Houtman. “Fui o n.º 10 do Sporting e da Holanda”

03 Novembro 2017

O primeiro holandês em Alvalade fala-nos da vida boa em Cascais, do trânsito caótico na Marginal ao volante do Ford Escort, do jarro de vinho extra na mesa do capitão Manuel Fernandes e, vá, de golos.

O folhetim Rijkaard, a primeira unha do leão de Jorge Gonçalves, faz 30 anos esta semana. O goleador Bas Dost continua a marcar como nunca, seja em Vila do Conde ou em Alvalade. É isso, o Sporting gosta da Holanda. E nós também. Vai daí, falámos com Petrus Johannes Houtman. Melhor marcador do campeonato holandês pelo Feyenoord (de Gullit e Cruijff) e Bota de Prata europeu (prémio entregue por Eusébio numa gala em Paris), Houtman chega a Alvalade a meio da época dos 7-1. O homem é a descontração em pessoa. Vive descontraidamente em Cascais, guia descontraidamente um Ford Escort, marca descontraidamente um golo ao Porto e ganha descontraidamente uma Supertaça portuguesa ao Benfica. Ei-lo na sua forma mais descontraída.

Hey, Peter Houtman?
Ja [sim, na língua dele, lá da Holanda, o holandês].

Estou a ligar de Portugal. Sou jornalista desportivo…
Tudo bem? [tudo bem, na nossa língua, cá de Portugal, o português; sim, ele dá uns toques em português].

Sim, tudo bem. E o Peter Houtman, como vai?
[a partir de agora, o homem fala em inglês; é um poliglota] Estou ótimo, em casa. Se a chamada cair é porque não há rede em alguns pontos da minha casa.

Ok, prometo ser rápido. Como foi a sua aventura aqui no Sporting?
Adorei tudo, tudo, tudo, menos no plano desportivo. Não marquei os golos que gostaria nem me impus como desejaria. Nesse aspeto, foi uma desilusão.

Porquê?
Eu já queria sair da Holanda há algum tempo mas nunca se tinha proporcionado. Uma vez, o Benfica até se interessou por mim mas houve uns entraves nas negociações e acabei por ficar no Feyenoord, onde fui melhor marcador do campeonato holandês em 1982-83 [30 golos em 32 jogos].

Isso é bota-quê?
Bota de Prata. Recebi-a em Paris das mãos do Eusébio, do grande Eusébio. Encontrei-o umas vezes em Lisboa, uma joia de pessoa. Quem jantava com ele de vez em quando era o Negrete, o mexicano do golo de pontapé de moinho no Mundial-86.

Maravilha.
Na época seguinte, ainda pelo Feyenoord, só marquei 21 golos.

Só? Chi-ça, 51 golos em duas épocas é muito.
Olha, obrigado, muito obrigado. Na primeira época, não ganhámos nada. Na segunda, fomos campeões holandeses e vencemos a Taça. Foi memorável. Sabes com quem?

Não, com quem?
Ruud Gullit e Johan Cruijff.

"O Gullit era um miúdo cheio de força. Era impressionante, levava tudo à frente com uma naturalidade assustadora. Bastava arrancar que já ninguém o segurava. E, imagina, ele nem fazia ginásio por aí além. Aliás, essa cultura do ginásio e da musculação estava ainda pouco enraizada. Então, o Gullit era um poço de força. Um poço sem fundo, atenção. Aquilo era mesmo uma máquina. Se chocasses contra ele, saías a cambalear. Como era libero, começava as jogadas atrás do meio-campo e varria toda a gente que lhe aparecia à frente com uma força e uma classe fora do comum."

Hein?
Isso mesmo, os dois jogaram comigo no Feyenoord. O Gullit era um miúdo cheio de força. Era impressionante, levava tudo à frente com uma naturalidade assustadora. Bastava arrancar que já ninguém o segurava. E, imagina, ele nem fazia ginásio por aí além. Aliás, essa cultura do ginásio e da musculação estava ainda pouco enraizada. Então, o Gullit era um poço de força. Um poço sem fundo, atenção. Aquilo era mesmo uma máquina. Se chocasses contra ele, saías a cambalear. Como era libero, começava as jogadas atrás do meio-campo e varria toda a gente que lhe aparecia à frente com uma força e uma classe fora do comum.

E o Cruijff?
Já era um veterano, muito mais velho e maduro que o Gullit. Só queria com o pretexto de. Não havia cá correrias desenfreadas, era metódico e inteligentíssimo. Já tinha 36 anos, já tinha ganho tudo na Holanda pelo Ajax, já tinha deslumbrado em Espanha com o Barcelona, já tinha ido ganhar dinheiro para os EUA e ainda arranjou força para voltar à Holanda. Como o Ajax não o quis em 1983, depois de ter ganho dois campeonatos nacionais consecutivos, foi para o Feyenoord. Sabes o que aconteceu?

Nem ideia.
Fomos campeões e vencemos a Taça.

Again? Já me tinhas dito isso.
Calma, não me deixaste acabar. Fomos campeões em circunstâncias inacreditáveis. Sabes qual foi o resultado do Ajax-Feyenoord para o campeonato, em Outubro de 1983

Nope. [começo a questionar a minha carreira de jornalista; então é ele quem conduz a entrevista]?
O Ajax ganhou-nos 8-2.

Oito-dois [ah-ha, gotcha, retomo a condição de entrevistador]?
Yes Sir, 8-2. O Ajax chegou ao 3-0, nós reduzimos para 3-2 e falhámos o 3-3. Na jogada seguinte,4-2. Depois, o descalabro. Acho que o Van Basten nos marcou três ou quatro golos nessa tarde e o Ronald Koeman um ou dois. Um completo desastre. Estás a ver, não estás? Oito-dois. Sabes o que o Cruijff disse aos jornalistas no final do jogo? [E pronto, volto a perder a carteira de jornalista]

Não.
Ate foi engraçada a cena. Os jornalistas amontoaram-se à saída do estádio, o velhinho De Meer [casa do glorioso Ajax dos anos 70, entretanto demolida em detrimento do ArenA de Amesterdão] e quiseram saber a opinião do Cruijff sobre a goleada inverosímil. Muito sereno, o Cruijff apenas lhes disse: “Vamos ser campeões nacionais esta época.” E fomos, sabes?

Foi renhido até ao fim?
Renhido? Essa é boa. Acabámos com nove pontos de avanço sobre o PSV, segundo classificado. O Ajax, vê bem, ficou em terceiro, a 11. E só perdemos duas vezes nessa época, curiosamente ambas com o Ajax. Mas o Cruijff é que se riu. E eu também. Grande título. Na semana seguinte, ganhámos a Taça da Holanda: 1-0 ao Fortuna Sittard. O golo foi meu, aponta aí.

"O Ajax chegou ao 3-0, nós reduzimos para 3-2 e falhámos o 3-3. Na jogada seguinte,4-2. Depois, o descalabro. Acho que o Van Basten nos marcou três ou quatro golos nessa tarde e o Ronald Koeman um ou dois. Um completo desastre. Estás a ver, não estás? Oito-dois. Sabes o que o Cruijff disse aos jornalistas no final do jogo? Ate foi engraçada a cena. Os jornalistas amontoaram-se à saída do estádio e ele, muito sereno, disse “vamos ser campeões nacionais esta época.” E fomos, sabes? Com 9 pontos de avanço sobre o PSV, segundo classificado"

Apontado.
Eheheheheh, o grande mérito dessa conquista é do Gullit. Então não é que ele marcou seis golos em toda a Taça?!?! Seis! Incluindo dois ao Ajax [jogo de desempate dos quartos-de-final]. Foi incrível.

Então, e depois?
Depois fui para o Groningen. Lá também marquei os meus golos e lá apareceu o Sporting. Na altura, já tinha 29 anos. Era agora ou nunca.

E foi agora?
Ja [voltámos ao holandês], decidi-me pelo salto.

Muitas diferenças entre o Groningen e o Sporting?
Muitas, sim, como deves imaginar. O Groningen era um clube mediano, o Sporting era um grande. Mas um grande com problemas. E foi esse o problema. Só para veres, o Sporting trocou de treinador mal cheguei [sai Manuel José, após nulo em casa com o Rio Ave, e entra Marinho]. Essa época foi para esquecer. Empatei quatro vezes seguidas, com Rio Ave, Salgueiros, Académica e Portimonense.

Grande memória.
Lembro-me bem disso porque marquei ao Portimonense. Saí do banco para o lugar do Zinho e fiz o 1-1. Curiosamente, na época seguinte, também marquei o 1-1 no estádio do Portimonense.

Depois desse primeiro golo em Portimão…
[lá está o homem a roubar-me a pergunta] Depois marquei ao Esperança de Lagos para a Taça, ao Boavista para o campeonato e…

Porto.
Exato, 2-0 em Alvalade. O outro golo é do Meade, Ralph Meade, um inglês que tinha vindo do Arsenal. Bom de bola, muito rápido e oportuno na grande área. Esses jogos com Porto e Benfica eram fabulosos. A atmosfera, os adeptos, a adrenalina. Ainda não me esqueci a demora para sair de campo nas Antas.

Quando?
Um jogo da Taça, nas meias-finais. Ganhámos 1-0, com um golo do Mário no penúltimo minuto do prolongamento. Que memórias. Que jogo. Estás a ver, não estás? O Porto imbatível, o de Gomes, Futre, Madjer, derrubado em casa. No último suspiro, ainda por cima. Os adeptos estavam furiosos e montaram um festival que nos impediu de ir tranquilamente para o balneário.

Então?
Ficámos parados no meio do relvado sem saber muito bem o que fazer. Apareceu então a polícia e guiou-nos para o túnel, foi a nossa sorte.

E depois, e depois?
Olha, perdemos essa final da Taça para o Benfica, 2-1 com bis o Diamantino. Que jogador, o que ele jogou nessa tarde, pffffff. Um dos golos é uma jogada individual cheia de classe. Hey, sem problema. Na época seguinte, ganhámos-lhe a Supertaça: 3-0 na Luz, 1-0 em Alvalade. Que maravilha.

E como era a tua vida em Lisboa?
Em Cascais.

Ou isso.
Cascais era um encanto. Ainda continua assim?

Melhor ainda.
Não acredito, era uma vila tão agradável. A minha vida era santa. Até entrar no trânsito da Marginal.

A partir daí era pior?
Pior? Muito pior, nunca vi tal coisa. Era um pára-arranca constante, indescritível.

Chegavas atrasado aos treinos, é isso?
Chegava, pois. Teria de madrugar para chegar a horas.

Ias sozinho?
Ja.

No teu carro?
O Sporting quis dar-me uma bomba, eu preferi um Ford Escort. Bem jeitoso, sabes?

E o grupo?
Era um espetáculo, tanto o da primeira época como o da segunda.

"Havia algumas figuras bem divertidas, como Damas, Venâncio, Carlos Xavier e Oceano. Gente boa, amiga, atenta aos pormenores. Na primeira época, havia a figura do capitão bem definida, o Manuel Fernandes. Se me sentasse na mesa dele para almoçar ou jantar, era a sorte grande e tinha direito a mais um jarro de vinho ou uma garrafa de Coca-Cola"

Havia diferenças?
Ja, muitas. Foi um período de transição, embora algumas figuras bem divertidas se se tivessem mantido nessas duas épocas.

Como quem?
Damas, Venâncio e Oceano, gente boa, amiga, atenta aos pormenores. Na primeira época, havia a figura do capitão bem definida.

Quem?
O Manuel Fernandes. Se me sentasse na mesa dele para almoçar ou jantar, era a sorte grande.

Então?
Quem se sentasse na mesa do capitão, tinha direito a mais um jarro de vinho ou uma garrafa de Coca-Cola. O Manuel saiu do Sporting no Verão de 1986 e foi para Setúbal.

Quem entrou para o lugar do Manuel?
O Paulinho Cascavel, que craque. Tinha sido o melhor marcador do campeonato pelo Vitória de Guimarães e, depois, conseguiu repetir o título pelo Sporting. Para o lugar do Meade, contratou-se outro inglês: Sealy. Lembras-te?

Só de nome.
Tinha fibra, era combativo e entrou muito bem na época. Deve ter marcado uns dez golos até ao Natal.

E depois?
Desapareceu do mapa.

"O Sporting estava a viver um período complicado ao nível da direcção. Ia haver eleições e havia aquela figura inesquecível de bigode, o Jorge Gonçalves. Lembro-me tão bem tão bem tão bem mas tão bem de ele entrar no relvado no intervalo de um jogo para apresentar um avançado sueco já a pensar na época seguinte. Vê bem, o Jorge Gonçalves era só um candidato às eleições e já apresentava jogadores a meio de um jogo do campeonato, ainda por cima fora de Alvalade."

E tu?
Era intermitente, o Sporting estava a viver um período complicado ao nível da direção. Ia haver eleições e lembro-me daquela figura inesquecível de bigode.

Jorge Gonçalves?
Ja. Jorge Gonçalves. Lembro-me tão bem tão bem tão bem mas tão bem de ele entrar no relvado no intervalo de um jogo para apresentar um avançado sueco já a pensar na época seguinte.

Quem, o Eskilsson?
Ja, esse mesmo. Vê bem, o Jorge Gonçalves era só candidato às eleições e apresentava jogadores a meio de um jogo do campeonato, fora de Alvalade.

Ai foi fora de Alvalade?
Salgueiros. Ganhámos 4-2, entrei perto do fim. Que loucura.

Loucura é isto: o Houtman tem sete golos em oito internacionalizações pela Holanda.
Eheheheh, mais memórias gloriosas. Estreei-me num 3-0 à Islândia e marquei logo aí. Sabes quem era o meu parceiro no ataque? [here we go again]

Quem?
Van Basten.

No way.
A sério.

É o meu ídolo. Desde aquele Euro-88.
Fazes bem, ele foi um fenómeno sem paralelo. Lembro-me perfeitamente desse dia: eu joguei com o número 10. Aliás, fui o número 10 no Sporting e na Holanda. Que honra. Nessa noite, o Ronald [Koeman] era o 5, Gullit o 3 e o Marco [van Basten] o 11. As voltas que a vida dá, não é? Agora é tudo certinho, direitinho. Antes era assim, bem mais divertido.

A tua seleção da Holanda é qual, exatamente?
A da qualificação para o Euro-84 e o Mundial-86.

Falhaste as duas?
Pois foi, uma pena. Se me tivesse poupado para o Euro-88, provavelmente não conhecerias o Van Basten, eheheheh.

E depois do Sporting?
Voltei para o Feyenoord, pela terceira vez.

Terceira?
Ja. Faço-me júnior no Feyenoord e saio para o Groningen para a primeira época de sénior. Volto ao Feyenoord no ano seguinte. Aventuro-me pelo Brugge, na Bélgica, depois volto à Holanda para o Groningen e assino pelo Feyenoord, para a tal equipa de Gullit e Cruijff. A seguir, Groningen, Sporting e Feyenoord. Três vezes.

Que categoria. Vejo aqui mais clubes como Sparta, Haia e Excelsior.
Desses três, só o Haia não é de Roterdão.

Bolas, fixaste-te na cidade.
Sou o único a ter jogado nos três clubes de Roterdão de 1.ª divisão.

Ainda acabaste com uns anos em cima.
Acabei na hora certa, aos 37 anos, na 2.ª divisão. Marquei seis golos em 15 jogos e saí de cena. Como agora. Tenho de ir jantar, abraço e obrigado pelas memórias.

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