Encurralados numa porta que abria ao contrário. “Se me descuidasse um bocadinho, também tinha lá ficado”

14 Janeiro 20181.325

Lara trepou por um monte de pessoas e saiu, mas está hospitalizada. José alcançou a rua segundos antes de tantos outros terem ficado encurralados. Na missa, esta manhã, o padre não parou de chorar.

Lara, 15 anos, participava no torneio de sueca que sábado à noite decorria na Associação Cultural e Recreativa de Vila Nova da Rainha, em Tondela. Não é que fosse participante habitual, num torneio frequentado maioritariamente por homens, e com quatro vezes a sua idade. Mas o pai, que é guarda prisional em Viseu, só chegava mais tarde e por isso era ela que fazia a sua vez à volta da mesa.

Foi uma das dezenas de pessoas que ficou encurralada no andar de cima da associação recreativa quando o tubo da salamandra que os aquecia inflamou o teto falso do edifício — que entrou em combustão. Foi uma das dezenas de pessoas que tentaram descer as escadas e caíram, literalmente, umas por cima das outras. O corrimão caiu logo com o peso dos que tentavam fugir. Ao fundo das escadas, duas portas: uma, à esquerda, dava para o salão onde outras tantas pessoas conviviam, jogavam snooker e viam o jogo de futebol entre o Sporting de Braga e o Benfica; a outra, em frente, dava para a rua. Mas essa estava fechada e — pior — abria para dentro. É este cenário fatídico que todos descrevem: umas escadas, duas portas, e um amontoado de pessoas que não conseguiu alcançar a porta da esquerda. “Ficaram encurralados numa porta que abria ao contrário”, descreve Carlos Cunha, presidente da Associação Municipal de Tondela e morador de Vila Nova da Rainha.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

A idade e a agilidade, dizem, fez com que a jovem de 15 anos fosse uma das únicas que saiu pelo próprio pé, apesar dos ferimentos muito graves “na cara e mãos”, segundo informações da Cruz Vermelha, provocados por queimaduras e inalação de monóxido de carbono. É que a jovem adolescente trepou, literalmente, pelo amontoado de corpos que se acumularam escada abaixo, tendo sido das únicas que conseguiu chegar à tal porta da esquerda, a que dava para o salão, que tinha acesso para a rua. Os ferimentos, contudo, fizeram com que fosse imediatamente transportada de helicóptero, “consciente”, para o hospital da Estefânia em Lisboa. No total, há para já oito mortos confirmados, e pelo menos quatro feridos graves de um total de 29 transportados para hospitais.

Ela era a mais nova, mais ágil, por isso tentou passar por cima das pessoas e saiu pela porta que dava para o salão”, conta ao Observador José Pereira, presidente da assembleia da associação recreativa, que estava na mesa ao lado a participar no torneio de cartas. “Estava mesmo ali ao meu lado”, diz já na manhã de domingo, no largo junto ao edifício queimado da associação, onde toda a aldeia e moradores do concelho se reuniram para se porem ao corrente da situação — e para esperarem o Presidente da República.

“A combustão foi instantânea, o fogo extinguiu-se a ele próprio”

A diferença entre José e Lara foi que José foi dos primeiros a correr escada abaixo, para alcançar a saída. “Começaram a pedir calma para não acontecer o que veio a acontecer, por isso houve gente que ficou lá mais um minuto ou outro, e foi o suficiente para já não conseguir sair”, conta. Calma foi tudo o que não houve nos minutos que se seguiram à inflamação do teto falso, feito de produtos de esferovite. “O pânico é que provocou esta tragédia toda”, explica ao Observador Carlos Cunha, presidente da Assembleia Municipal de Tondela.

E, nestas situações, todos os minutos contam. Carlos Fernandes, de 49 anos, também estava lá dentro, no segundo andar, e tem noção de que um minuto a mais poderia ter sido fatal. “Assim que vimos uma pequena labareda no teto junto à salamandra alguém gritou ‘fogo’ e começámos a correr para as escadas. Eu fui dos primeiros a sair, não demorei nem um minuto, os que não conseguiram sair logo ficaram na escada…”, conta. “Se me descuidasse mais um bocadinho também lá ficava.”

Carlos Fernandes, 49 anos, participava no torneio e foi dos primeiros a sair do edifício (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Ninguém consegue explicar ao certo o que se passou com o sistema de aquecimento da salamandra — o que falhou, o que devia ter sido feito para evitar o acidente. O que se sabe é que a salamandra, colocada no andar de cima, tinha um tubo que dava para o teto falso do edifício, e por sua vez, para o telhado. A dada altura, conta Carlos Fernandes, o teto “começa a inflamar”. Não há propriamente fogo, “só uma pequena labareda e algum fumo”. O que há é pânico instantâneo.

“O teto era à base de produtos de esferovite, por isso, não é como se fosse madeira, a inflamação é instantânea”, explica ao Observador o presidente da Assembleia Municipal, Carlos Cunha. “Com o pânico as pessoas partiram os vidros, e a partir do momento em que entrou de ar novo, oxigénio, a combustão foi instantânea”, acrescenta. Aí sim, ouviu-se barulho e muito fumo negro. Tudo para dizer que não houve propriamente um incêndio, nem uma explosão propriamente dita. O produto de que era feito o teto falso era altamente inflamatório, e tudo se passou em segundos, tal como começou, acabou: “O fogo extingiu-se a ele próprio”.

É Carlos Cunha que, juntamente com o presidente da câmara, José António Jesus, na manhã de domingo, tenta coordenar como pode as operações — entre o apuramento dos factos, a transmissão de informações, e a chegada do Presidente da República. A rua da igreja, que vai desembocar no local da tragédia esteve toda a manhã cheia de moradores, jornalistas, bombeiros e GNR. Cada um a contar o pouco que sabe ou que viu. Já na noite anterior tinha sido assim — só bem depois das 3h00 da manhã é que o silêncio se instalou.

Uma missa diferente com um padre “lavado em lágrimas”

Vila Nova da Rainha amanheceu num nevoeiro que condizia com o estado de alma da aldeia. Cinzento e muito frio. Depois dos fogos de outubro, “mais uma tragédia”. “São umas atrás das outras”, ouve-se dizer na rua da Igreja enquanto uns chegam e vão cumprimentando os que já lá estavam. É domingo, por isso dia de missa, mas depois da tragédia da madrugada passada, é uma missa diferente.

“Nem era para haver missa, não estava muita gente, e o padre levou a missa toda a chorar”, conta uma moradora que pertence ao coro da Igreja, que não deixa de fazer o paralelo com a missa do domingo passado, há oito dias. É que há oito dias, Vila Nova da Rainha recebeu a festa do Santíssimo Sacramento, e todos se reuniram na igreja nova para celebrar o santo padroeiro da aldeia.

“Há uma semana estavam cá eles todos [os mesmos que ficaram na associação]. Como é possível, uma coisa tão bonita num dia e uma tristeza tão grande no outro“, comenta António Marques, morador da aldeia, que na noite passada estava no andar de baixo da associação a ver o jogo entre o Brag e o Benfica. No largo da igreja não se fala de outra coisa senão das “desgraças” sucessivas que têm acontecido. Primeiro, os incêndios de 15 de outubro — “faz amanhã três meses”. Agora isto. “Isto é ainda pior, há mais vidas humanas aqui que se perderam”, comentava o senhor Carlos Fernandes.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

O sentimento generalizado é o de que “depois da associação, foi-se tudo o que nos restava”. José Pereira, que é dirigente daquela associação recreativa há 34 anos, não tem dúvidas de que agora, os poucos moradores daquela freguesia de Tondela ficam mesmo sem nada. Até sem o torneio de sueca que lhes preenchia o inverno.

O torneio era o acontecimento de inverno nas várias freguesias do concelho, incluindo em Vila Nova da Rainha. “Vinha gente de fora, de todo o concelho, era uma coisa muito bonita, e no final havia um almoço convívio”, conta Carlos Fernandes, de 49 anos, ao Observador. Todos os sábados, de janeiro a meados de fevereiro, era noite de jogar às cartas. Começava logo depois do verão, numa freguesia, dois meses depois passava para a outra, e assim sucessivamente. Os participantes costumavam ser mais ou menos os mesmos: saltitavam de um torneio para o outro e assim passavam o inverno.

O torneio de sueca de Vila Nova da Rainha ia já na sua 16ª edição. O senhor Carlos participava desde o segundo ano. José Pereira também tinha participado em todos. Esta foi a última vez. E “não podia ter acabado de forma mais trágica”.

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