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Guerra dos Tronos: por favor não matem o anão

24 Abril 2016405

Este 25 de Abril há música além do “Grândola”. Há o épico do genérico que desvenda o mapa de Westeros. Quem sabe, até o fatal hino dos Lannister. Ficam aqui os nossos pedidos para a temporada 6

“A Song of Ice and Fire”. É esse o título original da saga criada por George R. R. Martin. “A Game of Thrones” era apenas o nome do primeiro volume, mas foi com ele que se tornou um invulgar caso de amor tanto entre o público como a crítica. Em Abril de 2011, David Benioff e D. B. Weiss estrearam, na HBO, a sua adaptação da obra do “Tolkien americano”. De então para cá, “Guerra dos Tronos” pôs muito intelectual a ver dragões e bruxas sem remorsos, bateu recordes de Emmys legítimos e downloads ilegítimos – e conquistou o direito a ser um dos nomes atirados à mesa em qualquer discussão sobre qual a melhor série de televisão de todo o sempre. Este domingo nos Estados Unidos, segunda no resto do mundo (em Portugal no canal SyFy, às 22h10), começa a sexta temporada – a primeira que já não tem bem um livro de Martin em que se basear. No que é que isto vai dar? Não sabemos. Mas temos alguns pedidos.

Que ainda não seja desta que Tyrion bata as suas pequenas botas

Mesmo quem nunca viu sabe: na “Guerra dos Tronos”, o pessoal não vê nenhum problema em matar as personagens principais umas atrás das outras. Assim de cabeça, já limparam o sebo a pelo menos umas 12 importantes. Segundo um estudo realizado em 2012, a média das duas primeiras temporadas estava em 14 mortes por episódio – nada mau. E como os argumentistas já há algum tempo tomam valentes liberdades em relação à obra original, a contagem desta divergência em particular já vai em 15: 15 personagens que ainda estão vivas nos livros, mas já quinaram na série.
Não vale a pena uma pessoa afeiçoar-se muito. Morre o nosso herói, andamos órfãos por uns tempos e, assim que nos começamos a afeiçoar a outro, lá vem uma espada ou uma lança marota sabe-se lá donde. Um tipo chega a dar por si, como que suspenso uns centímetros acima do sofá, a dizer para a televisão: “esse não, esse não!” Para nada.

Se nunca viu a série ou, pelo menos, não a viu toda, poupamo-lo aos spoilers. Lembre-se apenas destas duas palavras: “red wedding” (Já agora, um aparte: seria demasiado severo inscrever na lei seis meses de trabalhos forçados para adolescentes que usem o verbo “spoilar”? Não, pois não? Ora, foi exactamente o que eu disse: e, se calhar, ainda era pouco).

Bom, a verdade é que a síndrome da morte súbita se tornou tão distintiva da série que os cartazes promocionais da nova temporada se dão ao luxo de brincar com os nossos sentimentos: espetam as carinhas de boa parte dos protagonistas em versão cadáver, na Casa do Preto e do Branco do Deus-das-muitas-caras. Sim, ali mesmo ao lado de umas quantas vítimas caídas em temporadas anteriores, lá estão o bom Tyrion, Arya, Sansa, Daenerys, Cersei e – claro – Jon Snow.

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Um dos cartazes de promoção à nova temporada

Vão matá-lo a todos? É um facto que, em matéria de matar de pessoas importantes, a “Guerra dos Tronos” conta agora com a feroz concorrência deste ano de 2016, mas depois faziam a sétima temporada com quê? Um dragão e um bordel? O mundo ainda não está preparado para ficção tão experimental. É provocação, só pode. #anyonecanbekilled, diz um dos hashtags oficiais. #maumau-maumau-maumau, dizemos nós. #tuqueresver?

Mas que mais uns quantos ficarão em breve pelo caminho, isso é trigo limpo, farinha amparo (como quer que isto se diga em Alto Valiriano). Para já não falar dos mutilados – sim, porque também há toda uma classe de personagens que lá vai escapando à rasquinha, mas levando o que contar: cegos, manetas, paraplégicos, enfim. Já vimos “Natais dos Hospitais” com pessoal com mais saúde.

Mesmo quem nunca viu sabe: na “Guerra dos Tronos”, o pessoal não vê nenhum problema em matar as personagens principais umas atrás das outras. Assim de cabeça, já limparam o sebo a pelo menos umas 12 importantes. Segundo um estudo realizado em 2012, a média das duas primeiras temporadas estava em 14 mortes por episódio – nada mau.

Preocupados com esta mesma questão, uns geeks da Universidade Técnica de Munique desenvolveram um algoritmo que prevê as próximas personagens a morrer. “A Song of Ice and Data”, chama-se o projecto, quantifica uma série de dados sobre as personagens que já morreram e tenta definir um padrão que compara, depois, com as ainda vivas. Segundo esta rapaziada, os próximos a esticar o pernil serão Tommen Baratheon, Daenerys Targaryen e Davos Seaworth. De Davos, estamos dispostos a abdicar; Tommen, com efeito, desde que se tornou rei que passeia aquele ar de peru em véspera de Natal; mas Daenerys, por favor. Daenerys, a princesa, a “Mãe de Dragões”, não pode morrer. Ainda não, pelo menos. Do lado oposto das probabilidades, estão Sansa Stark (o que lhe dá tempo para, por exemplo, mudar de nome para Sonsa), Cersei Lannister (já desconfiávamos que vaso ruim não quebra também fosse um dito comum nos Sete Reinos) e Mas-o-que-é-que-este-gajo-importa?-Tyrell.

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Daenerys, a princesa, a “Mãe de Dragões”

Fundamentalmente, temos a pedir o seguinte ao Deus das Muitas Caras: que não morra nenhum Stark nesta temporada e se poupe também a vida a dois secundários da nossa estima – Bronn, o mercenário que vem salvando a vida a Tyrion, e Jaqen H’ghar (até porque dá ideia de que o rapaz é assim para o imortal ou que, pelo menos, tem jeito para a reencarnação). Acima de tudo, que se salvem os cínicos: Lord Baelish, Lord Varys e Tyrion. Chamem-nos sentimentais, mas ganhámos-lhes afecto. No mundo de intrigas da “Guerra dos Tronos”, os cínicos são os verdadeiros cavaleiros, os espadachins. E Tyrion, o anão, o menino rico, o alcoólico, o mulherengo, o amargo mas brutalmente honesto Tyrion, a nossa melhor hipótese de salvação.

O que queremos muito da nova temporada

Dito isto, o que esperar da temporada 6? Não falta, por essa internet afora, quem já tenha autopsiado até ao mais magro frame os poucos clips, trailers e entrevistas libertados. Vemos que Bran, o mais novo dos Stark, está de volta depois de uma temporada de descanso e aprendizagem junto do Corvo de Três Olhos. Além de crescido e esganiçado – naquela estranha fase mutante porque passa todo o adolescente, mas que aquele que é actor tem o azar de ver ficar registada em vídeo para todo o sempre – parece agora caminhar pelo próprio pé. Segundo revelou Isaac Hemstead-Wright, o actor que lhe dá corpo (e borbulhas), Bran consegue agora ter controlo sobre as suas visões e contemplar todo o passado, presente e futuro de Westeros. E assim desempenhará um papel fulcral na Grande Guerra por vir.

Se nos perguntarem o que é nós queremos mesmo – mesmo, mesmo – para esta temporada, a resposta é simples: que não façam m**da. Sim, caro leitor, não sei se partilha da nossa preocupação, mas é que, durante quatro temporadas, a “Guerra dos Tronos” pareceu a série mais vigorosa e criativa de sempre; à quinta, começou a amolecer; e agora, pela primeira vez, vai ultrapassar os livros. Caminhar sem rede.

A guerra, supomos, ainda não será para já, mas, quando for, há-de ser não entre os Lannister e os Stark ou qualquer outra família, mas dos vivos contra os White Walkers, que, sim senhora, podia ser um óptimo nome para um whisky ou mesmo para umas bolachas de manteiga gourmet, mas que, para quem não sabe, se refere neste caso aos Caminhantes Brancos, exército de mortos que começou a descer do Norte no final da temporada passada e que corresponde certamente ao Inverno – o tal Inverno que está para chegar desde o primeiríssimo episódio da série.

Vemos também Cersei e Jamie Lannister conspirarem para recuperarem tudo quanto lhes foi tirado, Theon Greyjoy ajudando Sansa a fugir de Winterfell, Arya a aprender a lidar com a cegueira, o terrível Montanha vivo e pronto para voltar ao combate, Daenerys acorrentada e escoltada pelos Dothraki, Jorah Mormont em busca dela enquanto luta pela própria vida – e os dragões, os dragões cada vez maiores. E há ainda um flash onde parece ver-se Ned Stark em pleno combate. Sim, o Ned Stark (Sean Bean) que parecia ser o herói desta brincadeira toda, morreu logo na primeira série (desculpem, mas esta tinha de ser) e assim nos ensinou ao que vínhamos. Flashback ou ressurreição?

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Ned Stark (Sean Bean), ou como as personagens principais podem desaparecer na primeira temporada

E, contudo, se nos perguntarem o que é nós queremos mesmo – mesmo, mesmo – para esta temporada, a resposta é simples: que não façam m**da.
Sim, caro leitor, não sei se partilha da nossa preocupação, mas é que, durante quatro temporadas, a “Guerra dos Tronos” pareceu a série mais vigorosa e criativa de sempre; à quinta, começou a amolecer; e agora, pela primeira vez, vai ultrapassar os livros. Caminhar sem rede.

Na primeira temporada, Benioff e Weiss adaptaram fielmente, ao que se diz, o primeiro romance da saga. A partir da segunda, começaram a tomar liberdades criativas, mas, ainda assim, apoiaram-se no segundo livro, A Clash of Kings e nos primeiros capítulos de A Storm of Swords. Esse terceiro volume saiu, na verdade, melhor do que a encomenda: ainda deu para alimentar toda a terceira temporada e parte da quarta, completada com elementos de A Feast for Crows e A Dance with Dragons. O restante desses quarto e quinto livros serviram, depois, de matéria-prima à quinta série. Mas e a seguir? George R. R. Martin prometeu um sexto livro até ao final de 2015, mas falhou a promessa. Ele mesmo deu a notícia ao mundo, confessando-se o mais desiludido dos fãs. Ao que parece, a sexta temporada já terá muitos elementos desse romance por concluir, The Winds of Winter. Mas a verdade verdadinha é que há seis anos que Martin não lança um livro. Isto é, precisamente desde que a “Guerra dos Tronos” estreou em televisão e se tornou um sucesso planetário. Mais alguém está a ouvir “Under Pressure”?

No entanto, com ou sem Martin, a questão é esta: ao contrário de muitas outras grandes séries que, a partir da terceira ou quarta temporada, já davam os primeiros sinais de esterilidade, na “Guerra dos Tronos” os autores chegam à sexta parecendo sempre saber exactamente para onde vão.
Vocês sabem, não sabem?

Afinal, porque é que isto é tão bom?

Mas, afinal, pergunta o nosso amigo que se deu ao trabalho de ler até aqui mesmo nunca tendo visto a série, o que é que a “Guerra dos Tronos” tem?

Tem sexo, violência, cenários grandiosos e grandes sequências de acção. Mas tudo isso pode apenas explicar que seja atraente, não que seja especial. Tem bruxas, dragões e magia, mas servidos em doses homeopáticas. Se é daquelas pessoas que ainda diz que não vê a “Guerra dos Tronos” porque não acha graça a essas coisas tipo “Senhor dos Anéis, por favor, leia os nossos lábios: não-tem-na-da-a-ver. Tem até mortos-vivos, mas aparecem pouco e são realmente perigosos e não meros presuntos com olhos, como os de “Walking Dead”. A “Guerra dos Tronos” é especial, sobretudo, por tratar daquilo que é eterno – e que, por uma vez, curiosamente, não é nem o amor nem a morte, mas o poder e a família.

“Os Sopranos na Terra Média”, reza a lenda que foi como David Benioff vendeu, originalmente, a série. Por um lado, continua a ser a definição inultrapassável: os enredos de intriga, os deveres de lealdade e as traições para com uma família, num cenário de fantasia. Mas, por outro, parece não chegar para descrever o que de realmente mágico nos prende do primeiro ao último minuto de cada episódio de uma hora. Aquilo que, ano após ano, deixa milhões de espectadores dez meses suspensos, à espera da temporada seguinte.

Há qualquer coisa de Tolkien, sim. Não tanto pelos monstros ou pela magia, mas pela ambição de criar um mundo próprio, com geografia e cronologia próprias, leis, sistemas de crenças, povos e línguas só seus (o Dothraki, consta, tem um vocabulário de mais de 1800 palavras e uma estrutura gramatical própria, inventados de propósito para a série). Há também qualquer coisa de Shakespeare, não só na linguagem, mas nos incestos e traições e tragédias. Mas há, sobretudo, o pressentimento de raízes muito mais profundas – na História e na Bíblia.

Se é daquelas pessoas que ainda diz que não vê a “Guerra dos Tronos” porque não acha graça a essas coisas tipo “Senhor dos Anéis, por favor, leia os nossos lábios: não-tem-na-da-a-ver. Tem até mortos-vivos, mas aparecem pouco e são realmente perigosos e não meros presuntos com olhos, como os de “Walking Dead”.

Martin inspirou-se, assumidamente, em eventos da Idade Média na Europa como a Guerra das Rosas, opondo a Casa de Lannister, em vez da de Lancaster, à de Stark, em vez da de York. Mas há mais: um eco da muralha de Adriano, que separava o Império Romano dos Bárbaros, na Muralha que, na “Guerra dos Tronos”, separa os Sete Reinos dos selvagens. Um perfume de Babilónia na Valyria perdida. Parentes afastados de viquingues e mongóis. E muito de Jerusalém – ou somos só nós? – naquela capital tão dividida, por vezes tão fanaticamente religiosa e outras tão indecorosamente putrefacta, de King’s Landing?

É talvez esta sensação de regresso a um lugar a que, porém, nunca se foi. Esta familiaridade que se desprende de um imaginário comum. Um passado mitológico de onde todos viemos. É daqui, achamos nós, que vem o feitiço da “Guerra dos Tronos”. É por isso que corre um arrepio quando começam os créditos de abertura. Que a canção dos Lannister soa mais terrífica do que a cantilena que, na infância, anunciava Freddy Krueger.

Então, e o Jon Snow? Não dizem nada sobre o Jon Snow?

Lá terá de ser, não é? Jon, o bastardo de Ned Stark, afinal morreu ou não morreu? (isto já não é spoiler, tenham dó. Há um ano, sim; agora, não. O que, aliás, levanta a curiosa questão: a partir de quanto tempo é que falar sobre uma série ou um filme deixa de ser spoiler e passa a ser cultura? Qual é o prazo mínimo? O embargo? E quem decide isso, em todo o caso?)

8 Jon Snow, CAST, CASTLE BLACK, DRAGON UNIT, EP505, EPISODE, EXT CASTLE BLACK COURTYARD, SCENE, SET, UNIT, sc30,

Jon Snow, o prometido. Ou então não. É esperar para ver

Bem, a sinopse que a HBO distribuiu para o episódio que veremos esta segunda-feira começa da seguinte forma: “Jon Snow está morto!” Eloquente, não? Talvez demasiado. Porquê alardeá-lo se fosse assim tão evidente? Acresce o pormenor de o episódio se chamar “Red Woman”, ou seja, a bruxa Melisandre (mais referida nas conversas de fãs, justamente, por “a gaja vermelha”) e de, a dado passo do teaser, esta parecer fazer um feitiço qualquer sobre o corpo de Jon.

Irá ressuscitá-lo? Veremos. O algoritmo da malta de Munique diz que Jon só tem 11% de probabilidades de morrer – é dos mais improváveis da série. Nós, de qualquer maneira, continuamos na nossa: façam o que quiserem, mesmo ao Jon-herói-tradicional-Snow; só não matem o anão. Damos o Kit Harington pelo Peter Dinklage, qual troca de reféns. Afinal, se nos levarem os cínicos, vamos confiar em quem? Nos dragões?

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal)

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