Imagine o casamento mais louco que lhe apetece ter. Eles organizam-no

18 Março 2017

Saltar de uma falésia, marcar uma parede de Lisboa, entregar ao noivo fotos da noiva em ligas e negligee. Dois wedding planners contam como se organizam casamentos que recebem prémios internacionais.

“Há toalha rosa-chá?”, pergunta Josiane a Rui, que está escondido por trás de uma fila de centenas de prateleiras cheias de toalhas de mesa de todas as cores.

“Não vejo aqui Josiane, mas há mais lojas em Lisboa”, vem a resposta.

“Como é que sabemos se no fim vai ficar bonito?”, pergunta a noiva, atirando-se para o sofá mais próximo para olhar de longe a última das cinco ou seis hipóteses para a mesa do seu casamento, que Rui já lhe apresentou.

“Simplesmente vai saber, Josiane, vai olhar e vai saber quando for a certa”, assegura Rui.

“Não consigo visualizar! Como vou saber se trinta mesas iguais a estas, ocupando todo o Convento do Beato, vai ficar bem?”, questiona-se Josiane com a mão na testa.

“A cadeira dourada ou a decapé, amor?”, pergunta Josiane a Bruno.

“Eu gosto da decapé nesta mesa”, diz o noivo.

“Ah… Nossa! Eu queria a decapé antes e você queria a dourada e agora eu gostei da dourada e você quer a decapé! Pensei que ia ser giro esta parte de escolher as coisas mas está me irritando muito”, desabafa Josiane.

“Vamos apenas escolher as cadeiras e o resto levamos para o Beato para ver como fica, pode ser?”, propõe Rui, que reaparece com uma cascata de toalhas de mesa de outras cores a pesar sobre os seus braços cruzados.

Verde escuro. Os noivos odeiam. Nem pensar. Rui tenta mostrar como poderia ficar. Atira um manto verde escuro, de seda, para cima da mesa redonda e começa a colocar os pratos dourados em cima. Parece um empregado de mesa de um hotel de luxo a pôr a mesa de Natal. Nem pensar, repetem os noivos. Mas Rui está só a tentar mostrar “como as cores escuras ajudam a conseguir um contraste”. Josiane está frustrada, mas de levezinho. Passados cinco minutos já está a gozar com a própria irritação e vai à prateleira das toalhas buscar cores tipo rosa choque e vermelho vivo para arreliar Bruno. Rui acha que ela até era capaz de alinhar numa cor forte, mas Bruno está com as ideias fixas num casamento clean: os brancos, os tons champanhe, os copos com debruado prateado, tudo clássico.

Quando Rui Mota Pinto, 43 anos, diz às pessoas a sua profissão já está à espera do “O quê?” que vem depois da resposta: “Sou wedding planner“. É organizador de casamentos? Não. É uma mistura de organizador de eventos, produtor de teatro, personal shopper, gestor de expectativas, psicólogo e confidente. Personal quê? Rui suspira. Pensa em tudo, arranja tudo, transforma sonhos que os noivos nem sabiam que tinham em realidades — é o que faz há mais de 20 anos. E este ano, mais uma vez, foi premiado internacionalmente pelo seu trabalho. Já lá vamos.

Josiane e Bruno escolhem decoração para o casamento, em Agosto HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR

Estamos no centro de Lisboa, num enorme armazém com tudo o que é preciso para organizar uma festa. Enormes gaiolas brancas a imitar as que havia nos jardins reais vitorianos? Há. Candeeiros de teto e chão marroquinos? Sim. Sofás Rattan? Há. Toalhas de todas as cores do espectro em todos os tecidos possíveis? Réplicas de pratos antigos daqueles que parece que foram partidos em milhares de pedacinhos e colados? Também há. Josiane acha quase tudo “muito giro”, uma palavra que ela só recentemente entendeu o que queria dizer. Ela é brasileira e, no Brasil, giro é de “girar”.

Nos casamentos de Rui Mota Pinto não há impossíveis, mas há linhas que o wedding planner não cruza. Quando o casal se senta finalmente, depois da saga das toalhas, dos pratos e das flores, sem que nada tenha ficado definido em nenhuma das categorias, para decidir as lembranças que serão dadas aos convidados, Rui mostra-se, pela primeira vez, intransigente. Encarna uma espécie de agente da polícia que garante que os mínimos olímpicos do bom gosto são observados.

E isso não quer dizer ser sempre conservador. Já “autorizou” — e participou — em sessões fotográficas boudoir, com a noiva sentada nas madeiras de um veleiro, vestida quase só com ligas e negligee. Era uma surpresa para o noivo. Antes de ela entrar na igreja, um estafeta entregou ao noivo um envelope. “Especado à frente de todos os convidados, abre o envelope e vê a sua noiva, naquela pose, num veleiro, a mostrar quase nada mas a insinuar tudo, que impacto que aquilo teve!”, relembra Rui.

Mas Josiane não o convence. Ela quer oferecer aos convidados uns lencinhos porque “toda a gente vai chorar”. Até aí tudo bem, mas isso foi antes de a noiva dizer que a ideia dela oferecer lenços de “papel” dentro da caixinha. “Não faço”, diz Rui, que não dá qualquer margem de manobra quanto ao material do lencinho – ou é linho ou não é nada.

Depois de mais umas voltas pelo armazém, a cadeira pelo menos fica escolhida, para evitar que se levem oito cadeiras de três tipos — 24 cadeiras só alugando uma carrinha de caixa aberta — para o Beato apenas para o test drive.

Dois homens? Em Lisboa estão OK

A melhor forma de absorver o ambiente das Escadinhas de São Cristóvão é se as descermos. Subir primeiro pelo Largo dos Trigueiros, continuar pelo Beco das Farinhas até à Rua de São Cristóvão e, aí a meio, esperar por um assalto de cores a qualquer momento. Já foram um segredo que os namorados de Lisboa tinham só para eles, mas hoje há cafés e bares nos rés-do-chão de cada prédio e nas varandas verdes bebe-se sangria, falam-se línguas diferentes, tiram-se selfies. As paredes estão cheias de grafitti que celebram a cidade. Ali pelo meio, contudo, há uma coisa que destoa, esteticamente quase destoa dos restantes desenhos, mas alinha na perfeição com o conceito que Viktoria Ignateva preparou para o casamento de Oblov e Korolev.

Ao pé do painel em relevo com a imagem de São Crisóstomo, fez-se nesse dia um stencil que acabou por ficar na memória — e nas fotografias — de milhares de turistas, e não só dos convidados do casamento. É um pequeno desenho na parede, feito com um molde e um pouco de spray onde se lê “OK” e por cima se distinguem os contornos da cara de dois homens. A imagem tornou-se viral a partir da rede social Instagram, já que muitos associaram aquele desenho à aceitação das uniões homossexuais: os nomes de Oblov e Korolev formam as iniciais “OK”.

Casamento de Oblov e Korolev, em Lisboa, outubro de 2016 Foto: Dmitry Kornilov

Korolev, apenas nome próprio, é uma cara conhecida da televisão russa. No seu contrato de trabalho, se não diz é como se dissesse que tem que se manter aparentemente disponível para os milhões de fãs que tem. É essa persona que tem que ser na Rússia e, lá, isso é parte de ser quem é. Mas ele não é assim. Ele apaixonou-se por um homem e há muito tempo que vêm passar férias a Portugal. “Eles já tinham vindo a Portugal e adoram Portugal, as tascas, os hábitos de comer na rua, de beber nas escadinhas da Mouraria, o sol, a abertura das pessoas que falam das suas vidas com os vizinhos e partilham tudo”, diz Viktoria, também ela russa, e wedding planner, mas residente em Portugal.

O casamento de Oblov e Korolev foi planeado para dois russos que adoram Portugal. Tudo o que os portugueses podem achar foleiro, ou de mais, foi exatamente o que eles escolheram. Naquele dia de outubro, as Escadinhas foram tomadas por tudo o que dois portugueses na tenra idade destes dois russos possivelmente dispensariam no seu casamento. “Depois de uma receção em Belém super luxuosa, onde eles estiveram mesmo à vontade, fomos para as Escadinhas. Contratamos uma senhora que tocou acordeão, uma outra para cantar o fado, havia gente descalça, agarrada, a chorar o fado, e claro que sem entenderem nada. Até homens a dançar o tango havia.”

“Sabia que os primeiros dançarinos de tango eram dois homens?”, pergunta Viktoria, ao mesmo tempo que conta o ambiente daquele dia. Viktoria acredita que são os detalhes, e não necessariamente o grande plano, que interessam, e tratou de todas as exigências dos noivos com o maior cuidado. Nessa lista, havia um item que não podia falhar: “Os noivos disseram-me logo no início: ‘Tem que haver muitos bolos de bacalhau, Viktoria!’ ”

Um processo longo e nem sempre pacífico

Começa tudo com um esboço que se parece muito com os desenhos de um miúdo da terceira classe. Rui Mota Pinto diz que os seus “bonecos” estão a ficar melhores, mas os noivos, nos desenhos que nos mostra, continuam a ser homens e mulheres feitos com linhas retas, um círculo no lugar do rosto e apenas um triângulo, a fazer de saia, identifica a noiva. Começa tudo do nada. “Esqueçam o que viram na internet, apaguem os print screens que fizeram à decoração das mesas e pensem um no outro, naquilo que vos levou a apaixonarem-se um pelo outro e a dar este passo tão importante”, pede sempre Rui aos noivos na primeira reunião.

Está convicto de que ninguém faz o que ele faz, como ele o faz. As pessoas escolhem-no pelo nome e não por ser simplesmente alguém que organiza casamentos. Não é contratar um serviço, é contratar "uma cabeça" e por isso não tem problemas de dizer que "o casamento é tanto dos casais como é meu" ou "eu podia fazer os meus casamentos com qualquer casal mas estes casais não podiam ter estes casamentos sem mim".

Lá fora, é toda uma indústria. Em Portugal, nem sequer há formação na área. Rui estudou em Nova Iorque um ano e meio, é dos poucos wedding planners com formação específica em Portugal. Está convicto de que ninguém faz o que ele faz, como ele o faz. As pessoas escolhem-no pelo nome e não por ser simplesmente alguém que organiza casamentos. Não é contratar um serviço, é contratar “uma cabeça” e por isso não tem problemas de dizer que “o casamento é tanto dos casais como é meu” ou “eu podia fazer os meus casamentos com qualquer casal mas estes casais não podiam ter estes casamentos sem mim”.

Arrogância? Presunção? Não é bem isso. É falta de tempo para tentar entender-se com quem simplesmente não entende o que ele faz. “Aos outros organizadores os noivos compram um serviço, e não há nada de errado com isso. A mim compram-me a cabeça, compram-me a mim. Eu tenho um nome e uma forma de trabalhar que tenho que defender, é como um ator, por exemplo, que não vai simplesmente aceitar qualquer papel”, explica Rui.

Às vezes as coisas ficam feias. Quando Rui diz que não, é não, que não faz, e as noivas — ou, pior, as mães das noivas ou a tias das noivas — desconfiam da sua autoridade e não aguentam perder protagonismo para um tipo que não é pai, não é marido, não é família mas acaba por ser alguém sem o qual elas não casam. “Já tive uma mãe que foi por trás de mim contactar os fornecedores todos a pensar que eu estava a pedir mais dinheiro pelas coisas e a ficar com a diferença, mas depois no fim ela é que estragou tudo, porque não consegue os mesmos descontos que eu, como é óbvio”, conta. Há noivas que Rui passa a outros colegas porque, lá está, a ideia que elas têm para os seus casamentos não se enquadra com o portfólio que Rui está a tentar construir.

Os pormenores ficam com ele, porque seria fácil identificarmos as pessoas se ele nos desse os detalhes todos, mas há quem exija coisas que não pode pagar, quem engorde a cada prova do vestido, e quem lhe encha o telemóvel, a qualquer hora, de dezenas de fotografias de opções para o vestido da menina das alianças.

Rui diz que também lhe colocam o rótulo de “maluco”. Em outubro de 2015 mandou fechar o kartódromo internacional do Bombarral para casar uma noiva ultra-romântica, que queria a cerimónia na praia, e um noivo que “queria casar na lua”, que é como quem diz, explica Rui, escolher um sítio onde fosse impossível casar. Então atirou aquilo do kartódromo, e lá estava Rui preparado para mandar fechar uma pista de alcatrão por uma noite e um dia. “Liguei ao kartódromo e disseram-me que não se fazem casamentos. Ai fazem, fazem. Aquilo tinha que ser super romântico para ela, cheio de candelabros e flores; e masculino, ‘radical’ para ele”, conta Rui.

E o casamento aconteceu.

O casamento que quase foi pela falésia abaixo

Como quem monta uma tenda a vender limonadas, assim se casam pessoas nos Pop-Up Weddings. Idealizado por Nuno Palha, que faz a fotografia, João Jonas, que oficializa as uniões, e Rui Mota Pinto, que trata de basicamente tudo o resto, os casamentos pop-up funcionam exatamente como a palavra, despontam, irrompem, em qualquer lado, como cogumelos. Hora marcada, máximo dez pessoas, próximo do casal, acessível, sem copo de água, só bolo, cerimónia simbólica e uma sessão fotográfica de meia hora. “Enfia-se tudo de novo na carrinha, nós vamos embora eles vão para o hotel”, resume Rui.

O primeiro teste foi com André e Helena. O grupo lançou um concurso online prometendo oferecer o primeiro casamento desta série pop-up ao casal que enviasse a ideia mais excêntrica. Ganharam eles, porque queriam atirar-se de uma falésia de parapente. Aliás, a primeira ideia era fazer bungee-jumping, mas uma falha técnica impediu o salto.

O primeiro casamento dos Pop Up Weddings, Helena e André / NUNO PALHA

“Precisávamos de uma falésia, de uma montanha, de uma arriba, qualquer coisa”, começa Rui. E, “mais importante que isso, precisávamos de vento, que não soprou o dia todo; um calor, isto em outubro, que não se aguentava”. Helena era novinha, ainda não tinha 20 anos na altura, começou a ficar nervosa. “Estava tudo organizado para o Portinho da Arrábida e tivemos que ir para Santa Cruz, meter tudo dentro de um autocarro e ir atrás do vento”, conta Rui. Pormenor: as câmaras da TVI estavam com eles, a gravar cada ataque de nervosismo da noiva, cada olhar absorto do noivo. Manuel Luís Goucha havia de os receber mais tarde no Você na TV.

“A noiva ia a subir a falésia já nervosa, de saltos gigantescos, mal conseguia andar naquela terra cheia de buracos, a subir, a subir, o calor, o vento que não soprava, a maquilhagem, as câmaras de televisão. Passou-se. Desata num choro danado, atira o bouquet para o chão, começa aos berros a dizer que quer ir para casa, ‘quero o meu quarto, quero o meu quarto!’ e começa a correr ravina abaixo”, conta Rui. Depois faz uma pausa e reforça: “A correr, a correr!”

Um pouco estranho, “para uma rapariga que mal conseguia andar quando estava a subir, desata a correr, sem tirar os saltos, sem problema nenhum”, acrescenta.

O pânico contagiou os “graças a deus poucos convidados” como um bocejo entorpece uma sala de aula e desatou tudo a chorar. As mães dos dois lados, as amigas, as tias e as avós. André, o noivo, sempre mais ou menos afastado de toda a cena. Rui foi salvar o dia e, mais uma vez, as coisas tinham que correr como ele queria. “De forma calma disse-lhe ‘olha, não casares não é opção, está aqui a tua família que te adora e o homem que escolheste'”. O que ele não disse mas pensou: “Isto é um novo projeto com o meu nome na linha, nem penses que não te vais casar”.

Saltaram de parapente e casaram.

Os prémios

Vai todos os anos ver o Cirque du Soleil como quem vai a Fátima, é um santuário, um fonte de inspiração. “Se não for acho que as coisas já podem não correr da mesma forma”, diz. Há elementos muito teatrais nos seus casamentos e basta ouvir dois ou três exemplos de casamentos organizados por si e pela sua equipa para confirmar isso mesmo: desde noivos a saltar de parapente para a cerimónia até ao aluguer de dezenas de elétricos para a festa, passando pela contratação de estátuas vivas de Eça do Queiroz, a corda estica sempre mais um pedacinho. Estranhamente, Rui Mota Pinto diz isto e não se nota presunção. Anda no negócio há mais de vinte anos, e, se não fosse por mais nada, a sua “fama” advém do facto de não haver ninguém há tanto tempo, em Portugal, a organizar casamentos de forma profissional.

Um casamento nunca é só futuro, apesar de ser esse o peso que os casais sentem. “Planeio as coisas sempre pensando no passado, no presente e no futuro. O passado de quem são aquelas duas pessoas à minha frente, um presente de quem é aquele casal que decide casar e um futuro de quem querem ser como casal no futuro”, acrescenta. E, diz quem entende destas coisas, Rui cria histórias que merecem prémios. Nos prémios Belief deste ano, um evento organizado por uma rede mundial de wedding planners, que distingue os melhores casamentos do ano, Rui Mota Pinto recebeu o prémio para Melhor Conceito e Melhor Fotografia. É quinta vez que recebe um prémio Belief, no mesmo número de edições do evento.

O conceito vencedor este ano foi “Memórias de Infância – uma boneca de trapos apaixona-se por um soldadinho de chumbo”, de um casal que “tinha muito presentes todas as suas memórias de infância passadas com a família, porque ambos tinham tido uma infância muito feliz”, explica Rui.

Depois de decidir com os noivos, Tânia e Ricardo, que o casamento seria construido à base de memórias, Rui quis encontrar símbolos que personificassem os noivos e a sua história. Então perguntou o que é que lhes vinha à cabeça quando pensavam na infância. “A Tânia, de imediato, sem hesitar um segundo, respondeu ‘A minha bonequinha de trapos que ainda hoje tenho’ e o Ricardo também rapidamente respondeu ‘Os meus soldadinhos de chumbo'”. Estava encontrado o conceito: intimista, confortável, familiar, cenários rústicos, quadros de ardósia a marcar as mesas.

Rui já só aceita 10 a 12 casamentos por ano — e mesmo assim já fez bem mais de 100 — e a maioria demora pelo menos um ano a desenvolver. Depois de falar com os noivos, muitas vezes por Skype ou email, já que a maioria dos casais são estrangeiros, Rui começa com os rabiscos: “Começo a desenhar a forma como eu próprio vejo a história deles e a forma como eu próprio idealizo a maneira como deveríamos contar esta história. Esta aproximação, este entender os noivos cria normalmente uma enorme sinergia e o casamento acaba por ir surgindo numa imagem muito fiel ao que são”, diz. Toda esta atenção, este cuidado, tem um preço. Mas um preço que Rui prefere não revelar, não só pelo contrato de sigilo com os casais, mas também porque os valores “diferem muito”. “Já fiz casamentos de duas pessoas mais caros do que um de cem”, diz Rui.

“Nem pensar, xu xu”

Esperamos Josiane e Bruno na marginal de Belém, entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre. Ela é brasileira, ele angolano. Conheceram-se em Portugal, num casamento para o qual Josiane, dizem eles, não tinha sido convidada. Podia muito bem não ter entrado, e nunca teria conhecido Bruno. “Furou um casamento e agora quer identificação quase digital à porta para que não furem o nosso”, diz Bruno. Querem casar-se cá porque é “a meio caminho entre o Brasil e Angola, e assim é justo para ambas as famílias, já que todos têm que viajar”, diz Josiane. São um casal muito jovem, ela tem 25 anos e está a acabar o curso de Psicologia; ele tem 28, é formado em Gestão e atualmente trabalha na área mas em consultoria. Sobre isso de casar novinha, Josiane fará confidências mais tarde.

Rui saca do seu bloco, que não é um bloco de notas qualquer. Tem pontinhos em vez de pautas ou quadrículas e a sua caneta tem um ar futurista, uma ponta triangular, como as canetas de tinta antigas. À medida que vai traçando o plano do salão principal do Convento do Beato, os riscos vão aparecendo no iPad.

“Aqui o palco”, diz Rui enquanto traça um retângulo a que Josiane chama “cama”. Já fizeram este exercício mais vezes.

“Aqui a mesa dos bolos brasileiros”, continua Rui, desenhando vários pequenos retângulos para as várias mesas de buffet.

“Aqui a mesa dos noivos”, diz Rui enquanto desenha uma retângulo fininho ao topo da sala.

“Aqui o palanque dos noivos e ali o palco para a banda”, continua.

Está lançada a discórdia.

“Aí? Ao pé da entrada? E as pessoas quando entram veem um estrado de madeira?”, pergunta Josiane. “E o palco para os noivos é uma coisa alta? Acho isso muito ‘brega’, os noivos assim acima do resto das pessoas tipo distanciados”, continua a noiva.

“Não é nada distanciado é apenas destaque, nós merecemos destaque, pode até ser de um metro e meio”, ri-se Bruno.

“Não, não, uma coisa baixinha”, concorda Rui.

Quase uma hora passa enquanto se discute a altura do estrado, a cor a que será forrado — “é possível mudar a cor do chão?”, pergunta Josiane. “É tudo possível”, responde Rui –, a posição do palco em relação à entrada, a localização das várias mesas de buffet e os vasos que poderão ser colados à entrada para impedir que se veja “a cablagem”.

Pequena pausa para uma sessão de selfies ao sol e voltam ao ringue. Mas nestas lutas as ofensas são “ó amor! Caramba!” ou “nem pensar xu xu”.

Rui Mota Pinto decide com os noivos as lembranças para os convidados e a disposição das mesas HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR

Agora são as mesas. Redondas, quadradas, retangulares. Quantas mesas de cada forma? Quantas pessoas em cada mesa? Não tão perto que se vão acotovelar. Mas se forem poucos em cada mesa não vai parecer que os isolámos? E onde ficam as mesas quadradas? E as retangulares? Bruno quer os amigos próximos ali mesmo ao pé dele em duas linhas paralelas, duas mesas corridas, uma à esquerda outra à direita da mesa dos noivos. “Nem pensar, isso vai parecer que uns convidados são os filhos e os outros os afilhados”, “vai criar duas salas, duas secções”, “isola os noivos”, protestam Rui e Josiane. Rui estende os dois braços em linha com o seu rosto para Bruno entender que, tal como ele não consegue ver o Rui, também os convidados que estivessem para lá dessas mesas privilegiadas, não iriam conseguir ver os noivos.

Não se entende pela sua expressão se Bruno está ou não convencido, mas está empenhado. Há aquela ideia de que os homens querem é escapar-se a estas coisas ou então vêm obrigados pelas noivas e ficam a olhar para os sites de apostas de jogos de futebol no telemóvel, mas Bruno não é exatamente este género. Tirou duas semanas de férias, voou para Portugal e não parece fazer esforço algum para aqui estar. Só pega no telemóvel para nos mostrar, ou a Rui, fotos que guardou no telemóvel de outros casamentos, ou para procurar imagens que ilustrem ideias que está a tentar materializar.

O pormenor envolvido na organização de um casamento é impressionante: desde escolher o papel em que serão impressos os convites, passando pelo desenho da insígnia com as iniciais dos noivos, até à contratação de figurantes para entregarem os brindes aos convidados. Podem ser meninas parisienses dos anos 20 com dois caracóis colados à testa, ou vendedores de limonada no calçadão do Rio: calças de linho e suspensórios, só. Depois há os pesos pesados: a decoração, que envolve alugar centenas de cadeiras, dezenas de mesas, sofás, almofadas, toalhas, colchas, suportes para velas, vasos enormes de barro com flores, pequenas árvores, panos para colocar nas costas das cadeiras com um grande laçarote; e o catering. “Haverá comida para mil pessoas”, assegura Rui. Da lista constam especialidades brasileiras, angolanas e portuguesas.

Os seus casamentos são quase sempre uma mistura de culturas. O casamento que venceu a Melhor Fotografia também foi entre um casal brasileiro com raízes portuguesas, que se casou em Ponte de Lima. Houve azulejos, flores, galos de Barcelos e vinhas até onde o sol se põe. O pai da noiva, Mariana, era para ser padre na Igreja onde ela se casou, mas as dificuldades financeiras fizeram-no rumar ao Brasil, onde conheceu a mãe de Mariana e desistiu de vez do sacerdócio.

Quando Rui começou a organizar casamentos, depois de um curso de Economia, que não era bem a sua paixão, e uma aventura empresarial na área da publicidade com um amigo, não havia internet e essa é a maior diferença pela qual a profissão passou. “Eu organizava casamentos por fax e não era possível ir buscar fotografias de nada, tínhamos que as tirar, enviar cópias aos noivos, esperar a resposta na volta do correio, ou então era tudo presencial, a internet veio mudar tudo. Toda a gente pode ver o meu trabalho agora, em qualquer parte do mundo”, diz Rui, que tem uma carteira de clientes quase toda com nomes estrangeiros.

Enormes gaiolas brancas a imitar as que havia nos jardins reais vitorianos? Há. Candeeiros de tecto e chão marroquinos? Sim. Sofás Rattan? Há. Toalhas de todas as cores do espectro em todos os tecidos possíveis? Réplicas de pratos antigos daqueles que parece que foram partidos em milhares de pedacinhos e colados de novo? Também há.

“Os portugueses acham que é um serviço que qualquer um pode fazer e não se preocupam se estão a contratar um amador ou um curioso. Mas os estrangeiros procuram imenso a qualidade e querem ter a certeza que contratam profissionais competentes”, explica Rui que, apesar de tudo, admite que também ele procurou criar esse nicho “apostando bastante numa comunicação e em publicidade muito pensada para o mercado estrangeiro”.

Ainda antes de receber Bruno e Josiane em Belém, Rui tinha estado a dar uma entrevista a um professor interessado em saber como se gerem as expectativas de um casal em relação ao casamento e ao futuro. Rui disse-lhe, e a nós, que nunca tenta rever em baixa as expectativas dos casais, mas sim “injetar ainda mais expectativa e mostrar coisas a cada casal que nem eles sabiam que queriam, apresentar-lhes soluções que realmente os surpreendam, que sejam muito além do que eles tinham idealizado”. Não sabemos se isso será possível com o jovem casal que está há mais de uma hora a montar hipotéticas mesas de casamento: põe toalha branca com prato dourado, tira prato dourado coloca o branco, tira a toalha branca, cai uma de linho cru, tira ramo de flores brancas, põe o ramo “rosa-chá”, que é a cor idealizada por Josiane para todo o casamento.

Rui disse-lhe, e a nós, que nunca tenta rever em baixa as expectativas dos casais mas sim "injetar ainda mais expectativa e mostrar coisas a cada casal que nem eles sabiam que queriam, apresentar-lhes soluções que realmente os surpreendam, que sejam muito além do que eles tinham idealizado". 

Enquanto esperamos boleia para a prova de comida, Josiane comenta que já sente a pressão de “não estar ainda casada e com filhos” porque “vem de uma família muito tradicional” mas ao mesmo tempo reconhece que há também uma pressão ao contrário. “Hoje a menina mais interessante é aquela que é super independente, sem homem, que viaja e estuda para sempre, que não quer ter filhos, há uma espécie de crítica velada por parte do grupo de amigos às jovens que se casam cedo ou de todo”, diz Josiane. Mas “quer saber?”, pergunta. “Eu acho que elas dizem que não se querem casar porque sabem que o namorado não vai pedir, é um mecanismo de defesa e adaptação das expectativas”, explica a futura psicóloga.

Da Rússia, com e por amor

Viktoria Ignateva chegou há três anos a Portugal e, além de talento para organizar casamentos, tem um curso de Psicologia que “ajuda muito com as noivas”, diz ao Observador, contando logo ali daquela vez que…

Serra de Sintra. A noiva já na Quinta da Regaleira e o noivo ainda no alto do lugar. Estava tudo dentro dos horários combinados, a noiva calma à espera do príncipe no castelo. O autocarro com o noivo e os seus convidados mete-se à estrada. Menos de cinco quilómetros depois, o autocarro pára. Tinha-se trocado uma fralda lá dentro e era preciso arejar o veículo, e deixar as pessoas respirar. Demorou a arejar. Entretanto, na quinta, a noiva ia ficando cada vez mais nervosa, agarrava-se a Viktoria, sempre a perguntar quando ele chegava, se lhe tinham ligado, o que é que ele tinha dito e a duvidar de quem lhe dizia que ele ia aparecer.

“Eu tenho formação em psicologia e ainda bem, porque às vezes é mesmo preciso acalmar as pessoas, tudo se conjuga para aquele dia, qualquer percalço as noivas ficam muito ansiosas e sensíveis”, diz Viktoria, ela que só ficou ela própria “sensível” agora com isto dos casamentos.

O marido de Viktoria, matemático, foi contratado pelo Instituto Superior Técnico e, quando receberam a notícia de que viriam para Portugal viver, o casal ficou um pouco assustado — “não sabíamos nada sobre Portugal”, conta Viktoria.

Hoje come-se comida portuguesa lá em casa, as filhas estudam numa escola pública portuguesa e uma delas já cá nasceu. O mais importante de tudo, porém, é que Portugal é “perfeito” para casar. Na Rússia, Viktoria já tratava da decoração de casamentos, que é apenas uma pequena parte de tudo. Chegou aqui e tentou fazer o mesmo, mas a língua impedia-a de conseguir clientes aqui. Então começou a “promover” Portugal na Rússia, como destino de casamento. “Gastava todo o tempo a ajudar pessoas, à distância; arranjava as flores, os tecidos, as cadeiras, mas não ganhava quase nada por isso, e fazia tudo na mesma. Por isso decidi começar a organizar tudo do princípio ao fim”, explica.

"Eles já tinham vindo a Portugal e adoram Portugal, as tascas, os hábitos de comer na rua, de beber nas escadinhas da Mouraria, o sol, a abertura das pessoas que falam das suas vidas com os vizinhos e partilham tudo".
Viktoria Ignateva, wedding planner

Entendeu que a sua vida agora era aqui e era para este país “cheio de maresia e de História” que tinha que trazer os “seus” casais. E traz, muitos. Os casamentos que realiza com casais europeus têm 100 ou 150 pessoas, “mas os casais russos por vezes trazem apenas dez pessoas, ou cinco, ou então vêm mesmo só os dois”.

O casamento que lhe valeu este ano o prémio de Melhor Conceito teve 70 pessoas, ela italiana, ele inglês. “Surfar. Comer. Dormir. Repete”, é o lema do casal que Viktoria conseguiu transformar num casamento como a Praia das Cabanas Velhas, no Algarve, nunca tinha visto.

Ana e Richard conheceram-se na praia, na Tailândia, e têm viajado por todo o mundo à procura das melhores praias. Entre Itália e o Reino Unido fica um dos seus locais preferidos, Portugal. Vivem ambos na vila onde se casaram, ensinam surf e ensinam também, aos locais mais desatentos, a importância do ambiente. É tal a dedicação que foi por pouco que não ofereceram, como recordação do casamento, saquinhos para que os convidados fossem apanhando lixo da praia durante os dias que ficassem com eles na Praia das Cabanas Velhas.

“Quais são os vossos medos?”

O processo de conhecer um casal é meticuloso e é aquilo que vai definir o sucesso ou o fracasso do dia mais importante da vida daquelas duas pessoas. Como a maioria dos casais estão no estrangeiro, Viktoria envia sempre questionários muito completos, que os casais devem responder da forma mais sincera possível. “Quais são os vossos principais medos?”, “Têm flores de que não gostam?”, “Como foi e onde foi o pedido de casamento?”, “Como se conheceram?”, “O que vos enerva?”, são algumas das perguntas que ajudam Vikoria a entender o seu ponto de partida. “O segundo passo é marcar encontros pelo Skype, falar de Portugal e das expectativas dos noivos, depois passamos para a comida e para as localizações”, conta Viktoria.

Sempre que é possível, os noivos encontram-se com ela, alguns até viajam só para acompanharem algumas das decisões mais importantes e voltam depois para os seus países, sendo que a Rússia é o que fica mais longe e também aquele de onde mais casais voam para visitar Viktoria. “O que faz um casamento são os detalhes, por exemplo no casamento na praia, que recebeu o prémio, foi a noiva que desenhou os convites porque ela é designer, não usamos flores porque eles são contra utilizar flores como decoração e o bolo dela foi um brownie enorme com uma espécie de molho de frutas, receita da melhor amiga, era meio tosco, não era muito bonito, mas é a sobremesa preferida da noiva”. Os cuidados, muitas vezes, — e é assim que é suposto — nunca se veem do lado de fora.

Misha e Sasha, um casamento que venceu a categoria Melhor Conceito, o ano passado. A cerimónia aconteceu numa arriba na Ericeira. Thecablook Photolab

Os convidados ignoraram por exemplo que, num casamento realizado na Ilha da Madeira, as flores andaram para trás e para a frente de avião, no meio de uma tempestade até poucas horas antes do casamento e que foi Viktoria, a estilista e a equipa de fotografia e vídeo que andaram a fazer os arranjos de mesa.

“Há uns anos correu tudo muito mal na minha vida neste campo e organizar casamentos foi a forma que eu encontrei de me voltar a emocionar. Faço isto porque estou rodeada de paixão todos os dias e acho que através dos noivos participo na sua paixão e isso contagia-me. Dá-me força para construir os meus próprios momentos felizes”, diz Viktoria.

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