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O Batman mexicano que salvou a tequila

26 Maio 2016

Rodrigo Medellín nasceu em 1957. Aos 12 anos já colaborava com a Universidade do México e criava morcegos em casa. Contou-nos histórias da infância, mas também como conheceu David Attenborough.

“Flamingo” – ou qualquer coisa que soava mais ou menos assim – foi a primeira palavra dita por Rodrigo Medellín em criança. O seu destino estava traçado: seria biólogo. Ou de que outra forma se poderia justificar a paixão que tinha pelos animais? Queria não só conhecê-los e aprender os seus nomes, mas observá-los e estudar os seus comportamentos. E começou a fazê-lo bem cedo. Aos 12 anos, o rapaz nascido na Cidade do México, tinha morcegos e serpentes em casa. Tudo em nome da ciência.

Agora, é professor e investigador na Universidade do México e diz-se completamente realizado. “Não mudaria a minha vida por nada. Considero-me uma das pessoas mais felizes que conheço. Não me posso queixar da minha vida, nem por um segundo.” Uma felicidade que transparece em cada momento, acompanhada de um entusiasmo evidente de cada vez que fala do seu trabalho. Não só do trabalho com morcegos, mas também com jaguares, com carneiros-selvagens ou com ursos-negros, porque no México não existem especialistas em mamíferos suficientes para darem atenção a todos os animais ameaçados.

Reconhece que, graças ao seu trabalho e ao dos seus colegas, muito se tem feito para se preservarem as espécies selvagens no México, em especial os morcegos. E muito se tem conseguido na sensibilização das pessoas para a importância dos morcegos. Afinal, o que seria do México se ficasse sem tequila? Mas mantém-se suficientemente humilde quando fala da grande admiração que tem por Sir David Attenborough – o antigo repórter de natureza da BBC, que completou 90 anos este mês.

As pessoas chamam-lhe o “Batman mexicano”. O nome combina realmente consigo?

Tudo o que quero é que as pessoas recebam a informação correta sobre morcegos. Tudo o que quero é que percebam realmente que os morcegos são os melhores aliados que poderíamos ter. Se para as pessoas ficarem com essa ideia em mente é mais fácil chamarem-me “batman”, então que me chamem “batman”. Não me importo.

Começou a ser um homem dos morcegos muito cedo. Como é que se apaixonou pelos morcegos?

Eu tenho aquilo a que posso chamar de deformidade mental [risos]. Desde que sou gente que penso em animais o tempo todo. A minha primeira palavra não foi mamã, nem papá, foi flamingo.

Desde sempre, no Natal, nos meus anos, em qualquer ocasião especial, eu queria ir ao zoo ou ir para o campo para ver animais selvagens. Todos os meus presentes eram sempre livros sobre animais. Sempre, sempre, sempre. Quando eu tinha 11 anos – posso garantir -,não havia ninguém no México que soubesse mais sobre animais selvagens africanos do que eu.

Havia um programa na televisão nacional, o concurso dos 64.000 pesos, no qual se escolhia um tópico, [o apresentador] fazia perguntas e o valor do prémio duplicava [a cada pergunta] até chegar aos 64.000 pesos. Eu disse à minha mãe: “Eu quero ir ali”. A minha mãe disse: “És maluco. Porque queres ir ali?”. Disse: “Quero que me façam perguntas sobre mamíferos. Sei que posso responder”.

Mas o programa era para adultos, certo?

Sim. Mas a minha mãe falou com os produtores [que lhe disseram que não era um programa para crianças]. A minha mãe disse-lhes: “Façam perguntas à criança e descubram por vocês próprios”. Começaram a fazer perguntas e depois disseram: “Parabéns. És a primeira criança no programa”. Apareci durante sete sábados, em horário nobre. Estamos a falar do início dos anos 1970, quando não passava mais nada na televisão – só existiam três canais.

O diretor do laboratório de mamíferos da Universidade do México viu-me no programa e ligou-me para casa. “Vejo que estás interessado em mamíferos. Estarias interessado em vir até à Universidade do México? Levamos-te para o campo para que possas ver os animais, aprender com os animais e ajudar-nos nos nossos projetos.” Disse imediatamente que sim.

Aos 11 anos?

Sim. Tinha 12 anos quando segurei o primeiro morcego na minha mão. E isso marcou a minha vida para sempre. Quando olho para trás, agora, algumas dezenas de anos depois, vejo que estou a fazer exatamente o que queria fazer quando tinha 10 ou 11 anos. Mas agora sou pago para isso.

E ainda tem a mesma paixão?

Absolutamente. A paixão está lá. Posso garantir que se alguém entrasse nesta sala agora com um morcego na mão, esquecia-me imediatamente que estava aqui, nesta entrevista.

Tinha 12 anos quando segurei o primeiro morcego na minha mão. E isso marcou a minha vida para sempre.

Além disso, andou a alimentar morcegos na sua casa de banho, não foi?

Assim que comecei a trabalhar na universidade comecei a levar animais para casa – serpentes, lagartos, sapos, escorpiões, bassariscos [Bassariscus astutus], opossum, tudo, incluindo morcegos. E a minha mãe tolerava isso. Não sei como.

O meu pai estava no negócio dos gelados. Quando eu voltava de uma saída de campo e um morcego tinha morrido, eu punha o morcego no frigorífico dentro de uma das embalagens dos gelados [risos]. De vez em quando a minha mãe apanhava um susto. E os meus irmãos também (sou o mais novo de cinco). Mas sempre me apoiaram muito. Tem sido uma viagem incrível.

Atenção, eu não recomendo a ninguém que tenha morcegos como animais de estimação. Mas eles não eram os meus animais de estimação, estava a observá-los, estava a estudá-los, estava a aprender com eles: o comportamento, a maneira como comem e como interagem uns com os outros. Mas no processo, a casa de banho onde os tinha – que partilhava com um dos meus irmãos -, tinha as paredes todas sujas, cheirava muito mal.

Lembro-me que partilhava o quarto, no sótão, com o meu irmão que é cantor. Tínhamos o quarto dividido, mas ele tinha de atravessar a minha parte para chegar ao lado dele. E sempre que ele entrava a minha cascavel fazia ssshhh [abanava a cauda produzindo um som]. E ele não gostava nada.

Algum dos seus irmãos mais velhos é biólogo também?

A minha irmã é médica – e isto é o máximo. Mas todos eles gostam de ir para o campo comigo. E o meu pai, de 102 anos, também. Quando tinha 98 anos levei-o a fazer rafting num rio selvagem na Costa Rica. Quando ele tinha 97 anos levei-o a acampar num deserto no norte do México, para apanhar morcegos. 97 anos [repetiu em voz baixa]. E continua assim entusiasmado. Está ansioso que eu chegue a casa na sexta-feira e lhe conte todas as histórias e lhe mostre fotografias. Os meus filhos também são apaixonados pela natureza, mas nenhum é biólogo.

Mas a paixão pela natureza é, no fundo, o mais importante, não?

Exatamente. Precisamos cada vez mais disso. As crianças de hoje em dia estão a perder a ligação com o mundo natural, que é de onde viemos. E, como resultado, não têm o mesmo respeito pela natureza que a nossa geração tinha. Precisamos de mais interação entre humanos e a natureza.

Eu faço muita educação ambiental. Muita. Principalmente porque não deve haver nenhuma espécie no mundo, ou um grupo de espécies, que tenha, de uma forma tão injusta, uma imagem tão negativa como os morcegos. Quer dizer, quando se tem algodão vestido é porque os morcegos andaram a comer as pestes agrícolas [insetos].

Tenho investido muito do meu tempo a documentar e a demonstrar à indústria que os morcegos são o melhor controlador de pestes que poderíamos ter. Mas ao mesmo tempo, por ser mexicano, tenho de estar muito orgulhoso da identidade do meu país e parte da identidade é a tequila. E nós devemos a tequila aos morcegos. Os agaves que encontramos aqui em Portugal – e que são uma planta exótica invasora aqui –, no México usamo-los para todo o tipo de coisas, como corda ou pulche [uma bebida com seis graus de álcool].

As pessoas têm realmente razões para ter medo dos morcegos? Eles podem transmitir doenças, certo?

Vamos dar um passo de cada vez, vamos perceber qual era a imagem original dos morcegos nos tempos pré-colombianos. Os morcegos tinham uma imagem positiva. O clube de futebol de Valência, em Espanha, tem um morcego no seu emblema. Tentei descobrir o rasto e parece que os árabes, quando dominaram Valência, passaram maus momentos com os mosquitos e começaram a pôr abrigos para morcegos. Os morcegos começaram a usá-los e os mosquitos desapareceram.

Na China existe um símbolo que é composto por cinco morcegos num círculo, tocando as asas uns dos outros. Chama-se wu fu. É um símbolo de vida longa, boa saúde, riqueza, sabedoria e felicidade. Mesmo no México pré-colombiano, os maias tinham um mês chamado zotz [que significa morcego e era simbolizado pela cabeça de um destes animais]. E esse mês coincidia mais ou menos com outubro, que é uma estação de abundância, é a estação da colheita.

Depois temos a primeira noite que os soldados [espanhóis] passaram em Puerto de la Cruz, no México, e que tiveram pequenos animais (a que nunca chamam morcegos) a morder os cavalos e os soldados e a alimentarem-se do seu sangue. Isto está relatado na história da conquista do Novo Mundo. Isto em 1590. 340 anos depois, em 1860, um escritor irlandês, Bram Stoker, escreveu um romance incrível – Drácula.

O termo vampiro vem da Europa de leste e refere-se a humanos, que estão mortos, e que se alimentam do sangue de outros humanos. Não há aqui qualquer relação com morcegos. Mas quando Bram Stoker estava a escrever o romance, precisava de arranjar uma forma de o seu Drácula se deslocar grandes distâncias e depressa. Lembrou-se da história da conquista [em que os morcegos se alimentavam de sangue dos cavalos] e pensou: “O meu vampiro vai transformar-se num morcego”.

O mito veio de um romance, mas de facto os morcegos podem alimentar-se de sangue humano, não?

Vamos olhar para isso do ponto de vista da história natural e da diversidade de morcegos. Existem cerca de 13 mil espécies de morcego no mundo – são o segundo maior grupo de mamíferos no mundo, a seguir aos roedores. No México existem 138 espécies – só existem seis países no mundo que têm mais espécies de morcegos que o México. Das 13 mil espécies: três quartos alimentam-se de insetos, cerca de 12 a 13% alimentam-se de fruta, cerca de 10% alimentam-se do pólen e néctar das flores, depois 10 a 15 espécies alimentam-se da carne de animais vertebrados – caçam e comem aves, ratos e outros morcegos. Depois há três espécies, e apenas três espécies, e todas no Novo Mundo – do México à Argentina –, que se alimentam de sangue. Duas delas são extremamente raras e vivem nas zonas mais remotas das florestas tropicais. E apenas uma, o morcego-vampiro-comum [Desmodus rotundus], nos dá problemas.

Mas quem criou esses problemas? Nós. Essas três espécies estavam limitadas pela quantidade de comida que conseguiam encontrar em cada noite – alimentavam-se do sangue de veados ou pecaris [por exemplo], que são raros na floresta. Mas depois chegaram os humanos e trouxeram o gado, muito gado, que é tão pateta quanto se possa imaginar e não se consegue defender. E os números de morcegos-vampiro começaram a crescer, a crescer, a crescer, e aí surgiu a raiva. O problema não existia antes de trazermos o gado para o Novo Mundo. Antes disso eram realmente raros.

Desde então, os morcegos tornaram-se superabundantes, graças à disponibilidade de gado. Mas se acontecer que a região, que vive da agricultura e do gado, de repente muda para o turismo: as pessoas vendem os animais, mas os morcegos ficam, estão desesperados e precisam de se alimentar.

Nas favelas do Rio [de Janeiro] existe uma população inteira de morcegos-vampiros que se alimenta exclusivamente de sangue humano. Isto é inaceitável. Desculpem, mas é inaceitável. Eu sou defensor dos morcegos em todo o lado, mas há situações em que – e isto pode soar paradoxo – tenho de apoiar o controlo de morcegos, de maneira a que as outras espécies de morcegos sejam protegidas. De outra forma, as pessoas, quando veem a sua criança ou animal ser mordido, vão à gruta mais próxima e queimam-na, ou explodem-na, ou destroem-na.

A questão da raiva é outra, isso tem sido muito exagerado. Os resultados de um projeto [que pretende demonstrar isso mesmo] dizem que, dos sete mil animais analisados, menos de 1% tem anticorpos, quer dizer que menos de 1% pode ter estado em contacto com o vírus. Sacrificámos 5% desses sete mil morcegos [para perceber se tinham uma infeção ativa] e não encontrámos nenhum com o vírus da raiva vivo. Isto não quer dizer que se uma pessoa encontrar um morcego caído no chão pode pegar nele. Nunca peguem num morcego. Não toquem em nenhuma espécie selvagem.

Disse que tem tentado mostrar às pessoas a importância dos morcegos.

Isto é o que tenho feito há mais tempo. Sinalizar os serviços fornecidos por morcegos. Existem três serviços principais: um deles é o controlo de pestes, que já falámos. Os nossos trabalhos mostram que, no norte do México, existem 40 a 60 milhões de morcegos de uma única espécie. Cada milhão de morcegos destrói 10 toneladas de insetos todas as noites. Tente visualizar 10 toneladas de insetos. O que lhe parece? Se calhar é esta sala cheia até ao teto.

Agora imagine que se perderam todos os morcegos durante a noite. E de repente, toneladas de insetos (10 toneladas por cada milhão de morcegos que não está lá) vão começar acumular-se, e acumular-se e acumular-se. O resultado é que ao fim de três meses, ou seis meses, não temos culturas agrícolas nenhumas.

O segundo serviço é a polinização que descrevi com a tequila, mas também com o maravilhoso cato coluna do norte do México [como o saguaro]. Estes catos enormes têm flores que abrem à noite e que evoluíram de maneira a acomodar metade do corpo do morcego dentro delas. [Estes catos fazem parte da] imagem típica de um mexicano, debaixo de um sombrero à sombra destes catos. Os maias têm uma árvore sagrada, a paineira [Ceiba pentandra], que é uma das maiores árvores da floresta tropical maia. E é polinizada por morcegos. A mesma espécie de paineira que existe na floresta tropical maia, também existe em África e existe na Ásia, e é sempre polinizada por morcegos.

E o terceiro serviço de ecossistemas que temos é a dispersão de sementes. Os morcegos dispersam as sementes de plantas pioneiras [as primeiras a aparecer num solo livre]. Demonstrámos que os morcegos dispersam mais sementes por unidade de tempo e área do que as aves [pelo menos, na floresta tropical]. O problema é que nós, humanos, somos diurnos e visuais. Se fossemos noturnos e acústicos conseguiríamos detetar morcegos o tempo todo.

Cada milhão de morcegos destrói 10 toneladas de insetos todas as noites.

Gostando ou não, todas as pessoas sabem o que são morcegos. Mas uma das coisas que mais me impressionou foi a primeira vez que vi fotografias dos focinhos dos morcegos. Estava habituada a ver apenas o formato do corpo.

Digo sempre isto: os roedores podem ser o grupo mais diversificado de mamíferos em termos do número de espécies, mas a sua estrutura e biologia são extremamente uniformes. Se virmos um rato, vimo-los todos. Focinho pontiagudo, olhos bojudos e orelhas redondas. E é isto. E os morcegos… Oh, meu deus… Orelhas grandes, orelhas pequenas, orelhas redondas, focinhos longos, focinhos curtos, olhos grandes, olhos pequenos, grandes, pequenos, todos os tipos. E cada configuração diz-nos muito sobre a história natural dessa espécie, sobre o que fazem no ambiente. Não há outro grupo de mamíferos que seja mais diversificado em termos ecológicos que os morcegos. Nem mesmo os roedores.

Há pelo menos dois grandes momentos de concretização durante a sua carreira: encontrou uma espécie considerada extinta e tirou outra espécie da lista de espécies ameaçadas. Quais são os principais sucessos alcançados nesta longa de vida de conservacionista, que começou quando ainda era criança?

A maior concretização nem é o facto de termos encontrado uma espécie que estava considerada extinta ou a recuperação de uma espécie que estava considerada em perigo de extinção.

Num determinado momento, os morcegos tinham uma imagem muito má, como já descrevi. Sempre que havia uma notícia na televisão de que os morcegos tinham mordido as pessoas, ou que os morcegos estavam a disseminar doenças, eu era o único a responder, a reagir a essas notícias e a contar a história como ela é. Hoje em dia, não só não sou o primeiro, como existem muitas pessoas que entenderam que os morcegos são nossos aliados e os defendem. E não são apenas cientistas. Estou a falar do público em geral que se dirige aos órgãos de comunicação social e dizem: “Não digam isso sobre os morcegos. Não é verdade”. Não posso reclamar os créditos por esta mudança, mas isto tem mais impacto que qualquer outra coisa que eu tenha feito.

Tirando isto, encontrar uma espécie, que se considerava extinta, viva e de boa saúde, foi uma injeção incrível da energia que precisamos para continuar a trabalhar neste campo. Ninguém nos vai dar dinheiro para encontrar uma espécie que se pensa extinta. Encontrámo-la porque suspeitei que ela pudesse estar naquele local e mandei lá uma equipa. Estávamos a trabalhar na vizinhança com os morcegos da tequila e decidimos montar redes na zona onde a espécie tinha sido vista pela última vez 30 anos antes. Apanhámos oito indivíduos numa noite. No ano seguinte apanhámos mais cinco e colocámos transmissores rádio. Na noite seguinte encontrámos uma Yucca com mais de uma centena de fêmeas prenhas ou lactantes.

[Simula falta de ar de emoção] Está viva. Depois começámos um programa de recuperação.

O Rodrigo e a sua equipa devem ter ficado muito satisfeitos com esta descoberta.

Quando voltámos do campo dei uma festa. Cozinhei [ri-se porque já tinha confessado que adorava cozinhar] e celebrei esta descoberta. E convidei o ministro do Ambiente para festejar connosco. Histórias positivas em conservação são muito raras e as pessoas estão a perder a esperança. Portanto temos de tornar isto uma coisa grande.

A espécie está viva e bem de saúde e está a recuperar. Temos encontrado mais ninhos, mas ainda nos falta encontrar os ninhos de inverno, onde hibernam. Eles são chamados de morcegos-de-cabeça-achatada. E por um bom motivo: não têm testa. Isto diz-me que vive profundamente em fendas e rachas nas paredes rochosas. Mas ainda não os encontrámos no inverno. No verão vivem nas Yucca, que à medida que as folhas morrem, ficam dobradas sobre o tronco e os morcegos vivem entre essas folhas.

E o morcego-de-nariz-comprido que se encontrava ameaçado?

Em todos os locais históricos [onde costumavam ser encontradas as duas espécies de morcego-de-nariz-comprido] existiam cerca de 100 ou menos. Isso indicou que as espécies estavam em perigo. Os Estados Unidos listaram-nas como ameaçadas em 1988 e o México em 1993. Em 1994, começámos a trabalhar na recuperação. E 20 anos depois, em 2014, fui capaz de anunciar ao mundo que tínhamos conseguido recuperar esta espécie. Haverá maior felicidade do que tirar uma espécie deste limiar?!

Mesmo assim têm de continuar a fazer investigação, não?

Completamente. Esta é uma espécie polinizadora, que se alimenta de néctar e que está associada ao agave. Há 20 anos disse aos produtores de tequila: “Vocês estão a brincar com o fogo”.

Os agaves produzem pequenos clones junto à base das plantas e os produtores de tequila, quando vão fazer a colheita num campo de agaves, conservam os clones dos quatro ou cinco maiores agaves, ou dos que cresceram mais rápido, ou dos que produziram mais açúcar. E depois replantam todo o campo apenas com estes clones. Em cada geração [de agaves] há cada vez menos diversidade. Eu disse-lhes: “Vocês estão a escavar a vossa própria sepultura. Em breve não terão qualquer diversidade genética e isso vai ter reflexos nas vossas plantas”. [Eles nem ligaram.]

Dez anos depois, disse-lhes: “Escutem, vocês têm 260 milhões de plantas que são clones apenas de dois indivíduos. Portanto, geneticamente, são exatamente a mesma coisa. Basta uma doença atacar uma planta e todas as outras plantas serão afetadas. Se não tiverem cuidado, estão tramados”. Mas eles nunca fizeram nada.

Depois, há seis anos, foram atacados por uma doença – juro que não fui eu [risos] – e vieram ter comigo: “Como é que era mesmo aquela história dos morcegos e das flores e da genética?”. Eu disse: “Tarde demais. Não posso dizer-vos que os morcegos vão resolver os vossos problemas do dia para a noite, nem no próximo ano, nem nos próximos cinco anos, nem nos próximos dez anos. Não sei. Vocês têm de investir agora. Se deixarem 5% das vossas plantas florirem, isso dará alimento suficiente aos morcegos”.

[Os agaves crescem durante muito tempo e vão acumulando muitos açúcares nas folhas. Depois investem toda essa energia armazenada numa única floração e morrem.] Os humanos aprenderam que colher as plantas antes da floração, aumenta a quantidade de açúcar disponível. Garanti aos produtores que se deixassem 5% das plantas de agave florirem para servirem de alimento para os morcegos, a Universidade do México certificava-lhes as bebidas com um selo de “Tequila amiga dos morcegos”. Agora toda a gente quer esse selo.

O financiamento [deste projeto] vem da associação de bartenders dos Estados Unidos que começou a ouvir esta história e disse que queria apostar em práticas sustentáveis, socialmente responsáveis e educar o consumidor. E esta é uma história interessante para contar aos clientes no bar.

Foi galardoado várias vezes com prémios Whitley, correto?

Não. Bem, sim. Recebi um Whitley Award [em 2004] e um Whitley Gold Award [em 2012] e depois tive financiamentos Whitley de continuidade – consegui-os umas seis vezes [para fazer investigação e conservação de morcegos].

Mas quando conseguimos o Whitley Gold Award, o David Attenborough faz um vídeo de três minutos sobre o vencedor, que é apresentado durante a cerimónia. Claro que, quando vi que o David Attenborough tinha feito um vídeo de três minutos sobre o meu trabalho fiquei… [sem palavras e com uma expressão de realização de um grande sonho].

Teve oportunidade de falar com ele pessoalmente?

É ainda melhor que isso. Escute. Fui para Londres, para a cerimónia, e perguntei a Edward Whitley, o homem que criou o prémio: “Há alguma hipótese de conhecer o Sir David”. E ele respondeu-me: “Bem, ele está muito envelhecido. Convido-o sempre, mas nunca há garantias de que ele esteja presente”. Durante a receção antes da cerimónia, estava à conversa com alguém e vi-o pelo canto do olho. E tornei-me no mais patético dos fãs de Justin Bieber: “Ele está ali. Ele está ali.” [diz enquanto esbraceja e aponta para o fundo para representar o que se passou naquele momento]. Pode imaginar. Aposto que faria a mesma coisa. Mas ele não veio para a receção, foi imediatamente sentar-se.

Quando a cerimónia acabou, disse para comigo: “Esta é a minha oportunidade. Tenho de conhecê-lo”. Mas ele foi imediatamente agarrado por cinco senhoras que falavam e falavam e ele estava assim [ar apático e cara de tédio]. E eu pensei: “Desculpem-me, mas esta é a minha oportunidade e tenho de o fazer”. [E furou por entre as senhoras] Apresentei-me e disse: “Bem, David, sempre quis conhecê-lo. Eu sei que já ouviu estas palavras muitas, muitas vezes, mas vai ouvi-las outra vez: é uma fonte de inspiração incrível, mudou o mundo e, quando crescer, quero ser como você”.

Ele continuava com a mesma cara. Mas eu tinha uma arma secreta. Tinha acabado de publicar um livro sobre um grupo de morcegos chamados de morcegos-fazedores-de-tendas, que mastigam as folhas para construir os seus abrigos. Aí sim, o verdadeiro David Attenborough apareceu e começou a ficar interessado, a fazer perguntas. Mas depois disse-me: “Os meus joelhos estão a dar cabo de mim. Preciso sentar-me”.

Encontrei duas cadeiras, longe de toda a gente e ficámos duas horas a conversar, cara a cara, eu e o David Attenborough [disse com os olhos a brilhar perante tal memória]. No fim das duas horas ele diz: “Eu já não tenho poder na BBC, mas todo o poder que me sobra vai ser investido em fazer um documentário contigo”. “Um documentário comigo” [disse baixinho como se ainda não acreditasse, apesar de esta conversa já ter acontecido em 2012]. Perguntei-lhe: “O que preciso fazer”. “Não precisas fazer nada, eu vou ver o que posso fazer. Mas não há garantias, eu não tenho poder nenhum.”

Na noite seguinte, noutro evento, aparece uma pessoa da BBC: “Não imagina o favor que nos fez, o David já nunca vai às nossas reuniões. Tivemos uma reunião esta manhã e ele disse que conheceu uma pessoa e que devíamos fazer um documentário consigo”. Em 2013, vieram até ao México e seguiram-me pelo país durante quatro meses. E esse documentário, “O Batman do México” [estreado em 2014], ganhou uma série de prémios.

Agora tenho… Oiça bem… Eu tenho correspondência pessoal com o David. Eu tenho seis cartas escritas por ele [mostrando com os dedos da mão para reforçar a ideia e mostrando um sorriso que explica bem a honra que sente nesta partilha]. Na última carta que ele me mandou, disse-me: “Espero que não fiques chateado comigo, mas eu vou visitar a maior gruta de morcegos à face da Terra” [risos]. Aquele homem é incrível.

Rodrigo Medellín esteve em Portugal, a convite do CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais, para uma palestra na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Texto de Vera Novais, fotografia de Hugo Amaral.
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