Kardashians: 10 anos da família real(ity) americana

05 Outubro 2017

Começou com Kim mas agora “Keeping Up With The Kardashians” é o mais popular dos reality shows do género, vai para a 14.ª temporada e construiu um império familiar que é o zeitgeist da era mediática.

 

Se de facto já não os consegue acompanhar, como desafia o nome do programa (“Keeping Up With the Kardashians”), é natural: faz este mês dez anos que foi para o ar o primeiro episódio da primeira temporada do reality show familiar mais longo da história da televisão e isso significa que já aconteceu mesmo muita coisa – pelo menos no que diz respeito a este clã em particular.

Em dez anos, uma data que foi assinalada pelo canal E! com um especial de aniversário, e 13 temporadas – a 14.ª estreia este fim-de-semana nos EUA –, o difícil é acreditar que os Kardashian são protagonistas de reality TV e não de uma novela mexicana: há casamentos e divórcios (incluindo um casamento que só durou 72 horas, entre Kim Kardashian e Kris Humphries), seis nascimentos, uma irmã que namorou com o ex-marido da namorada do irmão, depressões, overdoses, uma piscina por cada casa, sete carros por pessoa, aviões privados, viagens paradisíacas, sessões fotográficas sem roupa, negócios estrondosos, assaltos à mão armada e até uma mudança de sexo.

Para fazer o teste ao impacto da década de reinado desta Família Real (por ser verdadeira, no caso) basta começar a escrever alguma coisa com “K” num motor de pesquisa. Se o algoritmo não sugerir Kardashian, vai logo directo para a sugestão do primeiro nome de uma das mulheres da família, até porque o “The Power of K” (“O poder do K”, um dos slogans da série) tem relação directa com um certo espírito de matriarcado vigente: Kris, a “momager”, que é a mãe e manager de todos; Kim, a grande estrela, aquela que lucrou mais de 45 milhões de dólares só em 2016; Kourtney, a irmã mais velha; Khloé, a mais desbocada; Kendall, a supermodelo; e Kylie, a benjamim que aos 19 anos já geria um império da maquilhagem.

“Quando tomei esta decisão, achava apenas que a minha vida era interessante… se as pessoas imaginassem as loucuras que aconteciam na nossa casa iam de certeza achar engraçado”, contou Kim no especial do 10.º aniversário, a recordar os tempos que antecederam aquele Outubro da estreia em 2007. “Quando nos vendeu a ideia, ela nunca deu a entender que podia durar tanto”, acrescentou Kendall, meio a brincar, meio a falar a sério.

Claro que nenhum membro da família Kardashian podia adivinhar esta longevidade em directo, qual “Brady Bunch” da realidade moderna americana. Mas pelo menos Kim tem ideia de quando quer que acabe: “Adoro partilhar a minha vida. E espero que isto continue enquanto der para continuar.” Já lá vão dez anos e, até ver, a popularidade Kardashian garante mais de 408 milhões de seguidores – e isto somando apenas as contas de Instagram das cinco irmãs.

No princípio era Kim (e ainda é)

Hoje é difícil imaginar um tempo em que não se sabia quem era Kim Kardashian, em que o nome próprio dela não era sinónimo de um tipo de volume e curvatura na parte de trás do corpo, em que ela não era a rainha das selfies e não era uma das metades de um dos casais mais poderosos do mundo, ao lado de Kanye West. Mas em 2007 o mundo era assim – pode ter sido ela que iniciou o império televisivo das Kardashian, mas quase ninguém a conhecia.

Kim era conhecida apenas por ser colega de escola e amiga de Paris Hilton, ela sim estrela de reality TV, ao lado da também amiga Nicole Richie, no há muito esquecido programa The Simple Life. Aparecia nas festas, era uma socialite, a família já tinha muito dinheiro – Robert Kardashian, o pai, que morreu em 2003, era um advogado de topo, que se tornou mais conhecido por defender O.J. Simpson no julgamento por homicídio –, mas era só isso. Pelo menos até surgir a sex tape.

Um vídeo de Kim Kardashian e de Ray J, o seu namorado na altura, apareceu na internet e não se falava de outra coisa. A família tentou reagir, processar alguém, retirar as imagens, mas já não havia nada a fazer. A fama abriu uma porta e Kim Kardashian entrou e levou a família toda com ela. Ainda hoje, há quem diga que a sex tape foi pensada ao pormenor: “Foi a mãe de Kim, Kris, que orquestrou tudo, incluindo os bastidores da gravação, e foi ela que garantiu que o vídeo se tornava público”, são as declarações de uma fonte anónima do livro “Kardashian Dynasty”, de Ian Halperin, também ele já alvo de um processo.

A família sempre negou as acusações e agora isso já aconteceu há dez anos e a importância da origem esbateu-se com o tempo. Depois, Ryan Seacrest, produtor e apresentador do canal E!, que andava à procura de uma nova versão dos Osbournes, fez a proposta para o reality show com a família e o resto é história. A verdade que ninguém questiona é que Kim não foi a primeira a tornar-se famosa por causa de um vídeo do género, mas é aquela que melhor transformou a adversidade em oportunidade e que construiu o seu império em cima e muito além disso.

“Keeping Up With The Kardashians” tem sido um reflexo – e uma montra – da psique moderna, que se disseca em directo e e se mistura discretamente com entretenimento, um verdadeiro símbolo do nosso zeitgeist suportado por uma resistência psicológica de grupo que é rara em qualquer núcleo e que se deixa usar como uma espécie de escape colectivo.

Dos que a acusam de ser famosa apenas por aparecer nua aos que a vêem como um génio da gestão de imagem – estamos sempre a vê-la, mas só vemos dela o que ela quer que se veja –, dos que a julgam pela futilidade aos que lhe elogiam a inteligência para os negócios – tem linhas de roupa, tem jogos, cobra balúrdios por publicidade nas suas redes sociais, inventou a vaga de emojis dos famosos (kimojis) e até transformou a obsessão das selfies num gesto artístico com o livro “Selfish” –, dos que a crucificam por tolher o empoderamento das mulheres aos que a adoram pelo desafio aos padrões de beleza e por mostrar que cada mulher pode fazer o que quiser com o seu corpo, parece existir uma Kim Kardashian à medida de cada pessoa.

“O sucesso dela não pode ter a ver apenas com as selfies, com a nudez ou com as conversas que gera diariamente na vida real e online, desde o questionamento feminista ao constante e agressivo slut-shaming. Não é ‘apenas’ coisa nenhuma. A fama dela, dentro do contexto da própria fama, é completamente nova. Tem várias origens e é extremamente complexa, e é tanto dela como nossa. Porquê? Porque, ame-se ou odeie-se, nunca nos cansamos dela. Ou não nos cansamos de mostrar aos outros que estamos cansados dela. É uma pescadinha de rabo na boca”, explicou Eleanor Morgan, analista do “The Guardian”.

As coisas que as Kardashian já fizeram pelo mundo

Não se pode exigir que uma família que passou os últimos dez anos a expor toda a sua intimidade na televisão esteja nisto para transformar o mundo, mas lá à sua maneira – e à sua escala – este clã até tem feito algumas coisas. A primeira de todas, e a mais óbvia, é que “Keeping Up With The Kardashians” tem sido um reflexo – e uma montra – da psique moderna, que se disseca em directo e e se mistura discretamente com entretenimento, um verdadeiro símbolo do nosso zeitgeist suportado por uma resistência psicológica de grupo que é rara em qualquer núcleo e que se deixa usar como uma espécie de escape colectivo. Mas há mais.

Esse mais implica, antes de tudo, perceber que o clã Kardashian não é apenas Kardashian, e que vai além das cinco irmãs já referidas e da “momager” Kris. As duas filhas mais novas, Kendall e Kylie, que começaram a série com cerca de dez anos, são Kardashian-Jenner, ou seja, são filhas de Caitlyn Jenner (que, antes de fazer a transição para outro género, se chamava Bruce Jenner, ex-campeão olímpico americano e ex-marido de Kris, que também ainda usa o apelido Jenner).

Pode parecer confuso, mas a normalização dessa confusão é um dos grandes méritos da família Kardashian. Quando Bruce decidiu mudar de sexo, houve um compreensível período de choque, reacções difíceis, confrontos interiores e exteriores, declarações de luto, mas todos permitiram que isso acontecesse em frente das câmaras, e isso teve um impacto real no debate público sobre questões transgénero.

Esta disponibilidade para viver em público aquilo que seria naturalmente do domínio do privado já levou os Kardashian a abrirem caminho para vários debates, e debates que são tidos perante uma audiência de consumo mass media, mesmo que nem todos tão profundos como a transição de Bruce para Caitlyn: o já referido desafio aos estereótipos de beleza; problemas de fertilidade e gravidezes de risco, que afectaram Kim e não foram camuflados; as relações inter-raciais; a exposição do genocídio da Arménia, pouco debatido e que interessa à família pelas origens de Robert Kardashian; a depressão que tem afectado Rob, o único irmão, ao longo de várias temporadas televisivas e que nunca se escondeu; e até o alargar de fronteiras em relação ao que pode ser o alcance do amor “familiar”, que se tem estendido dos laços biológicos para ex-namorados e ex-maridos, como aconteceu quando Lamar Odom (estrela da NBA e ex-marido de Khloé) teve uma overdose num bordel, esteve em coma, e todos os Kardashian se uniram para o ajudar na recuperação.

Pode-se dizer que ambas as Kardashian-Jenner são já as primeiras herdeiras do império construído ao longo de dez anos, um organismo vivo que parece estar em expansão permanente e que não pára de gerar novos produtos.

“Os Kardashian ensinaram-nos que qualquer experiência pode ser oferecida para consumo. Mas também nos ensinaram que essas experiências nos podem oferecer algo de autêntico, e por vezes com significado, sobre a forma como as pessoas interagem, pensam e sentem na era do capitalismo tardio”, escreveu a revista “New Yorker” recentemente, lembrando que estamos a falar de estrelas de reality TV que vivem num país comandado por uma estrela de reality TV, o que não é de somenos.

Linha de sucessão: já há herdeiros

Kylie e Kendall começaram a aparecer no programa numa fase da vida em que as suas linhas narrativas passavam por fazer partidas às irmãs mais velhas ou tentar esconder da mãe que tinham posto uma nódoa de tomate no tapete (caríssimo) da sala. Agora são adultas – Kendall é a super-modelo, que faz campanhas para marcas como a La Perla, desfiles da Victoria’s Secret e aparece cada vez menos em “Keeping Up With The Kardashians”, até por ter sido sempre a mais tímida e a mais ciosa da sua vida privada, da qual se sabe muito pouco; e Kylie é aquela que se apresenta cada vez mais como a sucessora natural de Kim, a usar as redes sociais para chegar aos novos consumidores (Instamodel será o termo correcto), gestora de uma linha de maquilhagem própria que gerou quase à partida meio milhão de dólares, com namoros muito públicos e um recente rumor de gravidez.

Pode-se dizer que ambas as Kardashian-Jenner são já as primeiras herdeiras do império construído ao longo de dez anos, um organismo vivo que parece estar em expansão permanente e que não pára de gerar novos produtos. Depois delas, as irmãs pequenas que entretanto cresceram, há já os herdeiros seguintes, aqueles que são ditados pelas lógicas da sucessão clássica: os filhos, também eles a crescer há alguns anos à frente das câmaras.

Kourtney, a irmã mais velha, tem três filhos com Scott Disick, que é também personagem do núcleo duro da série apesar de já estarem divorciados: Mason, Penelope e Reign. Kim e Kanye West estão a caminho do terceiro, mas já têm North e Saint. E Rob Kardashian, o irmão, teve recentemente uma filha com Blac Chyna, de quem já se separou – Dream, que é a única da terceira geração com o nome Kardashian no apelido. São eles que podem, se for possível cumprir o desígnio de Kim, garantir fios narrativos para o futuro.

Mas as ramificações Kardashian não existem apenas no sentido mais clássico. Outros filhos têm sido gerados, já para não falar das inúmeras marcas – Dash, Good American, Lip Kit, Arthur George, entre outras. Existe, claro, também alguma descendência televisiva, sob a forma de diversos spin off. O mais recente, dúvidas houvesse sobre quem está a seguir as pegadas de Kim, é “Life of Kylie”, que mostra os bastidores da vida da mais nova do clã. Mas antes houve “Revenge Body”, o culminar da conversão de Khloé Kardashian em referência do universo fitness; “Rob & Chyna”, sobre a explosiva relação do rapaz da família; “I Am Cait”, com Caitlyn Jenner, que marcou também um afastamento do antigo padrasto e pai de Kendall e Kylie do núcleo de “Keeping Up With The Kardashians”; E antes disso, muito antes disso, os vários desdobramentos de Kim, Khloé e Kourtney por pequenas aventuras em diferentes cidades, como foi o caso de “Kourtney & Khloé Take Miami” ou “Kourtney & Kim Take New York”.

Se a fórmula está a resultar tão bem há dez anos, é possível que a linha de sucessão esteja garantida e que ainda seja preciso mais algum fôlego para continuar a acompanhar o fenómeno Kardashian.

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