anos desde que Colson Whitehead se apercebeu que a história da “estrada subterrânea”, uma rota secreta que era usada pelos escravos para escaparam dos estados esclavagistas do sul, no século XIX, que leu nos livros da escola, dava um bom romance. Só que, sempre que pensava nisso, apercebia-se que ainda não estava preparado para o escrever. Até que tomou coragem e começou a escrever as primeiras linhas de A Estrada Subterrânea, romance que o atirou para as luzes da ribalta e o levou a conhecer Oprah Winfrey, que o convidou para passar lá por casa.

Até A Estrada Subterrânea ser publicado, Colson Whitehead era um perfeito desconhecido para a maioria dos leitores do outro lado do Atlântico. Com uma lista longa de obras publicadas, desde o romance ao ensaio, passando pela não-ficção, foi só com o seu último romance, que conta a história de Cora, uma jovem escrava que trabalha numa plantação de algodão da Geórgia, e da sua luta pela liberdade, que o nome do norte-americano começou a aparecer nos jornais de todo o mundo.

O livro valeu-lhe, entre outros, o National Book Award e o Pulitzer Prize de Ficção. Foi um ainda dos nomeados para o Man Booker Prize de 2017 e chegou mesmo a ser apontado como um dos favoritos, só que o galardão acabou por ser atribuído a George Saunders e ao seu primeiro romance, Lincoln no Bardo. A edição portuguesa de A Estrada Subterrânea chegou no passado mês de setembro, com chancela da Alfaguara, e foi a esse propósito que conversamos com o autor, de passagem por Lisboa.

A edição portuguesa d’A Estrada Subterrânea foi publicada em setembro, pela editora Alfaguara

No século XIX, nos Estados Unidos da América, havia uma rota secreta que era usada pelos escravos para fugirem dos estados esclavagistas do sul para o norte do país e para o Canadá. Chamava-se “a estrada subterrânea”. No seu livro, o Colson transformou esta “estrada” num caminho-de-ferro a sério. Como é que teve essa ideia?
Quando somos pequeno e ouvimos falar pela primeira vez na “estrada subterrânea”, imaginamos literalmente um comboio. É uma noção infantil. Há 17 anos, pensei em como é que podia transferi-la para um livro, que história é que podia tirar dali, e adicionei rapidamente o elemento de que em que cada estado é uma América alternativa diferente. Pareceu-me uma boa ideia, mas não consegui concretizá-la na altura.

17 anos é muito tempo.
Sim, é muito tempo.

E porque é que só agora é que conseguiu concretizar essa ideia?
Bem, sempre que terminava um livro pensava “será que estou pronto?”, e a resposta era sempre “não”. Mas a ideia nunca desapareceu, permaneceu sempre lá ao longo de todos estes anos. E, finalmente, parei de adiar. Às vezes, parece que o livro mais assustador é aquele que devemos fazer. Estava a trabalhar num livro sobre jornalismo, sobre a Era da Internet, sobre um escritor em Brooklyn… E depois pensei: “Consigo fazer isto. Se o fizer fico a saber se o consigo escrever ou não”.

Foi tão difícil quanto imaginava?
Todos os livros são difíceis, quer estejamos a escrever sobre nós próprios — o meu livro Sag Harbor [de 2009] é sobre crescer nos anos 80 –, inventemos tudo ou estejamos a escrever um romance histórico.

"A ideia nunca desapareceu, permaneceu sempre lá ao longo de todos estes anos. E, finalmente, parei de adiar. Às vezes, parece que o livro mais assustador é aquele que devemos fazer."
Colson Whitehead

A ideia que tinha inicialmente mudou muito com o passar dos anos?
A premissa é a mesma. Não tinha uma personagem principal, mas tinha os diferentes estados — o estado da utopia negra, a quinta Valentine, o estado supremacista. Tinha apenas essas duas ideias, a de transformar uma metáfora em algo literal e a de depois ter as Américas alternativas, sítios para onde podíamos ter ido, episódios históricos com os quais podia jogar.

Apesar do enredo ser ficcional, existe essa tal realidade histórica que serve de pano de fundo a tudo o resto. Isso obrigou-o a fazer algum tipo de pesquisa?
Menos do que possa imaginar. Recorri sobretudo a fontes primárias, a narrativas de escravos, como Frederick Douglass [um antigo escravo norte-americano que lutou pelo fim da escravatura], que é muito conhecido, Harriet Jacobs, [uma antiga escrava] que escreveu sobre o drama das escravas. Foi por isso que, em parte, escolhi uma protagonista. Nos anos 30, durante a Grande Depressão, o Governo norte-americano contratou escritores para registar as histórias de vida de antigos escravos, pessoas com 70 e 80 anos, antes que eles morressem. Memórias da vida de escravo não entram para os livros de História — o que é que eles comiam, quantas horas trabalhavam, quando é que era o dia de folga, se era no domingo…. Todas as estas coisas pequenas, que espero que façam o livro parecer realista, vieram das histórias destas pessoas.

A luz dos escravos de Colson Whitehead

Como é que foi ler essas histórias, contadas na primeira pessoa, que falam da violência e sofrimento que faziam parte do dia-a-dia de muitos escravos?
Como muitos miúdos na América, a minha introdução [ao tema] foi ver a série “Roots” [de 1977]. Depois fui para a faculdade e estudei História. Mas, quando somos mais crescidos e temos filhos, é que nos apercebemos da verdadeira dimensão e da devastação que a escravatura causou, de uma maneira que não conseguimos fazer quando somos mais novos. Apesar de ter decidido que ia ter um elemento fantástico neste livro, e que ia mexer nalgumas coisas, em relação à Geórgia, quis contar as coisa tal como elas aconteceram. Queria ter uma plantação como as das histórias orais — violenta, brutal e sombria, de certa forma.

Porque a realidade era essa, não tinha nada de bonito.
Não, não era como no “E Tudo o Vento Levou”. Era muito pior.

Falou no elemento fantástico que fez questão de integrar. Nesse aspeto, A Estrada Subterrânea faz lembrar um pouco As Viagens de Guliver, de Jonathan Swift. A estrutura é muito semelhante. Li nalgum lado que foi um dos livros nos quais se inspirou.
Nem tanto. Quando estava a escrever o livro, costumava dizer aos meus amigos que era sobre uma América alternativa e eles diziam que isso parecia estúpido. E depois eu dizia: “É como as Viagens de Guliver”. “Ah, já percebo!” Era difícil descrevê-lo às pessoas, é por isso que o refiro no livro. Mas acho que a estrutura vem do tempo da Odisseia, onde há um herói que é testado e que embarca numa série de aventuras a caminho de casa, a caminho da liberdade. N’As Viagens de Guliver, na Odisseia, neste livro, cada novo episódio é como um novo começo, com novas personagens e novas situações das quais a personagem tem de sair. É uma estrutura antiga.

Antes de A Estrada Subterrânea, escreveu apenas um romance com uma mulher como personagem principal. Porque é que escolheu uma mulher para esta história?
Harriet Jacobs, que já referi, escreveu sobre como as mulheres eram vítimas de uma forma de escravatura ainda mais terrível. Era suposto terem mais bebés, porque bebés significava mais escravos, mais propriedade. Ter um bebé era ter dinheiro. Era um inferno diferente daquele que viviam os homens, é outra forma de exploração. E como nunca tinha explorado a dinâmica mãe-filha, também achei que devia tentar isso. Além disso, tinha tido vários heróis seguidos, então achei que não queria voltar a fazer a mesma coisa. Foi assim que surgiu a Cora.

"Harriet Jacobs escreveu sobre como as mulheres eram vítimas de uma forma de escravatura ainda mais terrível. Era suposto terem mais bebés, porque bebés significava mais escravos, mais propriedade. Ter um bebé era ter dinheiro. Era um inferno diferente daquele que viviam os homens."
Colson Whitehead

Cora é diferente de todas as outras mulheres da plantação. Uma das coisas que a distingue é o facto de ter um pequeno terreno, que tinha pertencido à sua avó e depois à sua mãe. Porque é que aquele pedaço de terra é tão importante para ela?
Quando não temos nada, a coisa mais preciosa é aquela coisa pequena que nos permitiram manter. É por isso que as pessoas lutam por aquele terreno na plantação. Ela tem a sua propriedade, e é a essa coisa que ela se agarra. Tentei perceber a personagem, tentei entrar na cabeça de um escravo daquele tempo, alguém que tinha coragem para fugir. A defesa da sua propriedade foi um momento decisivo para mim enquanto criador, porque exemplifica como ela reage noutras situações.

É por ser diferente que teve coragem para fugir?
Poucas pessoas escaparam. É preciso ter coragem para fugir, para ficar com a família. Ela é única. É uma desajustada. Com o Hob [um lugar na plantação para onde são enviados os doentes], tentei pensar na nossa sociedade e naquilo que fazemos com as pessoas que não encaixam, os iconoclastas, os deficientes. Rejeitamo-los, metemo-los em asilos, exilamo-los. Então, o Hob torna-se num sítio para onde vão todas as mulheres que não encaixam na plantação, que é o que fazemos na sociedade.

A Cora foi a única que conseguiu escapar.
E o Caesar.

Sim, mas a história dele não tem propriamente um final feliz…
Nos estados mais a sul, como a Geórgia ou a Florida, se um escravo fugisse, era condenado à morte, por isso era preciso ter uma personalidade especial.

Foi por isso que Cora conseguiu alcançar a liberdade? Porque tinha esse tipo de personalidade?
Talvez [risos]!

E porque é que Caesar quis fugir com ela? Suponho que não fosse apenas por causa da mãe dela, apesar de ela falar constantemente nisso.
Não, ela acha que ele acha que ela dá sorte. Ele reconheceu nela aquela qualidade, aquele heroísmo. O que a torna uma excluída é o que acaba por salvá-la, e ele percebe isso.

A Oprah disse que A Estrada Subterrânea “informava sobre um tempo que criou muita da tensão racial que ainda existe”. Concorda com ela?
[O livro] fala de raça e da supremacia branca e, se olharmos para a América, vemos que acabámos de eleger um presidente que é um supremacista branco. A discriminação, o preconceito, a opressão, continuam a ser, obviamente, forças muito poderosas na sociedade norte-americana e em todo o mundo.

"A discriminação, o preconceito, a opressão, continuam a ser, obviamente, forças muito poderosas na sociedade norte-americana e em todo o mundo."
Colson Whitehead

Por falar em Oprah: qual foi a sua reação quando descobriu que a Oprah Winfrey tinha escolhido o seu livro para integrar o seu clube de leitura?
Foi uma sorte. Ela tem aquele clube de leitura desde que comecei a escrever e nunca pensei que um dos meus singelos livros iria entrar para a lista dela. Muita gente acredita nela e no seu patrocínio. Algumas pessoas que pegaram no livro e pensaram “oh, isto parece estúpido” deram-lhe uma segunda oportunidade porque ela chamou a atenção para ele. Tive muita sorte, pude conhecê-la. Ela tem uma propriedade enorme em Santa Barbara [na Califórnia]… Sabe como é, um dia estamos a escrever um livro e no outro estamos a passear com a Oprah na sua mansão gigantesca.

A verdade é que tem recebido muita atenção graças a este livro. Recebeu vários prémios, incluindo o Pulitzer Prize. Como é que tem vivido tudo isto?
Normalmente acordava meio deprimido, agora acordo bem disposto. Este tipo de sucesso acontece uma vez na vida. Mas vou continuar a escrever livros e a fazer o melhor que consigo. No que diz respeito à reação dos leitores, dos críticos, em todo mundo, é uma coisa muito rara. Sinto-me um sortudo e o meu humor melhorou imenso.

A Estrada Subterrânea não é, obviamente, o primeiro romance a tocar o tema da escravatura. Acha que continua a ser importante escrever, falar sobre a escravatura?
Acho que, se queremos saber para onde vamos, temos de estudar o passado. Definitivamente não aprendemos o suficiente na América sobre a escravatura, na escola básica ou secundária. Se não soubermos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. O meu livro não está aqui para ensinar pessoas, é uma obra de arte. Não estou aqui para dizer às pessoas que a escravatura é má ou como é que era, estou a tentar criar uma história envolvente, que faça sentido para mim, e espero que outras pessoas também gostem. Mas sim, se evitarmos os tempos difíceis da nossa história, na América, em Portugal ou na Holanda, que criou o comércio de escravos, então vamos cometer os mesmos erros.

Ainda é um tema tabu nos Estados Unidos da América?
Sim. No Canadá, há um livro de História que teve de ser retirado porque dizia que os indígenas receberam os colonos de braços abertos e lhes deram as suas terras de boa vontade. Não é assim que se ensina a colonização a crianças do terceiro ano, no Canadá ou na América. Não é ensinado da maneira que devia ser. Se ensinamos sobre os fundadores da América e os seus ideais democratas, devíamos examinar como é que mantivemos esses ideias ao longo dos tempos. As pessoas cujas histórias eu li sofreram para nada se não aprendermos com os nossos erros.

Fotografia de MIGUEL A. LOPES/LUSA.
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