Himmler. Um homem bom com má imprensa?

07 Janeiro 2017

A detalhada biografia de Heinrich Himmler por Peter Longerich é, ao mesmo tempo, um contributo precioso para o conhecimento da história do III Reich e um mergulho no lado mais negro da natureza humana

“Não sou uma pessoa violenta”

Há momentos em que o curso da história pode tomar caminhos muito diferentes. A noite de 8 de Novembro de 1939, em Munique, foi um deles. Na cervejaria Bürgerbräukeller, Hitler, numerosas figuras gradas do NSDAP (Partido Nazi) e cerca de 3000 militantes celebravam o 16.º aniversário do putsch que tivera início naquele mesmo local e que, apesar de ter fracassado ingloriamente no dia seguinte, se tornara num momento fundador do nazismo. Às 9h20 da noite, uma bomba-relógio dissimulada numa coluna junto à tribuna do orador explodiu, causando oito mortos e 62 feridos.

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A cervejaria Bürgerbräukeller após o atentado de 8 de Novembro de 1939

Se tudo tivesse corrido como previsto, Hitler estaria nesse momento a discursar, mas o Führer alterara os planos: abreviara o discurso para poder regressar a Berlim, de comboio, nessa mesma noite, e saiu às 9:07, acompanhado pelos restantes altos dignitários nazis.

O autor do atentado, Georg Elser, foi detido nessa mesma noite, quando tentava atravessar clandestinamente a fronteira com a Suíça. Elser tivera engenho e astúcia bastantes para, sem qualquer ajuda, construir a bomba e levar a cabo o atentado, mas foi suficientemente ingénuo para levar consigo na fuga esboços e notas relativos a engenhos explosivos, um postal representando o interior da Bürgerbräukeller, alicates e partes de espoletas, pelo que não foi difícil ligá-lo à bomba da cervejaria. Heinrich Himmler, Reichsführer SS e chefe máximo das forças de segurança do Reich, e, em última análise, o responsável pelas falhas de segurança que tinham permitido o atentado, terá interrogado Elser pessoalmente e, segundo testemunhos de dois funcionários da Gestapo, “teria pontapeado brutalmente o autor do atentado várias vezes, [naquela que] é a única notícia que se tem de um acto violento pessoal de Himmler em toda a sua carreira”.

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A família Himmler: o pai Gebhard, professor, a mãe, Anna Maria, e os filhos Gebhard Ludwig (o mais velho), Heinrich (o do meio) e Ernst (o mais novo)

Também Himmler não se via a si mesmo como um homem violento. Num discurso perante generais alemães, a 24 de Maio de 1944 – quando o rol de atrocidades cometidas sob a sua égide e de acordo com os seus desígnios fazia parecer irrisório tudo o que Himmler pudesse ter no seu cadastro moral em Novembro de 1939 – o Reichsführer SS declarou: “A Questão Judaica foi […] segundo as ordens e o discernimento racional resolvida de modo inclemente. Acredito que os senhores me conhecem o bastante para saber que não sou uma pessoa violenta, e que não sou um homem que vê prazer ou diversão em qualquer atitude brutal. Por outro lado, tenho nervos bons o bastante e um senso de responsabilidade tão grande […] que, quando percebo que algo é necessário, faço-o sem concessões. Não me senti no direito – e isso refere-se às mulheres e crianças judias – de permitir que nas crianças cresçam os vingadores que matariam os nossos filhos e os nossos netos. Isso seria cobardia. De maneira que a questão foi resolvida de maneira inflexível”.

É de uma amarga ironia que um dos mais devastadores e implacáveis carrascos da história, responsável pela morte de muitos milhões de pessoas, não tenha deixado registo de outros actos de violência física senão os pontapés que terá aplicado em Georg Elser (note-se: um preso, incapaz de defender-se).

Como se chegou aqui? Como se tornou Himmler no principal agente dos mais bárbaros episódios da mais cruel guerra do século XX? Como é que se passou da ambição de expulsar da Alemanha um grupo étnico visto como indesejável ao desígnio de o erradicar da face do planeta? Como foi possível que tivesse sido conduzida uma guerra brutal com o fito de esvaziar o Leste da Europa de habitantes para criar uma pueril utopia agrária germanista?

A biografia de Peter Longerich

É a estas questões, que mantêm hoje toda a pertinência, que o historiador alemão Peter Longerich tentar dar resposta na biografia de Heinrich Himmler (1900-45), editada originalmente em 2008 e recentemente publicada em Portugal pela D. Quixote, com tradução de Angelika Elisabeth Köhnke, Christine Röhrig e Gabriele Ella Elisabeth Lipkau e adaptação de Jorge Mourinha.

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“Heinrich Himmler”, de Peter Longerich (Bertrand)

É uma obra monumental – cerca de 700 páginas de texto e 200 de notas e bibliografia – e meticulosamente pesquisada, redigida numa prosa clara e objectiva – ou que, pelo menos, assim resulta na versão portuguesa. Não pode dizer-se que seja uma “leitura agradável” (dada a natureza dos factos em jogo) ou que se “lê como um romance”, mas é uma proeza conseguir que um livro desta extensão e minúcia não se torne numa maçada. Também não é – nem por sombras – a primeira biografia de Himmler, mas é a única disponível em português, embora 2016 tenha visto surgir por cá duas obras que podem ser vistas como complementares a esta biografia: Heinrich Himmler: Correspondência (Bertrand), com organização de Michael Wildt (especialista no III Reich) e Katrin Himmler (sobrinha-neta da criatura), e A verdadeira história da SS (Casa das Letras), de Robert Lewis Koehl, que, na verdade, não proporciona uma visão clara da instituição liderada por Himmler nem sobre o seu líder (ver “SS: O diabo veste de negro“). Alguns meses antes da saída destes livros, no final de 2015, estreara em Portugal o documentário O homem decente (Der Anständige, 2014), da realizadora germano-israelita Vanessa Lapa

[trailer de “Um homem decente”:]

O livro de Longerich é sobretudo uma biografia política, pelo que a vida pessoal de Himmler apenas ocupa lugar central durante a sua juventude, depois esbate-se rapidamente. Pode alegar-se que, a partir do momento em que Himmler ascende a lugares de responsabilidade na orgânica nazi, a sua devoção ao trabalho é tal que quase suprime a vida pessoal, pelo que a sua biografia se confunde com a história das SS e do III Reich. Embora Longerich estabeleça vínculos entre as acções e crenças de Himmler e a sua vida pessoal, esperar-se-ia que esta tivesse tratamento bem mais detalhado.

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Himmler com a esposa, Margarete, e a filha Gudrun

Por exemplo, a biografia esboça um retrato muito sumário da sua esposa, Margarete (1893-1967, que tinha como apelido de solteira Boden), e da filha Gudrun (n. 1929), e quase nada diz sobre a sua amante, Hedwig Potthast (1912-1997), e os dois filhos que teve desta, Helge (n. 1942) e Nanette Dorothea (1944). Longerich justifica-se afirmando que “não se sabe quase nada sobre a relação de Heinrich Himmler com Hedwig Potthast. Se tivermos em conta a agenda superlotada de Himmler, os dois não podem ter-se encontrado muitas vezes; uma vida em comum seria ainda mais difícil”. Por pouco que se saiba sobre Potthast e os dois filhos, haveria certamente mais qualquer coisa a dizer sobre eles.

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Heinrich Himmler e a filha, Gudrun, numa visita a um campo de prisioneiros, ca. 1941

Mais insólito ainda é que não se mencione Gerhard von Ahe (n. 1928-2011?), filho de um oficial das SS, que o casal Himmler adoptou após a morte do pai em 1933, e que, a darmos crédito ao diário de Margarete Himmler, citado por Tania Crasniansky, em Os filhos dos nazis (Guerra & Paz), seria mentiroso e ladrão e teria uma “natureza criminosa”, acabando por ser enviado para um internato.

Longerich apenas parece interessado na parte da vida privada de Himmler que possa servir para explicar o pensamento e os actos do biografado e há que reconhecer que a enumeração de pequenas idiossincrasias pessoais – preferir borrego a coelho, ter o verde como cor favorita, não gostar de cães, ter má circulação nas mãos e milhentas outras minudências que entulham tanta biografia – nada diz, afinal, sobre uma personalidade, nem lhe explica a vida.

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Heinrich Himmler, a esposa, Margarete, e as crianças – da esquerda para a direita: uma amiga de Gudrun, Gudrun e Gerhard von Ahe

O retrato do Diabo

“Estatura mediana, tronco um tanto longo demais, pernas levemente arqueadas, mais para o rechonchudo do que para o esguio, usava a farda cinzenta costumeira. De frente, a sua cabeça parecia um triângulo pontiagudo. O que mais chamava a atenção era o queixo recuado. Olhos muito vivos, na maioria das vezes franzidos, que, em conjunto com as maçãs do rosto, davam uma impressão levemente mongol. Uma boca estreita, mas nada terrível, De modo geral, esse rosto largo não tinha nada de demoníaco, nem de cruel, nem de outra forma marcante. Era o rosto de uma pessoa comum. O notável eram as suas mãos […] Elas não tinham nada de nobre. Um tanto rechonchudas, nada de mãos grandes com dedos longos e pontas largas, e, quando ele apertava a mão, era macia como a de uma mulher. De resto, a impressão que me causou era a de um homem activo, com múltiplos interesses, um tanto marcantemente enérgico e determinado”.

Esta descrição de Himmler é do coronel Hans-Georg Eismann, que desempenhava funções de chefe do Estado-Maior Geral do Grupo de Exércitos Vístula, em Janeiro de 1945, quando Himmler foi nomeado para o comandar. O queixo fraco é um ponto de que Himmler estava agudamente consciente, de forma que, se tivesse oportunidade, tratava de ocultá-lo com uma mão, quando era fotografado.

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Himmler em 1929

Na psicologia popular, o queixo fraco é entendido como sinal de carácter fraco e, todavia, Himmler era decidido e desmedidamente ambicioso. O queixo recuado era também uma característica anatómica que era considerada muito negativamente nos critérios de avaliação racial que determinavam se um candidato era ou não merecedor de ser admitido nas SS. Himmler também não teria boa cotação no item “postura”, pois a dele era mais “frouxa” do que “erecta”. E, todavia, estes critérios foram definidos pelo próprio Himmler ou, pelo menos, mereceram a sua aprovação. A menção de Eismann ao aspecto “levemente mongol” do rosto de Himmler é ainda mais curiosa, pois boa parte do pensamento racista de Himmler opunha o tipo “nórdico” aos bárbaros “mongóis” e a presença de traços “eslavos”, “negróides” ou “orientais” era razão suficiente para rejeitar a admissão nas SS. Em discurso perante oficiais da Wehrmacht, em 1937, sobre os critérios de selecção racial praticados na admissão às SS, Himmler (que exercia a micro-gestão a um nível maníaco e chamava muitas vezes a si a avaliação dos processos de candidatura) explicou que dava particular atenção às fotos dos candidatos: “Será que nos traços deste homem existem evidentes influências de sangue estrangeiro, como maçãs do rosto excessivamente salientes, que caracterizassem este caso com uma aparência mongol ou eslava?”.

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Himmler com Sepp Dietrich (à esquerda) e Joachim Peiper (à direita), em Metz, Setembro de 1940. Qual seria o juízo de Himmler na qualidade de Reichsführer SS, sobre a admissão nas SS do candidato Himmler perante uma foto como esta?

Para quem tenha a ingenuidade de acreditar que as características anatómicas das pessoas são reveladoras do seu íntimo e da sua mente – e Himmler acreditava firmemente nisso, apoiando-se em tolices pseudo-científicas – Himmler seria, entre as figuras de topo da hierarquia nazi, a que menos se associaria aos crimes mais hediondos, à brutalidade mais desvairada. Mas quando se examina a vida pessoal de Himmler, Longerich não encontra nenhum contexto ou evento que explique os Einsatzgruppen, as câmaras de gás, o tratamento desumano infligido aos prisioneiros russos, o riscar do mapa de aldeias inteiras: “Não há nada na infância e na adolescência de Himmler, passada na casa paterna, católica, conservadora e bem protegida, de formação burguesa da ‘época guilhermina’, que possa apontar para o facto de que ali crescia uma pessoa com evidentes traços anormais de carácter. Não há indícios de problemas específicos de educação, de uma acentuada tendência à violência ou de uma agressividade que chamasse a atenção”. A relação com o pai foi conflituosa, em parte devido a “uma educação extremamente autoritária”, “mas parece que isso não o levou a revoltar-se contra o pai, com quem teve apenas pequenas desavenças; também não se sabe de graves diferenças políticas entre pai e filho”.

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A família Himmler. Da esquerda para a direita: Gebhard Ludwig, o irmão mais velho, Mathilde, a sua esposa, Himmler e Margarete, a sua esposa, Ernst, o irmão mais novo, e os pais, Anna Maria e Gebhard

Longerich encontra fundamentos para o que viria a ser a personalidade do Reichsführer SS na debilidade física que marcou a sua infância: “Fisicamente fraco e muitas vezes enfermo, Heinrich era emocionalmente inibido e não se desenvolvera no trato social: sofria de distúrbios de relacionamento que faziam com que fosse difícil para ele estabelecer relações pessoais fortes e duradouras. […] Aprendeu a compensar ou disfarçar essas deficiências: por um lado, através de uma forte tendência ao autocontrolo e auto-superação baseada na sua educação e, por outro, pelo treino efectivo de formas de relacionamento e técnicas sociais”.

O facto de, por ter nascido em 1900, “não ter tido oportunidade de se afirmar como soldado [a guerra terminou antes de ele ser chamado para a frente de combate, ao passo que o irmão mais velho, Gebhard Ludwig, combateu e foi promovido a tenente], contribuiu decisivamente para que o jovem Himmler continuasse a orientar-se pelo modelo do soldado, mesmo após a saída dos círculos militares”. “Esse universo soldadesco, que pode ser descrito com as palavras sobriedade, frieza, severidade, objectividade, mas também ordens e regras, ia ao encontro das necessidades do inseguro Himmler […] Só muito mais tarde detectaria nesse modo de vida, com o isolamento em associações masculinas e o celibato auto-imposto, o ‘perigo’ homossexual, uma conclusão perturbadora para ele, que reforçaria ainda mais a latente homofobia”.

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Heinrich Himmler (à esquerda) e o irmão mais velho, Gebhard Ludwig, em 1918

Os anos de formação

Sabe-se muito sobre a juventude de Himmler porque ele registava num diário tudo o que lhe sucedia – e “tudo”, significa mesmo as coisas mais irrelevantes, o que denuncia pedantismo, falta de discernimento e auto-centramento.

Os livros que leu e os comentários que teceu sobre eles não revelam alguém particularmente culto ou inteligente. Pouco a pouco, deixou-se seduzir por obras que veiculavam ideais germanistas e anti-semitas, mas, curiosamente, o mais célebre livro que foi escrito nesta veia não produziu nele o efeito de uma revelação. Embora fizesse alguns comentários aprovadores a Mein Kampf, que foi lendo, intermitentemente, em 1925-27, “não há indicação de que a leitura o tenha entusiasmado; o segundo volume nem sequer é referido na lista de leituras que mantinha meticulosamente organizada. Himmler não parece ter sentido a típica experiência evangelizadora que o despertasse para o fascínio carismático do Führer”. Na verdade, cada vez mais parece ser da ordem do mito a ideia de que Mein Kampf terá sido responsável por seduzir multidões para a causa nazi – aparentemente, nem sequer conseguiu seduzir aqueles que viriam a ser os principais dirigentes nazis (ver “Um professor de literatura lê o Mein Kampf“). Se Himmler tivesse ficado arrebatado com Mein Kampf certamente que não teria levado dois anos para o terminar.

A mentalidade conservadora, católica e pequeno-burguesa de Himmler deixou-se seduzir progressivamente pelas arengas dominantes nos círculos de direita na Alemanha de então: a exaltação germanista, o anti-semitismo e o discurso anti-capitalista que ressurge sempre que as massas vêem frustradas as suas expectativas de prosperidade material e se dão conta que poderão vir a viver com menos desafogo do que a geração dos seus pais: “O capitalismo voltou a ocupar o trono. Hoje em dia as pessoas não querem saber se um homem é honesto, mas apenas quanto dinheiro ele tem […] O capitalismo toma conta da maior invenção do homem, a máquina, e com ela escraviza as pessoas. Por essa razão, o povo desenvolve o anseio pela liberdade, e esse desejo de liberdade expressa-se na luta de classes dos trabalhadores”, escreveu Himmler por esta altura, numa passageira e superficial (e, retrospectivamente, hilariante) identificação com ideais socialistas.

Sob a influência de Walther Darré, como ele licenciado em agronomia e membro do NSDAP, e autor dos livros O campesinato como fonte vital da raça nórdica (1928) e A nova nobreza do sangue e da terra (1929), assimilou conceitos tão dúbios quanto funestos, que viriam a determinar muita da sua actuação futura como Reichsführer SS: a superioridade da raça nórdica e uma utopia agro-castrense assente no “sangue e terra”.

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Richard Walther Darré

À amálgama de preconceitos racistas e visionarismos agrários assimilados de Darré, Himmler somou um forte interesse por ocultismo, que já vinha de trás. Foram as suas crenças pueris sobre o oculto que o levaram a conceber as SS como uma “ordem” idealizada nos moldes dos Cavaleiros Teutónicos (que, acreditava Himmler, “haviam possuído um conhecimento […] sobre o universo que até hoje ainda não foi suplantado”); a fazer-se aconselhar por Karl Maria Wiligut, um sábio com supostas capacidades mediúnicas (na verdade um charlatão meio amalucado, que passara três anos internado num asilo para alienados em Salzburgo e fora declarado legalmente inimputável em 1925); a fomentar a investigação da astrologia e a solicitar conselhos ao astrólogo Wilhelm Wulff; a subsidiar pesquisas sobre a Teoria do Gelo Cósmico de Hanns Hörbiger (que explicava toda a história do cosmos através do antagonismo entre sóis e planetas de gelo, duelo que periodicamente se fazia sentir de forma cataclísmica na Terra); e a enviar expedições ao Tibete em busca dos vestígios de uma civilização avançada que dominara a Terra e aí se refugiara após uma catástrofe planetária e que, na mente emaranhada de Himmler, estava também ligada à Atlântida.

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Karl Maria Wiligut, um mitómano, charlatão e estudioso do oculto que se apresentava sob o pseudónimo de Weisthor (Thor, o sábio). Himmler promoveu-o a Standartenführer SS (o equivalente ao posto de coronel) e teve os seus conselhos em apreço, até que soube do seu passado de perturbações mentais e, para se poupar a embaraços, determinou a sua aposentação compulsiva

Escreve Longerich que “a mitologia germânica, enriquecida com uma boa dose de ocultismo, tornou-se [para ele] uma espécie de substituto da religião”.

Esta infusão tóxica de preconceitos e delírios grandiloquentes está bem sintetizada no discurso que Himmler proferiu, em Junho de 1931, perante uma plateia de dirigentes das SS em Munique: “Seremos capazes de recriar e educar novamente em grande escala uma nação, uma nação nórdica, filtrando e seleccionando o sangue valoroso? Conseguiremos assentar mais este povo nórdico nos territórios em torno da Alemanha, fazer dele novamente um povo camponês e, a partir, desse canteiro, criar uma nação de 200 milhões? Se sim, a Terra será nossa! Mas se o bolchevismo vencer, isso será o extermínio da raça nórdica, da última gota do precioso sangue nórdico, e tal devastação significará o fim da Terra”.

Nesse mesmo discurso merece realce a sua visão catastrofista da presente condição do povo alemão: “Estamos à beira da extinção no que diz respeito ao valor do nosso sangue e aos números do nosso povo”. O tema era recorrente na mundividência nacional-socialista de então e continua a sê-lo na mundividência nacionalista e xenófoba de hoje: sem que qualquer facto objectivo possa ser exibido em seu apoio, instila-se a ideia de decadência civilizacional, instaura-se uma mentalidade de cerco, de acossamento perante inimigos poderosos, e promete-se o reerguer da nação num golpe de rins: “Fomos escolhidos para estabelecer uma base para que a próxima geração possa fazer história, e será uma grande história se formos capazes de construir os alicerces certos”, proclamaria Himmler nesse discurso. É uma boa razão para ficar de sobreaviso sempre que alguém apresenta como programa político restaurar a grandeza do seu país.

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Himmler visita o campo de concentração de Mauthausen, 1941

Em 1929, Albert Krebs, funcionário do NSDAP teve a pouca sorte de fazer uma viagem de seis horas de comboio com Himmler que o deixou exasperado e o levou a registar este retrato acutilante do companheiro de viagem: “Portou-se de maneira grosseira, usava maneiras de ‘mercenário’ e expressava pontos de vista anti-burgueses, embora ao fazê-lo, claramente, apenas quisesse disfarçar a sua insegurança”. As opiniões que Himmler expressava constantemente, em múltiplos domínios, não passavam, segundo Krebs, de “uma mistura peculiar de grandiloquência guerreira, conversas de cervejaria e profecias fervorosas de pregador de seita […], uma tagarelice estúpida e interminável”. Concluía Krebs que nunca ouvira “tanto disparate político, de forma tão concentrada, e proveniente de um homem que tinha estudos universitários e era político profissional”.

A conjugação de compulsão opinativa, ignorância, preconceito, superficialidade e excessiva auto-estima que Krebs aponta a Himmler fazem pensar em Hitler, mas há uma diferença fundamental entre os dois líderes nazis: enquanto Hitler sempre tivera medíocre aproveitamento escolar e decidiu sair da escola aos 16 anos, tendo a sua “educação” prosseguido de forma auto-didacta (e em boa parte através de pasquins e panfletos radicais), Himmler possuía, como Krebs realça, formação universitária e, mais precisamente, formação na área da agronomia, o que deveria torná-lo mais refractário a teorias pseudo-científicas (sobretudo as que envolviam questões de raça e genética) e a crenças ocultistas.

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Himmler jogando ténis com altas patentes das SS

Da absoluta banalidade ao mal absoluto

A ambição, o calculismo e a capacidade de trabalho de Himmler não bastam para explicar a sua ascensão no aparelho de Estado nazi. Esta só foi possível graças à natureza ultra-personalizada do poder e à dinâmica caótica que caracterizou o nazismo e que está nos antípodas da governação impessoal e tecnocrática que hoje tantas vozes críticas acusam de estar a tomar conta da Europa. Escreve Longerich que “a liderança de um carismático Führer, a falta de leis e de regras nesse sistema de governo, a constante necessidade de adaptar as estruturas de poder a novos objectivos políticos fizeram com que grandes parcelas do aparelho governamental fossem ocupadas por pessoas da confiança de Hitler […] que, embora directamente subordinadas ao Führer, desfrutavam de uma liberdade de acção extraordinariamente grande […]”.

Foi assim que Himmler teve “oportunidade de converter, em grande estilo, em realidade política os sonhos e ambições que o moviam havia muito tempo em privado: a libertação das amarras da religião cristã e a superação de ligações morais restritivas; a reavaliação da reprodução e do casamento sob o aspecto da criação e selecção racial; uma carreira de oficial e comandante do exército [sem, realce-se, alguma vez ter combatido ou comandado tropas em combate – a sua ascensão na hierarquia fez-se estritamente na secretaria]; a criação de uma ideologia que pudesse substituir a religião; por fim, a restauração de um universo germânico desaparecido e especialmente o extermínio radical dos odiados sub-humanos como premissa para a realização dessa utopia”.

[Himmler, acompanhado por altas patentes das SS, como Karl Wolff, Erich von Bach-Zelewski e Otto Bradfisch (comandante de uma unidade do Einsatzgruppe B), visita Minsk, na Bielo-Rússia, e um campo de prisioneiros de guerra soviéticos nas imediações da cidade]

Se a bomba colocada por Georg Elser na cervejaria Bürgerbräukeller, a 8 de Novembro de 1939, em Munique, tivesse matado Hitler, o rumo da história teria sido diferente. Mesmo os historiadores que entendem que a história é explicada mais pelos factores socio-económicos e pelas movimentações das massas do que pela actuação de figuras individuais, terão de admitir que sem Hitler dificilmente teria havido a II Guerra Mundial – ou pelo menos, a II Guerra Mundial nos moldes em que teve lugar –, tal como, sem Churchill, talvez a Grã-Bretanha tivesse aceitado fazer a paz com a Hitler, dando a este rédea solta para se apoderar da Europa e arredores.

E Himmler, terá ele sido também uma dessas figuras decisivas? Sem ele teria o nazismo sido tão eficaz e bárbaro na repressão e extermínio como foi? Longerich conclui que sim: “A política nazi […] adquiriu a sua explosividade e dinâmica particular em grande parte devido ao modo como Heinrich Himmler interligava aparelho policial, sistema de campos de concentração, selecção racial, política de colonização, combate aos guerrilheiros, programas de trabalho forçado e mobilização de ‘germânicos’ e ‘alemães étnicos’. […] Se esses encargos tivessem sido atribuídos a áreas de competência separadas, sob a responsabilidade de diferentes políticos do partido, a política nazi muito provavelmente não teria podido exercer o seu efeito medonho do mesmo modo”.

E porque razão foi Himmler o homem que tão eficazmente se apoderou de parte tão substancial do aparelho de Estado nazi e levou a cabo tarefas tão “inclementes”? Afinal de contas, nem todas as pessoas emocionalmente inibidas e com dificuldades de relacionamento se convertem em maquiavélicos e frios arquitectos de genocídios à escala continental.

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Himmler visita o campo de concentração de Mauthausen, 1941

Em 1922, concluído o curso de agronomia, Himmler preparava-se para prosseguir estudos na Faculdade de Ciências Políticas de Munique; porém, o surto inflacionário que se abateu sobre a Alemanha, abalou as finanças da família Himmler e Heinrich teve de desistir da (vaga) ideia de obter um doutoramento. Mas, na crise generalizada que então tomou conta da Alemanha, nem sequer conseguiu obter um emprego condigno com as suas habilitações de agrónomo. Não teve outro remédio senão voltar a viver com os pais e aceitar um trabalho mal remunerado como “encarregado auxiliar” na empresa de adubos Stickstoff-Land-GmbH, em Schleissheim – e só o obteve porque “o irmão de um antigo colega do pai ali exercia um cargo de chefia”.

Mesmo depois de, em 1923, ter aderido ao NSDAP, a sua trajectória de vida estava longe de estar definida e em 1924 ainda considerou a oferta de um ex-colega do curso de agronomia, que lhe propôs “um emprego como administrador rural no Oeste da Anatólia”. Por esta altura, Himmler tornara-se insuportavelmente pedante, opinativo e intrometido, o que, inevitavelmente, gerava atritos com as pessoas com quem se relacionava, mas se tivesse encontrado um emprego estável e bem remunerado, adequado às suas modestas capacidades intelectuais e à sua natureza minuciosa, talvez tivesse levado uma vida baça, pacata e pequeno-burguesa, dissipando os ardores bélicos no clube de esgrima ou no clube de tiro, escrevendo ocasionalmente uns artiguelhos vociferantes para um obscuro pasquim.

Apesar de a explicação proposta por Longerich para a evolução da personalidade de Himmler ser, a posteriori, perfeitamente plausível, nada no passado de Himmler o predestinava ao cargo de braço-direito do Anti-Cristo: não era um génio do mal, não possuía instinto sanguinário nem historial de violência. Mas é isso o mais perturbador na biografia de Himmler: perceber que não há separações abruptas entre pessoas decentes e monstros, apenas um gradiente, que pode ser percorrido em poucos anos, concessão a concessão, infâmia a infâmia. Com o caldo de cultura favorável e o concurso de alguns acasos funestos, um pedante anódino e com “cérebro de gafanhoto” (a expressão é de Robert Lewis Koehl em A verdadeira história da SS), pode transformar-se, pouco a pouco, num dos mais poderosos e implacáveis carrascos da história. E Himmler nem sequer poderia invocar, como o seu subordinado Adolf Eichmann fez, hipocritamente, durante o seu julgamento em Jerusalém, em 1961, que se limitara a cumprir ordens. O planos malignos e as ordens fatais emanavam de Himmler e a sua conversão de pedante irritante mas inofensivo num monstro foi uma escolha livre e deliberada.

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Adolf Eichmann, em uniforme de Obersturmbahnführer SS (equivalente a tenente-coronel), 1942. Este homem “banal” foi um dos principais responsáveis pela organização das complexas operações logísticas necessárias ao extermínio de milhões de judeus

O que, claro, não isenta de responsabilidades os executores dos desígnios de Himmler. A “banalidade do mal” não significa que muitos criminosos nazis eram, afinal de contas, pessoas perfeitamente normais, que não eram movidas por ódios racionais nem por fanatismos cegos e apenas cumpriram ordens, sem pensar nelas; pessoas que, não tendo desempenhado papel mais deliberado do que uma peça numa engrenagem e que não sendo capazes de distinguir o bem do mal, não eram passíveis de julgamento. A “banalidade do mal” significa antes que a matéria-prima para produzir um agente do mal está latente dentro das pessoas banais.

Por isso, a biografia de Himmler, além de ser uma pertinente reflexão na esfera da história, da política e da sociedade, é também uma ocasião para reflectir sobre a natureza humana e um convite a que cada um de nós olhe para dentro de si mesmo.

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Himmler, 1938

Uma campanha de difamação nos jornais

É uma das características mais arreigadas da psique humana e transversal a todas as culturas: todos temos, em maior ou menor grau, uma pulsão para reescrever o passado de forma a apagar ou minimizar as nossas falhas e justificar actos e palavras incorrectos ou injustos. Mas é duvidoso que alguém tenha empreendido uma tão completa e monstruosa renovação da auto-imagem quanto Himmler.

Ao longo da sua tenebrosa carreira, à medida que a insanidade dos seus desígnios e a inclemência das suas ordens iam aumentando, Himmler sempre teve a preocupação de os apresentar, aos seus subordinados e perante si mesmo, como reacções racionais, inevitáveis e inadiáveis a ameaças que só existiam na sua mente alienada (e nas mentes da restante cúpula nazi). A luta contra as “conspirações sionistas” não deixava alternativa que não fosse o extermínio completo do povo judaico, a “ameaça bolchevique” e a “barbárie asiática” obrigavam a que se fizesse guerra sem quartel à URSS, o “perigo de extinção” em que vivia o povo alemão só tinha como saída a colonização maciça do Leste europeu, à custa da expulsão dos seus habitantes originais. Quando, numa carta à filha Gudrun, Himmler escreveu que “na vida, devemos ser sempre decentes, corajosos e bondosos”, estava convicto que também a sua se regera sempre por estes princípios. A necessidade de um comportamento “decente” foi também invocada, amiúde, nos seus discurso perante os SS, mas com a ressalva de que só deveria ser usado com “adversários dignos” e seria “loucura” aplicar essa “postura cavalheiresca ao judaísmo ou ao bolchevismo”.

Longerich classifica a mundividência de Himmler como “uma construção imaginária” quase impossível de analisar, pois era “não apenas inconsistente consigo própria e extremamente vaga na sua terminologia, como também sofrera mudanças consideráveis ao longo do tempo que colocavam em questão os seus próprios fundamentos”. Essa é uma das marcas do pensamento de Himmler: fosse o que fosse que fizesse, encontrava sempre forma de garantir que não havia mais nada a fazer; e se era ele a fazê-lo e não outro, era, simplesmente, porque ele era dotado de uma determinação e sentido de dever incomparáveis e aceitava carregar o fardo que outros teriam recusado ou sob o qual teriam vacilado.

Quando o colapso do III Reich passou, mesmo aos olhos dos fanáticos nazis, de muito provável a inevitável, Himmler operou a mais completa e torpe manobra de auto-justificação da sua vida: assumiu, nas palavras de Longerich, o papel de “parceiro de negócios conciliador e soberano, que se esforçava, apesar de tudo, por contribuir com a prevalência do bom senso”.

Utilizando como intermediário o seu massagista, Felix Kersten, que, perante a situação na Alemanha, se mudara para a Suécia, estabeleceu conversações com o conde Folke Bernadotte, da Cruz Vermelha sueca, e com Norbert Masur, da delegação sueca do Congresso Mundial Judaico, tentando obter dos EUA e da Grã-Bretanha uma paz separada a Ocidente, de forma a poder prosseguir a luta contra a URSS, e usando os prisioneiros judeus dos campos de concentração como moeda de troca.

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Felix Kersten (ao centro) e Himmler (à direita)

Uma das cartas que Himmler escreveu a Kersten é classificada por Longerich como “um dos documentos mais surpreendentes que Himmler redigiu em toda a sua carreira”. Na carta, que dá conta da entrega à Suíça de 2700 prisioneiros judeus, Himmler explica que tal acto “foi praticamente a continuação da linha que os meus colaboradores e eu seguimos coerentemente durante muitos anos, até que a guerra e a insensatez dela decorrente se instalasse no mundo e tornasse impossível a sua consecução”.

A “guerra e a insensatez dela” passaram a ser, nesta perspectiva, algo alheio à vontade de Himmler e dos restantes dirigentes do III Reich, converteram-se numa inevitabilidade, um infortúnio que se abateu sobre a Europa, como um meteorito, a seca ou a peste. Porém, a II Guerra Mundial não atingiu níveis inauditos de barbárie por uma infortunada conjugação de acasos e uma escalada de violência entre os contendores: foi concebida de raiz por Hitler e pela sua entourage para ser desumana. Em Agosto de 1939, antes de a guerra começar Hitler, deixara muito claro a alguns generais os moldes em que o conflito iria desenrolar-se: “Aniquilamento da Polónia em primeiro plano. O objectivo é a eliminação de forças vivas […] Fechar o coração contra a misericórdia. Procedimento brutal. 80 milhões de pessoas [o povo germânico] precisam de obter os seus direitos. A sua existência deve ser garantida. O mais forte tem razão. Extrema dureza”.

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Vala comum no campo de concentração de Bergen-Belsen

E ninguém fez tanto por que o procedimento fosse brutal e se empregasse extrema dureza, do que Himmler. E essa brutalidade e dureza não foram apenas exercidas sobre os judeus, mas sobre os outros povos que caíram sob o domínio nazi, sobretudo a Leste. Himmler declarou a Erich von Bach-Zelewski, um dos mais altos responsáveis das SS, que os desígnios nazis para a URSS implicavam o extermínio de 30 milhões de civis; de regresso de uma visita a Kiev, fez um relatório a Hitler em que dava conta de que os habitantes da cidade lhe haviam causado má impressão, pelo que não haveria mal nenhum em “abrir mão de 80% a 90% deles”; numa infamemente célebre reunião em Posen, com os altos dirigentes das SS, em Outubro de 1943, afirmou: “Não me interessa em absoluto saber como estão passando os russos, ou os checos […] Se os outros povos gozam de prosperidade ou morrem de fome, só me diz respeito na medida em que precisamos deles como escravos para a nossa cultura, não mais do que isso”.

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A “Escada da Morte”, na pedreira do campo de concentração de Mauthausen. Carregar pedras daquele peso seria sempre uma provação para homens saudáveis e bem-alimentados; para os debilitados prisioneiros de Mauthausen, equivalia a uma sentença de morte

Na carta a Kersten, Himmler garante que, entre 1936 e 1940, tentou negociar com as associações judaicas americanas a emigração dos judeus em território sob controlo alemão e que “a viagem dos dois comboios para a Suíça constitui a retomada consciente, a despeito de todas as dificuldades, desse afortunado procedimento”. E prossegue justificando os “boatos” sobre a elevada taxa de mortalidade no campo de concentração de Bergen-Belsen: teria irrompido uma epidemia de tifo “que infelizmente ocorre com frequência nos campos em que há pessoas do Leste” (note-se como o tifo é apresentado, não como uma doença, mas como característica inerente às “pessoas do Leste”, imagina-se que devido aos seus hábitos pouco higiénicos ou ao seu mau sangue). Mas, informava Himmler, logo providenciara o envio de uma equipa de saúde pública para o campo e, “mediante a aplicação dos mais modernos métodos medicinais”, a epidemia estava agora sob controlo. E concluía a carta com a convicção de que “eliminando a demagogia e as formalidades e acima de todas as contrariedades, sem considerar as feridas mais sangrentas, a sabedoria e a lógica devem imperar em todos os lados, tanto quanto, em paralelo a isso, o coração humano e o desejo de ajudar”.

Numa reunião a 20 de Abril de 1945 com Norbert Masur, do Congresso Mundial Judaico, intermediada por Kersten e que teve lugar na propriedade deste, perto de Berlim, Himmler teria um discurso similar, branqueando toda a sua actuação contra os judeus e queixando-se que “corria uma propaganda de horror sobre as supostas condições terríveis nos campos [de concentração] e que ele estaria sendo responsabilizado pessoalmente por isso. Nos últimos anos nenhum outro nome teria sido tão enlameado pela imprensa quanto o seu”.

Trup

Cadáver de Himmler, após o suicídio, a 23 de Maio de 1945. Quando os interrogadores britânicos suspeitaram que ele ocultava uma cápsula de cianeto nos dentes e tentaram removê-la, Himmler trincou-a

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