Mário de Sá-Carneiro, o poeta que os deuses amaram

25 Abril 20162.352

Começou a escrever ainda em pequeno, publicou o primeiro livro em 1912 e o último em 1915. Entre eles, criou dezenas de poemas, novelas e um romance. E fez "Orpheu". Sá-Carneiro morreu há 100 anos.

Desde a sua morte, a 26 de abril de 1916, que a sombra do suicida paira sobre a figura de Mário de Sá-Carneiro, o autor, assombrando a sua obra e transformando-a numa espécie de “autobiografia em verso”, como lhe chamou Giorgio di Marchis. Ao longo dos anos, foram muitos aqueles que, “enganados” pelo aparente confessionalismo dos seus versos, tentaram encontrar na sua obra uma justificação para a sua vida, e na sua vida uma justificação para a sua morte.

Mas Mário de Sá-Carneiro foi muito mais. Nascido em 1890, em Lisboa, passou grande parte da vida em Paris, onde contactou com os grandes artistas do seu tempo. Assistiu à maior revolução artística do seu século — a Vanguarda –, algumas vezes com um grande ceticismo, outras com entusiasmo. O relato dessa aventura está nas cartas que trocou com Fernando Pessoa, escritor, “irmão de Alma”. Com ele fundou em 1915 a revista Orpheu, um dos mais importantes acontecimentos literários do século XX em Portugal.

Foi apelidado de “maluquinho”, escreveu poesia, prosa, teatro, sem nunca parar. Porque ele tinha “um sentido de obra relativamente grande”, como explicou ao Observador o investigador Ricardo Vasconcelos. “Levava aquilo de uma ponta à outra e desenvolvia as obras com grande coerência. Tinha muito mais esse sentido de obra e de conclusão”, muito mais do que Fernando Pessoa, para quem a literatura era sempre um work in progress.

Em vida, editou vários livros de contos, novelas, um romance e uma plaquette de poesia sem igual — Dispersão. Por editar ficaram outras tantas dezenas de poemas. Quando morreu tinha apenas 25 anos. A sua obra influenciou a geração da Presença e muitos outros escritores que lhe seguiram, que encontraram nos seus textos uma linguagem estranha, intrigante, mas ao mesmo tempo fascinante. O professor e especialista na obra do poeta, Fernando Cabral Martins, não tem dúvidas: “Mário de Sá-Carneiro ajudou a mudar a literatura portuguesa“.

Mário de Sá-Carneiro foi batizado na antiga Igreja de S. Julião, na Praça do Município, onde fica atualmente o Museu do Dinheiro. O padrinho foi o avô paterno, José Paulino

Um breve e tempestuoso inverno

Mário de Sá-Carneiro nasceu a 19 de maio de 1890, no terceiro andar do número 93 da Rua da Conceição, em Lisboa. Apesar de curta (morreu aos 25 anos), a sua vida foi de tal modo intensa que um dos seus intérpretes, M. Antunes, chegou a descrevê-la como “um dia breve e tempestuoso de inverno”.

Na memória dos portugueses, estava ainda fresco o ultimatum inglês que, a 11 de janeiro desse ano, obrigou à retirada das tropas chefiadas pelo Major Serpa Pinto dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique — a gota de água que, anos depois, levaria à queda da monarquia e ao início da Primeira República.

Filho de Carlos Augusto de Sá Carneiro (sem hífen) e de Águeda Maria de Sousa Peres Murinelo, Sá-Carneiro cresceu no seio de uma família abastada de militares, descendentes de cristãos novos da zona de Bragança. À semelhança do seu trisavô (que fez parte da Legião Portuguesa), do seu bisavô (que participou nas lutas liberais e que foi par do Reino) e do seu avô, também o seu pai decidiu seguir a carreira militar, depois de tirar o curso de Engenharia. A sua mãe, por outro lado, era oriunda de uma família modesta de pequenos funcionários públicos, e era filha de um famoso “criminoso” — José Leopoldo Murinelo.

De acordo com João Pinto de Figueiredo, autor de A Morte de Mário de Sá-Carneiro, José Leopoldo tornou-se conhecido depois de ter cometido um crime de abuso de confiança na Santa Casa da Misericórdia, onde trabalhava, e de ter recebido como única sanção a reforma antecipada (e o vencimento por inteiro). O caso, muito falado nos jornais da altura, fez com que um muito indignado Silva Pinto, jornalista e amigo de Cesário Verde e Camilo Castelo Branco, criasse um novo neologismo — murinelizar.

Águeda Maria morreu quando o poeta era ainda pequeno (tinha apenas dois anos), vítima de febre tifoide. Tinha 23 anos. O filho e o cocheiro da família também contraíram a doença, mas Mário de Sá-Carneiro acabaria por recuperar, como que por milagre.

A trágica morte da mãe de Sá-Carneiro acabaria por se tornar responsável pela criação de muitos dos mitos associados ao poeta. Em 1991, na introdução à edição da poesia completa de Sá-Carneiro da Europa-América, António Quadros escreveu: “O drama psicológico de Mário de Sá-Carneiro principiou sem dúvida com a morte prematura da sua mãe”. Porém, como salienta Giogio di Marchis em O Silêncio do Dândi e a Morte da Esfinge, a morte de Águeda Maria foi indiferente ao filho (provavelmente por esta ter morrido quando ele era ainda um bebé). Também a morte da avó paterna, Cacilda Vitorina, por volta de 1898, parece pouco ou nada ter impressionado o poeta.

Sá-Carneiro viu-se desde cedo rodeado apenas de figuras masculinas — o pai, com quem conviveu à distância, e o avô, José Paulino de Sá Carneiro, que vivia numa quinta em Camarate, a Quinta da Victoria, para onde o poeta foi enviado ainda em pequeno. A única presença feminina na infância de Sá-Carneiro parece ter sido a antiga governanta da quinta de Camarate, Maria Encarnação.

Um dos poemas mais antigos de Sá-Carneiro foi dedicado à Quinta da Victória. “Não veêm que nessa quinta/ Dá uma fruta tão bela?/ Seus caturras duma figa/ Sejam gratos p’ra com ela”, escreveu o poeta, então com 13 anos.

Foi na Quinta da Victoria, na companhia do avô e da ama Maria Encarnação, que Sá-Carneiro começou a escrever as primeiras linhas. Com nove anos, tinha o hábito de criar pequenas peças de teatro, que distribuía pelas criadas e pela cozinheira da mansão. “Costumava representar em cima de um pequeno poço que o pai tinha mandado tapar para ele poder brincar sem perigo”, lembrou muitos anos mais tarde Edith de Sá Carneiro, tia de Sá-Carneiro e filha do segundo casamento do avô.

Em 1900, deixou a quinta de Camarate para ingressar no antigo Liceu do Carmo (atual Escola Secundária Veiga Beirão), e é dessa altura que datam as primeiras incursões na poesia e no “jornalismo”. Em 1904, lançou O Chinó, um “jornal académico com pretensões a humorístico” que pôs à venda no quiosque do Largo do Carmo. Mas o Chinó teve vida curta. No início de 1905, o pai proibiu a venda da publicação, por esta ser demasiado “humorística” em relação a alguns professores do Liceu do Carmo.

Em 1910, em parceria com Tomás Cabreira Júnior, amigo de escola, Sá-Carneiro escreveu “o primeiro trabalho de vulto”, como lhe chamou António Quadros — a peça de teatro Amizade, que viria a ser apresentada dois anos depois pela Sociedade de Amadores Dramáticos, no Clube Estefânia.

Mário de Sá-Carneiro estudou no antigo Liceu do Carmo (atual Escola Secundária Veiga Beirão), que ficava no Largo do Carmo

Tomás Cabreira suicidou-se no ano seguinte, a 9 de janeiro, no pátio do Liceu de S. Domingos (para onde ele e Sá-Carneiro se tinham então mudado), em frente a professores e colegas. O incidente, que terá sido fruto de um amor impossível, abalou profundamente Mário de Sá-Carneiro que, alguns meses depois, escreveu o poema “A Um Suicida”, em memória do amigo:

“Foste vencido? Não sei.
Morrer não é ser vencido.
Nem tão-pouco vencer.

Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.

Foi triste, muito triste, amigo a tua sorte —
Mais triste do que a minha malaventurada.
… Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte
E há tantos como eu que não alcançam nada…”

Mário de Sá-Carneiro terminou a escola nesse ano, matriculando-se de seguida na Faculdade de Direito de Coimbra. Aborrecido com a “extrema chatice” da vida académica, não chegou nem a completar um ano. Depois de implorar “de joelhos” ao pai que o tirasse de lá, regressou a Lisboa. Mas por pouco tempo. Antes da partida para Paris, em outubro de 1912, conheceu Fernando Pessoa, então crítico literário da revista A Águia.

Sá-Carneiro abandonou Lisboa a 12 de outubro de 1912, a bordo do Sud-Express, o comboio noturno que ligava a capital portuguesa a Paris. Uma vez em França, apressou-se a escrever a Pessoa, inaugurando uma intensa troca de correspondência que duraria até ao dia da sua morte, em abril de 1916. A primeira dessas cartas, escrita no verso de um postal com uma vista dos Campos Elísios, data de 16 de outubro: “Ótimo. Por hoje apenas um grande abraço do seu muito amigo, Sá-Carneiro”.

postais-sa-carneiro

O primeiro postal enviado por Mário de Sá-Carneiro a partir de Paris, em outubro de 1912

O regresso aos boulevards

O poeta não era estranho a Paris. A primeira viagem à capital francesa aconteceu ainda em pequeno, quando tinha apenas cinco anos, na companhia do pai. Foi nessa primeira viagem que Sá-Carneiro se apaixonou pela Paris das boulevards e dos grandes teatros. Ficou de tal forma fascinado com a cidade, que o pai se viu obrigado a adiar a partida para Lisboa, para que o jovem Mário pudesse assistir aos espetáculos.

Mas, em 1912, a história era outra. Mário de Sá-Carneiro mudou-se para a capital francesa com o intuito de se matricular novamente em Direito, mas, à semelhança do que aconteceu em Coimbra, acabou por desistir do curso. Em Paris, “passeando pelos boulevards como aí pelo Rossio e a Rua do Ouro”, como descreveu a Pessoa, ia vivendo do dinheiro que lhe era enviado pelo pai e pelo avô e das vendas dos seus livros nas livrarias lisboetas, cujos lucros encarregava muitas vezes o poeta da Mensagem de recolher.

Entre 1912 e 1914, a vida de Sá-Carneiro dividiu-se entre a capital francesa, onde passava largas temporadas, e Lisboa. Depois de escrever o poema “Partida”, em fevereiro de 1914, decidiu dedicar-se mais a sério à poesia, que recomeçou a escrever “como que automaticamente”. Nesse mesmo ano, lançou o seu primeiro livro de poemas, Dispersão, revisto com a ajuda do amigo Fernando Pessoa. Foi também em 1914 que, a poucos meses da publicação de Dispersão e do romance A Confissão de Lúcio, começou a projetar com Pessoa uma nova revista, então chamada Esfinge.

Mas seria apenas no ano seguinte que o projeto se tornaria realidade, depois de uma sugestão feita por Luís de Montalvor à mesa do Café Montanha, em Lisboa. No dia 19 de fevereiro, em carta a Armando Côrtes-Rodrigues, Fernando Pessoa fez o anúncio:Vai entrar imediatamente no prelo a nossa revista, Orpheu“.

A aventura modernista

Ao fim de vários meses de intenso trabalho e planeamento, o Orpheu saiu finalmente à rua. E o escândalo não tardou em chegar. Poucos dias depois da publicação, saiu no diário A Capital o artigo “Literatura de manicómio”. Aí, foram citados Júlio Dantas, psiquiatra e escritor, e Júlio de Matos, que apoiavam a ideia de que os poetas de Orpheu eram um caso claro de paranoia. Esse primeiro artigo foi apenas o primeiro de muitos que defendiam que os do Orpheu eram “maluquinhos” e que deviam ser internados em Rilhafoles.

Em junho saiu o número dois, que contou com a participação de Ângelo de Lima, um poeta internado há anos em Rilhafoles, o antigo hospital Miguel Bombarda. Se a imprensa dizia que o Orpheu era um grupo de doidos, então mais valia convidar um doido a sério para participar na revista.

"Atribua a morte do 'Orpheu' unicamente a mim, explique que eu em Paris não me quero ocupar do 'Orpheu', que sou o único culpado."
Mário de Sá-Carneiro numa carta a Fernando Pessoa

No mês seguinte, Sá-Carneiro regressou (definitivamente) a Paris, instalando-se no Hotel de Nice, onde acabaria por passar o seu último ano de vida. A decisão foi abrupta — sem aviso prévio, sem uma carta de despedida para os amigos. Uma vez em França, escrevia quase todos os dias a Pessoa. Falava da guerra, da vida passada entre os cafés dos boulevards parisienses. E claro, de Orpheu.

A publicação do terceiro número estava programada para outubro de 1915, mas nunca chegou a sair por falta de financiamento, obtido por Sá-Carneiro junto do pai. A notícia foi dada a Pessoa numa carta datada de dia 13 de setembro: “Temos desgraçadamente de desistir do nosso Orpheu“. A razão estaria numa carta que recebera do pai, na qual este se mostrava indignado com a “conta exorbitante” que o filho o obrigava a pagar. “Foi para África por não ter dinheiro. Lá não ganha sequer para as despesas normais”, explicou o poeta a Pessoa. “Atribua a morte do Orpheu unicamente a mim, explique que eu em Paris não me quero ocupar do Orpheu, que sou o único culpado.”

O Café Montanha, localizado na antiga Rua do Arco do Bandeira (atual Rua dos Sapateiros) era um dos lugares favoritos do grupo do "Orpheu"

Mas, para o pessoano Jerónimo Pizarro, a morte do Orpheu não aconteceu por falta de dinheiro. O motivo seria outro. “O pai tinha conhecimento dos ataques feitos à revista. Ele disse ter sido por falta de dinheiro, mas não me parece que vivesse naquele momento uma situação complicada”, explicou o investigador ao Observador por altura do centenário da revista. “Penso que nunca terá sido uma decisão apenas económica. Não quis continuar a acompanhar uma doidice que estava a criar uma imagem do filho e dos amigos como doidos”.

Curiosamente, e ao contrário do que muitas vezes se julga, foi Sá-Carneiro que atraiu maior atenção por parte da imprensa nacional. “Porque tinha os poemas mais estranhos, as imagens mais surrealistas”, salientou Ricardo Vasconcelos, professor de literatura portuguesa e brasileira da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia. “É satirizado pela imprensa da época, o que não é incompreensível. Ele já tinha editado outros livros, Pessoa não tinha publicado nada, a não ser os ensaios da revista Águia.” Para a imprensa portuguesa de então, Sá-Carneiro era o mais maluquinho de todos.

Para Vasconcelos, isso deve-se ao facto de Sá-Carneiro ter trazido para a revista “uma linguagem de choque artística parisiense” e de ter tido “uma contribuição poética que acaba por torná-lo no alvo preferencial e por recorrer ao tema da loucura”. “A obra de Pessoa em 1915 já é tão rica, variada e ambiciosa que que entendo que se pense sobretudo nele. Mas, em termos de contextualização histórica, o mais importante foi Sá-Carneiro.”

Pessoa e o “vício absurdo” da correspondência

Até à data da sua morte, Sá-Carneiro enviou a Fernando Pessoa mais de 200 cartas (entre as quais se incluem telegramas, mensagens e postais), numa média de cinco missivas por mês. Mas, apesar de significativo, o número corresponde a menos de metade das mais 400 cartas que o poeta escreveu durante esse mesmo período, “devotado pelo ‘vício absurdo’ da correspondência”. O volume de cartas é tal que levou Giorgio di Marchis a declarar que “a própria vida de Mário de Sá-Carneiro se compõe sobretudo de cartas“.

Apesar de o poeta ter sido acusado de sofrer de “epistolorreia” por Manuel Laranjeira, Fernando Cabral Martins desvaloriza. “Não era o único, era como hoje com as SMS. Eu fiz essa conta uma vez. Houve dias em que ele escreveu cinco cartas, a cinco destinatários diferentes. Ele tinha vários amigos a quem escrevia, mas escrevia-se muito. Era a maneira que havia de comunicar”, explicou o professor de literatura da Universidade Nova de Lisboa.

Na altura em que começou a escrever a Pessoa, Sá-Carneiro trocava cartas com Ricardo Teixeira Duarte, António Ferro, o amigo de infância Luís de Montalvor, e muitos, muitos outros. “Eram pessoas que estavam mais no círculo dele desde a escola”, esclareceu Ricardo Vasconcelos. Mas nenhuma delas tem a importância das cartas trocadas com Pessoa. Para Fernando Cabral Martins, a correspondência dos dois poetas é “um documento de primeira ordem” e o “mais importante que temos para o estudo daqueles anos”.

"Não podemos dizer que houve uma influência de um sobre o outro ou que um foi o mestre do outro. Num momento inicial, eles eram iguais."
Fernando Cabral Martins, especialista na obra de Mário de Sá-Carneiro

“Tem a ver com um momento que é muito importante a nível mundial, por causa da transformação revolucionária da vanguarda e por causa da revolução republicana, que transformou tudo na sociedade portuguesa”, referiu o professor de literatura.”E também por causa de Orpheu, o grande acontecimento da Vanguarda da arte portuguesa. Portanto, é mesmo um documento chave.”

Mas não só. O encontro entre Sá-Carneiro e Pessoa, que marcou profundamente a vida (e a obra) dos dois poetas, foi importante por vários motivos. “Tornou-se no motor da Vanguarda, de Orpheu“, explicou Cabral Martins. “Foi um fator decisivo, mas decisivo nos dois sentidos. Não podemos dizer que houve uma influência de um sobre o outro ou que um foi o mestre do outro. Num momento inicial, eles eram iguais. Estavam exatamente ao mesmo nível.” Até que, em meados de 1914, Pessoa “levantou voo”.

“Levantar voo significa criar os heterónimos e, nesse momento, Fernando Pessoa deixou Mário de Sá-Carneiro para trás, num certo sentido. Mário de Sá-Carneiro tinha noção disso e não ficou nada incomodado — foi até capaz de o reconhecer. Havia uma relação muito transparente”, explicou o especialista.

Ricardo Vasconcelos corrobora a posição de Cabral Martins. “Não é um diálogo de mestre e discípulo — é um diálogo entre escritores da mesma idade e, a partir de 1914, começa a ser desnivelado por Sá-Carneiro reconhecer a riqueza da obra de Pessoa. Mas não desnivelados na forma de se tratarem.” Para o especialista, apesar de tomar consciência da “eventual superioridade estética de Pessoa (seja o que isso for), Sá-Carneiro nunca deixou de ser franco com o amigo ou de ser um crítico atento da sua obra”. “Há um diálogo muito nivelado, mesmo quando ele começa a sentir que a obra de Pessoa se destaca muito.”

"De certa maneira, 'Orpheu' é filho disso. Num certo sentido, 'Orpheu' é filho de Sá-Carneiro."
Fernando Cabral Martins, especialista na obra de Mário de Sá-Carneiro

Além de uma troca de ideias entre dois amigos e escritores, as cartas são também um diálogo “entre a cultura cosmopolita de vanguarda e a cultura portuguesa de um Fernando Pessoa que não era propriamente um português comum”, devido à sua educação inglesa. O facto de Sá-Carneiro ter ido para Paris permitiu-lhe estar “no centro das operações”, no centro da arte e da Vanguarda. Para quem queria ser artista, Paris eram o sítio para se estar.

“Foi alguma coisa de decisivo porque foi a partir daí, desse espírito novo da Vanguarda, que todo o trabalho dele, de Pessoa, daquele grupo [do Orpheu] ganhou um novo impulso”, disse Fernando Cabral Martins. “De certa maneira, Orpheu é filho disso. Num certo sentido, Orpheu é filho de Sá-Carneiro. Embora a figura avassaladora seja Fernando Pessoa.”

“Morre jovem o que os Deuses amam”

Mário de Sá-Carneiro partiu definitivamente para Paris a 11 de julho de 1915. Uma vez na capital francesa, o dinheiro começou a escassear e os pedidos para que Pessoa procurasse junto dos livreiros o dinheiro que lhe era devido tornaram-se cada vez mais frequentes. A falta de dinheiro tinha também levado o seu pai a mudar-se para Moçambique, para trabalhar na companhia de Caminhos de Ferro.

Sem dinheiro e sem vontade de voltar para Lisboa ou partir para África, que não considerava ser terra para si, Sá-Carneiro foi ficando por Paris. “E pensar que tudo seria tão fácil, tão fácil, tão sem perigo se não fosse o eterno dinheiro…”, disse a Pessoa. Desesperado, em março, começou a escrever as primeiras cartas em que anunciava o seu suicídio eminente. “A menos de um milagre na próxima segunda-feira 3 (ou mesmo na véspera) o seu Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo”, anunciou a Pessoa a 31 de março de 1916. Ao poeta da Mensagem, foi entretanto enviando as suas últimas poesias e o cartão de estudante da Faculdade de Direito de Paris, para “recordação”.

Depois de várias ameaças, Mário de Sá-Carneiro suicidou-se às oito da noite de 26 de abril de 1916, no seu quarto do Hotel de Nice, com cinco frascos de estricnina. José Araújo, um amigo de Paris assistiu a tudo. Durante a tarde, o poeta tinha-lhe pedido que se dirigisse ao hotel “às oito em ponto, sem falta”. Quando entrou no quarto, Sá-Carneiro informou-o com toda a naturalidade do mundo de que tinha tomado cinco frascos de veneno. Sem conseguir fazer nada que o pudesse salvar, Araújo acabou por assistir aos últimos minutos de vida do escritor, enquanto este “agonizava, congestionado numa ânsia horrível”, como descreveu mais tarde a Pessoa.

Em cima do fogão do quarto, Sá-Carneiro deixou um embrulho de cartas para familiares e amigos, juntamente com um bilhete, quase ilegível, em que anunciava que se tinha matado voluntariamente. Mesmo nos últimos momentos de vida, o poeta não se esqueceu de Pessoa. A este, deixou também um último bilhete: “Um grande, grande adeus do seu pobre, Mário de Sá-Carneiro”.

A terrível notícia foi dada a Fernando Pessoa por Carlos Ferreira, outro amigo de Sá-Carneiro que lhe escreveu no dia seguinte a partir de Paris. “Queridíssimo Fernando Pessoa, enche-te de coragem, da mesma coragem do nosso chorado Mário”, escreveu. “Sim, chorado…! Tem paciência e consegue que a vidraça d’água te não emoldure os olhos. O Mário, matou-se, ontem.” No dia 4 de maio, com algum atraso, saiu a notícia no Diário de Notícias: “Mário de Sá-Carneiro, poeta dum simbolismo estranho, suicidou-se vítima do spleen.”

Sá-Carneiro foi enterrado a 29 de abril no cemitério suburbano de Patin, em Paris, num terreno alugado por cinco anos e que, após 1949, acabaria por desaparecer. Mas não seria apenas o corpo de Sá-Carneiro que se perderia. As cartas de Fernando Pessoa, que tinham sido deixadas no interior de uma mala no Hotel Nice, que tinham servido como penhora até as dívidas do poeta serem pagas, já não foram encontradas pelo seu pai quando ele por lá passou em 1928. Dentro da mala, Carlos Augusto encontrou apenas roupa velha. Todos os documentos tinham desaparecido.

Para lá das cartas a Pessoa e outros documentos, no interior da mala estaria também o manuscrito de um texto chamado Mundo Interior, do qual não há rasto. De acordo com Ricardo Vasconcelos, Mário de Sá-Carneiro “teria escrito parte desse texto em prosa, que menciona em diferentes cartas a Fernando Pessoa e do qual não foi publicado nada.” “Na correspondência ele não explica muito bem se teria desenvolvido muito o texto ou não. Mas Pessoa parecia estar convencido de que ele o tinha desenvolvido.”

Pessoa nunca haveria de se esquecer de Mário de Sá-Carneiro, dedicando-lhe vários textos e poemas ao longo da vida. Em 1929, escreveu o famoso texto que começa com a frase: “Morre jovem o que os Deuses amam, é preceito da sabedoria antiga” e no décimo aniversário do suicídio do escritor o poema “Se te queres matar, porque não te queres matar?”, sob a pena de Álvaro de Campos. Em 1935, o ano em que morreu, escreveu um último poema, Sá-Carneiro, para ser publicado “nesse número de Orpheu que há-de ser feito com sóis e estrelas em um mundo novo“:

“Por isso, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do que eu vou,
No térmitus de tudo, ao fim lá vou
Nessa ida que afinal é regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.”

Mais do que um suicida

A vida de Mário de Sá-Carneiro, e principalmente a sua morte, têm desde sempre exercido grande influência na forma como a sua obra tem sido interpretada. Fernando Cabral Martins considera normal que exista algum fascínio pelo “ser humano” que existe “por detrás dos textos”, principalmente quando este tem uma personalidade forte, como era o caso de Sá-Carneiro.”Em alguns momentos, a poesia aparece como se fosse apenas uma decorrência dessa personalidade, um testemunho, e isso é uma pena”, disse. “Como se tudo fosse um diário sociologicamente considerado, uma coisa toda ela narrativa onde se vê o percurso de uma pessoa, uma aventura pessoal.”

Apesar de admitir que não tem nada contra essa “forma de ler” a obra de Mário de Sá-Carneiro, o professor de literatura portuguesa admitiu que é “um bocadinho empobrecedora”, porque é o mesmo que dizer que não existe nenhuma razão para a poesia e a prosa do poeta serem “tão geniais”. “E, no caso do Sá-Carneiro, o que interessa é o facto de aquilo que ele conseguiu, aquilo que ele inventou e o modo como transformou a literatura portuguesa, e isso é diferente. Está noutro plano, que não é o plano da personalidade.” E o mais impressionante ainda — fê-lo com apenas 25 anos.

Para Cabral Martins, os seus “textos têm vida própria e isso é que é importante — é importante e é imortal”. “O outro desgraçado, que tinha uma personalidade fortíssima, morreu. A obra não, a obra fica, chega até hoje. E eu acho (embora seja um bocado suspeito), que ainda se mantém muito viva. É intemporal, saiu do tempo”, concluiu.

"A questão central é que não lemos Sá-Carneiro devido ao seu caráter suicida. Lemo-lo porque tem uma capacidade imagética e uma linguagem metafórica incrível."
Ricardo Vasconcelos, especialista na obra de Mário de Sá-Carneiro

Para Ricardo Vasconcelos,”é evidente que não nos passa pela cabeça dizer que ele não foi um autor que tematizou a loucura, o suicídio, a alienação e a morte. Isso está sempre presente”. Mas, apesar de haver questões que são transversais a toda a obra sá-carneiriana, esse não é o único lado. Nem é esse que verdadeiramente importa. “A questão central é que não lemos Sá-Carneiro devido ao seu caráter suicida — lemo-lo porque tem uma capacidade imagética e uma linguagem metafórica incrível; porque é capaz de sublimar os instintos mais depressivos através de uma linguagem que acaba por provocar a catarse dos nossos próprios sentimentos”.

Na opinião do investigador, é exatamente esse uso da linguagem, tão próprio, que distingue Sá-Carneiro dos outros poetas do seu tempo. “Ele fez a transição entre a linguagem do simbolismo e a linguagem que se começa a aproximar da vanguarda, e é isso que define o nosso Modernismo. Para mim, um dos seus grandes contributos é a linguagem densa em termos de significados, rica. Ele modernizou a linguagem com que se fazia literatura e tornou-se intemporal nesse sentido.”

Para Jerónimo Pizarro, coautor da nova edição das cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, editora da Tinta-da-China, a poesia é “completamente diferente da que estava a ser escrita naquele momento”. “A plasticidade e a musicalidade são tão, tão grandes e a imagética é tão própria que eu identificaria Mário de Sá-Carneiro sem saber que estava a ler Mário de Sá-Carneiro. Não é o tipo de poeta filosófico que Pessoa tentou ser. Ele não estava a tentar escrever um cancioneiro.”

“Entre o decadentismo e o cubismo literário, Sá-Carneiro estava a tentar escrever uma prosa e uma poesia com uma voz diferente, com um tom diferente. É tão pessoal, tão própria. Tentou rimas novas, não quis ficar na linguagem que já conhecia. Foi uma pessoa que, em pouco tempo, passou de uma juvenília para uma poesia é que do mais importante que se fez no primeiro e no segundo modernismo.” E isso é uma das coisas que mais impressiona na poesia de Sá-Carneiro — a rapidez com que cresceu e deixou os poemas juvenis para trás, atirando-se de cabeça ao Modernismo. Em pouco mais de dois anos, Mário de Sá-Carneiro escreveu as suas melhores obras e deixou um marco na literatura portuguesa.

Já para Fernando Cabral Martins, uma das características mais impressionantes na poesia de Sá-Carneiro é aquela que mais enganos tem criado — o seu aparente tom confessional. “Parece uma poesia confessional, no sentido em que parece que ele está a falar dele próprio. Aliás, a palavra que ele mais adora é ‘eu'”. Porém, ao contrário das pessoas que adoram falar de si, Sá-Carneiro nunca usa o “eu” para dizer coisas bonitas. “Porque ele diz as piores coisas possíveis e imagináveis! É completamente impiedoso! Diz de si o que não se diz de ninguém, e parece dizer isso a sério. É claro que também fala dos sonhos, das ânsias e das coisas que são positivas — do desejo, da saudade, da inspiração. Mas, depois, não é nada meigo consigo próprio. Isso é uma coisa que o leitor estranha — é estranho. Há algo de extraordinário nisso.”

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A última fotografia de Mário de Sá-Carneiro

Apesar de ter escrito poemas modernistas, como é o caso do famoso poema “Manucure”, Cabral Martins hesita em associar o poeta à Vanguarda. “A vanguarda nele era mais o espírito — o espírito novo e a atitude de adesão.” Para o especialista, a poesia em Sá-Carneiro sempre foi mais conservadora do que a prosa, que é “mais livre, mais original até”. Porque, apesar de ser conhecido sobretudo como poeta, Sá-Carneiro também foi prosador.

O poeta que também era prosador

Mário de Sá-Carneiro publicou as primeiras novelas ainda na escola, na revista Azulejos, que depois reuniu num só livro — Princípio, publicado em 1912. A este, seguiu-se o romance A Confissão de Lúcio, elogiada por alguns dos grandes romancistas portugueses, como Vitorino Nemésio ou Vergílio Ferreira. Para Ricardo Vasconcelos, também não há dúvidas — é “um dos grandes textos em prosa do modernismo português”. “Liga-o a Kafka, à narrativa estranha e a autores que fazem uma incursão por um lado mais bizarro, pelo lado incompreensível da vida.”

Já Fernando Cabral Martins afirma que a Confissão de Lúcio é “uma história muito contemporânea, porque tem a ver com a questão do género, com a mutação dos géneros. Em 1914, é especialmente extraordinário. A grande literatura, a grande arte, aquilo que faz é anunciar aquilo que há de vir. Há esse lado muito libertador que tem a prosa do Sá-Carneiro, inovador.” Também as novelas de Céu em Fogo, têm como temas as questões “essenciais de uma zona que podemos designar de literatura moderna ocidental”. “Estão ali os temas essenciais — o tema do duplo, por exemplo, o tema do desejo erótico, a questão da homossexualidade, o dandismo, o gosto pela vida urbana, das cidades, da publicidade.”

Mas, quer se goste mais da poesia ou da prosa, uma coisa é certa: “É muito difícil encontrar poetas que consigam ser grandes escritores de prosa e o Sá-Carneiro consegue escrever uma poesia ímpar e uma prosa que ainda consegue ter um cartão de identidade”, garantiu Jerónimo Pizarro. E, entre o simbolismo e a vanguarda, com uma linguagem própria, uma imaginação sem igual e uma obra extensa escrita em tão poucos anos, Sá-Carneiro conseguiu aquilo que poucos podem gabar-se de ter conseguido — conseguiu mudar a literatura portuguesa. E é por isso que, passados 100 anos, o seu nome ainda é sinal de inovação e de rebeldia modernista. Afinal Sá-Carneiro, o suicida, era também revolucionário.

“Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…”

— “Inter-Sonho”

Fotografias do Arquivo Municipal de Lisboa. Imagens do postal e do poema de Fernando Pessoa cedidas por Jerónimo Pizarro e Ricardo Vasconcelos.

Texto de Rita Cipriano, ilustração de Andreia Reisinho Costa.
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