“Geralmente o brasileiro vota por emoção, não por razão”

03 Outubro 2014

Dia 5 de outubro, o Brasil vai escolher o próximo presidente. Lisboa é a quarta cidade no mundo com mais brasileiros registados para votar.

Ouve-se o som de um berimbau, num ritmo peculiar, no café ao lado da Casa do Brasil em Lisboa, localizada na rua Luz Soriano, no Bairro Alto. Mas quando entra na sinfonia um instrumento de sopro, ao que parece um didgeridoo, a música ganha a sua identidade. É uma versão adaptada ao ritmo brasileiro da “Imperial March”, do filme Guerra das Estrelas. Quase dá para sambar. Esta banda sonora parece ser uma boa introdução ao confronto que vai ocorrer no dia 5 de outubro, data em que se vai disputar a presidência do Brasil.

 

Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves, são os principais candidatos.

Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves, são os principais candidatos.

“Não havia um grande interesse pelas eleições, mas nas duas últimas semanas isso mudou”, explica Cyntia de Paula, técnica de intervenção social na Casa do Brasil em Lisboa, associação fundada em 1992. Segundo dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, datados de 2012, vivem em Portugal 155.622 cidadãos brasileiros – trata-se da maior comunidade estrangeira no país. Sendo que o voto é obrigatório no Brasil, todos os seus cidadãos a morar fora, neste caso, Portugal, eram obrigados, até ao dia sete de maio, a transferir o título de voto para o local da residência atual, o que se chama comummente de “voto em trânsito”. Caso não tenham feito este procedimento, são obrigados a justificar o voto, o que se resume numa ida ao consulado, preencher um papel e pagar uma multa “de valor simbólico”. Existem três pontos de voto, em Portugal, para os cidadãos brasileiros: Faro, Lisboa e Porto.

Qualquer cidadão que não não vote e não justifique duas vezes seguidas fica exposto a uma lista de sanções: não pode renovar o passaporte ou bilhete de identidade; receber salário caso faça parte da função pública; concorrer em eleições; obtenção de empréstimos nos bancos do Estado brasileiro; inscrever-se em concursos públicos; renovar a matrícula em faculdades públicas.

Edifício onde está alojada a Casa do Brasil em Lisboa.

Cyntia, que mora em Portugal há cinco anos, admite que existe uma excitação em torno destas eleições, mas não sabe “se vão votar mais”, por causa disso. “De um ponto de vista”, a morte de Eduardo Campos teve o fator mobilizador, justificando a subida imprevisível de Marina Silva. “Teve uma ascenção rápida, uma queda ainda mais rápida”, sintetiza.

Mesmo com todos os protestos que aconteceram durante o Mundial de Futebol, “que já vinham de decisões de Lula”, Cyntia continua a achar que Dilma é a melhor opção para o seu país, sublinhando o investimento que foi feito na área da educação. E lembra que o programa Fome Zero, criado por Lula da Silva, em 2003, alcançou, recentemente, uma meta importante: pela primeira vez o Brasil deixou de estar sinalizado no mapa das Nações Unidas para os países em que vivem pessoas em condições de extrema pobreza.
Ainda no edifício da Casa do Brasil em Lisboa, decorre no último piso uma aula de inglês, com cerca de 10 alunos. A sala de aula está organizada em círculo e, nas costas dos estudantes está disposta uma pequena biblioteca. Camila Oliveira, 38 anos, era uma das alunas. Antes de começar a falar, vai ao telemóvel e começa a transcrever para uma folha o nome de todos os candidatos, não excluindo nomes menos conhecidos como o Pastor Everaldo, Eduardo Jorge, Levy Fidelix e Luciana Genro.

“Quando estava lá [no Brasil] dentro, não me interessava muito pela questão política”, admite, mas desde que emigrou ganhou uma certa distância que lhe permitiu perceber de que forma o país se move. Camila também confessa ser apoiante de Dilma.

“Com a morte do Eduardo Campos, o Brasil comoveu-se”, diz, para justificar a ascensão relâmpago de Marina Silva, que a assusta, confessa, por causa do “lado religioso bizarro”, explica, referindo-se ao ao facto de a candidata ser evangélica. “É uma pobre coitada, tenho pavor”. Segundo o ponto de vista de Camila, o partido de Marina tem muitos militantes homofóbicos e que “acham que os negros são a escória na terra.”

Um colega de turma intromete-se na conversa e acrescenta: “Geralmente o brasileiro vota por emoção, não por razão”, diz Imerson Santos, 29 anos.

Camila diz que leu o programa de Governo de quase todos os candidatos e, tal como Cyntia, acha que as metas alcançadas por Lula e Dilma, em particular na educação, justificam a opção de continuar a votar Partido Trabalhista (PT).

Quanto ao candidato do PSDB, Aécio Neves, retrata-o como um “corrupto”, lembrando um episódio polémico durante o qual o candidato era governador do Estado de Minas Gerais. De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, Aécio Neves delegou a construção de um aeroporto público em terrenos privados que pertenciam a familiares, finalizado em 2010, e que é gerido pelos mesmos.

Entre os candidatos menos conhecidos, Camila destaca os nomes de Luciana Genro e Eduardo Jorge, pela positiva, e do Pastor Everaldo e Levy Fidelix, pela negativa. “O Eduardo Jorge quer implementar um plano de saúde familiar, semelhante ao europeu, com médicos de família. E o partido da Luciana Genro é o único que assume mesmo que quer legalizar o aborto”, explica.

Elza mostra-se ainda intrigada com o fenómeno Marina Silva. "Os intelectuais italianos e franceses", diz, "estão muito entusiasmados com ela. Dizem que pode ser algo novo na política brasileira, mesmo sendo evangélica. Eu não entendo como, mas, ainda no fim de semana passado, havia uma opinião do Corriere della sera que dizia o mesmo."

Os segundos, Pastor Everaldo e Levy Fidelix, “esquecem-se que o Brasil é um país laico” e “que misturam pedofilia com homossexualidade, não percebendo nada do que estão a falar.” Para Camila, quem vota nestes dois candidatos “é um bando de brasileiros que não raciocina.”

Outro fator no processo de escolha do seu candidato, é a inclusão das questões indígenas e quilombolas, no programa de Governo – muitos destes vivem em áreas de interesse para a indústria agrícola e existe um conflito quanto aos direitos de propriedade do terrenos.  Eduardo Jorge e Dilma Rousseff são os únicos que falam sobre isto.”Só vou votar na Dilma, para fazer frente à Marina. Se não, votava no Eduardo Jorge”, confessa.

A grande maioria dos cidadãos brasileiros com quem o Observador conversou diz que têm acompanhado a campanha através das redes sociais, principalmente o Facebook.

Imerson Santos está desconfiado. O acidente aéreo do candidato presidencial, Eduardo Campos, pareceu-lhe “estranho”, demasiado casual. “Viu o avião a cair? Àquela velocidade? Ia bem inclinado”, diz, fazendo com um braço a fazer o movimento circular de queda em direção ao chão.”Aquilo parece ter dedo de político. Tudo é possível quando se trata de política”, acrescenta, justificando esta afirmação lembrando que o Brasil é um país “há muito habituado a escândalos”. Para ele, não existe nenhum candidato que “sobressaia.”

A sua opinião sobre Dilma difere, principalmente, em pontos que outros consideram positivos: “é bolsa para tudo, já está a extrapolar. Só serve para comprar votos.”

17.286 cidadãos brasileiros registados para votar, em Lisboa

Décio Nunes está com ar carrancudo a falar com um dos seguranças do Consulado do Brasil, em Portugal. “Porque é que não posso votar?”, pergunta ao segurança, que o recomenda a procurar mais informações na página do consulado na internet. A menos de cinco dias das eleições, Décio apercebeu-se de que “não passou o boletim de voto para Portugal a tempo.” O posto de informações estava vazio e só funciona até ao meio-dia, todos os dias, explicou o segurança. Em todas as paredes, estão afixados cartazes com informações sobre o local e horário das urnas, em Lisboa, no domingo: Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, na zona do Campo Grande.

Vitral na entrada do Consulado do Brasil em Lisboa.

Mesmo com o rebuliço que aconteceu no Brasil, com grandes oscilações nas intenções de voto depois da morte de Eduardo Campos, Ruy Casaes, embaixador do Brasil em Portugal, diz ao Observador que não viu uma grande mudança ou “qualquer alvoroço” eleitoral, em Lisboa. Ao todo, estão registados 17.286 cidadãos brasileiros para votar, em Lisboa, no próximo domingo, contou, o que faz com que esta cidade seja o “quarto maior colégio eleitoral do Brasil no mundo.”

“Politicamente a Dilma é terrível, não percebe nada de relações internacionais”, afirma Elza Gardagne, 55 anos, que mora em Milão e estava no Consulado, porque foi assaltada e perdeu todos os documentos. Precisava de um passaporte para regressar a Itália. O presidente ideal de Elza é Aécio Neves, porque é “mais democrático, mais correto”, e é neto do Tancredo Neves, que foi o primeiro presidente da República, depois da ditadura.

"Geralmente o brasileiro vota por emoção, não por razão", diz Imerson Santos, 29 anos.

“Essa Dilma é odiada pelo pelo povo da classe média para cima”, diz, acusando-a de populismo, acrescentando que é “uma comunisteira que nem melhora a saúde e educação”, com programas como a bolsa família para ganhar votos. Elza tem três anéis em cada mão e uma carteira com o logótipo de um cão da raça galgo inglês fácil de distinguir – é da marca Bimba Y Lola. A principal justificação da animosidade para com Dilma Rousseff chega logo a seguir: “Já me fez perder um terço do meu dinheiro na bolsa, por causa da desvalorização do real.”

Elza mostra-se ainda intrigada com o fenómeno Marina Silva. “Os intelectuais italianos e franceses”, diz, “estão muito entusiasmados com ela. Dizem que pode ser algo novo na política brasileira, mesmo sendo evangélica. Eu não entendo como, mas, ainda no fim de semana passado, havia uma opinião do Corriere della sera que dizia o mesmo.”

Já Albertina França, 42 anos, acredita, piamente, que os intelectuais têm razão. “Faço parte da igreja evangélica cá em Portugal e também já fazia no Brasil. Por isso, estou do lado da Marina. É bom sentir que tenho alguém que me representa”, diz, enquanto segura um terço que tem em redor do pulso esquerdo, para este não cair.

A empregada de limpeza diz que as eleições brasileiras são sempre um “confronto muito louco”, mas que “depois acaba por ficar tudo igual”. Vinda do interior do Brasil, da cidade de Manaus, para Lisboa, Albertina diz que a política é um exercício de “de adivinhação”, e que “nunca se sabe o que se vai apanhar pela frente”. Mesmo admitindo que Dilma “foi uma boa presidente”, nos últimos anos, concluiu: “Talvez a morte do Eduardo [Campos], Deus o tenha, tenha sido um sinal [religioso].” Um sinal que tinha chegado a sua presidente ideal.

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