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Cuidado, talvez esteja a ser manipulado (no trabalho, nas amizades e no amor)

09 Março 2015

Uma mediadora familiar e um psicólogo querem ajudá-lo a identificar e a libertar-se das pessoas "tóxicas" que entram e permanecem nas nossas vidas: as que nos cansam e nos fazem perder a identidade.

Há pessoas “tóxicas” e “altamente tóxicas” que entram na nossa vida e que nela teimam em permanecer. Se com os indivíduos “tóxicos” podemos bem, o mesmo não se pode dizer dos “altamente tóxicos”, conceito que remete para os manipuladores. Isto é, pessoas que numa primeira fase nos seduzem para, depois, nos desvalorizarem. É o controlo e a dependência do outro que os manipuladores procuram, mesmo não estando conscientes de que o fazem. Não há predominância do género — eles e elas fazem-no a eles e elas — nem de contexto. Acontece entre amigos, familiares, no local de trabalho e, sobretudo, nas relações amorosas.

Os argumentos são de Margarida Vieitez, mediadora familiar, e de Fernando Mesquita, psicólogo clínico. Os dois escreveram um livro em conjunto, SOS Manipuladores (Esfera dos Livros), para que consiga identificar e libertar-se das pessoas que lhe retiram a energia. Contam-se mais de 200 páginas que apresentam exercícios e casos reais, incluindo os sinais a que deve estar atento, as estratégias de manipulação mais recorrentes e os comportamentos que deve ter para não ser “intoxicado”.

Em última análise, o livro pretende ajudar a compreender se está ou não a ser manipulado — ou, então, se é um manipulador — e qual a melhor forma de lidar com a situação. Diz Margarida Vieitez que “todos nós intoxicamos quando estamos maldispostos e acabamos por contagiar um pouco a pessoa que está ao lado. O que se torna perigoso é quando esses comportamentos são repetidos e se cristalizam no tempo — os manipuladores são quase vampiros emocionais, sugam-nos a energia”.

E se há um perfil para as pessoas “altamente tóxicas”, também há um que ajuda a identificar as vítimas: são as pessoas dependentes, com baixa autoestima e capacidade assertiva, que confiam demasiado nos outros e têm uma grande necessidade de aceitação. “São aquelas que acreditam mais no outro do que nelas mesmo”, esclarece Fernando Mesquita.

Se se identifica, cuidado, talvez esteja a ser manipulado.

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Margarida Vieitez e Fernando Mesquita / DR

– Porquê escrever um livro sobre este tema?
Fernando Mesquita (FM): Surgem muitos casos em consultório de pessoas que se vêm queixar que os amigos dizem que eles estão malucos e que precisam de ajuda. Depois, quando vamos ver, quem precisa de ajuda são os amigos porque são eles os manipuladores. Os que dizem “Estás a precisar de ajuda” — isso cria dependência do outro e é precisamente isso o que os manipuladores querem sentir, que dominam um pouco a situação.

Margarida Vieitez (MV): As pessoas que vêm ao consultório com estes problemas fazem os seguintes comentários: “Não sei o que é que esta pessoa faz comigo, tira-me do sério”; “Ao lado desta pessoa sinto um cansaço imenso. Fico muito stressado/a e muito ansioso/a” ou “Esta pessoa contagia-me com o seu pessimismo e negativismo”. São casos muito frequentes, especialmente em conflitos conjugais e de divórcio. Isto verifica-se em todos os contextos, quer no trabalho, na família, nas amizades e, especialmente, nas relações amorosas.

– Como é que se confunde amor com manipulação?
MV: É incrível. Sabe porquê? Porque existem muitos mitos e muitas crenças sobre o amor. Os culpados são os livros, os filmes e as telenovelas.

FM: As pessoas têm ideias erradas, como a de que amor é sofrimento e que facto de alguém nos fazer sentir inseguro/a ou com ciúmes quer dizer que gostamos mesmo dele/a.

MV: Somos nós que permitimos que estas pessoas entrem nas nossas vidas: amigos, amores e família, apesar de não sermos nós quem escolhe a família. Mas amor, companheiros, isso sim, escolhemos. Deixamo-las entrar e permanecer. Se somos tão exigentes ao comprar uma casa ou um carro, porque é que não somos assim tão exigentes com as pessoas que nos pedem para entrar na nossa vida e que não nos fazem bem?

FM: No livro também falamos da questão da intuição, quando conhecemos alguém e sentimos que há ali qualquer coisa [de errado] mas que, mesmo assim, vamos atrás. Depois, é-nos mais difícil aceitar que errámos.

– Aconselhava as pessoas a seguir a sua primeira intuição?
FM: Se a intuição lhe disser alguma coisa [de errado], dizia à pessoa para ficar de pé atrás.

MV: Não quer dizer com isto que sejamos desconfiados a toda a hora. Temos de continuar a confiar, até porque uma relação sem confiança — qualquer que ela que seja — não consegue sobreviver.

– Mas parece uma coisa difícil de equilibrar…
MV: É apenas [uma questão] estarmos um pouco atentos. E ouvirmos a nossa intuição. Ela grita-nos muito alto e nós, na maior parte das vezes, ignoramos.

FM: É acreditarmos mais em nós do que nos outros. É uma questão de autodescoberta. Há pessoas que levam tão a peito aquilo que os outros lhe dizem que a palavra do outro vale sobre a delas, independentemente do que sentem.

– Como é que podemos identificar uma “pessoa tóxica”, tal como o conceito apresentado no livro?
MV: São aquelas que não nos fazem bem. Mas todos nós reagimos perante a toxicidade de forma diferente — o que é tóxico para mim pode não ser tão tóxico para si. Temos de perceber o grau de toxicidade relativamente a cada uma dessas pessoas. Quem são as pessoas tóxicas? São aquelas que estão constantemente insatisfeitas, são as pessoas pessimistas, cinzentas, que sentem inveja de todos a toda a hora e a todo o instante, que são muito ansiosas ou até neuróticas, que estão permanentemente à procura de um bom motivo para entrar numa zanga. Os conflituosos permanentes e os obsessivos de ciúmes — temos muitos casos desses, de pessoas muito ciumentas. Pessoas que têm a necessidade de estar constantemente a deitar a baixo os outros, de desvalorizar, que dizem, na forma de insinuações mais ou menos diretas, “Ah, estás com uma cara! Que horror, o que te aconteceu?” Porquê ter estas pessoas, que não nos fazem bem, na nossa vida? É esta a grande questão do livro.

12 perguntas que deve fazer caso desconfie que está a ser manipulado

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– O livro também fala das pessoas “altamente tóxicas”. Como diferenciar a pessoa tóxica da pessoa altamente tóxica?
FM: Uma pessoa altamente tóxica é o manipulador, que tem um ciclo de ação diferente da pessoa tóxica.

MV: Altamente tóxicos são os manipuladores. Com os tóxicos nós conseguimos perceber que aquela pessoa nos está a fazer mal e, muitas vezes, até sabemos reagir e identificar. Relativamente aos manipuladores, não é assim tão fácil porque eles têm a capacidade de alterar as nossas perceções e de nos fazer duvidar dos nossos próprios juízos de valor. O manipulador tem um modo de atuar muito específico que nos leva a crer que estamos errados, que somos os culpados, que fazemos tudo mal. Começa por nos seduzir, por nos conquistar — especialmente nas relações amorosas.

FM: Fica muito interessado em saber aquilo que somos.

MV: Muito interessado! Retira informação para mais tarde utilizá-la. Começa por surpreender a toda a hora e a todo o instante, com uma série de e-mails, telefonemas e SMS. Está muito presente e parece que vai resolver todos os problemas. São sobretudo as mulheres que têm de ter muito cuidado, porque este personagem tóxico e não ecológico tem sempre em mente criar uma dependência através do conhecimento que vai adquirindo. A pouco e pouco vai criando dependências e, quando sente que a pessoa está conquistada, começa a desvalorizar, a humilhar e a eventualmente controlar mais e a dominar. Este é o seu objetivo.

FM: Uma coisa que ele, o manipulador, faz quando conhece uma vítima é tentar destruir o seu círculo de amigos. Ao destruir/afastar os amigos vai tornar essa pessoa ainda mais dependente dele. Ele é capaz de ser adorado pelos outros, até pela família do manipulado, e põe em causa tudo aquilo que nós pensamos. Chega a pôr em causa a nossa identidade.

MV: São duas versões de uma mesma pessoa.

– Porque é que as deixamos entrar?
MV: Permitimos que elas entrem devido uma série de medos, de culpas e de dependências que sentimos. O livro tem uma vacina e um antibiótico: a vacina para o caso das pessoas que acabámos de conhecer, antibiótico para aquelas que já permanecem na nossa vida há algum tempo. Saber dizer “não” é uma aprendizagem grande. Depois, há os deveres: eu tenho de me comportar assim, tenho de agradar os outros, tenho de ser bonzinho ou boazinha. Muitas vezes fazemos de tudo para agradar os outros, mas nada é suficiente porque eles nunca ficam satisfeitos e esquecemo-nos de nós próprios. E temos uma herança cultural de culpa que é impressionante: temos de nos sentir menos culpados quando dizemos “não”.

– À partida, o manipulador será uma pessoa com muitas carências afetivas?
FM: Há a possibilidade de ser uma pessoa que não foi amada na infância e que procura depois, em adulto, alguém que o venere. Mas também há o muito mimado, que nunca teve qualquer dificuldade na vida e a quem nunca foi imposto qualquer tipo de limite. Essas pessoas também não estão habituadas à frustração.

MV: O mais engraçado é que muitos deles não percebem que são manipuladores, que estão a manipular e a fazer mal às pessoas. A vida para eles é um jogo, de perder ou ganhar, e sentem-se ameaçados quando não conseguem dominar, quando não conseguem atingir aquele objetivo ou não conseguem que a pessoa faça exatamente aquilo que eles querem.

Um dos sinais para perceber, logo nos primeiros tempos, se a pessoa é um manipulador passa por tentar contrariá-la um pouco e perceber qual é a sua reação: não atenda um telefonema, não responda logo a um SMS, não faça de imediato aquilo que o manipulador quer e vai ver como ele reage; se for um manipulador, vai ficar muito zangado, vai reagir mal e perder o controlo emocional. Talvez não logo nas primeiras vezes, mas vai definitivamente acontecer.

FM: Ou, então, vai fazer o papel de vítima. Algo como: “Tu não gostas de mim”.

MV: Sim, utilizam a culpabilização. E quando não conseguem atingir esses mesmos fins através da culpa, porque a pessoa opta por confrontá-los, vão pelo lado da vitimização. São uns desgraçados, nunca assumem as responsabilidades — é outra das características de um manipulador — e utilizam também as ameaças ao mesmo tempo que a vitimização. É um padrão, um círculo de vitimização. Muitas vezes recorrem novamente à sedução e à conquista.

Vi há pouco tempo o filme Olhos Grandes e quem quiser saber o que é um manipulador veja este filme, do princípio ao fim. E as Cinquenta Sombra de Grey é exatamente a mesma coisa: a personagem principal do filme é um manipulador. Logo desde o início tenta seduzir com quem se pretende envolver. Existe ali um jogo imenso de sedução e de conquista, e a partir do momento em que ele sente que ela está conquistada, a partir do momento em que abre mão de todos os artifícios — como a viagem de helicóptero, o avião e os hotéis de luxo –, ele tenta dominá-la e controlá-la. É um sadomasoquista.

– Qual é o perfil da vítima?
FM: São pessoas dependentes, com baixa autoestima, que não têm capacidade assertiva, de dizer não. São pessoas que estão constantemente à espera do príncipe ou da princesa encantado/a. São aquelas que acreditam mais no outro do que nelas mesmo.

MV: São as pessoas que confiam de imediato nos outros. Que se expõem, que contam muitos pormenores acerca da sua vida. São aquelas que estão à espera de encontrar alguém que lhes resolva todos os problemas. Aquelas que estão a passar por situações de alguma fragilidade emocional, como uma relação que terminou há pouco tempo; que acham que têm de agradar e de fazer o que os outros lhes dizem para fazerem. São aquelas que têm uma grande necessidade de aceitação dos outros.

– É tudo uma questão de autoestima, então?
MV: Autoestima e autoconfiança.

– A vítima tende a ser a pessoa que quer ajudar o outro, o manipulador?
MV: São as mulheres psicólogas, psicanalíticas e psiquiatras. Culturalmente, as mulheres são muito maternais. Eles [os manipuladores] sentem-se muito atraídos por mulheres mais maternais, porque, no fundo, também andam à procura de uma mãe. O que acontece é que essas mulheres acabam por ter não um filho ou dois, mas sim três. Porque eles vão-se comportar como filhos e elas como mães.

FM: Elas julgam sempre que o podem mudar, que o amor que sentem é milagroso e vai conseguir mudá-lo. Quando ela verifica efetivamente que não é por aí, pensa “Não, eu tenho de continuar a ajudá-lo porque é esse o meu dever”. Elas não saem da relação muitas vezes por pena daquela pessoa.

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– Numa relação em que há um manipulador e uma pessoa que é manipulada pode haver amor?
MV: Será que manipulação é amor? Para mim é doença.

– Mas a pessoa que é manipulada pode sentir amor pela outra?
MV: Eventualmente tem uma visão muito distorcida daquilo que é amor verdadeiro, fruto dessas crenças, desses mitos, carências e vulnerabilidades. Fruto, sobretudo, dos medos. O amor não é nada disso. É algo que nos faz muito bem e que nos deixa feliz.

– E se formos nós os manipuladores?
FM: Aí, a questão de procurar ajuda é importante. Por muito que queiramos mudar por nossa conta, é mais difícil sem alguém para nos orientar.

MV: De certa forma, todos nós intoxicamos quando estamos maldispostos e acabamos por contagiar um pouco a pessoa que está ao lado. O que se torna “perigoso” é quando esses comportamentos são repetidos e se cristalizam no tempo — os manipuladores são quase vampiros emocionais, sugam-nos a energia. Por isso é que temos tantas pessoas a dizer “estou cansado/a” ou “estou estoirado/a”.

– Como deve agir um/a leitor/a que se identifique com a situação descrita?
MV: Em primeiro lugar tem de ter a certeza que está a ser manipulado/a ou, pelo menos, que existe uma grande probabilidade de isso estar a acontecer. Se eventualmente sente isso, não se assuste. Todos nós somos manipulados e manipulamos um pouco. O livro tem muitos exercícios, muitas histórias verdadeiras que ajudam a perceber porque é que as pessoas permitem e continuam numa relação tóxica, especialmente de manipulação.

O importante é tentar perceber que sentimentos tem ao lado dessa pessoa. Durante um mês tente escrever num papel, uma, duas ou três vezes por dia as emoções e os sentimentos que tem ao lado dessa pessoa. Guarde o papel. No final do mês vai ver exatamente o que sentiu. Depois, tente perceber qual a reação que tem perante determinados comportamentos e atitudes oriundas dessa pessoa. Tente ver se por detrás de cada atitude e resposta — a um determinado comportamento — existe medo, culpa ou dependência. É que amor não é nada disto.

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