Do Orfeu a Sylvia Plath: Sá-Carneiro imortal

01 Maio 20161.094

Há 100 anos, Mário de Sá-Carneiro matava-se num hotel de Paris. Mas o génio problemático da geração d'Orfeu que toda a vida sondou os mistérios da morte continua a inquietar-nos.

“A estricnina é um alcaloide cristalino muito tóxico. Foi muito usado como pesticida, principalmente para matar ratos. A fonte mais comum dessa substância são as semente de árvores da espécie Nux vomica, do Sri Lanka, Austrália e Índia. A estricnina é também uma das substâncias mais amargas que existem. A morte ocorre por asfixia causada pela paralisia do sistema de controlo da respiração do sistema nervoso central, ou por exaustão devido as convulsões. Nesse momento, o corpo endurece imediatamente, mesmo no meio de uma convulsão”. Esta descrição que se pode ler na Wikipédia, dá-nos a dimensão trágica da morte do poeta português da geração d’Orfeu, Mário de Sá-Carneiro, ocorrida fez esta semana (no dia 26) 100 anos, num hotel de Montmartre, em Paris. Bebeu três frascos de estricnina e o corpo demorou três dias a ser retirado do quarto. Tinha 25 anos, deixava uma curta mas genial obra de prosa e poesia, que foi um pequeno terramoto no meio literário do princípio do século XX e abriu caminho para o Modernismo e o Surrealismo.

Mário não havia de gostar desta descrição da sua morte: cheia de factos médico-científicos, com palavras vulgares, desprovida de mistério. Mário havia de preferir que falássemos na sua entrada nesse mundo desconhecido que toda a vida procurou, nesse lugar de beleza devassa, onde a imagem de um laboratório de autópsias dá lugar à imagem de um salão onde e cultivam todos os excessos, onde não há verdade mas artifício, teatro, onde não há bons comportamentos, nem famílias felizes mas criaturas desregradas, excessivos, mulheres fatais, maquilhagem, Ballets Russes, pós, brilhos, homens que são mulheres e mulheres que são homens, cada um consigo próprio e com o seu duplo num flirt incessante com a morte como possibilidade de metamorfose.

Paris – 31 Março 1916
Meu Querido Amigo.
A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas “cartas de despedida”… Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui… Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas: mas não tenho dinheiro. […]

Mário de Sá-Carneiro,
carta para Fernando Pessoa

Num tempo em que todos sonham com as luzes da ribalta, em que os poetas preferem ir a festivais literários, a programas de televisão, e que pagam uns milhares de euros para terem os seus poemas publicados nas vanity press, num tempo em que todos querem escrever mas ninguém quer ler os outros de que serve recordar a “esfinge gorda”, como o poeta se chamava a si mesmo? De que nos serve assinalar a passagem dos 100 anos sobre a sua morte se tudo o que nos resta é “partilhar no Facebook” não tanto o espírito audaz de Mário, mas tão só uma caricatura de nós próprios: “olha que culto que eu sou?”

Se tivesse sido alguma coisa, Mário teria sido um dandy, a flanar por Paris com jovens discípulos, a ensiná-los que, como explica Rafael Santana, "a única educação possível é a da vida pelas avessas, a educação para a devassidão, longe dos valores humanistas, burgueses, democratas, longe da ciência, da autenticidade, das boas maneiras

“Eu não sou eu, nem sou o outro”

Vale a pena ouvir aqui (cantado pela brasileira Adriana Calcanhoto), este genial poema que, na sua exiguidade, traça a essência da história da arte do século XX, com a sua incessante (re)produção de duplos, fantasmagorias, Eus narcisicamente perdidos em espelhismos sem fim.

Por sugestão do professor Helder Macedo falámos com Rafael Santana, ensaísta brasileiro professor de Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que acaba de publicar As Lições do Esfinge Gorda, uma tese luminosa, que foge dos tiques académicos de exibição de erudição, e faz Mário de Sá-Carneiro um poeta que nos é próximo, que convive e dialoga com o século XXI, que dá palavras às nossas angustias existenciais, que nos dá uma nova linguagem: não a linguagem do poder bem casado, bem-educado, sexualmente conforme, socialmente adaptado. Certamente não a linguagem dos que sonham fazer carreira, ter sucesso, fama e encómios. Demasiado forte e determinado para maro fraco para demasiado fraco para maldito. Nem gay nem, macho alfa. Nem homem, nem mulher, nem obediente, nem desobediente. Nem sequer proletário, para dar um bom quadro Neorrealista. Nem sequer nacionalista (bem pelo contrário) para dar um bom fascista.

Se tivesse sido alguma coisa, Mário teria sido um dandy, a flanar por Paris com jovens discípulos, a ensiná-los que, como explica Rafael Santana, “a única educação possível é a da vida pelas avessas, a educação para a devassidão, longe dos valores humanistas, burgueses, democratas, longe da ciência, da autenticidade, das boas maneiras”.

Para o ensaísta brasileiro “Sá-Carneiro almejava sobretudo provocar o burguês lepidóptero e derrubar as suas bases de leitor mediano, mas pretensamente lúcido. Com que linguagem escrever para um Portugal provinciano e periférico? Com que linguagem escrever para o leitor lepidóptero? Eis as perguntas que o Esfinge Gorda parecia fazer a si mesmo. Claro está que esta linguagem só poderia ser densa e provocativa, e que toda a temática que ela engendra só poderia estar circunscrita a um projeto de derrubada da pauta de valores de uma literatura que se tinha fundado na lucidez, no rigor intelectualista, na objetividade cientificista de uma mundividência realista”.

Mário de Sá- Carneiro prefere seguir os caminhos ínvios da busca interior, da criação de uma linguagem nova, que se vai expressar sobretudo nas suas novelas com a quebra da narrativa tradicional do romance realista e a tentativa de traduzir a impossível linguagem dos sonhos.

Se o Romantismo e o Realismo se inscrevem ambos num projeto democrático e humanitário, cantando a desilusão ou fazendo a denúncia de um mundo que traiu os seus próprios ideais, as estéticas de fim de século e o Modernismo – herdeiro de algumas das suas propostas – rechaçam violentamente o projeto educativo da literatura anterior, erigindo no seu lugar um novo e perverso conceito de educação. No contexto específico do Modernismo português, a rejeição declarada aos valores éticos da sociedade burguesa expressa-se esteticamente na formulação de uma nova linguagem que é a do fingimento.

Confissão de Lúcio, obra pioneira do modernismo em Portugal

A Confissão de Lúcio, obra pioneira do modernismo em Portugal, que fascinou, entre outros, Sylvia Plath

Eis aqui algo que vale a pena partilhar no facebook: longe de se acomodar com as ofertas de boa vida que se lhe oferecia um pai rico, uma existência desafogada, a possibilidade de ser, como diria Fernando Pessoa, “casado, quotidiano e fútil”, eis que Mário de Sá-Carneiro prefere seguir os caminhos ínvios da busca interior, da criação de uma linguagem nova, que se vai expressar sobretudo nas suas novelas com a quebra da narrativa tradicional do romance realista e a tentativa de traduzir a impossível linguagem dos sonhos. O poeta vai preferir sondar os abismos da morte, dar-se com prostitutas, homossexuais, e todo o tipo de marginais para conseguir sair de dentro de uma mundividência burguesa que o sufocava.

Ainda seguindo o pensamento de Rafael Santana, lembramos que “Sá-Carneiro, que teve o privilégio de desfrutar da experiência parisiense num tempo histórico em que as propostas iconoclastas dos estetas finisseculares ainda reverberavam, mostra-se seduzidíssimo pela figura do dandy ao longo de toda a sua obra mais significativa, flagrantemente vazada sob o signo do dandismo. Ora, ao eleger esta figura debochada e ultracivilizada para se dirigir, ironicamente, a um Portugal lepidóptero e provinciano, é como se Sá-Carneiro, atendendo aos anseios cosmopolitas da sua geração, respondesse o seguinte: é com esta linguagem ostentatória, pletórica, dispendiosa e provocativa que eu escrevo para a minha pátria. Se o escritor oitocentista tantas vezes propagou a utopia de transformar o mundo pela linguagem ao fazer dela seu instrumento de luta, os artistas de Orpheu, hiper-conscientes da crise da mimèsis na arte, buscaram proclamar uma revolução na linguagem, desconfiando dela enquanto espelho do real”.

Optando não só por uma existência, uma sexualidade e uma arte fora dos padrões aceites pelo seu tempo, Mário de Sá Carneiro conseguiu inscrever-se em todo o século XX que continuou sem ele e, se o voltarmos a ler com atenção, veremos que foi um visionário, que escreveu não para a sua geração mas para as gerações do futuro porque foi capaz de compreender como poucos o espírito do seu tempo. Porém, esta compreensão não lhe adveio de um conhecimento intelectual, mas de uma experiência vivida, duramente vivida. É preciso ter experimentado a vida do avesso para ser esse avesso, para dizer esse avesso.

Para mim basta-me a beleza – e mesmo a errada, fundamentalmente errada.
Mas beleza retumbante de destaque e brilho, infinita de espelhos, convulsa de
mil cores – muito verniz e muito ouro: teatro de mágicas e apoteoses com
rodas de fogo e corpos nus. Medo e sonambulismo, destrambelhos sardônicos
cascalhando através de tudo. Foi esta a mira da minha obra.

Carta a Fernando Pessoa, 24 de agosto de 1915

“Excessivo e desregrado, o belo sá-carneiriano muito se distancia do conceito grego da justa medida, ou mesmo do luminoso Belo renascentista, estando mais particularmente próximo ao chiaroscuro maneirista, que as estéticas finisseculares – das quais a sua literatura é herdeira direta – revivificam muito perversamente em temas e figuras como efebos, lesbos, andróginos, o pavor à velhice, a ruína do corpo, o esfacelamento da beleza, a angústia diante da inexorabilidade do tempo”, diz-nos ainda o ensaísta brasileiro.

As cartas escritas por Sá-carneiro uma das faces menos visíveis do poeta, mas nem por isso menos essenciais para se compreender o ser talento e a sua mundividência

As cartas escritas por Sá-carneiro uma das faces menos visíveis do poeta, mas nem por isso menos essenciais para se compreender o ser talento e a sua mundividência

De Mário de Sá-Carneiro a Sylvia Plath: a morte como obra de arte perfeita

A ideia da morte é uma constante em tudo o que escreve e vive Mário de Sá-Carneiro: quer nos poemas, nas novelas ou nas cartas a morte, em especial através do suicídio, são um tema constate desde a adolescência e que se vai tornando obsessivo com o passar do tempo e com o crescente sentimento de inadaptação em relação ao mundo que o rodeia, que o poeta vai expressar tão bem no poema Quase.

Como explica Rafael Santana: “o suicídio é, incontestavelmente, um dos leitmotiv da escrita sácarneiriana, cabe frisar entretanto que o Esfinge Gorda fez do tema da morte um efetivo projeto de literatura, única vida que tivera afinal. Assim sendo, antes da desistência ou da entrega, a morte simboliza, na obra de Mário de Sá-Carneiro, “o depósito da grandeza humana, do heroísmo e da superação possíveis. Foi entre estes dois signos, a Arte e a Morte que teve lugar a meteórica trajetória de Mário de Sá-Carneiro”.

Já em fevereiro de 1909, com apenas 18 anos de idade, Sá-Carneiro escreve o que representava para ele a postura científica do seu tempo histórico, cerceadora dos sonhos e dos grandes projetos da alma. Em Páginas dum Suicida, o narrador declara:

Afinal, sou simplesmente uma vítima da época, nada mais… O meu espírito é um espírito aventuroso e investigador por excelência. Se eu tivesse nascido no século XV descobriria novos mares, novos continentes… No começo do século XIX teria inventado talvez o caminho de ferro… Há poucos anos mesmo, ainda teria com que me ocupar: os automóveis, a telegrafia sem fios… Mas agora… agora que me resta?… A aviação?… Pf… essa já nada me interessa depois dos últimos resultados dos Wrights e de Farman… Para o Polo Sul partiu há pouco o Dr. Charcot… Não há dúvida: a única coisa interessante que existe atualmente na vida é a morte!… Pois bem, serei eu o primeiro explorador dessa região misteriosa, completamente desconhecida…

Quem teve também um flirt fatal com a morte foi a poeta americana Sylvia Plath, cujo suicídio em 1963, deu origem a um culto lendário da sua vida, dos seus desencontros amorosos com o poeta inglês Ted Hughes, e da sua poética. No inicio dos anos 60 do século XX, o casal Hughes frequentava um tertúlia de poetas e escritores em Primerose Hill, Londres, da qual faziam parte o também poeta David Wevill, o romancista Allan Sillitoe e o poeta português Helder Macedo, que tinha o projeto de fazer uma antologia de poesia portuguesa do século XX em língua inglesa.

Como contou Helder Macedo ao Observador, Ted Hughes e Sylvia Plath ficaram de imediato interessados pela obra de Mário de Sá-Carneiro. Hughes terá mesmo traduzido três poemas para inglês, entre eles, o famoso Caranguejola. Já Plath terá ficado fascinada com a história da novela A Confissão de Lúcio, onde Sá-Carneiro volta a explorar a ideia de Duplo, algo que fascinava a poeta de Ariel, que não se cansava de procurar os seus próprios duplos e que, num acaso extraordinário, achou que o tinha encontrado quando conheceu Assia Wevill (a mulher por quem Ted a haveria de a abandonar). Ora segundo o conceito do duplo, do alemão Doppelgänger, quando o duplo encontra o seu original este deve morrer. Ora Sylvia Plath dá vida a esta lenda nascida na cultura alemã que sempre namorou com o estranho, o fantástico e o demoníaco, ao matar-se depois de ser trocada por Assia. Mário de Sá-Carneiro tão avesso às explicações racionais do mundo, haveria de gostar desta história.

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O casal de poetas Sylvia e Ted que nos anos 60 traduziram Mário de Sá-Carneiro

O suicídio de Sylvia e a tragédia que se abateu sobre Ted Hughes e David Wevill (marido de Assia), juntamente com o facto de a Fundação Gulbenkian não ter subsidiado o projeto ditaram o fim desta antologia que hoje seria um motivo de orgulho para a Língua Portuguesa.

Encantado pela possibilidade do suicídio, Mário de Sá-Carneiro anuncia muitas vezes o seu gran finale ao longo da sua brevíssima vida literária, sendo o poema intitulado, muito sugestivamente, “Fim”, a sua grande apoteose. Este poema foi musicado pelos Trovante no final dos anos 80.

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!

Mário de Sá Carneiro,
Paris, 1916

Fernando Pessoa, Ted Hughes e Sylvia Plath, Adriana Calcanhoto, Trovante, Rafael Santana e muitos outros mostram, cada um à sua maneira, a modernidade da obra de Mário de Sá-Carneiro, a forma como a sua linguagem conseguiu ultrapassar as fronteiras das academias e elites culturais, encontrar-se com poetas e outras nacionalidades, com a cultura pop, com o surrealismo, com as gerações hiper tecnológicas do século XXI narcisicamente produtoras de duplos nas redes sociais, com as angústias das culturas Queer e Transgénero, com o crescente hibridismo dos géneros literários. Morto há 100 anos Mário de Sá-Carneiro está cada vez mais próximo de nós.

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