Manuel Cajuda. “Lembro-me de ir de calção com o meu pai ao estádio”

05 Maio 2017190

Na semana em que o Torreense faz 100 anos, o Questões do Forno Interno tem de escrever um email para a China. De lá, Manuel Cajuda responde-nos com pompa e circunstância. Como é seu timbre.

Adivinhe lá quem é este personagem. Estreia-se como treinador de 1.ª divisão em março 1984, com tão-só 32 anos, roda quatro clubes algarvios de gabarito em seis anos (Farense, Portimonense, Olhanense, Louletano), sobe a U. Leiria à 1.ª em 1994, acaba no top 6 da 1.ª em duas épocas seguidas por clubes de classe média (U. Leiria 2003, Marítimo 2004), elimina o Porto da Taça de Portugal em pleno Estádio das Antas ao serviço do Braga e sobe o Vitória SC à 1.ª em 2007 antes de roubar o último lugar da Liga dos Campeões ao Benfica no ano seguinte. Ufff.

Calma, há mais, muito mais. É o último treinador do Torreense na 1.ª, em 1991-92. Como o Torreense inicia a semana com a festa do centenário (1 Maio 1917), apresentamos Manuel Ventura Cajuda de Sousa, no alto dos seus 65 anos. Na última entrevista, em 2011, Cajuda leva um gravador para a sala. “Também levo sempre um gravador para os jogos para ir comentando. É uma coisa que me dá prazer e ajuda. Tal como me dá prazer estar a gravar esta entrevista. Se vocês quiserem, depois dou-vos uma cópia. Ouço e faço a revisão. Se calhar, algumas coisas não devia ter dito.” É um personagem sem igual. E é o líder isolado da terceira divisão chinesa, só com vitórias. É verdade, o homem está agora na China, onde o mais recente reforço internacional (Diego Costa) vai ganhar qualquer coisa como um euro por segundo. E responde-nos às perguntas por email. Sem gravador. Dizemos nós.

Do que se lembra da sua estreia como treinador?
Da alegria, da surpresa total. Nunca antes, nem por um minuto sequer, tinha sonhado ou desejado ser treinador. Fui treinador sem “o querer” e sem “crer”. Perguntei apenas “porquê, porque me escolheram?” E a resposta fez-me simplesmente estudar. Foi fascinante ter 31/32 anos e ouvir de um grande empresário da hotelaria chamado Fernando Barata dizer que eu era um líder. O resto constrói-se com o tempo.

Que tal o resultado?
Como se diz na tauromaquia, auspiciosa, fabulosa. Perdi 7-1 [Porto, nas Antas, com 1-1 aos nove minutos e Ferenc Meszaros à baliza mais Jorge Jesus a ponta-de-lança].

Quantos treinos por semana? E quantos adjuntos?
Nessa altura, em 1983-84, seis/sete treinos por semana. Às vezes, oito até. Faziam-se já muitos bi-diários. Poucas vezes se treinava ao sábado. Agora uma coisa; os treinos não tinham a mesma “legalização mais científica” de agora e a metodologia, digamos, era um pouco abstrata. E estou a ser simpático. Adjuntos? Como se diz agora, era o fim do treinador unipessoal e começaram a aparecer os primeiros adjuntos. Eu fui deles.

De quem?
Hristo Mladenov, um senhor búlgaro com muita classe que não resistiu aos resultados [antes de entrar Cajuda, o Farense perde 7-2 em casa vs Benfica]. Ele saiu e continuou a ajudar-me a trabalhar. Ia todos os dias ao balneário para falar comigo, ajudar-me e orientar-me.

Como era viajar para o Norte desde Faro?
Uma verdadeira excursão ahahahaha. Poucas auto-estradas para aqueles autocarros modernos daquele tempo ahahah. De Faro a Chaves, era um verdadeiro “cruzeiro terrestre”. O melhor é imaginarem mesmo.

Lembro-me de ir ao estádio de calção com o meu pai. E havia poucos jogos na televisão. Lembro-me das quartas-feiras europeias. Havia sempre o aviso de “Estamos a tentar fazer a transmissão do jogo” e à última hora conseguiam. Ou não. Às vezes, esperávamos minutos infinitos em frente à televisão e então ouvíamos aquela música “tã, tã, tãrã, rã, rã, rãrã”. Era uma alegria, “vai dar o jogo, vai dar o jogo”.

Onde é que estava no 25 de Abril?
No serviço Militar em Lanceiros 2, na Polícia Militar. No dia 25 de Abril, felizmente, estava no Largo do Carmo. Uma curiosidade, soube do 25 de Abril no dia 24 de manhã. E esta hein?!

Era mais fácil liderar na tropa ou no futebol?
Diferentes. Mas foi bom o que levei da tropa para o futebol. Uma vez, na tropa, ia a andar tranquilo da vida e o meu capitão apanha-me de surpresa com um tiro nas costas. Um tiro de pólvora seca. Ele tratava-me por Sousa. ‘Ò Sousa, se isto fosse em Angola, já estavas morto.’ Dá que pensar. Na tropa, treinávamos humanos para ir para a guerra. No futebol, treinávamos humanos para vencer as “guerras”. Uma condição era denominador comum: ambos eram humanos e não era fácil treinar homens que não sabiam se iam sobreviver ou morrer. Desde aí, sempre fui o primeiro defensor da humanização do treino.

Ia ao estádio como adepto em criança?
Um passeio encantador que as crianças de agora vão perdendo e só por culpa dos adultos. Saudades. Lembro-me de ir de calção com o meu pai. E havia poucos jogos na televisão. Lembro-me das quartas-feiras europeias. Havia sempre o aviso de “estamos a tentar fazer a transmissão do jogo” e à última hora conseguiam. Ou não. Às vezes, esperávamos minutos infinitos em frente à televisão e então ouvíamos aquela música “tã, tã, tãrã, rã, rã, rãrã”. Era uma alegria, “vai dar o jogo, vai dar o jogo”.

Como viveu aquela eliminatória europeia de acesso à Liga dos Campeões pelo Vitória?
Com a tranquilidade de quem sabe o que faz e que fez o que tinha de ser feito. Depois fiquei com pena de não me deixarem fazer o que faltava fazer.

O quê?
Lutar pelo título de campeão nacional.

Nós não descemos, fomos empurrados. E foi o dia em que a AF Porto ficou com mais um clube na 1.ª divisão e ficou mais forte. E como tinham força as Associações nesse tempo. Também ainda não percebi, passados estes anos todos, porque é que um senhor dirigente de um grande clube pediu desculpas públicas ao povo de Torres Vedras.

Como foi a experiência da 1ª divisão pelo Torreense?
Momento divino que só Deus sabe como foi. E foi Deus quem me deu luz. Um dia destes, conto essa minha realidade. Torres Vedras é, para mim, um santuário. Gente maravilhosa.

Qual é o sentimento de um treinador de uma equipa que desce depois de golear Famalicão (6-1) e Estoril (8-1)?
Apenas gosto de recordar o 8-1 que ainda é, ao que parece, a maior goleada do futebol português de então até hoje.

Qual é o sentimento de um treinador de uma equipa que desce depois de empatar FCP (0-0 no Manuel Marques) e SLB (0-0 na Luz)?
Nós não descemos, fomos empurrados. E foi o dia em que a AF Porto ficou com mais um clube na 1.ª divisão e ficou mais forte. E como tinham força as Associações nesse tempo. Também ainda não percebi, passados estes anos todos, porque é que um senhor dirigente de um grande clube pediu desculpas públicas ao povo de Torres Vedras.

Como viveu os últimos 90 minutos desse campeonato: Marítimo-Torreense e Benfica-Salgueiros?
Um sentimento próprio de dizer que grande sou eu. E depois foi só continuar, com realismo e a sentir na pele a impotência para lutar contra a mentira.

Qual o efeito do comboio do golo no Manuel Marques?
A verdade é que muitas vezes o comboio passava e acontecia o golo. Outras era golo e o comboio passava. Vi isso várias vezes. Curiosidades que o povo consolidou.

Nos Emiratos, cumpria o Ramadão?
Sim, fiz o Ramadão. O que mais me custava era não fumar, e não fumava mesmo. E os medicamentos que tinha de tomar, tomava-os sem beber água. E gostei. Aprendi muito. Fumava que nem um desalmado e hoje não fumo, acabei com o tabaco. Um dia, pus o maço de tabaco em cima da mesa e disse “até amanhã”. E de manhã dizia “bom dia”. Mas dizia mesmo. Se consegui fazer o Ramadão, também ia conseguir deixar de fumar.

Que lições se retira daí?
A cultura é como o futebol: não basta teorizar, é preciso pôr em prática, senão somos simplesmente uns colecionadores de diplomas. E a minha religião não perdeu nada por isso, até ganhou. Eu, pelo menos, ganhei.

Como era o Cajuda-jogador?
Tinha uma cabeleira enorme para desgosto do meu pai. Na década de 60, em que apareceram os Beatles, quem já tinha um pouco de cabelo por cima da orelha, já era muito complicado para os pais. E eu tinha o cabelo muito grande. Pelo meio das costas.

Qual o seu melhor golo como jogador?
Um golo fantasma, ahahaha. Num canto a favor, levei uma bolada na “tromba”, como se costuma dizer, e em cima do risco da grande área. A bola foi para a baliza, os outros festejaram o golo e eu fiquei a suportar a dor da bolada no nariz, ahahahaha.

Amigo, acha mesmo que eu iria ver futebol às 4.30 da manha? Isso é para treinadores que dizem viver o futebol 24 horas por dia. Eu, felizmente, durmo oito horas por dia. O futebol nunca me tirou o sono. Quem é organizado, tem tempo para tudo. Com as novas tecnologias, interessa-me ver os melhores jogos do mundo e, por vezes, lá aparece um português. Acompanho mais o futebol português por aquilo que vocês escrevem e dizem e... e... muitas vezes arrependo-me de ter aprendido a ler.

Como é que acompanha o futebol português com esta diferença horária?
Amigo, acha mesmo que eu iria ver futebol às 4.30 da manhã? Isso é para treinadores que dizem viver o futebol 24 horas por dia. Eu, felizmente, durmo oito horas por dia. O futebol nunca me tirou o sono. Quem é organizado, tem tempo para tudo. Com as novas tecnologias, interessa-me ver os melhores jogos do mundo e, por vezes, lá aparece um português. Acompanho mais o futebol português por aquilo que vocês escrevem e dizem e… e… muitas vezes arrependo-me de ter aprendido a ler.

Qual a expectativa do Manuel Cajuda para 2017 ao leme do Sichuan?
A normal expectativa de qualquer treinador normal. Seja qual for a dimensão do projeto, todos desejamos fazer o nosso trabalho da melhor forma. Sabemos todos que os resultados acabam sempre por dar uma dimensão diferente ao trabalho realizado. Continuo a ser coerente. Para mim, o fazer e sentir crescer de uma filosofia é muito mais importante que qualquer resultado. O resultado nunca será o mais importante para mim. Acredito que o fazer evoluir uma ideia, o seu melhoramento constante, o vencer as adversidades que nos visitam o dia-a-dia, acabam sempre por nos obrigar a ter melhores resultados. Afinal quem joga melhor ganha sempre mais vezes.

Qual é a matéria-prima do Sichuan (jogadores da formação, reforços estrangeiros)?
Todos os clubes pequenos (e ainda bem) obrigam-nos a trabalhar melhor e muito mais. Esta será talvez uma lição de vida que muitos teimam em não querer aprender. Não tenho jogadores estrangeiros. Tenho jogadores a quem tenho que aplicar todos os meus conhecimentos para que eles sejam melhores. Se não verificar evolução neles, nunca o meu trabalho será bom. Fui o escolhido para os ensinar e isso é fantástico.

Quais são os rituais do clube e dos jogadores do Sichuan? (há diferenças em relação a Portugal)
Parabéns pela pergunta. Quando digo que a escolha de uma ideia de jogo, de um “modelo de Jogo”, também tem a ver com a religião, a cultura e até as crenças e rituais. Muitos nunca conseguem entender esse detalhe maiúsculo. No fundo, o conhecimento só será válido se o conseguirmos aplicar. Claro que diferentes culturas têm diferentes rituais e se é verdade que o futebol é um desporto universal, convém sempre recordar que o homem é mais universal que o futebol. Já tive de parar treinos para orações, perder e sorrir porque o budismo diz que será melhor na próxima vez. Já tive um jogo em que não falei com os jogadores ao intervalo porque eles tinham de rezar e ainda jogaram melhor na segunda parte do que na primeira. Ainda bem que não falei para não estragar o que estava bem ahahahah.

Como é viver em Dujiangyan?
Acima de tudo, é interessante viver numa cidade pequena com um milhão e oitocentos mil habitantes, que é onde fica o nosso centro de estágio. Na nossa cidade (Chengdu), com cerca de 23 milhões, acho que na verdade nem daqui a 100 anos vou conseguir explicar. Mas se eles vivem, porque não viverei eu também? Coisas da vida ahahaha. Perguntem-me isso daqui por 100 anos.

Qual é o ruído das contratações megalómanas da 1.ª divisão chinesa?
Assustadoramente, direi normal. O futebol, infelizmente, é cada vez mais um negócio. Ora os chineses são mestres na arte de negociar. Como se costuma dizer, “eles compram tudo”, especialmente o que faz mover e ganhar dinheiro. Portanto, só os distraídos podem achar anormal.

O povo chinês é um apaixonado pelo futebol?
O desporto chinês é quase sempre um dos mais medalhados nos Jogos Olímpicos. É frequente ver até os mais idosos a fazer ginástica nas ruas. O futebol será sempre o desporto de massas e aqui, com um bilião e trezentos milhões de habitantes, o que é que se pode dizer? Se 5% gostarem de futebol, já são muitos mais que os fanáticos todos de Portugal.

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