Entrevista a Domingos. Os carrinhos de Robson no balneário, o corte de cabelo a Fernando Santos e os casaquinhos de Branco

19 Maio 2017629

Último português a consagrar-se melhor marcador do campeonato, há já 21 anos (1995-96), Domingos tem este sábado um desafio curioso, na visita ao campo do seu filho Gonçalo, em Vila do Conde.

Missão impossível? Nem por sombras. Não? Vamos arriscar, confiem em nós. Cabe na cabeça de alguém entrevistar o Domingos à quarta-feira? Cabe e que esta seja a última pergunta deste parágrafo. Domingos, 48 anos de idade, é o treinador do Belenenses e tem um passado glorioso como goleador mais capitão do Porto à conta de golos e títulos (17, entre sete campeonatos, cinco Taças e mais cinco Supertaças). Pelo meio, um outro título, mais individual, o de melhor marcador do campeonato 1995-96. É ele, aliás, o último português com a Bola de Prata. Depois, uma série infindável de 21 estrangeiros, desde Jardel a Bas Dost. Domingos à quarta-feira, ei-lo.

Lembras-te disto?
Assim tão completo, não. Foi o meu primeiro jogo pelo Porto, ainda por cima num pelado. Estamos a falar da época 1987-88, uma equipa campeã europeia e reforçada por alguns jovens. Lembro-me do campo pequenino, completamente cheio, tudo à pinha. Do jogo em si, não me lembro nada por aí além porque a bola saltava muito e os espaços eram reduzidos. Treinámos a semana toda no pelado da Constituição.

Era o Ivic, o treinador?
Sim, exacto.

Alguma palavra especial para ti?
O Ivic preparava os jogos de uma forma muito aplicada, interventivo. Adorava falar de futebol, fazer riscos, explicar-nos as coisas. Se apanhasse um jogador, falava-lhe de táctica, de bola e de tudo à volta. Nunca te deixava à solta por um segundo. Com o Ivic, impossível. Eheheheheh (atenção, é a primeira gargalhada de uma série interminável de Domingos).

Já sabias que ias jogar?
Ainda não sabia, mas sabíamos que um jogo com uma equipa da 3.ª divisão abria as portas para alguns dos mais novos, como eu, Barriga, Rui Neves, o próprio brasileiro Raudnei, que tinha acabado de chegar.

E jogar no pelado, que tal?
Estava habituado, através dos juniores. Julgava era que já não havia, sobretudo a partir do momento em que aterras nas Antas e não mais sais de lá. Na altura, ainda eram permitidos pelados e isso ajudava à festa.

Falaste dos juniores. O que ganhaste nas camadas jovens do Porto?
Em quatro anos, ganhei três títulos de campeão nacional.

Só falhou qual?
O primeiro ano de iniciados, perdemos com o Sporting, em Leiria. Como o Vítor Baía ainda era pequenino, eles chutavam por cima. Nós gozávamos imenso com o Vítor. Eheheheheh.

E de resto?
Ganhei nos juvenis e juniores. Sempre com o Sporting, a equipa de Cadete, Canana, essa geração.

Já ouvi falar muito da formação do Porto. Todos os jogadores falam-me do mesmo senhor. Agora está a falhar-me o nome.
Era o Costa Soares [treinador das camadas jovens desde 1974 até 2007]. Só pode ser ele. Que senhor. Era um homem do treino e da exigência. Era ele que nos incutia desde cedo o que era ser um jogador à Porto. Marcou-me a mim e muitos mais. Sei disso porque ainda me falou com muita gente e todos me dizem o mesmo. Costa Soares é daquelas pessoas que têm de fazer parte de um clube, faz falta ao futebol uma pessoa como ele. Ouve, ele fazia tudo, tanto dentro como fora do campo.

Fora?
Ele preocupava-se com tudo: o corte de cabelo, a forma de vestir, as companhias, os namoros. Tínhamos de abdicar de muitas coisas para chegar a um certo nível e ele explicava-nos isto da forma mais calma possível. A falta de humildade e a vaidade desvia-nos por outros caminho e o Costa Soares sempre foi um pai para muitos. Nunca nos deixou fugir.

Foi ele quem te recebeu no FCP?
Claro.

Tinhas quantos anos?
Treze. Ele recebeu-me a mim e ao Vítor [Baía], acompanhados pelo Fernando Santos, da Académica do Leça. Entrámos nas Antas, descemos para o departamento de futebol e havia ali uma entrada à esquerda. O Costa Soares estava à nossa espera, olhou para o Vítor e disse: ‘A ti, vou ter de te puxar as orelhas para cresceres’. Olhou para mim e disse: ‘E a ti, que és tão magrinho, és um fivelinhas, vou dar-te de comer.’

E deu?
Então não deu? Íamos comer ao Manhoso.

Manhoso?
Sim senhor, o restaurante chamava-se Manhoso. Eheheheheheh

E resultou?
Vamos lá ver, sempre fui magro. Mesmo. Sempre fiquei nos 50 quilos, mais coisa, menos coisa. Sei lá, nunca consegui engordar. Ainda tomei vitaminas para poder desenvolver os músculos, só que era difícil, muito difícil. Só para veres, a primeira coisa que fazia quando acordava era abrir a cortina e, se estivesse chuva ou vento, o meu dia já seria diferente. Tinha de comer bem para aguentar aquele tempo. Eheheheheh.

Fazíamos jogos de bairro a torto e a direito. O nosso era o bairro dos pobres. Havia o bairro da aldeia nova, o bairro da biquinha, o bairro da alguava. Cada um dava 20 escudos e juntava-se o dinheiro. Quem ganhava, ficava com o dinheiro. Era bom era. Eheheheh. Nem sempre. Às vezes, aquilo acabava à fisgada.

Falaste do Baía.
Conheço-o desde os 8 anos, ele morava na mesma rua que eu, a uns 500 metros da minha casa. Ali juntavam-se muitos miúdos e fazíamos jogos de bairro a torto e a direito.

Jogos de bairro?
Entre os bairros. O nosso era o dos pobres. Havia o bairro da aldeia nova, o bairro da biquinha, o bairro da alguava. Cada um dava 20 escudos e juntava-se o dinheiro. Quem ganhava, ficava com o dinheiro.

Sempre assim, pacífico?
Era bom era. Eheheheh. Nem sempre. Às vezes, aquilo acabava à fisgada.

Hein?
Para os jogos naqueles bairros mais complicados, já íamos preparados com fisgas. No bairro da alguava, um remate meu foi bater na vasilha de leite de uma senhora. Partiu-se tudo, o leite todo derramado e tivemos de dar o nosso dinheiro para pagar outra dose. Grandes tempos.

Tu e o Vítor, sempre?
Sempre. O Vítor começou a frequentar a minha casa e eu a dele. Surgiu a Académica do Leça, onde jogava, e perguntei-lhe se queria ir. Atenção, ele ainda não era guarda-redes.

Ai não?
Quem ia à baliza era um dos Fraga que vendia batatas fritas na praia de Leça. Uma vez, depois de um jogo, o Vítor disse “defendo melhor que tu” numa discussão bicuda. A partir daí, o Vítor foi para a baliza. E ele já defendia muito. Fomos juntos para o Porto e começámos a jogar em torneios. Ele era sempre o melhor guarda-redes e eu o melhor marcador. Crescemos juntos e depois encontrámo-nos lá em cima, nas Antas.

Estavas em campo na estreia do Vítor?
Estava e foi caricato. Era a época do Quinito como treinador. Ele tinha suspendido o Zé Beto e, para cúmulo, o Mlynarczyk lesionou-se naquelas peladinhas atrás da baliza, na véspera do jogo. Tentaram convocar o Zé Beto à pressa, ligaram-lhe para casa e ninguém atendeu. Pronto, lá foi chamado o Vítor. Vou lançar o meu menino, disse o Quinito. Foi um dia inesquecível. O ataque desse Porto era Rui Águas, Gomes, eu e mais um ou dois. Na palestra para esse jogo em Guimarães, o Quinito disse-nos que estava a pensar em meter um determinado avançado, só que depois mudou de opinião em conversa com os adjuntos. Aquilo marcou-me, não estava nada habituado a ouvir um treinador com justificações.

Como era o Quinito?
Oooh, tinha piada. O meu menino para aqui, o meu menino para ali, sempre o meu menino. Dizia-nos isso sempre.

A quem?
Aos mais novos. Ao Vítor. A mim. Uma vez, disse o menino anda a portar-se mal e não o convoquei. Era para mim, não devia estar a aplicar-me nos treinos como ele queria. Eheheheheh. Ai ai, que tempos.

Boa gente, o Quinito?
Muito boa pessoa. Sabes, analiso a forma de pensar do Quinito naquela época e ele deixou a responsabilidade toda na mãos dos jogadores. Por isso, não foi fácil. Verdade seja dita, o Pinto da Costa vai buscar o Artur Jorge para substituir o Quinito e é aí que se dá uma grande viragem no Porto na aposta permanente dos mais jovens como Vítor, Jorge Couto, Rui Jorge, eu. Quer dizer, em 10 anos, ganhámos sete títulos de campeão. Crescemos dentro da equipa e ganhámos uma supremacia notória à escala nacional.

Escapou-me uma coisa. Na época de estreia, fazes quantos jogos além daquele da Taça?
Ainda fiz 15 jogos, um deles o da festa de campeão, nas Antas, com o Benfica. Ganhámos 3-0, com dois golos do Jaime Pacheco.

A tua época de estreia é 1987-88, a de Tóquio. Foste lá?
Não fui convocado e fiquei tão triste [a voz de Domingos está carregada de sentimento]. Vi só na televisão e fiquei surpreendido quando vi aquela neve toda. Lá está, mais uma vez ficou demonstrada toda a força do Porto. Eu, em casa, fiquei acordado o jogo todo.

Qual foi a tua primeira convocatória para um jogo de campeonato?
Para um Elvas-Porto, só que não cheguei a entrar em campo. Chamaram-me à última hora. Curiosamente, o meu jogo de estreia na 1.ª divisão é com o Elvas, no jogo da segunda volta, já nas Antas.

Última hora, porquê?
O Madjer lesionou-se e ligaram-me.

Por telefone?
Ah pois, ainda não havia telemóveis. Eu vivia nuns apartamento atrás do hotel onde o Porto estagiava.

E depois?
Fui de boleia com o João Pinto, que vinha de Oliveira do Douro e passava na Ponte D. Luís.

À boleia, com o João Pinto. Que cenário.
Podes crer, o João Pinto no seu 2 cavalos.

Vermelho?
Vermelho? Nãããããão. Olha quem, o João Pinto com um Citroën vermelho? Era esverdeado ou assim.

Sem ser a boleia do João Pinto, ias como para os treinos?
Ou a pé ou apanhava o autocarro no início da Fernão Magalhães.

Foi fácil a transição dos juniores para os seniores?
Nesse ano, subimos eu e o guarda-redes Best. E não foi fácil, porque estamos a falar de uma diferença de 12/14 anos: eu tinha 18 e eles 32, 34. Andava no meu cantinho e raramente falava. Também tinha a ver com a minha natureza. Aqueles que me abriam mais as portas era o Jaime Pacheco e o Frasco. ‘Ò miúdo, senta aqui e tal.’

E praxes, que tal?
Tenho uma cena engraçada ali no Aleixo, um restaurante de um benfiquista na Campanhã: fui convidado para almoçar com o Sousa, o Jaime Pacheco, o André e o Quim. Filetes de polvo, filetes de pescada e, para beber, um Monsenhor que era um vinho verde. Eu pedi uma 7up. Eles os quatro olharam para mim e disseram-me: ‘Se vais beber 7up, não te vais sentar nesta mesa.’ Mas eu não bebo álcool, defendi-me. ‘Fazes então uma coisa, pedes a 7up e misturas com o vinho.’ Eu nunca bebi, continuava a dizer-lhes. Para quê? Foi aí que eles começaram a incutir-me o álcool às refeições. Depois vêm os apelidos, tudo era um ritual naquele grupo espetacular.

Apelidos, qual era o teu?
Uma vez, o Jaime Pacheco olhou para mim e disse ‘pareces um Morre ao Sol, pá.’ Viro-me para ele: ‘Toda a família da minha mãe é Morre ao Sol’. O Jaime nem queria acreditar. Seja como for, ainda hoje me chama de Morre ao Sol.

E mais apelidos?
Havia o Zé das Medalhas, que eu não digo quem era. E havia o Sinhôzinho Malta. Era o tempo do Roque Santeiro.

O Lima Pereira. Só queria fazer judiarias. Metia-se muito com o Frasco. O Lima era grande, o Frasquinho era pequeno e andavam sempre sempre sempre pegados um com o outro. Dava-me muito com eles porque apanhava-os naqueles treinos dos não-convocados e aquilo era um fartote. Partia-me todo só de ouvi-los.

Quem era o mais brincalhão naquele balneário?
O Lima Pereira. Só queria fazer judiarias. Metia-se muito com o Frasco. O Lima era grande, o Frasquinho era pequeno e andavam sempre sempre sempre pegados um com o outro. Dava-me muito com eles porque apanhava-os naqueles treinos dos não-convocados e aquilo era um fartote. Partia-me todo só de ouvi-los.

E os treinos eram puxados?
Sempre puxados. Com o Artur Jorge, mais puxados ainda.

Então?
O Artur Jorge era um treinador diferente, metia ali uma distância entre ele e os jogadores. Nos treinos, havia muita corrida e os jogadores resmungavam imenso. Então o Madjer, eheheheh. Resmungavam mesmo [Domingos muda a voz e já se parece um velho rezingão], ‘sempre a correr, sempre a correr’. Curiosamente, apanhei o Artur Jorge no Tenerife uns dez anos depois e nada a ver um com o outro.

Como era ele em Espanha?
Muito simpático, amável. Era uma pessoa mais próxima dos jogadores. No Porto, não. Era mais frio e distante dos jogadores. Se me perguntares qual o Artur Jorge preferido, a verdade é que ele ganhou no Porto, com aquele tipo de liderança, e no Tenerife não.

O Artur Jorge treinava em espanhol?
Sim, sim. Ele tinha um adjunto engraçado, o Raúl Águas. Certa vez, passava pelos jogadores e dizia-lhes que iam jogar. Só que dizia a quase todos e só podiam jogar onze. O Makaay, aquele holandês que ainda jogou no Bayern, vira-se para mim e diz ‘Domi, vou matar o adjunto.’ Mas porquê? ‘Disse-me que ia jogar e, quando chega a hora, estou fora.’ E eu a tentar acalmá-lo. Sem efeito, ele foi mesmo falar com o Raúl Águas. ‘O Artur Jorge não me ouve a mim, vai mais pela palavra do preparador físico.’ Só rir.


Houve outra também muito boa. O Artur Jorge fez um onze com seis estrangeiros e o limite era cinco. O Pablo Paz, um argentino com quem ainda falo, vira-se para o capitão Felipe e diz-lhe isso. O Felipe não faz mais nada e diz ao Artur Jorge ‘ò mister, estamos seis estrangeiros, tem de sair um.’ E o que faz o Artur Jorge? ‘Então, sai o Pablo Paz.’ No outro canto, o Pablo Paz só dizia ‘mas porque é que fui falar!’

Porquê Tenerife?
Tive vários convites. Estive perto do Deportivo e ia ser o primeiro negócio do Jorge Mendes. Por qualquer motivo, esse negócio não se concretizou. Mais tarde, ia para o Inter Milão via José Veiga. Como eu não fui, acabou por ir o Zamorano. Ainda estive a caminho de França e nada. Tinha convites todos os anos, só que ficava sempre no Porto. De repente, lesionei-me e saí no ano seguinte, para o Tenerife. A proposta era boa para o Porto, cerca de 8 milhões de euros, e também para mim.

Como era a Liga espanhola?
Aqui, respeitavam-se os grandes. Lá, não. As equipas abordavam o jogo para ganhar. Só para veres, o Tenerife tinha vindo de três boas épocas, com Europa e tudo. Naquela minha época, o presidente demitiu o treinador porque estava só em 6.º lugar e queria lutar pelo título. Por causa dessa troca de treinador, tivemos foi de lutar até à última jornada para evitar a descida.

Como era a tua vida em Tenerife?
Os meus filhos vão ler e dizer ‘lá está ele a falar outra vez do passado’. A verdade é que eram outros tempos, outra descontracção. Os meus filhos passavam os jogos a correr de um lado para o outro no estádio, a comer pipas. E o Mourinho passava por lá de 15 em 15 dias.

Porquê?
Porque o Barcelona jogava uma semana depois com os adversários do Tenerife. Via-o muito, ia lá a casa e tudo. Já fazia parte da mobília, eheheheheheh.

Há pouco, falaste dos estrangeiros. No teu primeiro Porto, havia o Mlynarczyk.
Xiiiiii, o Jozef era muuuito boa gente, falava pouco português e ria-se imenso. Era um guarda-redes exemplar. Cada reposição de bola era o martírio para os defesas.

E com a mão. Punha a bola longe como o caraças. Com ele, o fotógrafo não tinha hipótese nenhuma de brilhar porque o Jozef era aquilo, pronto. Se a bola fosse para canto, ele despachava-a e pronto. Nunca se deitava ou se atirava sem necessidade. Tinha um vício: bebia sempre uma Coca-Cola e fumava um cigarrinho ao intervalo e no fim dos jogos. Quando treinava o Apoel, fiz um estágio na Polónia e encontrei-o. O que falámos e nos rimos, grande Jozef.

Lembro-me da estreia dele, na Luz. Cada pontapé dele ia parar ao Bento.
E com a mão. Punha a bola longe como o caraças. Com ele, o fotógrafo não tinha hipótese nenhuma de brilhar porque o Jozef era aquilo, pronto. Se a bola fosse para canto, ele despachava-a e pronto. Nunca se deitava ou se atirava sem necessidade. Tinha um vício: bebia sempre uma Coca-Cola e fumava um cigarrinho ao intervalo e no fim dos jogos. Quando treinava o Apoel, fiz um estágio na Polónia e encontrei-o. O que falámos e nos rimos, grande Jozef.

Mais tarde, fizeste dupla com Kostadinov, outro homem do Leste. Que tal?
O Kostadinov falava mais que o Jozef e gostava de conviver. Mal acabava os treinos, puxava por mim para ir beber um chazinho ou um café ali perto das Antas. Foi das melhores relações que tive com avançados, com ele e o Mihtarsky. Jantávamos juntos muitas vezes em família e eram boa onda, muito boa onda. O Kostadinov, então, tinha a mania da roupa. Comprava aqueles casaquinhos da Gucci [Domingos faz o sinal de um casaco curto], dos sapatinhos de marca, dos polozinhos. Todo o balneário gozava-o e ele dizia ‘diz qualidade, qualidade, só qualidade’.

E dentro de campo?
Pfffff, ele era impressionante, andava sempre pegado com os centrais. Ele pisava-os, ameaçava-os. Era uma coisa do piorio: mau e um bocadinho porco. Cuspia neles, trincava a língua de raiva e eu ali ao lado a ver aquilo tudo. Agora, quando era para jogar, senhores. Era meter a bola para a frente e ele fazia a festa. Como éramos dois avançados sem posição fixa, andávamos ali de um lado para o outro e o nosso entendimento era sensacional. Criámos uma rotina que não precisávamos de estar preocupados.

Quem era antes do Kostadinov?
Nesse ano, havia o Baltazar, o Paille, o próprio Madjer. Eu só comecei a jogar no Porto numa eliminatória europeia com o Dínamo Bucareste, em Novembro. Empatámos 0-0 na Roménia, com Madjer e Paille na frente. Quinze dias depois, o Madjer estava lesionado e o Paille suspenso, porque tinha sido expulso. A dupla foi Kostadinov e eu. Ganhámos 4-0, o Kostadinov marcou dois e eu, um. Aquilo funcionou às mil maravilhas e nunca mais se mexeu.

Falaste no Madjer, como é que ele era?
Foi o melhor estrangeiro do Porto que vi e até do campeonato português. Ele fazia coisas impressionantes. Se compararmos com um Messi ou um Cristiano Ronaldo, não lhes devia nada em atributos técnicos: as vírgulas perfeitas, os remates com o pé direito e o esquerdo, o jogo de cabeça. Tudo, tudo, tudo era impressionante. A relação com a bola era a mais ideal possível. Um fenómeno.

Boa gente?
Siiiim. O que ele sofria com o Lima Pereira, coitado. O Lima Pereira era o fantasma do Madjer. Com ele tinha horror a agulhas, o Lima Pereira perseguia-o pelo balneário fora com agulhas na mão. Era um ambiente descontraído, tranquilo.

Como era a estrutura de cima do Porto?
Muito pequena. Havia o Teles Roxo, o Reinaldo Teles, o presidente, o Luís César, o Manel que apoiava o Luís César e a dona Albertina lá em cima. Hoje, não. O Porto atingiu uma dimensão enorme. Sinal dos tempos, lá está.

Nos treinos, como é que os defesas te tratavam?
Eles não me davam muita porrada. Às vezes, eheheheheheh. Eles, o Jorge [Costa] e o Fernando [Couto], diziam ‘não venhas para aqui, agora não.’ Pegavam forte, claro que sim. Só que aquilo, ao mesmo tempo, dava-me força. O facto de eles me quererem longe era porque sabiam dos estragos que causaria perto da área.

Jorge Costa e Fernando Couto. Antes, Aloísio.
Adorava o Aloísio, porque saía a jogar. Com classe. Ele fez crescer muitos centrais, ao lado dele. Era uma pessoa calada. Quando abria a boca, era para rir, rir, ruir. De vez em quando, queria dizer tudo e não dizia nada. Nós para ele, ‘fala Alo, fala’ e ele nhãnhãnhã. Grande Aloísio.

E em matéria de jogadores problemáticos, Iuran e Kulkov?
Olha, metemos o Iuran e o Kulkov na linha. Dizíamos-lhes, ‘quando vocês saírem, para almoços, saem connosco.’ E acabaram por encaixar bem no grupo, até porque o espírito da equipa era feito pelo convívio e pela união. Nós comíamos e nós bebíamos, só que chegávamos ao domingo e corríamos uns pelos outros. Por isso, o Iuran e o Kulkov começaram a ir pelas nossas regras.

Falavam português?
Sim, sim. O Iuran era mais expansivo, o Kulkov era mais observador. Eram formas de estar bem diferentes, até porque o Iuran só queria palhaçada, borga.

E se acontece alguma coisa?
Falávamos entre nós, com os capitães à cabeça. O Porto era uma cidade pequena e sabia-se tudo. Nós chegávamos ao treinos e chamávamos quem quer que fosse. Ouve lá, isto é verdade ou não é? Se é, temos de resolver isso.

E o Pinto da Costa?
O presidente também actuava, dizia as coisas como eram e não havia mais desvios.

Vê lá isto, chega ali um treinador inglês, conceituado, e mete-se a fazer carrinhos no meio da balneário. Algo inimaginável. O Robson foi especial. Os treinos eram espectaculares, sempre diferentes e motivadores. Nunca sabíamos o que ia sair dali, só sabíamos que íamos ter prazer. Tinha cada saída engraçada. No fim dos jogos, metia-se à porta do estádio a olhar para as mulheres e as namoradas dos jogadores. Depois apontava-lhes o dedo a rir, oferecia-lhes flores, falava com elas. Ele sabia cativar.

Iuran e Kulkov já é na altura de Bobby Robson
Eheheheheh. Eheheheheh [Domingos não pára de rir, simplesmente não consegue]. Vê lá isto, chega ali um treinador inglês, conceituado, e mete-se a fazer carrinhos no meio da balneário. Algo inimaginável. O Robson foi especial. Os treinos eram espectaculares, sempre diferentes e motivadores. Nunca sabíamos o que ia sair dali, só sabíamos que íamos ter prazer. Tinha cada saída engraçada. No fim dos jogos, metia-se à porta do estádio a olhar para as mulheres e as namoradas dos jogadores. Depois apontava-lhes o dedo a rir, oferecia-lhes flores, falava com elas. Ele sabia cativar.

E mais?
Lembro-me perfeitamente de ele sentir a perda do Rui Filipe. Sentiu à séria. Aquilo foi um choque para ele e dizia-nos ‘sejam responsáveis, não tirem as mãos do volante, não se abstraiam, foquem a concentração.’

Nem imagino o jogo do dia seguinte.
Foi o pior jogo da nosso vida. Em Aveiro, marcávamos golos e abraçávamo-nos a chorar. O Robson também.

https://www.youtube.com/watch? v=yZiFHPCTQIk

Há mais histórias do Robson?
Se há? Dava para um livro, o homem era um senhor. Dificilmente, um jogador não poderia gostar dele. Ele tinha sido operado a um tumor no céu da boca, ali no início da época, e nunca mais mês esqueço de um jogo em Santa Maria de Lamas no seu regresso. Ele estava a falar e, de um momento para o outro, deixou de falar porque o céu da boca caiu. Nesse momento, aquilo deu-nos uma força. E a ele também, o Robson mostrava constantemente uma força interior muito grande. Nós íamos com ele porque gostávamos genuinamente dele.


Ele tem coisas giras comó caraças. Uma vez, o Quinzinho falhou muitos golos. O Robson vira-se para o Quinzinho e pergunta-lhe: ‘Tu conheces Les Ferdinand?’ O Quinzinho a olhar para ele e o Robson repete a pergunta: ‘Tu conheces Les Ferdinand?’. O Quinzinho diz-lhe ‘mister, Les Ferdinand conhece Quinzinho?’ Acabou-se aí, eheheheheh.

E…
Outra do Robson. Ele fazia banho turco connosco. Aliás, fazia tudo connosco. Sai do banho turco, embrulhado num roupão, acompanhado pelo Jorge Couto. Só um parêntesis, o Robson a-d-o-r-a-v-a o Jorge Couto. O Jorge era um dos animadores do balneário, sempre na brincadeira. Durante o banho turco, o Inácio ou o Mourinho penduraram a lista de convocados. Acabam o banho turco, o Jorge Couto olha para o papel e não vê lá o nome dele. O Robson aparece-lhe por trás, mete-lhe a mão no ombro e ‘George, azar, mucho azar’. E o Jorge a olhar para ele, como quem diz ‘não tenho moral.’

Nessa altura, ainda jogavas com as botas do Jacques?
Eheheheheh. Aí, já não.

Qual é realmente a história das botas do Jacques?
Dava-me bem com o Mito, um ano mais velho que eu. E ele deu-me as chuteiras do Jacques. Do Jacques [realça o nome do melhor marcador do campeonato nacional em 1981-82]. Ele tinha um pé pequeno, 38. Servia-me na perfeição. Quase, vá. Eheheheh. Tive de jogar com os dedos dos pés encolhidos. Eram as botas world cup, com pele de canguru, nunca mais me esqueço. Mais tarde, comecei a ter outras condições mais patrocinadores e tal. Ainda hoje não consigo calçar botas sintéticas, de carbono e isso.

Ainda guardas as botas World Cup?
Não guardo e devia ter guardado.

Jogavas sempre com elas?
Sempre, até nas reservas à quarta-feira.

Reservas à quarta-feira?
Os jogos com o Boavista até ferviam e o campo número 1 do Porto enchia mesmo. Nunca mais esqueço de um jogo com o Aves. Tive um treino de manhã. Mal acabou, o Octávio disse à malta ‘agora não se esqueçam que têm de comer tripas’. E eu assim, ‘vou comer tripas agora?’ Pensei que estivesse a brincar. Cheguei ao jogo das reservas e o Octávio mete-me a jogar. E disse uma coisa que nunca esqueci, porque se comprovou a veracidade. Como estava a chover imenso, o campo estava lamacento. E o Otávio: ‘Isto é bom para os levezinhois’. Com toda a razão, eu deslizava em cima da relvado. Acho que fiz dois jogos. E ganhámos 1500 escudos. Era o valor da vitória. O do empate era 750. Como ainda namorava com a minha mulher, aquilo dava para alguma coisa.

Na selecção, lembras-te da primeira convocatória?
Claro, um Portugal-Angola em Alvalade. Ga nhámos 6-0, eu entrei na segunda parte e o Frederico, aquele central, marcou dois golos.

E o teu primeiro golo?
Na Maia, um Portugal-EUA. Ganhámos 1-0.

Mais golos?
Na qualificação, marquei nove.

Qualificação?
Para o Euro-96.

No Euro-96, o avançado era o Sá Pinto.
Lesionei-me a meio da época e estive quase para não ir, só que o Oliveira insistiu e lá fui. Ainda marquei à Croácia.

Pois foi, fora da área?
Sim, isso. Foi o 3-0.

Portugal passa a fase de grupos e depois cai. Como foi viver todas essas emoções?
Foi bonito, o regresso de Portugal a uma fase final desde o Mundial-86 e o regresso de Portugal a Inglaterra, precisamente 30 anos depois dos Magriços. Estávamos tão entusiasmados e aquele chapéu do Poborsky tirou-nos da prova. Foi o cruzamento de duas gerações, com João Pinto e Oceano. O Oliveira também conseguiu criar uma ligação com Portugal. Era noite de São João e o Vítor começou a chorar durante uma sardinhada já combinada. As sardinhas já não sabiam a nada, foi uma frustração. Chorámos na mesa, sobretudo o Vítor. Não era assim que queríamos sair.

Então e depois?
Num jogo com Moçambique, nos Açores, tive uma resposta esticada ao Humberto Coelho. Ele tirou-me ao intervalo. Disse-me ‘Domingos, estás bem?’ Estás bem, não; joguei em todo o lado em 45 minutos: à esquerda, à direita, no meio, atrás do avançado e depois saio. Depois também me saí com a história do Ferrari.

A sério? Conta lá.
Já estava no Tenerife e disse que a selecção era forte como um Ferrari e que era preciso ter mãos para aquilo.

Dás-te com o Humberto?
Agora sim, cumprimento-o e tudo. São momentos a quente.

Duas épocas depois, vais para o Sporting. Quase.
Quem me levou para o Tenerife foi o Veiga e disse-lhe, nessa altura, que queria regressar a Portugal. Ele falou-me do Sporting e vamos a isso. Só que, à última hora, voltei ao Porto.

E?
Foram dois anos diferentes, na ressaca do penta. Perdemos o campeonato para o Sporting em Faro, onde empatámos 3-3 quando estávamos a ganhar 3-1. Até marquei nessa tarde e tudo. Nesse período, ganhámos uma Taça com o Fernando Santos.

Como era o Fernando Santos?
Eheheh, era uma pessoa que parecia estar sempre mal-disposto. Parecia não, estava mesmo. Uma vez, ganhámos em Berlim e passámos à segunda fase de grupos da Liga dos Campeões. A promessa era cortar-lhe o cabelo. Lá fomos, na boa, sempre a rir. No dia seguinte, quando esperávamos uma outra descontracção depois desse episódio, ele entra no balneário cá com uma cara. Eheheh. Não deve ter gostado do corte de cabelo.

Independentemente do corte de cabelo, quais os centrais mais temíveis?
Quando comecei, aquilo era muito mau. Valia tudo: carrinhos, puxões, pisadelas. Em Penafiel, uma vez, o Vasco pisou-me a mão com os pitons de alumínio. Mas pisou-me de propósito. Chamei-lhe tantos nomes, só que aguentei-me à bronca. Não é que quem me substituiu, o Raudnei, também apanhou com o Vasco e até foi expulso? Pois claro que foi, eles entravam em campo para nos provocar constantemente. Depois havia outros, como o Ben-Hur e o Tanta. Meu deus, esses dois eram um tratado. A única forma de os ultrapassar era fugir deles e depois fazer que ia para a esquerda antes de ir para a direita. Mas nada, nada mesmo, bate aquela dupla do Feyenoord, o De Wolf que parecia o Sandokan e um negão [Van Gobbel] com um pescoço maior que a minha perna. Entrei em campo, olhei para eles e pensei ‘se eles me apanham, matam-me’. Ao mesmo tempo, também pensava ‘venham eles, porque vou passar por eles à conta dos dribles’. Havia uma grande confiança dentro de mim e gostava de ter a bola controlada antes de entrar na área. Aliás, às vezes até era assobiado nas Antas por não largar a bola no momento certo. Eheheheh.

E centrais simpáticos?
Uyyyy, não há. Quando se é central, é-se antipático e duro e destruitivo por natureza. O Mozer, meu deus. Aquilo fazia faísca com o Fernando [Couto]. Ainda por cima, tanto o Mozer como o Fernando, são duas pessoas calmíssimas fora do relvado. O Mozer, meu deus, era uma estaca, com uma perna grande comò caraças. Houve uma jogada na linha, nas Antas. Vou para cima do Veloso, passo-o e depois meto-me com o Mozer, junto à linha. Ultrapassei-o e ofereci o golo ao Jaime Magalhães, que atirou à trave ou por cima, sei lá eu. O Mozer encontrou-me, alguma tempo depois, e disse-me que continuava sem saber por onde é que eu tinha passado. Eheheh, o Mozer é boa gente. Passávamos férias juntos no Algarve, dou-me bem com a família, os filhos e tal.

Porto-Benfica, como eram os clássicos?
Eram jogos que já começava a aquecer no aquecimento. Havia uma espécie de muro no meio-campo, a gente a atirar bocas e eles respondiam.

Eles, quem?
João Vieira Pinto, Paneira. Era cá uma agressividade.

E aquele 2-0 do César Brito?
Nas Antas? Foi fogo. O Toni fez queixa porque o balneário cheirava a bagaço. Arriscámos tudo e eles acabaram por ganhar com dois golos do suplente César Brito em contra-ataque. Sentimos alguma injustiça, com o Carlos Valente. Bolas na área do Benfica e era sempre falta. Bola na nossa área, nunca era falta. Aquilo estava a deixar-nos irritados. No túnel, ao intervalo, houve ali uns apertões. Depois, sofremos dois golos nos últimos 10 minutos e arruma-se a questão do título a favor do Benfica. Foi um dia mau. E a noite também. Demora-se sempre a recuperar.

E o dia seguinte?
Complicado também. É uma frustração imensa, ainda por cima em casa.

Imagino que as viagens a Lisboa tenham eram tramadas.
Perto do estádio, o Pinto da Costa vinha para a frente do autocarro e dava o peito às balas. Os adeptos cresciam, insultavam e nós gostávamos de sentir esses momentos.

Havia jogos difíceis?
Sempre. Com um prazer imenso, sabes? Jogar na Luz a abarrotar era um sonho. Difícil, difícil foi aquele clássico com o Sporting, em Alvalade. O do varandim. Aquilo faz-nos pensar. O futebol não pode, de maneira alguma, estar para além da vida. O dr. Domingos Gomes ainda saiu do autocarro para ajudar uma pirâmide de pessoas, umas feridas, outras já mortas. Foi uma cena indescritível e aquilo estava ali à nossa frente. Impossível desviar os olhos.

Houve conversa de clubes ou capitães para adiar o jogo?
Nada, o jogo realizou-se e isso não devia ter acontecido. Se fosse hoje, seria diferente. Há mais respeito, agora. Ganhou o Porto, sem felicidade por tudo aquilo que fomos obrigados a assistir.

Também me lembro de um 3-2 para o Porto na Luz.
Chiiii, esse jogo foi lindo. Nós 1-0, eles 1-1, nós 2-1, eles 2-2, nós 3-2. Um passe meu para o Timofte. A Luz cheia e nós ganhámos.

Timofte, que player.
E aprendeu muito rápido o português. Era um amigo, na verdadeira acepção da palavra. Era um companheiro, gostava mesmo das pessoas. O Timofte só tem amigos, não em inimigos. Só pode. Na mesma altura, havia um outro homem do Leste, o Vlk. Ele só se ria, ria e ria. Falar, está quieto.

E sul-americanos no Porto?
Ainda apanhei o Pizzi e o Esnaider, como argentinos. Agora, brasileiros… muitos, muitos. O mais maluco que apanhei foi o Branco.

A sério?
Fugia de tudo que era normal. Conforme se deitava, acordava da mesma maneira. Se adormecesse com um fato-de-treino, acordava com o fato-de-treino, metia os chinelos mais o roupão e ia tomar o pequeno-almoço assim. Houve um campeonato que ganhámos com os golos de livre do Branco e os penáltis de Demol, uns 11 ou 12. Eu arranjava faltas e eles resolviam o problema.

E africanos?
Houve um Verão em que chegaram dois, o N’Tsunda e o Zwane. Ao mesmo tempo, chegaram às Antas o Mogrovejo e o Walter Paz. O Mogrovejo era ponta-de-lança como eu e foi apresentado no Pavilhão como o segundo Caniggia. Já o Zwane era jeitoso, muito bom mesmo, a dar toques com uma bola de pingue-pongue e ténis, só que com uma de futebol é que já não. Era engraçado assistir ao ritual dos reforços, que chegavam cheios de força e fé. Lembro-me de um peruano, o Baroni. Chegou cheio de moral e até marcou um golo num dos primeiros jogos da pré-época. No autocarro, ele estava sentado atrás de mim e dizia em castelhano ‘agora tirei o dedo do cu e vou fazer golos’. E eu, ‘tu queres ver que vou desta para melhor?’ A verdade é que sempre fui o eleito para o ataque do Porto e levava a melhor, através de golos.

Daí que tenhas sido o melhor marcador do campeonato 1995-96, na última época em que um português ganha a Bola de Prata.
Ganhei uma, devia ter duas.

Então?
Tiraram-me ali uns golos numa competição dividida com o Rui Águas, do Benfica. As amizades do futebol, as coleguices entre o Rui [Águas] e outros. Perdi uma Bola de Prata aí e só a conquistei em 1995-96.

Ainda tens a Bola de Prata em casa?
E gostava de ter mais uma, se não fosse aquilo das amizades.

Para fechar o capítulo, há desilusões europeias?
A Sampdoria do Eriksson, nas Antas. Fizemos lá um grande jogo, ganhámos 1-0, com golo do Iuran, e cá não correu tão bem. Acusámos o golo do Mancini e não conseguimos dar a volta. Prolongamento e penáltis. O Latapy já estava com cãibras e falhou o penálti. Se passássemos, íamos às meias-finais da Taça das Taças. Outra desilusão é aquela eliminatória com o Bayern, para a Taça dos Campeões. Estávamos animados com o 1-1 em Munique, só que depois perdemos 2-0 nas Antas na base do contra-ataque. Foi uma derrota que nos deixou frustrados.

E aquele jogo com o Hamburgo?
Ouve lá, essa eliminatória foi surreal. Na Alemanha, jogámos em cima de gelo. Nas Antas, o árbitro não assinalou penáltis flagrantes contra o Hamburgo, um deles no último minuto, uma mão evidente na linha de golo a um remate do Geraldão.

Caso encer..,.
Espera aí, lembrei-me de outro jogo, o de Camp Nou, nas meias-finais da Liga dos Campeões 1993-94. Se ganhássemos ao Milan em casa na última jornada da fase de grupos, jogávamos com o Monaco nas meias-finais, nas Antas. No último minuto, o Drulovic atira à trave e a bola fica entalada nas costas do Rossi, por capricho. Se entrasse, ganhávamos o jogo e já não íamos a Camp Nou. O caminho para a final estaria mais aberto. Em Barcelona, eles jogavam outro futebol. O Stoitchkov então, que maravilha. Ainda havia o Koeman. Enfim, outro mundo.

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