Investir em ações. O indicador bolsista mais popular rendeu 47% em 3 anos

10 Novembro 2017

A carteira que elegemos há um ano ganhou mais de 11%. Conheça as novas ações que recomendamos para 2018. Só precisa de cinco minutos para replicar a estratégia mais simples de bolsa.

Investir na bolsa não tem de ser complicado. Desde há três anos que publicamos, anualmente, uma carteira de ações construída com base no indicador bolsista mais popular, o rácio preço-lucros. Para a replicar, é apenas necessário dinheiro para comprar os títulos e cinco minutos para os descobrir através da ferramenta de pesquisa do Financial Times, como explicamos mais à frente.

Estas foram as rentabilidades alcançadas até agora:

Nestes três anos, esta estratégia simples de seleção de ações acumulou um ganho de 47,57%, incluindo o reinvestimento dos dividendos recebidos. Embora os mercados acionistas tenham estado em alta, esta tática bateu os principais índices de bolsa. O índice MSCI World, que representa as ações dos mercados desenvolvidos, ganhou 34,60%, enquanto o português PSI 20 rendeu 13,65% nos três anos. Bateu, também, nove em cada dez fundos de investimento em ações comercializados em Portugal.

A Fibria Celulose, a maior produtora de celulose branqueada de eucalipto, e o UniCredit, o maior banco italiano, destacaram-se pela positiva neste último ano: as suas ações renderam mais de 60%. Os títulos da Endo International, uma companhia farmacêutica, tiveram o pior desempenho ao perderem 62,43%.

Quatro em dez com perdas
A carteira recomendada há cerca de um ano rendeu 11,52%, assumindo o investimento do mesmo montante em cada uma das dez ações. O índice de ações mundiais MSCI World rendeu 10,04% no mesmo período.
Empresa Rácio preço-lucros Rentabilidade Bolsa
23/11/2016 10/11/2017 23/11/2016 a 10/11/2017
General Motors 3,87 9,11 19,00% Nova Iorque
3i Group 3,92 5,92 40,65% Londres
American Airlines 4,95 11,80 -9,70% Nasdaq
Fibria Celulose 5,45 38,44 60,60% Nova Iorque
UniCredit 6,32 negativo 68,62% Milão
Endo International 6,58 negativo -62,43% Nasdaq
Merlin Properties 6,75 6,34 18,96% Madrid
Navient 7,17 6,63 -35,37% Nasdaq
Magna International 8,05 9,64 19,13% Nova Iorque
Sabesp 8,25 7,92 -3,87% Nova Iorque
Fonte: Bloomberg, Financial Times. Rentabilidade em euros incluindo reinvestimento dos dividendos.

Que indicador bolsista é este?

Foi Benjamin Graham, o primeiro guru de bolsa, em conjunto com David Dodd, seu colega na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, quem lançou o rácio preço-lucros (P/L) como informação fundamental para os investidores. No livro que publicaram em 1934, “Security Analysis”, os professores indicaram que um rácio de 16 “é o máximo que pode ser pago na compra de um investimento em ações”. Em 1949, no livro “The Intelligent Investor”, Graham calculou um indicador justo de 8,5 para as ações de uma empresa que não consiga crescer.

O rácio preço-lucros (também conhecido por price-earnings ratio, PER ou P/E) resulta da divisão da cotação da ação pelos lucros que lhe são atribuídos em um ano. Pode ser calculados dividindo o preço pelos resultados líquidos por ação ou dividindo o valor de mercado da empresa (número de ações multiplicadas pelo preço, também conhecido por capitalização bolsista) pelos lucros totais.

O rácio indica ao investidor que compre ações hoje quantos anos demoraria a recuperar o investimento assumindo que a empresa manteria os lucros anualmente e que os distribuiria integralmente como dividendos aos acionistas. Por isso, em princípio, quanto mais baixo o rácio P/L, mais barata está a ação. Não se desejam indicadores negativos, porque refletem prejuízos em vez de lucros.

Usar unicamente o P/L pode ser redutor, porque um só indicador não abrange toda a realidade da empresa. Ignora, por exemplo, o endividamento das firmas e a experiência dos administradores. Aliás, Benjamin Graham salienta outros indicadores, como o rácio preço-valor contabilístico e o rácio de liquidez geral.

Que procurar na estratégia mais simples

O rácio P/L não é o único critério que usamos nesta estratégia simples de seleção de ações. Usando a ferramenta de pesquisa de ações do Financial Times, selecionámos uma carteira com as dez empresas com o rácio P/L mais baixo que cumpram as seguintes regras:

  1. Capitalização bolsista (“market cap”) superior a dois mil milhões de euros.
  2. Mais recomendações de compra do que de venda (“consensus forecast” de “buy” ou de “outperform”).
  3. Listagem numa das bolsas mais acessíveis aos investidores portugueses: Amesterdão, Bruxelas, Estocolmo, Frankfurt, Lisboa, Londres, Madrid, Nova Iorque, Paris e Zurique.
  4. Componente do principal índice de ações do país de origem.
  5. Uma empresa por setor económico.

Pelo quarto ano consecutivo, o 3i Group mantém-se na carteira recomendada de ações de P/L baixo. Para a Navient, é o terceiro ano.

Uma dezena de ações de P/L baixo
Cinco minutos são suficientes para encontrar estes títulos através do portal do Financial Times.
Empresa Bolsa Rácio preço-lucros Descrição
LG Display Nova Iorque 4,53 É a maior fabricante mundial de painéis de cristais líquidos.
eBay Nasdaq 5,46 É a proprietária do portal homónimo de leilões e vendas eletrónicas.
Renault Paris 5,62 Ocupa a nona posição na lista dos maiores construtores automóveis.
Kinnevik Estocolmo 5,63 Esta companhia investe em várias empresas no negócio de consumo digital.
Korea Electric Power Nova Iorque 5,63 É a maior companhia elétrica na Coreia do Sul.
Vonovia Frankfurt 5,74 Lidera o mercado imobiliário residencial na Alemanha.
3i Group Londres 6,01 É uma empresa londrina de capital de risco.
Navient Nasdaq 6,63 Esta empresa gere e recupera créditos governamentais para formação nos EUA.
Vale Nova Iorque 7,45 Lidera o mercado mundial da produção de minério de ferro e de níquel.
Goodyear Tire & Rubber Nasdaq 7,55 É o maior fabricante de pneus da América do Norte.
Fonte: Financial Times, empresas a 10 de novembro de 2017.

Cinco minutos é o suficiente para encontrar uma lista de ações de P/L baixo. No entanto, deve considerar essa lista apenas como um ponto de partida. Os investidores devem estudar as empresas antes de aplicarem o dinheiro.

Por exemplo, usando a ferramenta de pesquisa do Financial Times, encontraria a e.On, uma companhia energética alemã, com um P/L de 2,59. Todavia, outros fornecedores de informação bolsista discordariam: a Bloomberg apontaria para um P/L de 147,29 e a MSN Money de 52,08. Qual a diferença? Estes portais aplicam regras díspares na contabilização do impacto nos lucros dos negócios descontinuados e dos efeitos não operacionais (como os gastos em reestruturações e ganhos com derivados). No caso da e.On concluímos que o P/L do Financial Times (que é calculado pela Thomson Reuters) não era o mais indicado para os investidores.

Apenas o estudo das empresas dá a confiança aos investidores para aguentarem os altos e os baixos da bolsa. Uma carteira composta por uma dezena de ações de setores diversos é muito volátil, como se pode ver na figura em baixo.

Janeiro de 2016 foi o pior mês: as ações de baixo P/L perderam 11,2% com os receios de abrandamento económico na China, apesar de o índice de ações mundiais ter perdido 5,8%. Novembro de 2016 foi o melhor mês: a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA levou a um ganho de 15,6% na carteira de P/L baixo, mais do que o triplo do índice MSCI World.

Aguentaria esta volatilidade se fosse a sua carteira de títulos?

David Almas é analista financeiro independente registado na CMVM com o número oito. O autor trabalha subordinado ao Código Deontológico dos Jornalistas.

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