Dos malandros e dos poetas: os 30 melhores livros que lemos em 2017

24 Dezembro 2017640

Final de ano e as contas habituais: dez colaboradores e críticos do Observador apresentam os títulos favoritos de 2017, entre os romances, os ensaios históricos e as biografias.

Entre as escolhas feitas pelos críticos e colaboradores do Observador, apenas um livro surge em mais do que uma lista, precisamente o que abre este especial: O Anjo Pornográfico, a biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro e que este ano foi publicada em Portugal pela Tinta-da-China.

Apesar disso, os 30 livros escolhidos refletem diferentes géneros e formatos, épocas, assuntos e autores. É o habitual balanço literário que o Observador assina no final de cada ano.

Bruno Vieira Amaral

“O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro (Tinta-da-China)

Quem nada conhece de Nelson Rodrigues, da sua vida e da sua obra, das suas crónicas geniais à úlcera que amansava com pires de leite, das tragédias familiares às polémicas políticas, pode começar por aqui, por esta extraordinária biografia da autoria de Ruy Castro, que atravessa praticamente um século da história do Brasil acompanhando um dos seus autores fundamentais.

“Volta a Portugal”, de Álvaro Domingues (Contraponto)

Ao contrário do que nos fez crer a mão habilidosa de António Ferro, o país real nunca existiu. Melhor, nunca existiu naqueles termos de exaltação bucólica e de apologia da vida simples do campo. Como, hoje, também não é nas reservas de turismo rural que ele existe. O país real nem sequer é aquele país mórbido e sangrento que as páginas do Correio da Manhã alardeiam. O país real é terra de ninguém, território de transição entre o campo e a cidade, nada-morto, coisa por acabar, como uma obra embargada, ou coisa que continua a acabar, como uma fábrica desactivada. É o país das sucatas e das monumentais rotundas, das estátuas kitsch perdidas junto a milheirais secos e dos lugares onde “é proibido vazar entulho”. É o país que resiste a qualquer tentativa de ordenamento do território e o país que resiste a qualquer discurso que tente ordenar o caos. Se precisarem das coordenadas para lá chegar, peçam-nas a Álvaro Domingues.

“Quando Portugal Ardeu”, de Miguel Carvalho (Oficina do Livro)

O país dos brandos costumes no seu esplendor revolucionário e contra-revolucionário. As personagens são dignas de romance: a senhora fina que patrocinava os bombistas e só não queria que houvesse mortos, o bombista diletante que rebentou com a embaixada de Cuba em Lisboa, o ideólogo do ELP que passeava o leopardo domesticado em Marbella, o cônsul norte-americano que parece saído de um romance de Le Carré, o povo de Rio Maior, o padre rebelde que acabou vítima de um atentado. Diz o autor que este livro não é História, é jornalismo, mas os historiadores do futuro ficar-lhe-ão agradecidos pelo trabalho.

[as escolhas de Bruno Vieira Amaral:]

Carlos Maria Bobone

“As Pessoas do Drama”, de H. G. Cancela (Relógio d’Água)

No romance português houve mais um ou outro livro interessante, como Hoje estarás comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral. Este As Pessoas do Drama, porém, foi provavelmente o caso mais injustiçado do ano. É certo que o livro não tem toda a força brutal do primeiro capítulo, no entanto, merecia mais atenção.

“Priest of Nature”, de Rob Iliffe (Oxford University Press)

Um livro seriíssimo sobre os escritos teológicos de Newton. Iliffe domina não só a biografia do autor dos Principia, como relaciona bem os aspectos filosóficos, científicos e teológicos da sua obra. Por vezes a tentativa de transformar Newton num heterodoxo religioso é demasiado forçada; no entanto, só o facto de trazer à luz os seus textos teológicos é já um feito de grande mérito.

“O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro (Tinta-da-China)

A vida de Nelson Rodrigues é das Arábias. Ruy Castro, porém, está à altura da empreitada. Biografa-o com uma erudição e um poder evocativo impressionantes, os enquadramentos são deliciosos sem perder nunca o fio à vida, percebe a mente do seu biografado e a daqueles que o rodeavam. Nelson Rodrigues não podia ter melhor Boswell.

[as escolhas de Carlos Maria Bobone:]

É essa sensatez, que não conseguimos nunca afastar apenas através de uma ponderação objectiva e séria dos factos, que faz de "A Porta" um dos melhores romances a ter sido publicado este ano em Portugal.

João Pedro Vala

“O Casamento”, de Nelson Rodrigues (Tinta-da-China)

Quem por um segundo, quando pensa em casamentos, hesita entre imaginar mulheres bonitas a dançar o “Single Ladies” enquanto lutam por um ramo de flores ou, em alternativa, um serão de Inverno bem passado a ver um filme à lareira com a sua cara-metade, só teria a ganhar se repetisse para si todos os dias de manhã: “Só um débil mental pode casar-se na presunção de que o casamento é divertido, variado, ou simplesmente tolerável. É divertido como um túmulo. O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade. Só o cinismo redime um casamento”. Dito isto, O Casamento de Nelson Rodrigues é talvez o elogio ao matrimónio mais bonito e comovente que já foi escrito em língua portuguesa.

“A Porta”, de Magda Szabó (Cavalo de Ferro)

Há qualquer coisa de muito sensato na ideia de que nos podemos sentir mais culpados por abrir uma porta do que por deixar uma mulher idosa morrer sozinha no meio da maior imundície imaginável. É essa sensatez, que não conseguimos nunca afastar apenas através de uma ponderação objectiva e séria dos factos, que faz de A Porta um dos melhores romances a ter sido publicado este ano em Portugal.

“Why Write?”, de Philip Roth (The Library of America)

Em Why Write?, Philip Roth troça da Beat Generation dizendo que a atitude “America: Aha” que Kerouac e companhia orgulhosamente apregoavam não é nada mais do que o reverso da medalha de todos os que dizem: “America: Hoo-ray”. Nem que fosse só por isso, já valeria a pena ler a antologia de textos não ficcionais do escritor.

[as escolhas de João Pedro Vala:]

Joana Emídio Marques

“A Sibila”, de Agustina Bessa Luís (Relógio D’ Água)

Depois de um período atribulado em que estiveram entregues ao grupo Babel (proprietário da chancela Guimarães), as obras de Agustina Bessa-Luís voltaram a circular num país que tarda em reconhecer a genialidade de Agustina, como o Brasil reconhece a genialidade de Lispector. De qualquer forma, 2017 foi um ano em que a autora viu serem editadas, pela primeira vez, as crónicas que, ao longo de várias décadas, escreveu na imprensa, e em que a sua obra passou a ser reeditada na Relógio d’ Água. Desde agosto já saíram 6 livros, entre os quais um romance inédito. Mais de 60 depois de ter sido escrito, A Sibila continua a ser um prodígio da nossa literatura, um livro que nos abre as comportas de uma língua ainda não viciada pelo estereótipo, pela necessidade de injetar excitação efémera no leitor e que, por isso, mesmo depois de lido não está terminado. Quem conheceu Sibila jamais se separa da sua voz.

“A Consciência das Palavras”, de Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

A editora Cavalo de Ferro, que este ano passou a integrar o grupo editorial 20|20, publicou em setembro mais um livro de um dos pensadores mais importantes do nosso tempo, o austríaco prémio Nobel da Literatura, Elias Canetti. Nenhuma palavra é inocente, nenhuma palavra é imparcial, neutra. Todas elas carregam formas de poder, modos de ver, sistemas de pensamento, umas constroem muralhas, formam desertos, outras abrem comportas. Todas são políticas. Em tempo de um politicamente correto onde se apela à neutralidade das palavras, ler os estes 23 ensaios de Canetti sobre o século XX é tão aterrador como urgente.

“Dano e Virtude”, de Ivone Mendes da Silva (Língua Morta)

Um livro não é só o que ele é, mas é também aquilo que ele representa. E Dano e Virtude, de uma ilustre desconhecida, Ivone Mendes da Silva, representa a possibilidade de haver ainda algumas virtudes no meio literário e editorial português, não obstante os danos e enganos. Desde logo, pelo facto de haver ainda editoras que tenham coragem de publicar géneros marginais, como o fragmento, as notas, os diários ou, como no caso deste livro, tudo isso ao mesmo tempo. Depois, pelo facto da autora não ter nem uma prosa, destinada a injetar nos leitores “shots” de adrenalina, nem sentimentalismo gratuito. É o triunfo das vidas sem história, as obsessões, os pequenos prazeres contados numa linguagem onde reencontramos Camões, Agustina, os mitos gregos e latinos. Um livro em contra corrente com este presente.

[as escolhas de Joana Emídio Marques:]

A improbabilidade do génio deste poeta [Cesariny] não está apenas na insolência dos seus versos mais declamados, nem na amabilidade dos seus versos mais esquecidos; ela está sobretudo na amabilidade que existe nos seus versos insolentes e na insolência daqueles que são mais amáveis.

Jorge Almeida

“Poesia Completa”, de Mário Cesariny (edição, notas e prefácio de Perfecto E. Cuadrado; Assírio & Alvim)

A publicação da poesia completa de Cesariny, além de possibilitar a leitura num só volume de uma parte significativa da melhor poesia portuguesa do século XX, permite ao leitor perceber como estava certo Manuel António Pina, no poema “Carta a Mário Cesariny no Dia da sua Morte”, ao descrever Cesariny como uma “coisa insolente e amável, de qualquer modo, aliás, altamente improvável”. A improbabilidade do génio deste poeta não está apenas na insolência dos seus versos mais declamados, nem na amabilidade dos seus versos mais esquecidos; ela está sobretudo na amabilidade que existe nos seus versos insolentes e na insolência daqueles que são mais amáveis.

“Epístolas”, de Horácio (tradução, introdução e notas de Pedro Braga Falcão; Cotovia)

Apesar de não trazer a epístola mais famosa do poeta romano (aquela que ficou conhecida como “Arte Poética”), esta tradução feita por Pedro Braga Falcão (que a faz acompanhar por um valiosíssimo conjunto de notas e uma introdução que auxiliam o leitor menos conhecedor da obra de Horácio) é, sem dúvida, uma das publicações mais importantes de 2017. É-o não só porque estes poemas nos ajudam a perceber de um modo muito particular a época de Augusto, e a imagem que o Imperador queria transmitir dessa mesma época, mas sobretudo porque nos permite ler versos tão intemporais e belos como “mudam de céu, não de alma, aqueles que correm os mares”.

“Reaccionário com Dois Cês: rabugices sobre os novos puritanos e outros agelastas”, de Ricardo Araújo Pereira (Tinta-da-China)

Este ano, Ricardo Araújo Pereira foi alertado para o facto de ser de direita. Confessando-me um pouco inábil nessa utilíssima ciência exacta que consiste em distribuir pessoas por lados políticos, limito-me a dizer que Reaccionário com Dois Cês confirma que RAP é um autor que escreve “às direitas”, isto é, de um modo elegante e escorreito. É notável a maneira como RAP consegue, sempre que assim o deseja, suster a ironia dos seus textos sem os deixar resvalar para aquela vulgaridade satírica tão apreciada por aqueles que têm uma acentuada “compulsão para a literariedade” e que actualmente ameaçam transformar-se numa maioria. No dia em que deixarmos de ser um país de poetas para ser um país de cronistas, talvez seja possível encarar a prosa de RAP com a admiração que ela merece.

[as escolhas de Jorge Almeida:]

José Carlos Fernandes

“Actos Humanos”, de Han Kang (D. Quixote)

Mais um livro sobre as coisas terríveis que os homens são capazes de fazer uns aos outros. O segundo romance da escritora coreana a ser publicado em Portugal é um relato polifónico e, por vezes, onírico, de um evento real: a repressão brutal pelo regime sul-coreano, em 1980, dos movimentos de contestação ao autoritarismo que emergiram na cidade de Gwangju. A escala, as motivações e as circunstâncias destes eventos não são, claro, as do Holocausto, mas a pergunta que suscitam acaba por ser a mesma: “Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis?”.

“Holocausto: Uma nova história”, de Laurence Rees (Vogais)

Mais um livro sobre o Holocausto? Sim e fazia falta, pois o Holocausto é o evento que lança as questões mais inquietantes sobre a natureza humana e os valores civilizacionais, é ele que justifica que se pergunta “valeu a pena os primeiros hominídeos terem descido das árvores e começar a andar sobre os membros posteriores?”. Rees, um profundo conhecedor da história da II Guerra Mundial, socorreu-se de anos de entrevistas a sobreviventes do genocídio para construir um livro que o horror dos testemunhos não turva a clareza da exposição

“Sombras de sombras”, de Adam Zagajewski (Tinta da China)

A mesma mescla inebriante de ignorância e arrogância que nos leva a proclamar que temos “o melhor peixe do mundo”, leva-nos também a repetir que “somos um país de poetas”. Para dissipar tal delírio patrioteiro bastaria lançar os olhos sobre a Polónia, que, na segunda metade do século XX, viu desabrochar quatro poetas de primeira grandeza (dois deles distinguidos com o Nobel): Czesław Miłosz, Wisława Szymborska, Zbigniew Herbert e Adam Zagajewski. Este último estava inédito em Portugal e, graças à colecção que Pedro Mexia dirige na Tinta-da-China, teve agora direito a uma antologia impregnada de melancólica sabedoria, que nos lembra de que “só os outros nos podem salvar,/ mesmo que a solidão tenha o sabor/ do ópio […]”.

[as escolhas de José Carlos Fernandes:]

Micro-contos, cadáveres esquisitos, parábolas bíblicas, fábulas, crónicas, sketches, monólogos. Cabe de tudo nesta feira da ladra delirante [de Mário-Henrique Leiria], cheia de nervo e sentido de humor, verbo bem escolhido e vocação anárquica.

Miguel Freitas da Costa

“O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro (Tinta da China)

A exaustiva e documentada história de Nelson Rodrigues, da sua vida, da sua obra e do seu mundo contada brilhantemente, sem nunca nos cansar, por Ruy Castro. É a primeira edição em Portugal do livro publicado no Brasil em 1992 – mas nunca é tarde quando a sina é boa.

“Cinzento e dourado”, de Vasco Rosa (Imprensa Nacional, 2017)

Um novo testemunho do inestimável e infatigável trabalho de pesquisa e recuperação da obra de Raul Brandão e, neste caso, da sua “recepção” e do seu meio, a que se tem dedicado Vasco Rosa, que vem pôr o grande escritor e o seu tempo de novo “em foco, nos 150 anos do seu nascimento”.

“Al-Andalus. L’invention d’un mythe”, de Serafin Fanjul (“Al-andalus contra España: la forja del mito”)

Não é um livro novo, tem mesmo uns aninhos, mas foi agora trazido para a ribalta pela recente tradução para francês. Na apresentação desta edição diz-se que “rebate o mito de um paraíso multicultural instalado pelos oito séculos de dominação muçulmana”.

[as escolhas de Miguel Freitas da Costa:]

Nuno Costa Santos

“Ficção”, de Mário-Henrique Leria (E-Primatur)

Um dos acontecimentos do ano nas letras lusas: a publicação da ficção inédita e dispersa de Mário-Henrique Leiria, entre os anos 1940 e os anos 1970, num volume de mais de 700 páginas, onde podem também ser encontrados os célebres e nunca demasiado celebrados Contos do Gin-Tonic e os Novos Contos do Gin. Micro-contos, cadáveres esquisitos, parábolas bíblicas, fábulas, crónicas, sketches, monólogos. Cabe de tudo nesta feira da ladra delirante, cheia de nervo e sentido de humor, verbo bem escolhido e vocação anárquica.

“Mike Tyson para Principiantes”, de Rui Costa (Assírio & Alvim)

Em entrevista a Fernando Esteves Pinto, Rui Costa (1972 – 2012) apresentou o seu programa: “Tratar a metáfora de uma forma metabólica, como se fosse um bicho, e as coisas mais concretas (como os limões e as pataniscas de bacalhau) como se fossem carburadores universais”. A intenção é encontrada, de um modo quase sempre surpreendente, numa antologia poética feita por uma comissão de amigos e cúmplices, apostada numa selecção a partir dos livros editados em vida do autor, de dispersos e de inéditos. Entre a metáfora e a ironia, entre o surrealismo e a reserva face ao sentimentalismo, um poeta que se desenhava assim no cartão do cidadão: “(…) Não são poemas o que eu escrevo/ São casas onde os pássaros esperam (…)”.

“Retalhos do Tempo – Um Memorial de Dublin”, de John Banville (Relógio D´Água)

O livro começa com uma declaração-gancho que revela o sentimento de John Banville em relação à cidade sobre a qual vai escrever: “Dublin nunca foi verdadeiramente minha, o que a tornou ainda mais sedutora”. Não nasceu aí, sim. É de Wexford, Sudeste da Irlanda. “Quando é que o passado se torna passado?”, pergunta, nas primeiras páginas, o autor de “Luz Antiga”. Aos 70 anos, escreve, com incisiva elegância, sobre esse passado que se tornou passado, sobre uma cidade para onde foi viver e onde se tornou ilustríssimo cidadão, num livro desenhado ao sabor das digressões incertas da memória. As que trazem consigo episódios de infância, histórias a que assistiu, diálogos com outros autores.

[as escolhas de Nuno Costa Santos:]

É difícil acreditar que a Índia continue a funcionar de acordo com um sistema tão retrógrado como o das castas, mas a verdade é que continua. A Índia de "O Ministério da Felicidade Suprema" é cruel. Mas verdadeira.

Rita Cipriano

“O Ministério da Felicidade Suprema”, de Arundhati Roy (ASA)

Quando Arundhati Roy publicou O Deus das Pequenas Coisas, decidiu que ia usar o protagonismo que tinha entretanto ganho para expor tudo o que estava errado na Índia, o seu país. Nos 20 anos seguintes, participou em dezenas de manifestações contra a corrupção no governo, o nacionalismo hindu, a independência de Caxemira, os testes nucleares, publicou livros de não-ficção, escreveu documentários, uma série de televisão e usou o dinheiro que ganhou com o Man Booker Prize para ajudar quem mais precisava. Entre os pingos da chuva, foi escrevendo aquele que viria a ser o seu segundo romance, O Ministério da Felicidade Suprema, publicado precisamente 20 anos depois de O Deus das Pequenas Coisas.

O segundo romance de Arundhati Roy não é unânime. Longe disso. Há quem tenha achado que não chegou aos calcanhares de O Deus das Pequenas Coisas, publicado em 1997, que nunca devia ter saído, que a escritora se devia ter ficado pelos ensaios de política. Não concordo. Certamente que O Ministério da Felicidade Suprema não causou, não causa nem nunca causará a mesma impressão que O Deus das Pequenas Coisas, o romance sobre uma família despedaçada pela tragédia e pelo escândalo que tirou Arundhati Roy do anonimato. Os tempos são outros. Mas isso não significa que não tenha qualidade ou que não seja tão importante quanto o primeiro livro.

O Ministério da Felicidade Suprema retrata de forma crua e dura (e ao mesmo tempo bela) a realidade indiana, marcada pela desigualdade, pelo preconceito e por tantas outras coisas terríveis que parecem ter sido tiradas de um romance histórico sobre a Idade Média e não de uma sociedade que se diz moderna, industrializada. É desta Índia do século XXI que Roy fala, partindo de um elenco alargado de personagens, profundas e complexas, que tentam viver à margem de um mundo do qual parecia ser impossível escapar. E, nesse sentido, o romance tem tanto de ficção como de não-ficção. A casa que Anjum constrói no cemitério, por exemplo, não é invenção — é realidade. Na Índia, os cemitérios não são apenas os lugares dos mortos, são também o sítio dos vivos. Uma outra personagem, Saddam Hussein, converte-se ao Islão para fugir ao sistema de castas — um dos temas principais do romance –, uma história repetida até ao infinito.

É difícil acreditar que a Índia continue a funcionar de acordo com um sistema tão retrógrado como o das castas, mas a verdade é que continua. E Roy faz questão de mostrar isso sem floreados, dourados ou os misticismos com que os ocidentais sempre teimaram em encarar o seu país de origem. A Índia de O Ministério da Felicidade Suprema é cruel. Mas verdadeira.

“As Mil e Uma Noites” (E-Primatur)

Existem obras que, por mais que tenhamos ouvido falar nelas, permanecem perfeitas desconhecidas. As Mil e Uma Noites é um desses casos. Apesar de contos como “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” ou “Aladino” serem muito conhecidos (este último sobretudo graças à adaptação da Walt Disney de 1993), a verdade é que nenhum deles faz parte do livro original que, por sinal, nem 1001 histórias tinha. A maioria das edições disponíveis (ocidentais e não só) são, na verdade, invenções do século XVIII ou XIX, feitas a partir das “traduções” de Antoine Galland ou Richard Burton. Isto significa são muito poucos aqueles que leram de facto As Mil e Uma Noites. Até entre os falantes de língua árabe existe uma ideia errada quanto ao conteúdo da obra.

Felizmente para os leitores portugueses, a E-Primatur publicou este ano o primeiro volume de uma tradução das Mil e Uma Noites feita a partir dos manuscritos árabes mais antigos. Com 400 páginas e centenas de notas de rodapé, a edição, da responsabilidade do tradutor Hugo Maia, percorre 101 das 282 histórias (sim, é este o número total de contos que se conhece) contadas por Xerazade ao rei Xariar que, depois da traição da rainha, decide casar todos os dias com uma nova mulher e matá-la no dia seguinte. Depois de Xariar assassinar grande parte da população feminina do seu reino, Xerazade, filha do vizir, decide voluntariar-se para casar com rei na esperança de conseguir acabar com o massacre. Para o entreter e evitar a morte, começa a contar-lhe histórias que interrompe sempre ao final da noite. Ansioso para ouvir o final, Xariar decide manter Xerazade viva.

Quem percorrer as páginas da edição da E-Primatur, vai perceber que não existe qualquer referência a Ali-Babá, a Aladino e a outras personagens famosas. Apesar disso — e de não haver qualquer influência de orientalistas como Antoine Galland ou Richard Burton, que procuraram sempre arranjar explicações pouco fundamentadas para o que vinha no texto original –, a tradução de Hugo Maia das Mil e Uma Noites não dececiona, na medida em que os contos continuam a ser exóticos que cheguem (acreditem!). E mais não digo, para não estragar a surpresa.

“Os Romanov”, de Simon Sebag Montefiore (Presença)

Simon Sebag Montefiore é um historiador de renome. As obras que escreveu sobre Josef Estaline, a história de Israel e o romance da imperatriz russa Catarina, a Grande com Potemkine deram-lhe fama. E com razão — a pesquisa minuciosa que faz para todos os seus livros e a sua escrita leve, quase romanceada, faz com que estes, apesar de extensos, sejam de leitura fácil. Por outras palavras: Montefiore escreve bons livros de História sem serem chatos, e isso faz com que sejam automaticamente mais acessíveis. Os Romanov não é exceção e foi talvez por isso que foi considerado por muitas publicações internacionais como um dos melhores livros de não-ficção de 2016, data em que foi publicado em inglês.

A Portugal, contudo, só chegou a meio deste ano. Quando a Presença publicou o primeiro volume da monumental biografia dos Romanov de Simon Sebag Montefiore, ainda não havia data para o segundo livro. Felizmente, Os Romanov. Declínio: 1826-1918 chegou recentemente às livrarias — mesmo a tempo do Natal e desta lista –, o que permite olhar para os dois livros em conjunto. Até porque a divisão em dois volumes foi uma escolha (que não se entende) da editora portuguesa, que obrigou os leitores portugueses a esperarem alguns meses até poderem ler o final da história.

A obra, no seu todo, traça a história muitas vezes conturbada dos Romanov, desde a subida ao trono do czar Miguel I (e até um pouco antes disso) até à queda da monarquia com Nicolau II. As personagens que ajudaram a construir esta trama são muitas e, por essa razão, cada capítulo é precedido por um índice onde se explica quem foi quem, quem fez o quê. A história é contada ao pormenor, enquanto Montefiore vai desfiando os complexos jogos de poder, as intrigas políticas e as histórias de amor. O segundo volume, que termina com a morte da família real às mãos dos bolcheviques, fecha com um Epílogo (no qual o historiador fala sobre a influência dos czares na Rússia de hoje) e com esta certeza:

“O círculo de Putin chama-lhe ‘o Czar’, mas não são os grandes Romanov que tiram o sono a Putin, é a recordação de Nicolau II. Uma noite, no seu Palácio de Nov-Ogaryovo, a sua residência principal, perto de Moscovo, Putin perguntou aos seus cortesãos quem eram os maiores traidores da Rússia. Antes de eles poderem responder, ele disse: ‘Os maiores criminosos a nossa história foram os fracalhotes que atiraram o poder para o chão — Nicolau II e Mikhail Gorbachev –, que deixaram o poder ser apanhado por histéricos e loucos’. E Putin garantiu: ‘Eu nunca abdicaria’. Os Romanov foram-se mas a autocracia russa continua viva.”

[as escolhas de Rita Cipriano:]

Vasco Rosa

“A Universidade como deve ser”, de António M. Feijó e Miguel Tamen (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Os melhores livros dum ano que teve muito mais de esturricado do que “saboroso” talvez sejam aqueles — havendo certamente muitos outros, igualmente bons ou até superiores — que nos façam pensar acerca do país que somos. Escolhi quatro desses, o primeiro dos quais este, de Feijó e Tamen, precisamente porque, pelo debate de ideias, se propõe sacudir aquilo a que os autores chamam “sociedades letárgicas” (p. 17).

Defendendo que “a razão maior do valor da universidade é hoje relativamente imperceptível” (p. 24), opõem-se à “empregabilidade”, à «investigação servil» produzida em centros e aos “cursos” como critérios, e recusam o “modelo autárcico” (p. 62) das estruturas curriculares vigentes, contrárias à universidade liberal que advogam. A própria governabilidade “corporativa” e tutelada das instituições universitárias é posta em causa, assim como a carreira docente nesse grau de ensino, desde o início sujeita a uma forte tendência de imobilidade e por isso favorável ao conflito de interesses, e além disso exposta a paralisantes “confusões conceptuais e garantias jurídicas indeterminadas” (p. 83) em matéria de concursos. O tom “muito crítico” manifesta o reconhecido “desconforto” destes académicos, cujas “ideias alternativas” se desenvolvem pelas 34 páginas finais. Indispensável e estimulante.

“Oceanos de vinho. O Vinho da Madeira e a organização do mundo atlântico, 1640-1815”, de David Hancock (Edições 70)

Com o bom oportunismo dos editores realmente atentos (em breve haverá comemorações madeirenses), as Edições 70 publicam este grosso volume originalmente lançado em 2009 pela Yale University Press, sobre a história técnica e — digamos assim — geopolítico-comercial de um produto português de excelência mas pouco considerado nos hábitos autóctones actuais. Uma biografia vinícola, escrita com a elegância da melhor matriz anglo-saxónica, e apoiada em profundo trabalho historiográfico. Muito recomendável.

“Abril e outras transições”, de José Cutileiro (Dom Quixote)

Subintitulado “Reminiscências de um antropologista errante” — e esta especificação encontra-se amplamente justificada ao longo do texto —, este simpático livrinho é um compactado testemunho de vida, mas é também uma extraordinária lição de língua e literatura, que não surpreenderá nem um pouco quem habitualmente leia ou oiça na rádio o seu autor, mas tem aqui um bom exemplo desse virtuosismo, raro no nosso país, a este nível de execução. O diplomata “sempre com um fraco por aforismos” (p. 46) também descobre, como o antropólogo, que os quilates do “ouro da nossa palavra” (ibid.) e “o gabarito moral à altura da função” (p. 84) decaíram enormente no mundo actual, ferindo gravemente a concertação mundial, do mesmo modo que “a banalização da verdade vai de vento em popa”, “com prejuízos incalculáveis” (p. 104), a natureza humana, no meu melhor e no seu pior, pendularmente, condiciona tudo e todos em toda a parte, e o “parti pris ideológico [e religioso] pode dificultar o entendimento de tudo” (p. 73). A experiência de José Cutileiro, na África do Sul e na ex-Jugoslávia, expôs-lhe o “contraste pedagógico” da “qualidade moral entre as pessoas de um lugar e do outro” (p. 87). Teme, por tudo isso, que será para “mundo muito perigoso que caminharemos, espécie de grande penitenciária disfarçada de circo” (p. 105). Um testemunho impactante, que não pode passar despercebido.

“Trás-os-Montes, o Nordeste”, de José Rentes de Carvalho (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Crónica etnográfica ou retrato forte duma região que transporta o melhor e o pior de quem somos, descortinando de par a par a desertificação, o envelhecimento e o abandono que aparentemente a condena, no registo pessoal — entre o elogio e a imprecação — de um dos nossos mais incisivos e talentosos escritores, em oitenta páginas simplesmente arrebatadoras.

[as escolhas de Vasco Rosa:]

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