De 300 para 6.732 cidades. O que aconteceu aos vencedores do concurso da Web Summit?

04 Novembro 2017

Fomos à procura dos últimos quatro vencedores do concurso Pitch da Web Summit. O que mudou nas startups que foram consideradas as mais promissoras? "Tudo."

A Import.io quadriplicou o número de colaboradores em quatro anos. A Codacy captou um investimento de 4,3 milhões de euros e está presente em 6.732 cidades. A Bizimply conseguiu com que Bono, vocalista dos U2, investisse na empresa outra vez e a Kubo-Robot passou de uma avaliação de um milhão de euros para uma avaliação de três milhões. Ganhar o concurso Pitch (melhor ideia de negócio) da Web Summit é o objetivo de milhares de empresas que se candidatam ao pódio. Para a edição deste ano, há cerca de 200 na corrida.

Só em 2014 é que o principal concurso de startups da Web Summit ganhou os moldes que tem hoje, mas a base foi sempre a mesma: empreendedores que sobem ao palco para venderem o seu produto num curto espaço de tempo (atualmente são quatro minutos). Mas não é qualquer empresa que pode fazer parte da competição: as startups que receberam até três milhões de euros em investimento dividem-se entre as Alpha (ainda sem produto no mercado) e as Beta (com um produto já no mercado, mas ainda a precisar de investimento e desenvolvimento).

Receita para um bom ‘pitch’? Números, simplicidade e paixão

Depois das candidaturas, são escolhidas 200 startups para chegarem ao palco final. Quem decide quem lá chega é o júri, composto por investidores internacionais, numa apresentação moderada pelo próprio Paddy Cosgrave. E depois de ganharem, o que acontece? O Observador falou com os fundadores das startups em fase Beta que venceram a competição desde 2013. Apesar de terem crescido, uma coisa têm em comum: sobre o que fariam de diferente se voltassem ao dia em que ganharam, a resposta foi sempre a mesma: “não mudávamos nada”.

"Um pitch é contar uma história, é criar uma conexão com o investidor" - Gerard Forde, presidente-executivo da Bizimply que venceu o Pitch de 2015 do Web Summit.

2013: Import.io, a startup que já é uma multinacional

Em quatro anos, a Import.io quadriplicou o número de colaboradores. Em 2013, a Web Summit realizava-se na cidade natal de Dublin e apesar de já ter bastante sucesso, não tinha o relevo que tem hoje. Em vez de 60 mil pessoas, o evento recebia 10 mil e o concurso de startups também era diferente: ainda não existia um prémio de 100 mil euros. “O prémio era a oportunidade de comunicar o que fazemos a um público com investidores”, explica ao Observador Andrew Fogg, fundador da Importo.io.

A Import.io é uma empresa americana que produz um software que converte dados de sites em tabelas fáceis de compreender. Passou de uma equipa de dez pessoas em 2013 para uma equipa de 40. De centenas de utilizadores, “passámos a centenas de milhares”, conta Andrew. Vencer o Pitch foi “uma oportunidade ganha”, conta ainda Fogg.

Passado quatro anos, o fundador olha para a presença na Web Summit como uma experiência bastante positiva, que “ajudou a sedimentar a marca da empresa”. No mesmo ano em que ganharam o Pitch, participaram em mais sete competições semelhantes em eventos de empreendedorismo em todo o mundo. Dessas, ganharam seis. Hoje, a Import.io continua sediada em São Francisco e tem clientes em todo o mundo.

"O prémio não era monetário, era uma oportunidade de comunicar. No final recebemos um taco de baseball", explica Andrew Fogg, fundador da startup que ganhou o Pitch em 2013.

No ano seguinte, Andrew voltou à Web Summit, mas o objetivo de encontrar financiamento tinha ficado completo no ano antes. Em 2014, Andrew foi ao evento apenas como orador e, desde aí, não voltou a ir. Atualmente, a Import.io tem na sua carteira de clientes nomes como a Amazon ou o Walmart, uma das maiores cadeias de hipermercados do mundo e a maior nos EUA.

“O prémio não era monetário, era uma oportunidade de comunicar. No final recebemos um taco de baseball”, explica o fundador da startup que ganhou o Pitch em 2013. Andrew continua como diretor de tratamento de dados na empresa que fundou. O presidente da empresa já não é o mesmo, mas os fundadores mantêm-se na equipa. A Import.io já não se define como uma startup e os fundadores disseram ao Observador que a empresa já é uma multinacional.

2014: a portuguesa Codacy que já está em 6732 cidades

Foi a primeira empresa portuguesa a vencer os “Óscares das startups na Europa”, como noticiámos em 2014. E uma das responsáveis pela colocação das palavras “Web Summit” no léxico português. Ao vencer o concurso da maior conferência de tecnologia e empreendedorismo da Europa, a Codacy mostrou que Portugal consegue ter startups que ganham às melhores. O prémio era de 10 mil euros, mas a competição já decorria como é hoje. Quando Jaime Jorge ganhou o Pitch estavam presentes em cerca de 300 cidades, atualmente a Codacy está em 6.732.

A empresa de Jaime Jorge e João Caxaria promete resolver automaticamente problemas que são detetados em linhas de código de programas informáticos . Objetivo: ajudar os programadores do mundo todo a trabalhar com mais eficiência. Como explica Jaime Jorge ao Observador, ganhar a competição ajudou a levar o nome Codacy a mais clientes. “A base de negócios é a mesma desde 2014, mas o crescimento da empresa desde a vitória tornou o produto melhor”, explica Jaime Jorge ao Observador.

O que aconteceu à Codacy depois da Web Summit? Cresceu “ridiculamente”

A exposição que a vitória deu à Codacy fez com que o investimento também crescesse. De 400 mil euros de investimento passaram a 4,4 milhões de euros em 2017, depois de terem uma ronda que foi liderada pelos suecos da EQT Ventures, na qual também participaram as portuguesas Caixa Capital e Faber Ventures. Desde 2014 que Jaime Jorge tem marcado presença regular na Web Summit, mas agora passou de empreendedor a orador. No entanto, assume: “continuo a ir à Web Summit para fortalecer as relações que tenho com pessoas e fazer crescer a empresa que fundei”.

Codacy angaria 4,3 milhões de euros em investimento

2015: Em 2015, o prémio ficou na irlandesa Bizimply

A Web Summit de saída de Dublin em 2015, mas quem subiu ao palco para erguer o troféu foi uma startup da casa. A irlandesa Bizimply, fundada por Gerard Forde, Mikey Cannon e Norman Hewson, foi a grande vencedora, com o software de gestão de horários que desenvolveu para trabalhadores. À pergunta “o que mudou desde que ganharam o Pitch?”, Gerard Forde, fundador e presidente executivo diz: “tudo”.

Desde a vitória em 2015, passaram de uma equipa de oito pessoas para uma de 25. “Agora somos uma empresa, já não somos uma startup”, conta Gerarde Forde ao Observador. No Pitch gabavam-se de Bono, vocalista da banda U2, ser um dos investidores da empresa. Nos últimos dois anos, conseguiram angariar mais dois milhões de euros em investimento, em relação aos 750 mil que tinham até à vitória. “E o Bono investiu outra vez”, conta Forde.

A expansão da Bizimply foi maioritariamente no Reino Unido, mas agora têm clientes em 20 países, quase o dobro dos 11 países em que estavam presentes em 2015.

"Agora somos uma empresa, já não somos uma startup", conta Gerarde Forde, fundador da Bizimply e vencedor em 2015.

A Bizimply é exemplo de que, na Web Summit, não é obrigatoriamente o presidente executivo que vende a startup, ao contrário do que está presente nas dicas de alguns investidores. Apesar de atualmente Gerard estar mais à vontade nessas situações, assume que fica nervoso e Mikey Canon, cofundador e responsável pelo produto, “conta melhor a história”. Mesmo sendo o líder da empresa, os dois continuam a “dividir responsabilidades com dantes”, explica Forde.

A empresa vai atingir em 2018 o break-even (acumulação de lucros que iguala o investimento feito). Forde acredita que o caminho para esse sucesso teve uma grande ajuda do facto de terem vencido o Pitch, em 2015. Apesar de, este ano, os fundadores da empresa não marcarem presença no evento, em 2016, assistiram à chegada da Web Summit a Portugal e assumem: “estávamos um pouco tristes por a Web Summit sair de de Dublin, mas agora fico muito contente por ver quanto cresceu em Lisboa”.

2016: Kubo-Robot está avaliado em mais de três milhões

Podemos achar que um ano foi pouco tempo para a dinamarquesa Kubo ter sentido grandes mudanças na sua atividade, ao contrário das parceiras no pódio, mas um ano na vida de uma startup pode ser um eternidade. A empresa que levou o “óscar” de 2016 na chegada da Web Summit a Lisboa ganhou um prémio de 100 mil euros de investimento. O que fez com o dinheiro? Disse que não o queria.

Kubo-Robot. Os dinamarqueses que venceram a Web Summit em 2016

Os dinamarqueses que vendem um robô educativo em forma de cubo para ensinar crianças a programar não quiseram o dinheiro da Portugal Ventures — que patrocinou o concurso em 2016 –, mas apenas porque tiveram uma oferta melhor. Depois do evento, os empreendedores voltaram à Dinamarca e com a publicidade que tiveram com a vitória na Web Summit receberam uma proposta de um milhão de euros de investimento. “Aceitámos o outro investimento porque era um valor maior e porque vinha de um fundo dinarmaquês”, assume Tommy Otzen, presidente executivo da Kubo.

"Não teríamos conseguido outros investimentos se não fosse a vitória no Web Summit", diz Timmy Otzen, presidente executivo da Kubo 

Desde o ano passado “muito mudou”, diz Otzen. “Lançámos o robô no mercado nórdico em outubro e aumentámos a equipa de três para oito pessoas”, adianta Tommy. Em janeiro, dois meses depois da vitória, fizeram uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) e conseguiram cerca de 73 mil euros. De uma avaliação de um milhão de euros, hoje estão avaliados em mais de três milhões euros, conta ainda Otzen.

Este ano, o empreendedor volta a marcar presença na Web Summit, “mas como orador”, diz. O empreendedor assume que também vai procurar novos investidores, mas diz:” vou fazer pitch num ambiente muito mais descontraído”. “Não teríamos conseguido outros investimentos se não fosse a vitória no Web Summit”, diz Timmy Otzen, presidente executivo da Kubo

Há um diálogo no filme “O Lobo de Wall Street” que mostra como se vende um produto. E um pitch é isso: vender uma ideia de forma a cativar quem vai pôr dinheiro na empresa. “Não basta um produto incrível, é preciso vendê-lo”, como dizem os investidores. É mais ou menos o que se passa nesta cena:

– Vende-me esta caneta. [caneta entregue]
– Queres que te venda esta caneta? Então faz-me um favor, escreve alguma coisa nesse guardanapo.
– Como? Tens a minha caneta.
– Exatamente.

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