Logo Observador

Como a vida do “implacável” CEO da Uber se tornou num Karma Police de 68 mil milhões

17 Junho 2017

Implacável, agressivo, guerreiro, génio, imbecil egocêntrico ou o executivo que melhor espelha os dogmas de Silicon Valley? A história da "confiança desenfreada" do CEO da Uber, Travis Kalanick.

Não sabemos se Travis Kalanick perdeu o fio à meada da Uber durante um minuto apenas, como canta Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, em “Karma Police”. Mas sabemos que os executivos da tecnológica não cotada em bolsa mais valiosa da história foram unânimes nas decisões tomadas durante a reunião de terça-feira: a cultura de bad-boy que reina desde 2010 na empresa vai ter de desaparecer. E, com a nova organização, terá de emergir um novo líder — o “Travis 2.0” do qual falava o CEO (chief executive officer ou presidente executivo) no e-mail em que anunciava a sua saída por tempo indeterminado da empresa. O rastilho desta bomba de 68 mil milhões de dólares (61 mil milhões de euros) — que é quanto vale a Uber — foi acendido em janeiro de 2017, mas só agora estoirou para o herói (que também é o anti-herói) desta história.

As recomendações que Eric Holder (ex-Procurador-geral dos Estados Unidos) e Tammy Albarrán fizeram depois de terem investigado a cultura da empresa durante meses foram claras quanto ao papel que o fundador devia ter no novo rumo da Uber: o conselho de administração devia “rever e reavaliar se as responsabilidades que historicamente eram dadas a Travis Kalanick deveriam ser passadas [a outra pessoa] ou partilhadas com outros membros da administração da empresa” e que a “a procura por um novo CEO devia refletir esta preocupação”. O quadro de executivos da tecnológica foi unânime e comprometeu-se a seguir as 13 recomendações feitas por Holder e Albarrán. Dois dias depois, chegou o e-mail de Travis Kalanick:

“Carrego nos meus ombros a responsabilidade última pelo caminho que fizemos até chegar aqui e pela forma como fizemos esse caminho”, escreveu Travis para justificar a escolha de sair da presidência. Ao caminho que fez na liderança da tecnológica que soma recordes na história da comunidade tecnológica, Travis Kalanick juntou, sobretudo, razões pessoais para o afastamento: a mãe do milionário morreu a 27 de maio num acidente de barco e o pai ficou ferido. “Perder alguém que me é tão querido de forma tão trágica tem sido muito difícil e preciso de fazer o meu luto como deve ser”, escreveu.

Com Kalanick fora do volante da empresa que mais tem provocado a ira dos taxistas no mundo todo, o destino da Uber está, por enquanto, à mercê de 14 pessoas. E não faltam teorias sobre quem será o real substituto de Travis na sua ausência. Para Adam Lashinsky, editor executivo da Fortune, a substituição do CEO ainda vai demorar algum tempo a acontecer. “Ele precisa de encontrar alguém que tenha a experiência que lhe falta e o temperamento que lhe falta, mas também que seja alguém que ele admire e em quem confie.” No e-mail que enviou aos empregados, não houve referência a datas para o regresso. “[A minha ausência] pode ser mais curta ou mais longa do que esperamos.”

Fundador da Uber sai da presidência “por tempo indeterminado”

O que é certo é que depois do texto que Susan J. Fowler, ex-engenheira informática da Uber, escreveu no seu blogue pessoal em janeiro, onde relatava várias situações de desigualdade de género, sexismo e assédio sexual nos escritórios da empresa, a vida do “rei de Silicon Valley” não voltou a ser a mesma. Somaram-se mais denúncias de ex-colaboradores que retratavam uma cultura organizacional de “assédio e obsessão”, um processo judicial interposto pela Google, um vídeo onde se via Travis Kalanick a discutir com um motorista — e que o levou a fazer um pedido de desculpas público — ou a derrota que teve no Tribunal de Justiça da União Europeia, que estabeleceu que a Uber é uma empresa de transportes e não uma tecnológica.

Na hora em que Kalanick sai pelo próprio pé do “unicórnio” (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares) com o valor mais elevado da história, faz sentido perguntar: como é que o “visionário” de Silicon Valley fica refém deste polícia do karma? Assim.

O prodígio da matemática que parecia que vendia carros

É um dos fenómenos que a comunidade tecnológica ainda não conseguiu explicar, mas aos 40 anos Travis Kalanick representa “aquilo que um empreendedor em série deve ser, na sua forma mais pura, com todas as suas forças e fraquezas“, segundo Eric Schmidt, presidente não executivo da Alphabet (empresa mãe da Google) e investidor na Uber. Citado na Time, revista que em 2015 colocou Kalanick como um dos possíveis eleitos a Figura do Ano, o CEO da Uber é descrito como alguém capaz de transformar uma ideia até então impossível numa realidade bastante provável. E os ex-colegas de escola comprovam.

Travis Kalanick cresceu num subúrbio de Los Angeles e aos 18 anos lançou o primeiro negócio – um serviço de tutoriais que tinha por objetivo aumentar a pontuação dos alunos nos exames de admissão à universidade. Chamava-se New Academy e o primeiro aluno a testá-lo conseguiu aumentar a sua pontuação em 400 pontos, conta o Business Insider. A rota de empresário começou aí — a mãe tinha feito uma carreira na área comercial e o pai era engenheiro –, e o sonho infantil de ser um espião americano ficou pelo caminho. Já na altura, os colegas da escola diziam que a forma como Travis falava se assemelhava a um vendedor de carros usados. Mesmo que não estivesse a tentar vender-lhes nada, tinha uma confiança, uma segurança e um poder de persuasão tal que parecia que sim.

Na escola, Travis sempre gostou de números e costumava orgulhar-se de que conseguia resolver qualquer problema matemático em oito minutos. A opção por engenharia informática parece, assim, óbvia, mas não chegou sequer a ser acabada. Tal como outros grandes nomes de Silicon Valley — como Steve Jobs (Apple), Mark Zuckerberg (Facebook), Michael Dell (Dell) ou Richard Branson (Virgin Group) –, nunca chegou a terminar o curso. Desistiu de estudar para trabalhar com a equipa fundadora da Scour, startup que lançou juntamente com Michael Todd e Vince Busam, que conheceu na Computer Science Undergraduate Association. Travis Kalanick foi oficialmente o primeiro colaborador da empresa.

Eric Schmidt, presidente não executivo da Alphabet, não poupa nas palavras para falar da personalidade do CEO da Uber. “É um guerreiro, que está contra as estruturas institucionais. Que tem de acordar todos os dias e fazer qualquer coisa.” E fez. Naquela altura, em 1998, ajudou a construir o primeiro serviço de partilha de vídeos, filmes e imagens entre pessoas, uma espécie de pai do popular Napster. Shawn Fanning, fundador do Napster, foi, aliás, um dos primeiros utilizadores do Scour. Dezoito meses depois da Scour ficar online, criou o seu próprio serviço de partilha com uma novidade que o diferenciava face à concorrência dos três amigos de Los Angeles: no Napster, os ficheiros ficavam disponíveis para partilha assim que o download terminava, evitando que a plataforma bloqueasse.

Shawn Fanning foi um dos primeiros utilizadores do Scour e 18 meses depois lançou o concorrente Napster

Depressa, o número de utilizadores do Scour ultrapassou os milhões, a equipa cresceu para 13 pessoas que trabalhavam na sala de um apartamento em Los Angeles e o sucesso foi tal que os fundadores se viram obrigados a assinar um contrato com os investidores que os impedia de vender a empresa a outros acionistas. Caso o fizessem, seriam processados. O investidor Michael Ovitz, que cofundou a Creative Artists Agency e liderou a Walt Disney entre 1995 e 1997 chegou a amaeaçar Travis na altura — queria ter a certeza que os fundadores do Scour sabiam que havia pessoas que “tinham trabalhado muito para chegar onde chegaram” e que os jovens de LA não os incomodariam.

O episódio foi recordado pelo próprio Kalanick durante uma entrevista com o investidor Jason Calacanis. “A minha vida e o meu bem-estar físico foram ameaçados durante aquela conversa. Ele basicamente explicou-me que havia um beco na arte de trás desta rua e que se eu estragasse as coisas me tornaria muito familiarizado com este beco”, lembrou. Mas o sucesso do Scour não parou de crescer e os players da indústria do entretenimento uniram-se para pôr um fim ao serviço de partilha de ficheiros. Processaram a startup em 250 milhões de dólares. Os amigos não tiveram outra opção e após muitos telefonemas e tentativas de persuasão, fecharam a empresa. Em 20 minutos, o Scour faliu.

Do falhanço de 250 milhões à vida de milionário na Bay Area

O líder “implacável” da Uber contou na Failcon Conference, em 2011, que quando o Scour faliu lhe custou tanto que chegava a estar durante 14 horas deitado, sem sair da cama. Até que chegou o dia em que decidiu lançar aquela que apelidaria de “empresa da vingança“, a RedSwoosh. Corria o fatídico ano do desastre tecnológico que estreou o novo milénio, o ano 2000, e Kalanick voltou a unir-se a Todd para lançar uma empresa que tivesse como alvo todos aqueles que processaram o Scour. Foi assim que nasceu o serviço que entregava conteúdos da Web aos utilizadores a um preço económico. Mas a crise dos anos 2000 não lhes deu descanso.

Um ano depois de terem arrancado com o projeto, os fundadores já nem sequer tinham dinheiro para pagar aos sete colaboradores que tinham contratado. Foi nessa altura que marcaram uma reunião com o responsável financeiro da multinacional Akami, Daniel Lewin, mas essa reunião nunca chegou a acontecer porque o avião em que seguia Lewin foi um dos que foi desviado para eclodir na torre norte do World Trade Center, no ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Nessa altura, o mercado tecnológico vivia dias tão negros que em dois anos desapareceram da bolsa cinco biliões de dólares, conta o Business Insider. Pensar em encontrar investidores soava a mentira.

Com a escassez de dinheiro, começaram a aparecer os desentendimentos entre os dois cofundadores. Segundo algumas publicações norte-americanas, foi aí que deram início às várias manobras orçamentais para poupar custos, roçando aqueles que eram os limites éticos e legais da constituição norte-americana. O pior cenário possível acabou por acontecer e chegou-lhes uma multa do IRS: 110 milhões de dólares que haviam omitido dos salários dos trabalhadores. A fuga aos impostos não deixava margem para dúvidas — tratava-se de um crime de colarinho branco que se não fosse revertido se transformaria em pena de prisão efetiva para os responsáveis pela startup.

Numa manobra de persuasão junto de alguns investidores, Travis conseguiu que avançassem com o dinheiro para pagar a multa e foi assim que o líder da Uber escapou à prisão. Sobre o crime de fraude fiscal que levaria à saída de Todd da empresa, os dois ex-fundadores têm recordações diferentes: Kalanick diz que Todd agiu nas suas costas e Todd diz que Kalanick sempre soube de tudo. “Travis é um tipo muito esperto, mas ele e eu temos claramente recordações diferentes deste pormenor que aconteceu há 13 anos”, referiu Todd ao Business Insider. Depois da sua saída, a liderança da “empresa de vingança” de Kalanick ficou nas suas mãos, mas os problemas estavam longe de desaparecer. Sem dinheiro, Travis voltou para casa dos pais.

Foi um divórcio empresarial muito feio“, contou um dos ex-trabalhadores da empresa à mesma publicação. Entre discussões e sem dinheiro para pagar salários, Travis ficou apenas com um programador na RedSwoosh, Evan Stang, que na altura em que a empresa estava prestes a assinar uma parceria com a AOL, se despediu para se juntar a Michael Todd na Google, onde trabalhava agora. A última estratégia para conter despesas e evitar a falência foi a mudança da sede da startup para a Tailândia. E o serviço que parecia estar entregue aos cuidados paliativos do drama tecnológico do início dos anos 2000 (e que se imortalizou na expressão “bolha das dot com“), recuperou e curou-se despertando a curiosidade de vários players à sua volta.

Em 2003, a Microsoft tentou comprar a “empresa de vingança” de Kalanick por 1,3 milhões de dólares. O líder recusou e, quatro anos depois, vendeu-a à Akami por perto de 23 milhões de dólares, fazendo da RedSwoosh um caso de sucesso conhecido em toda a indústria. “Comecei a ficar muito bom nisto de negociar numa posição de fraqueza“, disse na Failcon Conference de 2011. Após sete anos de lutas constantes, Travis Kalanick era um recém-milionário de Bay Area, em São Francisco, com uma grande casa que ficou conhecida por ser uma espécie de “igreja do capitalismo criativo” e uma vida passada entre viagens. Até que em 2008 se cruza com Garrett Camp, fundador da StumbleUpon, numa conferência tecnológica.

O serviço de aluguer de limousines que se transformou na Uber

A primeira conversa com Garrett Camp surgiu por causa de uma viagem de limousine na noite de Ano Novo que custou 800 dólares ao fundador da StumbleUpon. Queria mudar o paradigam e tornar este tipo de serviços mais acessível. Partilhou a ideia com o recém-milionário de Silicon Valley, que tinha começado a dar-se com o multimilionário Chris Sacca, e juntos decidiram pôr mãos à obra. Ou, neste caso, ao volante. Foi assim que nasceu aquilo que hoje é a Uber, uma multinacional que opera em mais de 500 cidades no mundo todo e que tem semeado discórdios e ódios por onde passa, pelas acusações de concorrência desleal que tem provocado nos taxistas.

A Uber é uma plataforma que liga motoristas privados a utilizadores com recurso à geolocalização. O utilizador faz uma conta, asssocia um cartão de crédito para pagamento e quando quer ser transportado liga a app. Aparecem-lhe os carros que estão nas proximidades e os minutos que demoram a chegar ao local onde o utilizador se encontra. Com um clique e a inscrição da morada de destino é possível saber a estimativa final do preço e com outro aciona-se a viagem, sendo possível acompanhar em tempo real o percurso que o motorista está a fazer até chegar junto do utilizador. No final, o dinheiro é descontado do cartão do utilizador e ambos os intervenienentes se avaliam de forma anónima – recorrendo a uma escala de cinco estrelas, é possível avaliar a viagem e o motorista/utilizador, deixando críticas escritas se for necessário.

A última manifestação da Uber, em 2016, juntou milhares de taxistas nas ruas de Lisboa

A ideia está longe de ser a apoteóse da revolução digital e daquilo que representa a inovação disruptiva, mas a adesão dos utilizadores foi tal que Travis Kalanick rapidamente percebeu o potencial de negócio que tinha em mãos, com uma mais-valia que depressa se tornou noutro dos grandes dissabores da Uber um pouco por todo o mundo, mas sobretudo nos Estados Unidos — o regime de parcerias com a app nunca prevê que os motoristas se tornem colaboradores da empresa, antes pelo contrário. Travis Kalanick considera-os motoristas empreendedores (são na verdade trabalhadores independentes) que são capazes de definir o seu próprio horário de trabalho.

A visão empreendedora do líder da Uber, que acredita que “é preciso unir o preogresso político ao progresso atual”, tornou-se noutro polícia do karma – a adesão em massa dos motoristas à plataforma (com uma procura cresente dos utilizadores) transformou-se em protestos também em massa, quando perceberam que precisavam de trabalhar 10 a 12 horas para conseguir tirar um ordenado razoável. As condições precárias a que subemetem e a falta de vínculo laboral dos motoristas à Uber levou a ameaças de greve nos Estados Unidos, à criação de um sindicato que os defendesse e, em Portugal — onde a tecnológica opera polemicamente desde 2014 — as queixas dos motoristas (que trabalham com a Uber através de empresas parceiras) juntaram-se às manifestações recorde que o setor do táxi organizou em Lisboa e no Porto nos últimos dois anos para impedir a empresa de operar.

Excesso de horas, precariedade, baixos salários. A vida dos motoristas da Uber

Num abrir e fechar de olhos, a Uber tornou-se na representação máxima daquele que é o novo paradigma da economia e que ainda ninguém sabe muito bem como regular e rentabilizar – a economia de partilha. Colocando-se na dianteira da revolução, a tecnológica tem vindo a superar todos os desafios regulatórios que lhe têm feito mossa, que a levaram a sentar-se em vários tribunais no mundo e apesar das várias cidades onde foi proibida de operar — em Portugal também foi, mas um erro na morada e na entidade jurídica à qual se referia a providência cautelar interposta pela ANTRAL, uma das associações que representa os taxistas, permitiram que continuasse em atividade — a multinacional liderada por Travis tornou-se o exemplo máximo daquilo que é o grande dogma da comunidade tecnológico de Silicon Valley – o crescimento disruptivo das empresas que se desenvolvem quase à velocidade da luz.

Quando o primeiro protótipo da Uber (na altura UberCab) foi desenhado nada faria prever que se tornasse no unicórnio que é hoje. Nunca uma empresa não cotada em bolsa teve uma avaliação tão elevada com base em rondas de investimento em capital de risco: são cerca de 68 mil milhões de dólares. Mas a avaliar pelo anúncio que Travis Kalanick escreveu quando quis recrutar o primeiro programador da plataforma, já se podia vislumbrar que a ambição não era pequena: “Estou à procura de um sacana para o desenvolvimento de um negócio e produto“. O badass viria a chamar-se Ryan Graves e tornou-se no primeiro CEO da Uber, pouco tempo antes de Kalanick assumir o controlo da startup.

Com uma ronda de investimento de 1,25 milhões, Travis colocou a Uber em andamento: eram 10 motroristas em São Francisco que em pouco tempo fizeram da plataforma a app sensação entre os techies de Silicon Valley. A partir daí, Travis não olhou a meios, a regulações ou a poderes políticos para fazer vingar a aplicação noutras cidades — primeiro, nos Estados Unidos e, depois, no resto do mundo. Uma pessoa próxima do líder, que não quis ser identificada, disse à editora da Business Insider que “era absolutamente impossível que o negócio da Uber conseguisse chegar onde chegou sem Travis e a sua arrogância. Não sem ele ter esta postura de quem quer dominar o mundo. Ele tem aquela mentalidade de ‘ou as coisas são como eu quero ou não são”.

Como a arrogância de Kalanick passou a valer 68 mil milhões

A forma como Travis Kalanick tem furado o seu caminho e o da empresa que representa não tem passado despercebida à comunidade de investidores e techies de Silicon Valley, que, apesar de continuar a ser uma empresa que tem prejuízos anuais de cerca de 3 mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros), não parece fazer diminuir o apetite dos investidores. Pela mão de Kalanick, a Uber tem enfrentado polémicas de várias ordens — das acusações de violação de alguns dos seus motoristas às queixas de assédio sexual dentro dos escritórios da empresa, bem como da cultura de obsessão sem limites que é incutida pelas várias hierarquias da tecnológica. Os recaldos surgiram agora com vários executivos de topo da empresa a demitirem-se e com a ausência do icónico líder por tempo indeterminado.

Com prejuízos gigantes, a Uber vai conseguir sobreviver a “dar borlas”?

Mas a fama do carácter “implacável” do líder da Uber há muito que faz capa da imprensa norte-americana e especializada. Conhecido por ter uma “confiança e competitividade desenfreada”, Travis Kalanick é muitas vezes apontado como “um imbecil” e um “egocêntrico”, que resulta em críticas que tanto dão para o bem como para o mal. Amado por uns, odiado por outros, o CEO da Uber tornou-se num dos símbolos do que se passa na (amplamente criticada) comunidade tecnológica de Silicon Valley, o sítio que também é a representação do futuro da economia norte-americana. “O barão da arrogância” das startups levou-o a disputar os lugares de topo com algumas das mentes mais brilhantes do ecossistema.

Visionário, disruptivo, génio, idiota“, como é descrito na imprensa norte-americana, conseguiu em contra-sistema construir uma empresa que em sete anos já mudou o vocabulário do mundo – “uberizar” passou a verbo e dizer que hoje se tem um negócio que é um “Uber de alguma coisa” tornou-se sexy para investidores. É uma palavra que tende a espelhar aquilo que deve ser o sinónimo de sucesso de uma startup, mas Travis Kalanick confessa que, para ele, conduzir a empresa é idêntico a quando conduz numa estrada com nevoeiro. “Tenho as minhas mãos no volante, mas vou depressa demais para olhar para trás e não consigo ver muito mais do que o que se passa à minha frente.”

Em 2014, a Business Insider colocou Travis Kalanick entre os CEO mais sexy do mundo

O pólo de luz que se iluminou à sua volta fez com que em 2014 constasse entre os eleitos da Business Insider para a categoria dos CEO mais sexys do ano, apesar das várias referências de fontes ao egocentrismo do líder. Conhecido por nunca dizer que não a um desafio, soma críticas e elogios. O investidor Mark Cuban, por exemplo disse, citado na Business Insider, que “Travis é esperto. Vai à luta e é um empreendedor a sério. É impossível ser mais completo do que isto“. E é por isso que a sua postura agressiva e eficiente tem feito com que o comparem a Mark Zuckerberg (Facebook), Jeff Bezos (Amazon) ou Steve Jobs (Apple), por um lado, e tem intimidado por outro.

“Se Travis Kalanick for uma espécie de poster do Michael Jordan que os jovens empreendedores têm no quarto como exemplo a seguir, então isso é triste. Ser um idiota não é sinónimo de ser maravilhoso“, disse uma das fontes com quem a editora da Business Insider falou. Mas há um ex-colega dele da Universidade de Los Angeles que não tem dúvidas: “ele vai ter sucesso, independentemente de gostarmos dele ou não. Há um grande argumento ainda por escrever sobre estes empresários com um ADN especial que se tornam nos maiores lideres mundiais – a lista inclui Bill Gates, Steve Jobs, Larry Ellison, Michael Dell, Larry Page, Sergey Brin, Mark Zuckerberg, etc. Na minha opinião, Travis vai fazer parte dessa lista. Pode ser com a Uber ou com outra empresa qualquer, mas aposto as minhas fichas nele.”

Por agora, as fichas de Kalanick vão manter-se afastadas do volante da Uber, mas o polícia do karma que tem vigiado a sua liderança agressiva e implacável já começou a fazer mossa. É este o início da viragem da mentalidade igualmente agressiva e implacável que se vive em Silicon Valley? “Por tempo indeterminado”, vamos ver.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: apimentel@observador.pt