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Grávidos de literatura

07 Março 2015916

No seu regresso aos textos jornalísticos, João Pedro George analisa uma característica muito peculiar do escritor português: acreditar que a literatura desce do céu, como o Espírito Santo.

Há muito que me interrogo sobre a origem da delirante criatividade dos escritores portugueses. Qual será a fonte da fecundidade literária de um António Lobo Antunes ou da sofisticada imaginação de um António Mega Ferreira? Como é que as histórias e as personagens dos livros de Margarida Rebelo Pinto, Maria João Lopo de Carvalho, José Riço Direitinho, João Tordo ou Valério Romão foram geradas?

Lendo as declarações de alguns deles, é possível tirar curiosas e invulgares conclusões acerca dos processos da escrita em Portugal. “Porquê José Agostinho de Macedo?”, perguntou Paula Moura Pinheiro a Mega Ferreira, autor de Macedo: Uma biografia da infâmia. Resposta: “Por acidente, como eu penso que acontece com os escritores. Eu não sei se nós escolhemos os temas se os temas nos escolhem a nós.” Coisa idêntica se passa com Margarida Rebelo Pinto. Questionada pelo Correio da Manhã sobre os novos projectos que tem em mãos, a autora de Sei Lá afirmou: “Tenho uma lista. O mais certo é que um deles me apanhe na curva. São as histórias que nos apanham, e não o contrário.”

Para António Lobo Antunes, os seus romances “estavam ali à espera”, por isso “não posso dizer muito bem que sou o autor dos livros” (entrevista ao extinto A Capital, 2004), tese que corroborou mais tarde no diário espanhol El País, quando afirmou que “os livros fazem-se sozinhos […] a mão caminha sozinha”. Já Maria João Lopo de Carvalho, autora de um romance histórico sobre a Marquesa de Alorna, foi mais específica e declarou ao Notícias Magazine que tinha sido escolhida (nada mais, nada menos) pela própria Marquesa para contar a sua história: “Na eternidade, onde ela está – tenho fé, sou católica –, Leonor escolheu-nos [a ela Lopo de Carvalho e Maria Teresa Horta, que também escreveu uma biografia da Marquesa] para a estudarmos de maneiras diferentes e complementares.”

Poucos têm escapado a este paleio capaz de adormecer várias pessoas ao mesmo tempo, nem sequer os saudosos Rosa Lobato Faria e Manuel António Pina. A primeira, numa entrevista de 2007, afirmou que “O livro escolhe-nos, não somos nós que o escolhemos a ele” e que “O romancista não escolhe os temas. São os temas que o escolhem”; o segundo, questionado sobre “Quando é que descobriu que escrevia poesia”, declarou noutra entrevista referente a 2011: “Não escolhi ser poeta; ser poeta é que me escolheu a mim.”

Lá fora, o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito, exige passar várias horas por dia a escrever. Os escritores portugueses não vão nisso. Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas.

Este surto incontrolável de revelações sobre o mistério do génio criador, por muito que isto custe, está a fazer escola, frutificou entre os mais novos. João Tordo, o jovem vencedor do Prémio José Saramago de 2009, disse numa entrevista ao Diário de Notícias: “Eu descobri a Catarina Eufémia [tema do romance Anatomia dos Mártires] porque ela me foi acontecendo. Acho que foi mais ela que me descobriu a mim” (no princípio do segundo capítulo do livro, o narrador confessa também que “No princípio de Dezembro comecei a investigar a fundo a história de Catarina Eufémia. Uma vez mais, temo estar a mentir porque, em abono da verdade, foi a história de Catarina que me começou a investigar”).

José Riço Direitinho, escritor e crítico literário do Público, afina pela mesma cartilha. A jornalista Diana Garrido, do jornal i, perguntou-lhe: “Faz algum esboço das suas personagens e trama?” O escritor, peremptório, garganteou: “Não, elas vão aparecendo. Deixo-as entrar, ou não.” “Como é que dá o nome às suas personagens”, continuou a jornalista. “Baptizam-se elas próprias. Quando chegam é como se já tivessem nome”, asseverou o escritor, com uma gravidade digna de Prémio Nobel. Mais recentemente, na mesma toada, Valério Romão, convidado do programa “Nas Nuvens”, do canal Q (temporada 2, episódio 21), a propósito do livro de contos Da Família, referiu: “Bem, enfim, eu acho que fundamentalmente não são os escritores que escolhem os temas, os temas é que escolhem os escritores.”

Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Os escritores portugueses não vão nisso. Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas. Lá fora, em França, nos Estados Unidos, na Guatemala, em Inglaterra, na Colômbia, na Nigéria, no Egipto, no Chile, etc., o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito (para se nutrirem das mais variadas heranças literárias), exige passar várias horas por dia a escrever (como os campeões de pingue-pongue chineses, que treinam diariamente dez horas). Por isso escrevem e reescrevem, comparam, corrigem, revêem, voltam a rever, cortam, rasuram, excluem, acrescentam, compõem, recompõem, etc. Há aqueles que se dedicam a observar e a escutar com atenção os outros, que registam os acontecimentos e dão notícia do seu tempo, que viajam, correm daqui para ali, vão a África caçar leões e comem baleia guisada ao pequeno-almoço, tentam alargar as suas faculdades inventivas e infundir-se de novas possibilidades criativas, porque, enfim, é da experiência da vida e do contacto com os outros seres humanos que nasce a grande literatura.

Em Portugal, pelos vistos, o único talento necessário para escrever livros é ser possuído, como aconteceu com a Virgem Maria, por uma espécie de sopro que engendra, sem os próprios escritores darem bem por isso, vindos não se sabe donde, romances, livros de poemas, temas, estilos, intrigas, personagens, diálogos, comparações, intertextualidades, polifonias.

Pois os escritores do nosso pequenino país dispensam isso tudo, preferem ficar à espera, como na missa, de ouvir a trombeta da inspiração. Escrever, lá na cabeça deles, é um estímulo que resulta do imprevisível; é algo inexplicável que não tem nada que ver nem com o trabalho, nem com o método, nem com a memória. É um dom sobrenatural concedido apenas a alguns, limitado a meia dúzia de eleitos, um impulso projectado na alma, ou um princípio de acção que lhes foi comunicado do Alto, lhes iluminou a inteligência e lhes moveu a vontade. E a literatura, afinal, uma matéria obscura, um fenómeno que diz respeito não se sabe bem a quê – à graça divina?, a uma emanação proveniente dos astros? –, um mistério no qual ninguém consegue penetrar e cujo processo não podemos compreender (como a Trindade de Pessoas em Deus, a Incarnação do Verbo Divino, etc.). Neste canto do planeta acredita-se, portanto, que a literatura desce do céu como o espírito que iluminou os apóstolos, contendo segredos que só o Altíssimo conhece (e mais eles).

Em Portugal, pelos vistos, o único talento necessário para escrever livros é ser possuído, como aconteceu com a Virgem Maria, por uma espécie de sopro que engendra, sem os próprios escritores darem bem por isso, vindos não se sabe donde, romances, livros de poemas (incluindo edições de autor, edições críticas, edições definitivas, edições póstumas, etc.), temas, estilos, intrigas, personagens, diálogos, comparações, intertextualidades, polifonias, etc. Por exemplo, Caminho Como Uma Casa Em Chamas, o último romance de Lobo Antunes, apareceu-lhe há meses quando estava a descer o estore da sala (ao mesmo tempo que coçava os dedos dos pés na alcatifa, fazendo estalar as articulações). António Lobo Antunes sentiu uma reverberação, um repentino arrebatamento de energia. Algo golpeou-lhe depois a retina, os olhos moveram-se debaixo das pálpebras e lacrimejaram. Sem conseguir controlar a sua expressão e os músculos faciais, o corpo do escritor português começou a aumentar. Lobo Antunes empalideceu, benzeu-se e o suor correu-lhe pela cara. Sentiu uma vertigem e desmaiou. Quando despertou – “onde estou eu?!”, bradou –, viu em cima da secretária o novo livro.

Com Mega Ferreira aconteceu algo semelhante: apareceu grávido de Macedo: Uma biografia da infâmia. Enquanto dava o nó na gravata, Mega Ferreira sentiu-se subitamente agitado por um torvelinho interno, os seios aumentaram de volume, a pigmentação da pele mudou, a frequência respiratória e as trocas gasosas elevaram-se, os ligamentos e as cartilagens tornaram-se mais elásticos… Após uma série de contracções da musculatura do diafragma e da parede abdominal, Mega Ferreira fez uns trejeitos medonhos, deu uma bofetada na própria cara e expulsou finalmente, duma assentada, a Biografia da Infâmia, O essencial sobre Camus e O essencial sobre Proust.

Lançamento do livro “Rómulo de Carvalho/António Gedeão – Príncipe Perfeito”

António Mega Ferreira, após expulsar a sua obra sobre Macedo: “Eu não sei se nós escolhemos os temas se os temas nos escolhem a nós.” © Lusa/José Neves

 

Por seu lado, José Riço Direitinho estava a descongelar meio frango quando as personagens dos contos A Casa do Fim lhe foram inseminadas (através de métodos não invasivos) no local onde normalmente ocorre a fecundação. De imediato, Riço Direitinho levantou as mãos e mexeu as pernas, sentindo-se atacado de uma acumulação de gases e outras indisposições corpóreas, que passo a relatar: visão turva, dor de estômago (aos jornalistas, mais tarde, o escritor descreveu-a como um pouco mais forte que as dores que as mulheres sentem durante o período menstrual), inchaço das mãos, dos pés, dos tornozelos e das gengivas, seguido de pequenas borbulhas que dão comichão, corrimento nasal (no nariz formou-se uma bolha de ranho, que aumentava, diminuía, depois voltava a aumentar e a diminuir) e tosse seca persistente. Extraídas dum óvulo masculino, saíram-lhe de rompante uma ninhada de personagens com nomes bíblicos (como Eva, Moisés, Abel, Caim ou Zebedeu). Sem saber bem como nem porquê, Riço Direitinho deparou-se com a obra feita e, de tão contente, começou a bater palmas com as orelhas.

Já Maria João Lopo de Carvalho estava a desenroscar o tubo da pasta de dentes quando foi penetrada – depois de muito pedir a Nossa Senhora – pelo romance Marquesa de Alorna. O corpo da escritora, em estado de beatitude, começou a segregar substâncias – que causam um cheiro característico, cujo nome prefiro não publicar –, seguido de algumas dificuldades de concentração e de um momentâneo ataque de miopia. Repentinamente, das plantas dos pés começou a sair-lhe um romance histórico.

Por último, Valério Romão estava de chinelos a envernizar os móveis quando foi acometido de uns estremecimentos internos, que incluíam muita vontade de urinar, enjoos e olfacto mais sensível do que o normal (por causa dos níveis elevados de estrogénio). Pungido pelo pressentimento da criação, Valério Romão (sempre de chinelos) teve desejos por comidas exóticas. Ao abrir o frigorífico, o tema “Família” saltou da gaveta das carnes e, antropofogamente, senhoreou-se de Valério Romão, o qual, trespassado de estranhos calafrios, expeliu os livros Da Família e O da Joana.

Perguntarão vocês: quem terá sido o precursor de tão original doutrina sobre as técnicas de criação literária? Qual será a procedência deste profundo e fascinante misticismo que os nossos escritores repetem tão fastidiosamente? O mesmo pergunto eu. Será um daqueles casos portuguesíssimos de mania das grandezas, um extremado exemplo do mito da literatura eleita (a nossa) por obra e graça do dedo divino? Nada disso! Depois de muito cavar, depois de desfolhar e tornar a desfolhar os livros que para aí se publicam (e de discutir o assunto em vários festivais de literatura), cheguei por fim à conclusão que se trata de um caso apaixonante de capilaridade literária.

Entre os escritores que mais têm influenciado a novíssima literatura portuguesa conta-se Paulo Coelho, que um dia afirmou sobre a sua obra: "Eu nunca penso nos temas. Eles me escolhem."

Na realidade, entre os escritores que mais têm influenciado a novíssima literatura portuguesa conta-se o autor brasileiro mais vendido em língua portuguesa de todos os tempos (mais de 100 milhões de livros): Paulo Coelho, o criador de O Alquimista (e o escritor que mais quilómetros percorreu entre o sul de França e Santiago de Compostela). Vejamos. Quando lançou o livro Zahir, uma das perguntas que os jornalistas fizeram ao escritor brasileiro foi se existia algum tema sobre o qual gostaria ainda de escrever, ao que Paulo Coelho respondeu: “Eu nunca penso nos temas. Eles me escolhem” (isto vem desmentir, diga-se de passagem, a ideia do incipiente intercâmbio entre a literatura portuguesa e a literatura brasileira, da pouca curiosidade que ambas inspiram uma na outra, do mútuo desconhecimento da literatura produzida nos dois países irmãos). Por outro lado, reconheceu que compra livros porque “são eles que me escolhem, me chamam da prateleira de uma livraria” (como vimos, os escritores portugueses concordam intensamente com Paulo Coelho).

Que Paulo Coelho é uma fonte copiosa de imitação já o sabia, agora que os nossos escritores se tivessem convertido fanaticamente aos devaneios do autor de Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei causa alguma surpresa. Não há nada de mal em reter os ensinamentos dos precursores, mas aquilo que faz um escritor forte, como diz Harold Bloom em A Angústia da Influência, está na capacidade de fazê-los significar noutro sentido – através de uma correcção criativa, de uma mudança de ênfase, de uma distorção da doutrina original –, mostrando que eles (os precursores) não conseguiram ir suficientemente longe. Como os nossos escritores não o fizeram, e preferiram a subserviência subalterna, uma conclusão se impõe: têm ainda de encontrar a sua própria voz. Eis o que me parece ser o problema central da recente literatura portuguesa.

 

Nota: esta é uma versão revista e muito ampliada de um texto originalmente publicado no blogue Malomil.

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