E aquele sexto livro? Até quando vamos ter de esperar, George R.R. Martin?

15 Julho 2017200

Com a estreia da nova temporada da "Guerra dos Tronos" volta a colocar-se a questão: quando é que George R.R. Martin vai lançar o tão aguardado sexto livro? Fãs dizem-se frustrados.

Em 2012, quando George R.R. Martin visitou Portugal a propósito do lançamento de O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias, um dos muitos fãs presentes na plateia do Teatro Villaret, em Lisboa, levantou a mão e perguntou o que ia na cabeça de todos: “Para o caso de lhe acontecer alguma coisa, há alguém que saiba o final da história?”. Martin deixou-se rir (com ou sem vontade), e explicou que existem algumas pessoas que sabem como é que a saga vai terminar (autores da série incluídos). Só que o problema, disse na altura, não é o fim — é o caminho que tem de ser percorrido para se lá chegar. E escolher a estrada certa é sempre o mais complicado.

Martin tinha editado há menos de um ano o quinto volume das Crónicas de Gelo e Fogo, saga por ele iniciada nos anos 90, quando era um mero guionista ligado ao mundo do fantástico e da ficção científica. A Dance With Dragons (editado em Portugal em dois volumes, entre 2011 e 2012, pela Saída de Emergência) tinha demorado seis anos a sair (mais do que qualquer outro dos livros) e muitos fãs começavam a ficar preocupados com o futuro da saga, temendo que George R.R. Martin não conseguisse concluir a história, como aconteceu com Robert Jordan e The Wheel of Time.

Com o sexto volume, The Winds of Winter, Martin esperava levar menos tempo. Talvez uns três ou quatro anos. Passados sete, continua a não haver data de publicação. A demora tem sido tal que a série, lançada em 2011, já ultrapassou cronologicamente os eventos dos livros — as últimas duas temporadas narram episódios que ainda não aconteceram nos romances, revelando inclusivamente alguns dos grandes mistérios das Crónicas de Gelo e Fogo, como a identidade dos pais de Jon Snow e o significado do nome “Hodor”. E como se isso não bastasse, mesmo que Martin conseguisse concluir o que lhe falta num estalar de dedos, o último volume nunca sairia a tempo do final da série televisiva. Atualmente, a Guerra dos Tronos é a única oportunidade de os fãs saberem como acaba a história.

Para aqueles que dedicaram o seu tempo livre a ler a obra de George R.R. Martin, a situação é frustrante. E o escritor já se habituou à perguntas constantes, aos insultos e a frases como “vai mas é acabar os livros, ó George!”. Em 2012, quando aquele fã português lhe perguntou o que aconteceria caso morresse antes de os livros serem publicados, Martin não pareceu levar a mal. Mas nos dias que correm, o autor norte-americano já não parece achar tanta graça quando lhe dão a entender que pode morrer muito em breve (Martin vai fazer 69 anos em setembro). Em 2014, em entrevista à publicação sueca Tages-Anzeiger, admitiu que achava “muito ofensivo quando as pessoas” começavam “a especular sobre a sua saúde ou a sua morte”. “Portanto, que se fodam essas pessoas”, disse, sem papas na língua.

É talvez por isso que as informações que vai divulgando sobre o sexto romance são cada vez mais escassas. As poucas linhas que vai escrevendo no seu blog, que atualiza com regularidade, servem, geralmente, para dizer que o livro ainda não está pronto e que “ficará terminado quando estiver terminado”. É que, em boa verdade, não há nada para dizer. E ele sabe disso.

"Os escritores estão obrigados contratualmente a entregar o que prometeram, não só aos seus editores, que estabelecem datas e pagamentos adiantados na esperança de que o acordo seja cumprido. Mas há também um contrato implícito entre o escritor e o leitor.”
David Barnett, jornalista do The Guardian

Uma das principais críticas que tem sido apontada ao autor é o envolvimento constante em outros projetos, paralelos à escrita de The Winds of Winter. Além da participação em várias antologias de contos e do lançamento de uma enciclopédia sobre o mundo das Crónicas de Gelo e Fogo, Martin tem também trabalhado na produção de várias séries de televisão (algo que, em boa verdade, nunca deixou de fazer desde os anos 80). Escreveu um episódio para cada uma das quatro primeiras temporadas da Guerra dos Tronos, vai estar envolvido na produção dos spin-offs e anunciou recentemente que vai ser responsável pela produção executiva da adaptação para a televisão do romance Who Fears Death, de Nnedi Okorafor. Mas com uma ressalva: “Olhem, provavelmente não vou escrever nenhuma série até que Winds of Winter esteja acabado e entregue”. Mas isso será quando?

Como David Barnett frisou num artigo publicado no jornal britânico The Guardian, George R.R. Martin não tem obrigação de dar explicações a ninguém — é a ele que cabe decidir o que fazer com a saga que criou. Se escolher nunca a terminar, é lá com ele. Mas, como salienta também Barnett, “os escritores estão obrigados contratualmente a entregar o que prometeram, não só aos seus editores, que estabelecem datas e pagamentos adiantados na esperança de que o acordo seja cumprido”. “Há também um contrato implícito entre o escritor e o leitor. Se o autor diz ‘olha, tenho esta história, mas vou demorar três ou seis ou nove livros a contá-la”, ao comprar o primeiro e o segundo e o terceiro livro dessa série, o leitor está a entrar num acordo com o escritor: ‘Sim, vou dedicar o meu tempo e dinheiro a ti com a noção de que, ao embarcar nesta viagem, ela não demorará muito tempo a chegar ao fim’.”

Um acordo que Martin não tem cumprido. É verdade que esta viagem não tem sido fácil para o autor norte-americano, mas e para os fãs? A situação é agridoce. Apesar da forma unânime como a série foi e tem sido acolhida, descobrir o final da história pela televisão não é exatamente a mesma coisa que descobri-lo através de um livro. E mais: influencia a forma como os últimos dois romances serão lindos quando forem publicados. Isto se algum dia chegarem a sair. Já muitos perderam a esperança de que a “noite longa” venha a ter um fim. O inverno chegou, e parece que está para ficar.

No episódio cinco da quinta temporada, foi revelada a origem do nome "Hodor", a única palavra que o meio-gigante Wyllis (Walder nos livros) consegue pronunciar

De escritor desconhecido a estrela da ficção

George R.R. Martin começou a escrever os primeiros contos na década de 1970. Contudo, foi à televisão que acabou por dedicar grande parte da sua juventude, criando e produzindo séries televisivas de grande sucesso durante os anos 80. Em 1991 — pouco tempo depois da novela Nightflyers ter sido adaptada para o cinema –, começou a escrever as Crónicas de Gelo e Fogo, a saga de fantasia que acabaria por torná-lo famoso depois de adaptada ao pequeno ecrã pela HBO, muitos anos depois. O primeiro volume, A Game of Thrones, foi publicado em 1996. Em 1998, chegou às livrarias A Clash of Kings, seguido de A Storm of Swords (2000) e A Feast for Crows (2005).

A edição portuguesa só chegou em 2007 mas, por cá, já eram muitos os fãs de literatura fantástica que conheciam Martin. O editor da Saída de Emergência era um deles. “O Luís Corte Real já era, na altura, um grande fã. Já tinha lido os livros em inglês, era um apaixonado pela saga”, contou ao Observador Safaa Dib, fã de George R.R. Martin e organizadora do Fórum Fantástico, um evento anual de ficção científica. Na altura, Safaa ainda não trabalhava na Saída de Emergência, onde hoje é editora, mas já conhecia Luís. Decidiu então convencê-lo a publicar os livros de George Martin em Portugal.

“Este é um género que os fãs costumam acompanhar bem em inglês. Antes de os livros ficarem conhecidos no mainstream, já sabíamos que estavam a ser bem recebidos dentro da comunidade de fãs do fantástico”, para os quais Martin, inserido no meio há várias décadas, estava longe de ser um estranho. “Como fazíamos parte dela, sabíamos que ele era um dos mais conhecidos dentro do género”, explicou Safaa. Decidiram arriscar, mesmo temendo que o tamanho dos livros viesse a dificultar as vendas. Tentando combater isso, a Saída de Emergência decidiu dividir cada um deles e publicá-los em dois volumes. “Assim foi possível avançar com a série”, referiu a editora, salientando que a publicação partiu sobretudo “da paixão do editor pelo autor e pela obra”.

Em finais de 2008, com cinco volumes publicados em português, a Saída de Emergência decidiu convidar George R.R. Martin a visitar Portugal, aproveitando o facto de o autor estar numa convenção em Espanha. “Ele ainda não era tão conhecido como era hoje. Esteve dez dias em Portugal, levámo-lo a passear.” Além de ter estado no Fórum Fantástico desse ano, que se realizou de 2 e 5 de outubro na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Martin participou numa sessão de apresentação no El Corte Inglés. A pequena sala encheu, porque “quem acompanha a fantasia norte-americana já o conhecia”.

Os direitos televisivos das Crónicas de Gelo e Fogo tinham sido então vendidos à HBO e Safaa recorda-se de lhe ter feito uma pergunta sobre isso. “‘Pronto, tenho algumas expectativas, devem fazer isto assim’ e depois a conversa ficou por ali”, contou a editora. “Dois anos depois, a série estreou e foi a loucura total. Apanhou a editora de surpresa — todas as editoras de surpresa. Ninguém estava à espera que a série fosse tão bem sucedida.” Nessa altura, Safaa Dib já trabalhava como editora na Saída de Emergência e nem queria acreditar no que estava a acontecer.

A Guerra dos Tronos estreou-se nos Estados Unidos da América a 17 de julho de 2011. Nos três anos seguintes, a editora vendeu mais livros do que entre 2007 e 2010, quando começaram a sair as traduções portuguesas. De acordo com Safaa, já foram vendidos 250 mil exemplares em Portugal, um número impressionante para a Saída de Emergência e para qualquer editora portuguesa.

Em 2008, a Saída de Emergência convidou George R.R. Martin para regressar um dia a Portugal, o que veio a acontecer quatro anos depois, também numa altura em que o escritor se encontrava de visita a Espanha. Martin tinha-se tornado mundialmente conhecido e a multidão que o recebeu naquele final de tarde de abril no Teatro Villaret não teve nada a ver com o pequeno grupo que se reuniu no El Corte Inglés. George R.R. Martin era uma estrela. Passados três anos, saiu o quinto volume das Crónicas de Gelo e Fogo, A Dance With Dragons, um sucesso imediato de vendas. A tradução portuguesa chegou pouco tempo depois, enquanto fãs no mundo inteiro aguardavam ansiosamente pelo próximo volume.

A saga dentro da saga: o livro está terminado “quando estiver terminado”

Tanto quanto se sabe, Martin está a escrever o próximo romance, The Winds of Winter, desde 2010 (ou até antes). Em junho desse ano, o autor anunciou no seu blog — “Not A Blog” — que tinha completado quatro capítulos, escritos do ponto de vista das personagens Sansa Stark, Arya Stark e Arianne Martell (nos romances, cada capítulo é escrito do ponto de vista de uma personagem diferente). Na mesma entrada, Martin explicava que tinha decidido passar alguns dos capítulos de Arianne de A Dance With Dragons para The Winds Of Winter, diminuindo assim o tamanho do quinto volume. No mês seguinte, revelando que tinha também decidido passar um dos capítulos de Aeron Greyjoy para o livro seguinte, George R.R. Martin disse que já tinha escrito cerca de 100 páginas do sexto livro. “Dance tornou-se um bocadinho mais curto, mas ainda não está pronto”, afirmou. “A boa notícia é que parece que já escrevi mais de 100 páginas de The Winds of Winter.”

Apesar de os fãs já se terem habituado a palavras como “ainda não está pronto”, A Dance With Dragons saiu dentro do previsto — chegou às livrarias inglesas norte-americanas a 17 de julho de 2011 (seis anos depois da publicação de A Feast for Crows), no mesmo dia em que a série estreou no pequeno ecrã. A partir daqui, e também devido à recente popularidade da série, a vida de Martin tornou-se mais e mais complicada: o autor embarcou numa série de viagens de promoção do novo livro e também da série de HBO, viajando quase sem descanso de um lado para o outro. Ao mesmo tempo, envolveu-se em inúmeros novos projetos de publicação, como uma enciclopédia sobre o universo da Guerra dos Tronos, cujo lançamento também haveria de ser adiado (o plano inicial era que o livro estivesse acabado no final de 2011, mas este só acabou por sair três anos depois).

Foram cerca de 800 os fãs que se reuniram na pequena sala de espetáculos lisboeta para ver e ouvir George R.R. Martin, de acordo com as contas da organização

Foi durante este período agitado que George R.R. Martin visitou Lisboa em 2012. O autor tinha estado em Portugal há apenas quatro anos, quando ainda ninguém sabia quem ele era (a não ser alguns nerds da ficção científica). A diferença foi abismal: Martin foi recebido por uma multidão que encheu, até às portas, a pequena sala do Teatro Villaret. Os lugares não foram suficientes e muitos tiveram que ficar em pé durante a apresentação de O Cavaleiro de Westeros e Outras Histórias. No final, Martin autografou os livros dos cerca de 800 fãs que esperaram, durante várias horas, para trocarem algumas palavras com o escritor. O número era tal que, ao contrário do que costuma fazer, George R.R. Martin decidiu não personalizar os autógrafos: quem por ali passou, teve apenas direito a uma rápida assinatura na folha de rosto.

Safaa Dib também estava lá naquele dia (foi a ela e a Luís Corte Real que couberam as honras da casa) e lembra-se bem de ver o Villaret a rebentar pelas costuras. “Não teve nada a ver com a primeira vez. Estiveram 800 pessoas presentes. Foi o maior evento que nós fizemos”, disse em conversa com o Observador. “Nunca tínhamos tido um evento daquela dimensão, as pessoas aguardaram várias horas pela sessão de autógrafos. Ficamos muito contentes.”

Por volta desta altura, Martin tinha cerca de 400 páginas de The Winds of Winter, sendo que dessas apenas 200 estavam “praticamente acabadas” (as restantes ainda precisavam de ser editadas). Recusando-se a avançar com uma data de publicação (já tinha tido problemas semelhantes com o lançamento de A Dance With Dragons), quando questionado sobre o assunto, limitava-se a dizer que o livro estaria acabado “quando estivesse acabado”. Mas para os fãs, uma coisa era evidente — o volume estava atrasado.

“Não teve nada a ver com a primeira vez. Estiveram 800 pessoas presentes. Nunca tínhamos tido um evento daquela dimensão, as pessoas aguardaram várias horas pela sessão de autógrafos. Ficamos muito contentes."
Safaa Did, editora da Saída de Emergência

Prova disso foi que, em 2014, George R.R. Martin anunciou que não iria participar na quarta e quinta temporadas da série para poder avançar com o sexto romance (até então, o autor tinha escrito um episódio em cada temporada). Pela mesma razão, decidiu não visitar nenhuma convenção naquele ano. Apesar disso, a editora do escritor no Reino Unido, Jane Johnson, garantiu, através do Twitter, que The Winds of Winter não seria “certamente” lançado em 2015, não avançando porém com outra data. Enquanto isso, Martin continuava a divulgar novos capítulos a conta-gotas (em abril de 2015, publicou um escrito do ponto de vista de Sansa), ao mesmo tempo que afirmava que tinha intenção de terminar o novo romance antes do início da sexta temporada, em junho de 2016, e que este será candidato aos Hugo Awards desse ano. Mas tal não veio a acontecer.

Em janeiro de 2016, Martin viu-se obrigado a dar uma explicação aos fãs. No blog “Not A Blog”, escreveu a 2 de janeiro: “Vocês não vão gostar disto. Durante meses não quis mais nada que não fosse ser capaz de dizer: ‘Completei e entreguei o The Winds of Winter antes do último dia de 2015’. Mas o livro não está pronto”, admitindo que o novo romance nunca sairia a tempo dos novos episódios que, em termos cronológicos, tinham ultrapassado os eventos relatados nos livros até então publicados. “Nem é provável que o esteja pronto amanhã ou na próxima semana. Sim, muita coisa está escrita. Centenas de páginas. Dezenas de capítulos. Mas também há muito por escrever. Estou a meses [de o acabar]… E isso se a escrita correr bem. Às vezes corre. Outras vezes não. Há capítulos por escrever, claro, mas também por reescrever. Costumo reescrever muito, às vezes só para polir [a história], outras vezes para fazer grandes reestruturações”, disse ainda o autor norte-americano.

Que capítulos é que se conhecem?

Para lá de dois capítulos escritos da perspetiva de Arianne Martell e do que pertence a Alayne Stone (não se sabendo, porém, o que Martin irá fazer com este), sabe-se ainda da existência de outros divulgados através do site oficial de Martin ou lidos pelo próprio em convenções:

Frisando que não lhe deu nenhum “prazer” escrever aquelas palavras, George R.R. Martin disse ter consciência do desapontamento dos fãs. “E não estão sozinhos”, admitiu. “Os meus editores estão desapontados, a HBO está desapontada, os meus agentes e editores estrangeiros e tradutores estão desapontados… Mas ninguém está mais desapontado do que eu.” Apesar disso, o escritor parece não ter baixado os braços. Em maio, poucos meses depois da entrada dececionante no seu blog, divulgou mais um novo capítulo de The Winds of Winter no seu site oficial, escrito da perspetiva de Arianne Martell. Este, de acordo com Martin, veio substituir o que pertencia a Alayne Stone e que se encontrava publicado na sua página há mais de um ano.

Afastada a hipótese de o sexto romance sair em 2016, muitos fãs começaram a depositar todas as esperanças em 2017 — com o apoio de Martin. Em janeiro, um comentário deixado pelo escritor no seu blog sugeria que o livro estaria para sair “este ano” mas, tanto quanto se sabe, em maio ainda estava a ser escrito. Questionado sobre o assunto, Martin escreveu no “Not A Blog”: “Precisam mesmo ou querem posts semanais sobre o The Winds of Winter que digam ‘ainda estou a trabalhar nisso, ainda não está acabado’? Alguns capítulos foram publicados no meu site e li alguns em convenções”. Recentemente, levantou um pouco do véu em resposta a um comentário de um fã: “O Winds vai ser diferente em vários pontos, mas será parecido com a série em outros. Atualmente, existem provavelmente dezenas de personagens que estão mortas na série mas que estão vivas nos livros, por isso será impossível que as duas coisas fiquem iguais. (Além disso, existem personagens dos livros que nunca existiram na série, como Victarion Greyjoy, Jon Connington, Penny, Arianne Martell…)”.

A palavra de ordem: “frustração”

Foi no Fórum Fantástico de 2007, organizado por Safaa Dib e Rogério Ribeiro, que Ricardo Correia, de 32 anos esbarrou, pela primeira vez, com a saga de George R.R. Martin. “A Saída de Emergência estava há muito pouco tempo a publicar os livros em português foi o livro que me foi sugerido. Fiquei completamente agarrado”, admitiu ao Observador. Um ano depois, acabou — também graças à editora — por conhecer pessoalmente Martin e passar “dois ou três dias” com ele. “Foi ótimo. Ele não tinha a dimensão que tem agora e deu para ter um contacto mais direto, ainda que, de início, a série de livros estivesse um bocadinho fora da conversa.”

À mesa de jantar, falou-se de tudo — de história medieval, de banda desenhada, “porque ele tornou-se escritor por ser fã de BD, e ele próprio é argumentista de BD”. Foi o próprio George R.R. Martin que acabou por introduzir o tema das Crónicas de Gelo e Fogo. “Perguntou se conhecíamos a série [de livros], qual era a nossa personagem favorito e começamos a falar um bocadinho.” Nessa altura, Ricardo já tinha lido “tudo o que havia” em português, acabando por comprar o quarto volume na versão inglesa. Depois disso, começou a fazer todas as pré-vendas possíveis na Amazon do quinto livro, A Dance With Dragons, cuja edição ia mais do que atrasada. “Até que saiu.”

Em relação à série, admite que “gosta bastante”, principalmente tendo em conta que é uma adaptação de uma saga literária. “A série teve o condão de me fazer imaginar as personagens como sendo os atores, que estão dentro daquilo que eu próprio imaginava. Gosto imenso da série e parece-me ser a mais consensual do mundo. Não é só para geeks do fantástico, é para toda a gente.” Contudo, a série nunca substituirá os livros, e Ricardo Correia não consegue deixar de sentir uma certa frustração por ter de conhecer o desfecho da história através da adaptação televisiva.

O "Red Wedding" ("Casamento Vermelho") foi um dos momentos mais chocantes da terceira temporada da "Guerra dos Tronos" (e também do terceiro livro) e representou uma verdadeira reviravolta na história

Durante algum tempo, ainda se tentou convencer de que, apesar das evidências, The Winds of Winter ainda ia sair a tempo da sexta temporada. Até que se apercebeu de que não havia volta a dar — a Guerra dos Tronos ia mesmo chegar ao fim antes de os dois romances de Martin estarem acabados. “Pensava que estes atrasos eram uma questão de estratégia comercial. Com a divulgação dos capítulos, parti do pressuposto que aquela coisa já estava quase toda escrita. Só que não é isso!”, afirmou entre risos. “Aparentemente não é isso!” E agora, depois de anos a atirar à cara dos amigos que já sabia o que ia acontecer nos próximos episódios, Ricardo tem de se conformar com a triste realidade: já não sabe o que esperar daqui para a frente. “Mesmo que o livro entretanto saísse, a série já deu tudo. Qual é o impacto? Estamos a chegar a uma situação caricata em que uma série de televisão antecipa uma série de livros. O prazer já nem sequer vai ser o mesmo.”

Isto significa que os fãs nunca mais passarão por uma experiência como o Red Wedding, um dos momentos mais emocionantes e chocantes da saga. “Conto sempre esta história. Estava à espera que me chamassem para uma entrevista de emprego [quando li esse capítulo] e foi uma daquelas situações em que me apeteceu dizer ‘deixa-me só terminar isto porque não estou a acreditar que isto está a acontecer!’. Foi um dos momentos literários que mais me marcou. É esperar o inesperado, e isso já não vais ter com os livros.”

Até aqui, muitas das leituras que têm sido feitas da série tiveram na sua base o que Martin descreveu nos livros. A partir daqui, passará a ser o contrário — a série irá influenciar a forma como os fãs vão encarar os próximos romances. Isto leva a que os leitores ponham em causa alguns dos acontecimentos aparentemente importantes dos livros. É que, se não apareceram na série, “é porque não devem ser importantes”. “Estás a ver isto na televisão e com as liberdades [de adaptação] estás sempre na dúvida se isto vai ser tudo canónico ou, se houver uma infelicidade, se passa a ser canónico”, afirmou Ricardo Correia.

"Mesmo que o livro entretanto saísse, a série já deu tudo. Qual é o impacto? Estamos a chegar a uma situação caricata em que uma série de televisão antecipa uma série de livros. O prazer já nem sequer vai ser o mesmo."
Ricardo Correia, fã de George R.R. Martin

Safaa Dib descobriu os livros de George R.R. Martin há cerca de 15 anos, muito antes de terem começado a trabalhar na Saída de Emergência e de estes terem sido editados em Portugal. Fã de longa data de Martin, admite que ter de saber o final da saga por uma série televisiva “é uma experiência um bocadinho frustrante”. Porém, não hesita em afirmar que esta está muito “bem feita” e que tem uma grande qualidade. “Fiquei impressionada pela qualidade da última temporada. Cada episódio era um filme. Os últimos dois episódios foram talvez da melhor ficção televisiva que já viu”, afirmou, acrescentando que nunca pensou que a HBO fosse capaz de manter a mesma “qualidade ao longo das temporadas”.

“Não há qualquer dúvida de que a série tem padrões elevadíssimos, seja no que diz respeito à ficção fantástica ou a qualquer ficção televisiva.” Apesar disso, não deixa de ser uma experiência agridoce. “Há uma grande teoria que é desvendada no último episódio [da sexta temporada], que é a do parentesco do Jon Snow. Não quer dizer que o autor confirme essa teoria nos livros, embora eu ache que é o mais provável. Mas esse momento foi amargo e doce. Claro que, OK, foi um momento pelo qual esperávamos, mas é pena que o tenhamos visto pela série.”

Ao contrário de Ricardo e de Safaa, David Matos, de 26 anos, só começou a ler os livros quando estreou a primeira temporada. Viu-a toda sem ler um único romance, até que se decidiu a pegar no primeiro volume. Foi só quando terminou os dez livros da edição portuguesa que voltou a ver a série (primeira temporada incluída). Hoje, passados vários anos, quando lhe perguntam o que pensa sobre o atraso da publicação de The Winds of Winter e o início da sétima temporada, diz que não tem nada a dizer, a não ser: “Se morres, mato-te [George Martin]!”

Di-lo em tom de brincadeira, claro, mas admite que “é frustrante não saber o final primeiro através dos livros”. “Sempre achei as séries de televisão um complemento dos livros. Não gosto muito desta ideia de lhes passarem à frente. Por outro lado, compreendo que os produtores não podiam estar parados à espera. Só é pena que as coisas tenham avançado desta forma e que não tivesse havido um planeamento prévio que desse tempo ao George Martin para acabar os livros antes que os respetivos episódios saíssem.”

“Acho que os livros vão continuar a ser excitantes porque vão ter desenvolvimentos diferentes. Mesmo com o final igual, muita coisa continuará a despertar o interesse. Só é pena que o principal já esteja revelado por essa altura.”
David Matos, fã de George R.R. Martin

“Frustrante” parece ser, aliás, a palavra de ordem entre os fãs. Foi também essa a palavra escolhida por Inês Freitas, de 24 anos, para caracterizar como se sente em relação à situação. À semelhança de David, também soube da existência da obra de Martin com a estreia da série. Recorda que, assim que viu o primeiro episódio, ficou logo “cativada”. “Nas conversas de café entre os intervalos da faculdade não se falava de outra coisa, e alguns recomendavam a leitura dos livros.” De tal forma, que acabou por assistir à apresentação de George R.R. Martin em 2012 no Teatro Villaret. Foi nessa tarde que comprou o primeiro livro da saga. Devorou-o de uma vez só, e só parou quando chegou ao fim dos dez livros entretanto publicados pela Saída de Emergência.

“Depressa ultrapassei as temporadas que saíam de ano a ano, mas agora a história é outra… Existem livros por lançar que vão contar o final história, e o tempo de espera tem sido tanto que a série vai acabar por contar primeiro o desfecho. Não faz sentido, para mim.” Ao Observador, admitiu que nem sequer consegue entender o motivo de tanta espera, uma vez que o autor tem editado outros títulos, outras histórias. “E sendo que prefiro ler sempre aquilo que originou uma adaptação cinematográfica ou televisiva, torna-se no mínimo frustrante.”

Durante anos, os fãs da saga questionaram-se se Ned Stark seria mesmo pai de Jon Snow. O mistério foi desvendado no final da sexta temporada

David Matos mantém-se mais otimista em relação aos dois formatos. “Acho que os livros vão continuar a ser excitantes porque vão ter desenvolvimentos diferentes. Mesmo com o final igual, muita coisa continuará a despertar o interesse. Só é pena que o principal já esteja revelado por essa altura.” Para David, a série é mais “uma versão alternativa” do que outra coisa. “Adequa-se mais à televisão, concentra mais os motivos de choque e inventa algumas coisas que o público em geral gosta. Se comparares a quinta temporada com os livros correspondentes, notas que já há muita coisa diferente que não se pode considerar uma ‘adaptação’. É mais uma ‘interpretação’.” Mas adorou a última temporada, mesmo que prefira “o detalhe dos livros”.

Quando a obra se torna maior do que o homem

Safaa Dib, que ia lendo os livros de Martin à medida que iam saindo em inglês, lembra-se de quando os intervalos entre cada um “começaram a ser muito espaçados”. “Depois foi anunciada a série e ficámos muito entusiasmados. Achámos que seria uma forma de apressar o autor.” Só que isso não aconteceu. “A série foi um sucesso esmagador. O autor começou a ficar tão sobrecarregado que empatou mais a escrita do que acelerou.” Segundo Safaa, na altura, Martin já estava “com algumas dúvidas em relação ao enredo”. “A série tem um número esmagador de personagens, mas no livro é o triplo. Algumas vão morrendo, outras vão sobrevivendo, outras novas surgem, e torna-se difícil acompanhar a vida de cada uma delas. Percebo que seja um bocadinho esmagador.”

A teoria da editora da Saída de Emergência parece não estar muito longe da verdade. Em entrevista à The Atlantic, em 2011, Martin admitiu que a complexidade e tamanho da saga tem sido um problema. “Essa pode ser a razão pela qual a minha escrita foi desacelerando”, afirmou. “Mas a minha intenção foi, desde o início, escrever alguma coisa grande e épica, com um elenco de milhares [de personagens] e muitos cenários.”

Esta complexidade tem vindo a aumentar com o passar dos anos. As Crónicas de Gelo e Fogo começaram por ser uma trilogia (composta por A Game of Thrones, A Dance With Dragons e The Winds of Winter) mas, à medida que a história se foi desenvolvendo e expandindo, Martin viu-se obrigado a acrescentar novos volumes. O enredo tornou-se de tal forma gigantesco que, na mesma entrevista à The Atlantic, o escritor nem pôs de parte a hipótese de precisar de mais do que dois livros para contar o que falta. “Acho que foi o Tolkien que disse que quando estava a escrever O Senhor dos Anéis que ‘o conto cresceu com a escrita'”, disse. “Se calhar tornei-a demasiado grande há dois livros”, admitiu. “Lancei as bolas e sinto-me na obrigação de continuar a jogar com elas o melhor que consigo. Não posso simplesmente esquecer-me de algumas das bolas, tenho de lidar com as tramas que fui introduzindo. Se conseguir fazer tudo como quero, acho que vai ficar bem. Se não, tenho a certeza que o mundo me vai dizer.”

“A série tem um número esmagador de personagens, mas no livro é o triplo. Algumas vão morrendo, outras vão sobrevivendo, outras novas surgem, e torna-se difícil acompanhar a vida de cada uma delas. Percebo que seja um bocadinho esmagador."
Safaa Did, editora da Saída de Emergência

As escassas informações divulgadas pelo autor sobre The Winds of Winter dão a entender que Martin tem passado uma boa parte destes últimos sete anos a escrever vezes sem conta a mesma história, acrescentando e cortando partes, mexendo aqui e ali. No seu site oficial, já foram divulgados vários capítulos, alguns deles anunciados como substitutos de outros que tinham sido publicados anteriormente. The Winds of Winter parece ter-se tornado numa manta de retalhos, e Martin já não sabe mais onde coser. Entretanto, os fãs esperam e desesperam. E alguns deles até já perderam toda e qualquer esperança de ver o fim à saga.

David Matos ainda acredita que o próximo livro venha a ver a luz do dia. Quanto ao último, A Dream of Spring, já não tem tanta certeza. “Especialmente se o último demorar tanto como este… Ele não dura nem metade”, disse, referindo-se à idade já avançada do autor. “Ele deslumbrou-se com Hollywood, agora quer participar em tudo o que são adaptações de obras e ideias dele. Daí eu gostar da série de televisão: pelo menos esses têm de cumprir prazos e focar-se na história que querem contar. Não podem andar a reescrever guiões a toda a hora. É pena ter de saber coisas através dela, mas pelo menos é uma série bem produzida.”

Acredita que o melhor seria fazer “como fez o Robert Jordan com a série The Wheel of Time”. Jordan, que começou a escrever a série em 1984, foi diagnosticado com uma doença terminal em 2006. Os médicos deram-lhe quatro anos de vida. Sabendo que ia acabar por morrer, o norte-americano decidiu deixar as notas para o último livro da saga a um outro escritor que o pudesse terminar. A tarefa foi entregue a Brandon Sanderson, fã de longa data de Jordan que, devido ao tamanho do último volume, o dividiu em três: The Gathering Storm (2009), Towers of Midnight (2010), e A Memory of Light (2013). Robert Jordan morreu em 2007, sem nunca ver o seu último livro publicado.

Essa hipótese, porém, parece não agradar a Martin. Em várias entrevistas, o autor de A Guerra dos Tronos deu a entender que não gostava que outro escritor pegue na história ou no mundo que ele criou. Em entrevista ao jornal australiano The Sydney Morning Herald, em 2015, George R.R. Martin disse que não gostava de ver uma sequela da sua obra escrita por outro autor. “Mas hei-de morrer porque, Valar Morghulis, todos os homens têm de morrer. Não acho que, se a minha mulher sobreviver a mim, irá permitir isso, mas uma coisa que a História nos mostrou é que, eventualmente, estes direitos passam para netos ou descendentes colaterais ou pessoas que não conheceram o escritor e não se ralam com os seus desejos e só se importam com o dinheiro”, explicou.

“Por isso é que digo… O próximo livro é capaz de sair porque já o deve ter bastante adiantado”, afirmou ainda David. “O último ficará perdido debaixo da Muralha para todo o sempre.”

Fotografias: HBO/Game of Thrones, Saída de Emergência e João Girão / Global Imagens
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