Do espartilho ao “push-up”. A história da lingerie conta-se de dentro para fora

01 Dezembro 2017172

Depois de 400 anos espartilhada, a silhueta feminina respirou de alívio no início do século XX. Desde então a lingerie leva cada vez menos tecido. Uma história de soutiens ao lume e de anjos em brasa.

Se a história da lingerie do século XX fosse um conto infantil, o vilão chamar-se-ia espartilho, o soutien passaria por herói e a combinação seria aquela personagem ligeiramente mais complexa com um bocadinho dos dois. A princesa? O corpo feminino, naturalmente. A alegoria é esclarecedora (engraçada até), mas nos últimos 120 anos a evolução da roupa interior das mulheres esteve longe de ser assim tão linear. Linear, lin (linho em francês), linge (linge de maison = roupa de cama), lingerie — enfim, a etimologia é o que menos importa aqui.

“A lingerie ajudou sempre a definir a silhueta vigente nas várias décadas.” Quem o diz é Anabela Becho, historiadora de moda e investigadora no Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa (CIAUD).

Tal como na moda do vestuário exterior, a lingerie avançou e retrocedeu ao sabor das marés políticas e socais. Na verdade, essa é também a história da silhueta feminina, com a diferença de que, ao contrário dos tailleurs bar, dos les smokings e dos wrap dresses desta vida, a lingerie nem sempre esteve à vista de toda a gente. No recato do lar, fez a mulher respirar de alívio com o aproximar dos anos 20. Nos anos 40, as pinups provaram que a evolução da roupa interior era um caminho sem retorno e que a quantidade de tecido, cada vez menor, nunca mais voltaria a aumentar (pelo menos, não se viria a inventar). Tornou-se minimal, milionária, minimal e milionária e até a simples ausência dela se afirmou como uma declaração de independência.

O “cofre de seda”, mais conhecido como espartilho

Nenhuma outra peça de roupa interior perdurou tanto no tempo. Durante sensivelmente quatro séculos, o espartilho foi sinónimo de elegância feminina, mas também de boa conduta e estatuto social. A teoria mais unânime é de que a peça nasceu em Itália e de que foi Catarina de Médici a levá-la para França quando casou com Henrique II. Espanha é outra das origens prováveis, já que foi o país onde nasceu o verdugado, estrutura de madeira presa à cintura responsável pelo aspeto volumoso das saias e primeira versão da crinolina.

Se inicialmente o objetivo do espartilho era sustentar os seios e assegurar uma postura hirta, no século XVIII estava mais do que assumido que a principal função era adelgaçar a cintura e quanto mais cedo as mulheres começassem a usá-lo melhor. Madeira e barbas de baleia eram os materiais mais utilizados para dar rigidez às peças. Surgiram na época os primeiros alertas de médicos para os prejuízos para a saúde, de costelas partidas e malformações nos ossos à deslocação de órgãos. Mas o espartilho ainda apertou mais.

Dita von Teese e Jean-Paul Gaultier, dois perpetuadores da silhueta criada pelo espartilho.

Foi na Inglaterra vitoriana que a moda atingiu o auge, já no século XIX. Os tecidos eram cada vez mais luxuosos, mas lá dentro havia um novo elemento: o aço. É a época do tight-lacing e de casos extremos em que as cinturas mais finas iam pouco além dos 40 centímetros. Em 1874, uma lista de 97 doenças nomeava uma única causa: o uso exagerado do espartilho. No mesmo ano, a intelectual norte-americana Elizabeth Stuart Phelps, voz da reforma do vestuário feminino, apelou a que todas as mulheres queimassem os seus espartilhos. Em outubro de 1903, o The New York Times trazia uma notícia insólita. Na autópsia a uma mulher de 42 anos, vítima de morte súbita, o médico descobriu duas peças de aço do espartilho alojados no coração.

Enquanto o uso do espartilho se tornava cada vez mais extremo, surgiram as primeiras alternativas. Na viragem do século, a designer Jeanne Margaine-Lacroix chocava Paris ao mostrar a ilustração de um vestido sans corset na revista L’Art et La Mode. A elasticidade dos materiais exigiam o mínimo de estrutura nas suas peças e esta seria a primeira de várias polémicas em torno das criações da criadora. Anos depois do primeiro vestido sem espartilho ter aparecido, foi Paul Poiret a dar força à tendência ao resgatar o estilo neoclássico através peças muito mais leves. Em 1903, Mariano Fortuny y Madrazo desenha o vestido Delphos. Na época, o modelo era utilizado pelas mulheres dentro de casa. Foi preciso esperar até aos anos 20 para vê-lo sair à rua.

Havia uma fábrica de espartilhos na Amadora

Não vale a pena apanhar o metro para ver o que resta da antiga Fábrica de Espartilhos a Vapor Santos Mattos & Cª, porque no lugar dela, hoje, só vai encontrar blocos de apartamentos. Fundada em 1895 na antiga Porcalhota, a pequena oficina familiar cresceu e no início do século XX era já uma fábrica com maquinaria francesa movida a vapor. Em 1914, foi construído um moinho junto à fábrica que abastecia o edifício com energia elétrica.

Até ao encerramento, já no final dos anos 60, a fábrica manteve-se um negócio familiar. Dos três sócios, José dos Santos Mattos, José Augusto Roubaud e António Rodrigues Corrêa, só o terceiro não pertencia à família, cujas mulheres ocupavam os cargos de contramestras. Durante décadas, esteve dividida em dois pisos. Em baixo, os homens trabalhavam com barbas metálicas e ilhós. No andar de cima, as costureiras e modistas manipulavam toda a espécie de tecidos. É que da Amadora saiam espartilhos para todos os bolsos, dos mais baratos em sarja de algodão, às peças com rendas, brocados e sedas puras. Parte do sucesso da Santos Mattos deve-se ao facto de ter sido pioneira na normalização dos tamanhos, algo que só viria a tornar-se prática comum com a difusão do pronto-a-vestir, em meados do século XX. Produzia medidas para todos os corpos e chegou mesmo a exportar para a ex-colónias.

"A decadencia plastica da mulher retardou-se vinta annos com o espartilho. Este beneficio bastava para o absolver de todos os seus maleficios. Graças a elle, a mulher pode prolongar a linha airosa do seu corpo juvenil, conservar a flexibilidade elegante da mocidade, manter no aconchego d'esse cofre de seda a erecção do collo e a finura da cinta", lê-se.

Chegou a empregar 300 pessoas nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, por sinal, a época dourada da produção de espartilhos na Amadora. Na edição de 8 de maio de 1911, a revista Ilustração Portugueza dedicou sete páginas à Santos Mattos. Além da referência à fábrica que laborava a todo o vapor, a publicação empenhou-se no elogio ao uso do espartilho. A peça era na época tão indispensável ao quotidiano de uma mulher de classe média ou alta como as restantes peças de roupa. “A decadencia plastica da mulher retardou-se vinta annos com o espartilho. Este beneficio bastava para o absolver de todos os seus maleficios. Graças a elle, a mulher pode prolongar a linha airosa do seu corpo juvenil, conservar a flexibilidade elegante da mocidade, manter no aconchego d’esse cofre de seda a erecção do collo e a finura da cinta”, lê-se. Lidas as palavras do dotado redator, a conclusão é só uma: o que seria da mulher sem espartilho.

Dentro da fábrica, que se intitulava a maior da Península Ibérica, a carga horária diária chegava a ser de 12 horas nos longos dias de verão. Os trabalhadores, sobretudo as mulheres, laboravam ali como um complemento à atividade agrícola e percorriam a pé longas distâncias, vindos de localidades como Belas e Venda Nova. Na Casa dos Espartilhos, a loja da fábrica na Rua do Ouro, o cenário era outro. Aí só trabalhavam mulheres, que garantiam um atendimento atencioso e recatado às clientes, sempre no primeiro andar.

Segundo Anabela Becho, Portugal só deixaria de acompanhar a par e passo as tendências de Paris com a ditadura. Até então, a sintonia com o último grito da moda parisiense era total. “No início do século, nas primeiras duas décadas, a moda em Lisboa estava muito alinhada com a moda internacional, sobretudo a de Paris. O ‘atraso’ veio com a ditadura, embora na década de 40, com as refugiadas, as mulheres portuguesas adquiriram maiores hábitos de higiene e de embelezamento, e também de ousadia, lingerie incluída”, afirma a investigadora.

O negócio começa a esmorecer depois da guerra. O espartilho começa a entrar em desuso e, dez anos depois, já só as senhoras mais conservadoras continuavam a usar a peça. Ao longo do século XX, a Santos Mattos foi diversificando a produção, à semelhança do que aconteceu um pouco por todo o mundo. Chegou a fazer cintas medicinais e até roupa de criança. Palmira Bastos terá sido uma das clientes mais fiéis. Até à sua morte, em 1967, a atriz portuguesa usou os espartilhos feitos na Amadora.

A guerra. No campo de batalha e na roupa interior

Anabela recorda A Pompadour, loja da Rua Garrett, em Lisboa, que nos anos 20 e 30 arrojou exibir as primeiras montras com peças de lingerie. Com a primeira guerra, as mulheres assumiram um relevo sem precedentes no mercado de trabalho e o vestuário teve de acompanhar o novo quotidiano. “Nos anos 20, a silhueta é praticamente direita, sem curvas, com o peito dissimulado. As peças de roupa interior eram as combinações, que acompanhavam o corpo mas não marcavam nem a cintura nem o peito. É a silhueta longilínea de Jean Patou e de Coco Chanel”, refere.

Era assim a roupa interior nos anos 20. Esta fotografia é de 1928.

O espartilho distanciava-se cada vez mais do guarda-roupa feminino. Foi substituído pelas combinações e mesmo nos anos 30 e 40, altura em que a cintura voltou a ficar mais insinuada, surgiram versões mais pequenas, muito semelhantes a cintas. “O início do século XX representa uma mudança de paradigma na relação do vestuário com a real fisicalidade do corpo feminino, que durante séculos foi restringido, quase alienado da sua forma. Nos anos 50, volta-se às silhuetas mais estruturadas”, afirma Anabela Becho. A mulher ficou mais livre, ao passo que, durante os conflitos, a indústria preferiu canalizar as componentes metálicas das peças mais estruturadas para a produção de armamento, e não só. “Comecei a trabalhar numa fábrica de espartilhos com 14 anos, em 1939. Seis meses depois, tivemos de mudar dos espartilhos para paraquedas, máscaras de gás e capas de revólveres.” O relato é de Kathleen Mary Partridge, uma operária fabril de Bristol que partilhou a sua história com a BBC.

Então e o soutien? Embora haja registos de peças semelhantes na Grécia Antiga e na Idade Média, o soutien como hoje o conhecemos nasce em 1914, pelas mãos de Mary Phelps Jacob. “Traga-me dois lenços de bolso e um pedaço de fita cor-de-rosa”, terá dito para a sua empregada enquanto se preparava para ir a um baile. Registou a patente da brassiere, mas acabou por vendê-la à Warner Brothers Corset Co., uma empresa do Connecticut, por 1500 dólares, atualmente o equivalente a 37 000 dólares.

O registo da patente da "brassiere" com base na ilustração de Mary Phelps Jacob, 1914.

Nos anos 30 e 40, a descoberta de fibras artificiais revoluciona o setor. A lingerie deixa de se resumir a duas únicas possibilidades — algodão ou seda — e caminha para a produção em massa. Encolhe e a culpa não é só das guerras. “Não podemos excluir os fenómenos socais e tudo o que a mulher conquistou no século XX. As transformações aconteceram por causa das guerras mas também pelo lazer, pela vida ao ar livre, pelos desportos e pela praia. Perante este novo modo de vida, a lingerie tinha de ficar mais pequena”, completa Anabela Becho.

Em Hollywood, quanto mais para cima melhor

Do recato do lar para as páginas de revistas e jornais, em meados do século passado, Hollywood dispensa o vestuário exterior. Atrizes, pinups, it girls mostram as curvas ao mundo. A lingerie passa a ser sinónimo de sensualidade, ao mesmo tempo que Christian Dior recupera a silhueta de outros tempos: cinturas marcadas e peitos proeminentes. Bralettes e cuecas de cintura subida dão lugar a peças bem mais próximas da lingerie que conhecemos hoje.

"O início do século XX representa uma mudança de paradigma na relação do vestuário com a real fisicalidade do corpo feminino, que durante séculos foi restringido, quase alienado da sua forma. Nos anos 50, volta-se às silhuetas mais estruturadas", afirma Anabela Becho.

Então e se os atributos naturais da mulher não fossem suficientes para a tão desejada figura? É aí que entra um senhor chamado Frederick Mellinger. Foi com o seu alto patrocínio que as bombshells da época se tornaram ainda mais vistosas. Como? Mellinger não só cria o primeiro soutien almofadado em 1947, altura em que funda a marca Frederick’s of Hollywood, como, um ano depois, lança o famoso The Rising Star, o primeiro soutien push-up da história. Qual foi a inspiração? Frederick limitou-se a pedir conselhos aos seus colegas do exército sobre que tipo de lingerie é que gostavam que as suas namoradas usassem. Eles responderam e desde então o mundo nunca mais foi o mesmo.

Apresentação de um novo conjunto de lingerie em Paris, 1949. Os jornalistas rodeiam a modelo para tocar e fotografar.

“Free the nipple” e os soutiens que valem milhões

Quem diria que, 20 anos depois, haveria mulheres a queimar soutiens. O gesto foi mais político do que outra coisa (afinal, um soutien não é um espartilho assassino), ainda assim houve quem lhes chamasse “instrumentos de tortura das mulheres” durante o protesto feminista de 7 de setembro de 1968, em Atlantic City, nos Estados Unidos. Na verdade, as ativistas do Women’s Liberation Movement lutavam precisamente contra o que tinha acontecido lá atrás: a exploração comercial do corpo da mulher. Muitos direitos foram conquistados, o soutien ficou sossegado no sítio dele, mas não por muito tempo.

Adriana Lima com um Fantasy Bra de 2 milhões de dólares da Victoria's Secret, 2010.

Em 1977, Roy e Gaye Raymond fundavam a Victoria’s Secret, em São Francisco. Viria a ser a próxima marca espetáculo, depois da Frederick’s of Hollywood começar a perder pujança. De certa forma, a vulnerabilidade da lingerie converteu-se no poder da mulher. “É um paradoxo: ao mesmo tempo que espartilha, é também um símbolo de feminilidade”, conclui Anabela Becho, investigadora do CIAUD. No romper dos anos 90, Madonna apontou os seus seios cónicos ao mundo e transformou a roupa interior numa farda performativa.

Dos Roxy Music a Kate Moss, a ausência do soutien nunca mais deixou de pairar, fosse uma provocação em tom roqueiro ou a manifestação suprema daquele effortless cool. No fim do século XX e tal como no resto da moda, a lingerie já era um mundo. Um mundo com referências para revisitar (é olhar para as obras-primas Jean-Paul Gaultier, Thierry mugler e Alexander McQueen e tentar encontrar o espartilho) e cheio de linguagens diferentes. Onde a logomania da Calvin Klein ganhou popularidade ao mesmo tempo que a Victoria’s Secret construía soutiens de 10 milhões de dólares, curiosamente, semelhantes aos adereços que Mata Hari usava há 110 anos. Afinal, nem tudo mudou.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mgoncalves@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site