Da festa de José Cid à viagem de comboio de Simone: quando Portugal foi à Eurovisão

09 Maio 2017

Tozé Brito tremia com os nervos, Simone de Oliveira foi aclamada em Santa Apolónia e Dora quase perdeu o avião. No dia da primeira semifinal da Eurovisão 2017, recordamos histórias de outras edições.

Chegámos à primeira semifinal da Eurovisão 2017 e não se pode dizer que Portugal tenha sido muito muito feliz nas edições anteriores. A melhor classificação nacional até ao momento foi o 6.º lugar de 1996 com “O Meu Coração Não Tem Cor”, uma composição de Pedro Osório com letra por José Fanha, interpretada por Lúcia Moniz. Desde 1964 que andamos em busca daquele número 1 mas tarda a chegar — será que Salvador Sobral, com “Amar pelos Dois”, mudará a tradição? O Observador conversou com Dina, José Cid, Simone de Oliveira, Tozé Brito, Dora, Manuela Bravo e Lena D’Água para conhecer as memórias destes antigos e célebres participantes no Festival.

“Os meus joelhos tremiam como varas verdes”

Tozé Brito foi protagonista de três vitórias no Festival RTP da Canção. Uma vez com os pés no palco, nos Gemini, e duas como compositor, primeiro com as Doce e depois com Adelaide Ferreira. E o músico e compositor garante que chegar à fase seguinte transforma a experiência do Festival: “Quando chegas à Eurovisão parece que aconteceu um equívoco. O Festival da Canção é de uma televisão estatal portuguesa, que escolhe uma canção para a representar. E na Eurovisão não vês RTP por lado nenhum, só vês Portugal. Esse foi o maior choque. O resto é igual. É um festival de música e canções, só que em vez de estares a competir com gente do teu país estás a competir com gente de vários países”.

[os Gemini na Eurovisão em 1978 com “Dai-li-dou”]

Uma responsabilidade que Tozé Brito sentiu na pele quando foi finalista com “Dai-li-dou”, ele e os Gemini, em Paris: “Entrei no palco e os meus joelhos tremiam como varas verdes. Levo 50 anos de música e nunca estive tão nervoso como naquele dia. Estás ali e parece que levas a bandeira nacional estampada na testa. Só me lembro de subir ao palco e pensar: ‘Vamos lá fazer isto bem-feito’ e ‘quero ver se isto acaba depressa’.”

Dina também estremeceu com a ideia de participar no Festival da Eurovisão. Foi em 1992 e a canção que apresentou continua a ser um clássico do Festival RTP da Canção, “Amor de Água Fresca”. “São muitos nervos. É tudo muito bonito quando estamos em ensaios mas depois é uma grande responsabilidade. Sentimos um bocado essa pressão”. E a espera só piora a situação: “Três canções antes comecei a ficar nervosa. Comecei a acusar a pressão e tive que me concentrar para acalmar. Tem de ser, não é? Uma pessoa não pode fugir. São uns segundos de tremeliques que passam.”

[Dina interpreta “Amor de Água Fresca” na Eurovisão em 1992]

“Amor de Água Fresca” ainda hoje é relembrada como uma das músicas mais orelhudas do cancioneiro português, o que não significa que na Eurovisão tenha alcançado uma boa classificação, ficou em 17.º num total de 23 canções. Dina não conseguia acreditar: “Quando a votação começa é que tens o veredito de quanto é que a tua canção vale. E, apesar de haver muita gente a dizer que a canção é muito engraçada e que o vídeo era dos preferidos do ano, quando começa a votação começo a ver a minha canção a passar ao lado. Nada. Portugal? Nada. Eu comecei a suar das mãos, a senti-las geladas. A canção a ficar para trás. Tive uma quebra de tensão. Mesmo.”

"Se os israelitas tivessem cantado a 'Dai-li-dou' ganhavam. E que se nós tivéssemos cantado o 'A Ba Ni Bi' continuávamos em 17.º lugar na mesma, não tinha mudado nada. Portanto, há outros fatores para lá da música que pesam muito na Eurovisão."
Tozé Brito

Recordemos também o ano de 1986. Dora era bastante nova quando inscreveu na história da Eurovisão a canção “Não Sejas Mau Para Mim”. Tinha apenas 19 anos: “Lembro-me desse período com uma imensa ternura, muita alegria e saudades. Saudades mas não no sentido nostálgico da palavra. É uma boa lembrança porque eu era muito naive na altura e tudo era uma descoberta, tudo era promissor”.

Participar no festival funcionou como uma espécie de revelação. Gostou tanto que voltou a participar dois anos depois, com “Dèja Vu”. Apesar do entusiasmo, por pouco não perdeu o avião para Londres. Chegou, “como num filme de Hollywood”, mesmo em cima do fechar da porta: “A história até passou no Telejornal da época, imagine-se”.

[“Não sejas mau para mim”: Dora na Eurovisão em 1986]

Na Eurovisão ficou-se pelo 14.º lugar mas a participação no Festival foi importante para a sua carreira: “Acabei por lançar discos em co-produção com uma produtora inglesa, fui gravar a Londres os singles que se seguiram, em Português e em Inglês”, lembra.

“Porque é que Portugal não está aqui?”

Depois de quase meia centena de participações, porque será que Portugal nunca conseguiu ganhar nem chegar ao top 5? Na opinião de José Cid, as classificações de Portugal mais antigas foram prejudicadas pela falta de condições que o país tinha para acolher tal evento, algo que cabe ao país vencedor do ano anterior. “Quando participei, Portugal era favorito. Em 400 jornalistas 376 votaram em nós, que era a nossa canção que ia ganhar. Só que era impossível vencer, impossível para um país que nem sequer tinha orquestra organizada, nem tinha auditório e que, se calhar, a própria televisão nem tinha dinheiro para organizar as coisas. Os países não votavam em Portugal porque não tínhamos condições para no ano seguinte organizar a Eurovisão. No princípio das votações fiquei muito para trás na classificação. A meio, quando eles viram que já não ganhávamos, começaram a votar em nós. Acabei por ficar em 7.º”.

[“Um Grande, Grande Amor”, de José Cid, na Eurovisão de 1980]

No dia em que o nervosismo de palco mais o assombrou, Tozé Brito sentiu “uma sensação estranhíssima que foi a de ver ganhar Israel”. A canção vencedora foi “A Ba Ni Bi” de Izhar Cohen & the Alphabeta, que, devido às tensões naquela região do mundo, nem sequer teve reprodução autorizada na Jordânia, sendo substituída por imagens de flores. “Tivemos todos a sensação que se eles não ganhassem ficariam nos três primeiros lugares”. E acertaram: “A perceção que eu tive ao ouvir a canção israelita foi simples: entre a nossa música e a deles praticamente não havia diferenças absolutamente nenhumas. Tenho a certeza — e digo isto porque tenho esta convicção profunda — que se os israelitas tivessem cantado a ‘Dai-li-dou’ ganhavam. E que se nós tivéssemos cantado o ‘A Ba Ni Bi’ continuávamos em 17.º lugar na mesma, não tinha mudado nada. Portanto, há outros fatores para lá da música que pesam muito na Eurovisão.”

Lena D’Água acompanhou os Gemini mas nos coros. Em 1978, a cantora, que este ano concorreu no Festival RTP da Canção com “Nunca me Fui Embora”, ainda não era a figura famosa que viria a ser. Já tinha a carreira lançada mas não o reconhecimento que veio a encontrar com singles como “Olha o Robot”, com os Salada de Frutas, ou “Sempre que o Amor me Quiser”, a solo com a Banda Atlântida. Visitou Paris enquanto a banda cumpria as formalidades da agenda: “Sempre gostei de andar sozinha, nunca me fez impressão nenhuma. Andei pelo metro, fui ao Madame Tussauds, ao Centro Pompidou e até almocei num Hare Krishna, no chão, a comer com as mãos. Foi uma aventura muito fixe”. Pressão, confessa, não sentiu nenhuma porque “estava muito lá para trás”. Na memória ficou um momento especial que aconteceu no palco: “Quando levanto a voz lá para cima, todos os músicos da orquestra viraram a cabeça para olhar para mim!”

"Às tantas, uma cantora espanhola, que ainda hoje canta, a Massiel [que venceu essa edição com 'La, la, la'], encontra-me nos bastidores e pergunta-me 'Simone, qué passo?'. Eu disse-lhe: 'Pois, não sei o que se passou. Passou-se o que se passou'"
Simone de Oliveira

Depois dos Gemini perderem para “A Ba Ni Bi”, foi a vez de Manuela Bravo concorrer, levando “Sobe, Sobe, Balão Sobe” até Israel. Os nervos não foram grandes porque “foi a primeira canção da noite”. Confessa-nos a admiração por muitos dos outros participantes, “pelas canções e pela simpatia”, mas ainda mais admiração por um momento em particular. Manuela visitou o mercado árabe e, de repente, é interpelada: “As pessoas reconheceram-me, começaram a cantar o ‘Sobe, Sobe, Balão Sobe’ e a pedir-me autógrafos. Foi completamente inesperado”.

“Simone, qué passo?”

Simone de Oliveira participou em 1965 com “Sol de Inverno” e em 1969 com “Desfolhada”. Desabafa que o verso “quem faz um filho fá-lo por gosto” deu-lhe “cabo da cabeça” e que trouxe algumas consequências, “desde ser insultada na rua a tentarem prender-me”. Uma canção que ainda lhe daria mais problemas ao chegar à Eurovisão e que a fez sentir-se “bastante injustiçada”. “Foi a primeira vez que se usou o quadro eletrónico. Durante o ensaio, como o Teatro Real só levava 600 pessoas, foi aberto aos jornalistas. Estava cheio, como se imagina. Por votação da sala, Portugal tinha ficado em terceiro lugar e a única pessoa que não acreditou nisso fui eu. A delegação portuguesa acreditou toda e eu disse ‘não, não, não’. E ainda bem, ficámos em 15.º. Durante a votação havia uma sala onde estavam os maestros e os compositores. Eu estava lá e todas as pessoas de todos os países perguntavam ‘E Portugal? Porque é que Portugal não está aqui?. Às tantas, uma cantora espanhola, que ainda hoje canta, a Massiel [que venceu essa edição com ‘La, la, la’], encontra-me nos bastidores e pergunta-me ‘Simone, qué passo?’. Eu disse-lhe: ‘Pois, não sei o que se passou. Passou-se o que se passou’.”

[Simone de Oliveira e a “Desfolhada” na Eurovisão de 1969]

Em 2008, um documentário com o título “Yo viví el mayo español” (‘Eu vivi o Maio espanhol’) aponta o dedo à Espanha franquista com acusações de manipulação do resultado através de promessas a outros países. Fica a dúvida se as acusações são verdadeiras e se isso terá influenciado a posição da cantora portuguesa, mas Cliff Richards, segundo classificado nesse ano, exigiu, também em 2008, o título da Eurovisão dessa edição.

Para lá das vitórias e das derrotas, há sempre espaço para a festa. Mesmo sem nunca terem saído vencedores, vários artistas portugueses tiveram direito a uma grande receção e outros chegaram a participar nas celebrações de vitória de concorrentes de outros países. E há também quem não tivesse vivido nada próximo do sonho, como Dina. A cantora nem chegou a dormir em Mälmo depois da grande final da edição sueca de 1992. “Fomos muito cedo para lá, lá para as 8 horas [da manhã]. Entrámos para o pavilhão [da final da Eurovisão] e já não saímos. Apenas fomos à ceia. Viemos logo embora. Fui ao hotel buscar as coisas e apanhámos o avião. Chegámos de madrugada”.

"Tínhamos a canção preferida do vencedor. Ele [Johnny Logan] fez uma festa privada e de fora só convidou a delegação portuguesa. E fomos nós que brilhámos. Foi num hotel, foi tudo muito rock'n'roll, tudo aos saltos e a dançar. Foi uma festa divertida à brava."
José Cid

Outros tiveram direito a festas mais longas, como o concorrente de 1980 e a respetiva banda. José Cid, Mike Sergeant, Zé Nabo e Ramón Gallarza gravaram aquele que é considerado por muitos um dos discos clássicos do rock progressivo mundial, 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. E estavam na Eurovisão em 1980, onde tocaram “Um Grande, Grande Amor”. A convite do vencedor, Johny Logan, acabaram por tocar na festa de celebração da vitória irlandesa. “Tínhamos a canção preferida do vencedor. Ele fez uma festa privada e de fora só convidou a delegação portuguesa. E fomos nós que brilhámos. Foi num hotel, foi tudo muito rock’n’roll, tudo aos saltos e a dançar. Foi uma festa divertida à brava.”

“Está muita gente em Santa Apolónia”

Por outro lado, Simone de Oliveira teve a melhor receção possível para uma não-vencedora. “Viemos de comboio de Madrid porque dois funcionários da RTP não queriam andar de avião. Da fronteira até Lisboa levámos 10 horas porque as pessoas estavam na linha e não deixavam o comboio andar. Começaram a ligar de Santa Apolónia a dizer ‘está aqui muita gente’. Para nós, dentro do comboio, eram 500 pessoas ou mil, que já era uma coisa extraordinária. E, de repente, foi uma grande confusão porque estavam 20.000 pessoas dentro Santa Apolónia. E à volta. E cá fora. Meteu guarda a cavalo, meteram-me num carro que parecia saído de um filme do James Bond. Estava perfeitamente aparvalhada”. Ninguém esperava o efeito desta participação que, relembremos, chegou a dar problemas à cantora. “Tiveram que abrir uma janela que não se abria há 10 anos e deram-me um megafone para eu cantar. Nunca mais me esqueço daquela estação de Santa Apolónia cheia a cantar a ‘Desfolhada’ como se fosse o hino nacional”, confiou-nos orgulhosamente a cantora.

[a primeira vez de Simone na Eurovisão, em 1965, com “Sol de Inverno”]

“Houve uma ceia, como há sempre depois dos festivais. Estávamos todos lá em mesas redondas que tinham as bandeiras dos respetivos países e, de repente, entra uma tuna académica — não sei como conseguiram. Como imagina, com Franco e Salazar, nada disto era muito fácil ou simples. Ficámos todos de boca aberta, sem perceber nada o que se estava a passar. Puseram-me uma capa às costas e o Dr. [António] Bívar, que era o homem das relações públicas da RTP e costumava dizer sempre ‘não se chora, não se chora’, chorava. Naquela mesa, pelos vistos, a única que não podia chorar era eu. Parecia que tinha acabado o mundo. Foi um momento muito emocionante e deram-me uma boneca muito bonita para a minha filha que na altura tinha 10 anos. Chorei depois daquilo tudo. Cheguei ao quarto e telefonou-me o Raul Solnado”. Simone atende, ouve um “estamos aqui” e desata a chorar. Raul Solnado fazia-se acompanhar por Canto e Castro e Carlos Cruz, que jogavam às cartas por aquela hora. “O que eu chorei! Até caí da cama para o chão”.

A primeira semifinal da Eurovisão 2017 tem transmissão em direto na RTP esta terça feira, dia 9, a partir das 20h.

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