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O bombeiro herói, o pequeno Rodrigo e as jovens ginastas. As vidas que o incêndio de Pedrógão Grande destruiu

20 Junho 20172.634

Por detrás dos números, os rostos de quem sucumbiu ao fogo em Pedrogão Grande. Entre as vítimas, há um bombeiro herói, o bebé Rodrigo e duas adolescentes ginastas. Eis as suas histórias.

O balanço mais recente aponta para 64 vítimas — 24 delas já identificadas pelas autoridades –, mas o número poderá subir. O incêndio que este sábado deflagrou em Pedrógão Grande, Leiria, e que se alastrou para os concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos, Góis e Castanheira de Pêra é a maior tragédia dos últimos anos em Portugal. Isto é o que já sabemos sobre quem são as pessoas que perderam a vida para as chamas: há um bombeiro herói, muitas crianças, duas adolescentes ginastas e histórias de famílias inteiras.

Miguel Costa, advogado, e a arquiteta Ana Mafalda Lacerda tinham ido passar o fim de semana à Várzea, junto ao Pedrogão Grande, com os filhos, António e Joaquim com seis e quatro anos, respetivamente. A família, que vivia em Lisboa, foi apanhada pelo fogo dentro de um automóvel naquela que ficou conhecida como “estrada da morte”, onde a maioria das vítimas morreu. A casa onde se encontravam acabou por não ser destruída pelas chamas. Esta família estava na companhia de outros quatro familiares, que também tentaram fugir em dois carros pela mesma estrada. Dois deles eram o pai e a madrasta de Miguel. Nenhum se salvou.

Na foto, Miguel Costa com a mulher, Ana Mafalda Lacerda, e os dois filhos: António, de seis anos, e Joaquim, de quatro.

Rodrigo, de 4 anos, e o seu tio, Sidel Belchior, de 37, morreram na estrada que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pêra. A criança estava aos cuidados do tio enquanto os seus pais, Ana Cardito e Nuno Belchior, recém-casados, estavam em lua de mel em S. Tomé e Príncipe. Na companhia da sua mulher, Ana, Sidel trouxe o sobrinho para a aldeia de Nodeirinho, em Pedrógão Grande, para passar o fim de semana na casa da família. Criança e tio viriam a morrer na noite de sábado, encurralados pelo fogo na EN-236.

Na foto, Rodrigo, de quatro anos.

Na estrada da morte, o carro de Sidel Belchior colidiu com o de Afonso Lopes Conceição, um emigrante em França que tinha ido a Nodeirinho passar férias de verão com a família. Afonso, de 76 anos, seguia no automóvel com a mulher, que conseguiu escapar. O corpo do homem foi encontrado carbonizado não muito longe da casa que o casal mantinha na aldeia.

Diogo Costa, de 21 anos, morreu na aldeia de Nodeirinho. À revista Visão, o pai do jovem, Manuel Costa, de 59 anos, explica que “ele saiu de casa com a carrinha, com baldes de água lá dentro para combater o fogo, e meteu-se na estrada. Já encontraram a carrinha toda queimada” na estrada da morte. Também o cunhado de Manuel morreu: o seu corpo foi encontrado a poucos metros da casa de onde tinha fugido na mesma aldeia.

Bianca, de 4 anos, foi a segunda criança a ser confirmada como uma das vítimas mortais do incêndio, também ela na “estrada da morte”. A menina ia no carro com a avó e a mãe, Gina, funcionária da escola da vila de Mó Pequena. Segundo confirmou o Observador, a bebé e a idosa morreram carbonizadas no carro, enquanto Gina, em desespero, tentava salvar a filha e a mãe. Com queimaduras graves, Gina foi levada para o hospital. O marido de Gina e o irmão de Bianca, de 19 anos, estão no hospital em estado grave.

Na foto, Bianca, de 4 anos, com a mãe, Gina.

Ricardo Martins, na casa dos 30 anos, que trabalhava numa fábrica de lanifícios na zona das Sarzedas, estava ao lado da namorada, Ana Henriques, também com cerca de 30 anos. O casal morreu carbonizado na estrada entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, enquanto tentava fugir das chamas. No mesmo carro seguiam a mãe de Ricardo, Fátima Carvalho, doméstica e o padrasto, Jaime, madeireiro. A família era natural de Pobrais, pequena aldeia em Pedrógão Grande que perdeu um terço dos seus habitantes.

Na foto, Fátima Carvalho com o marido, Jaime.

Sérgio Machado, trabalhador na Unilever, e Lígia Sousa, funcionária numa loja do IKEA, ambos naturais de Sacavém, passavam férias na piscina de ondas da Praia da Rocas, um complexo em Castanheira de Pêra. Com o casal estavam os dois filhos: Martim, de dois anos, e Bianca, com quatro anos. Foram encontrados sem vida dentro de um dos carros encurralados pelo fogo na estrada EN263-1. Os seus corpos foram identificados pela Polícia Judiciária na última segunda-feira.

Sérgio Machado e Lígia Sousa com os filhos, Martim e Bianca.

Gonçalo Conceição, de 40 anos, foi um dos bombeiros de Castanheira de Pêra destacados para combater o fogo no sábado em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria. Seguia num dos carros dos bombeiros ao longo da IC8 quando colidiu com um automóvel que vinha em sentido contrário. Ainda sem ferimentos, Gonçalo saiu do carro tanque com colegas para tentar salvar a vida da família que estava no interior desse automóvel. Sem sucesso. Foi apanhado pelas chamas que deflagraram nas margens da estrada, que lhe causaram ferimentos graves no rosto e nas vias respiratórias. Foi transportado para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, onde foi sujeito a ventilação e a uma intervenção cirúrgia, mas morreu na segunda-feira. Deixa uma mulher e um filho.

O bombeiro Gonçalo Conceição, de 40 anos.

Anabela Esteves, 47 anos, empregada doméstica, fugiu de Pobrais com a vizinha Anabela Araújo, de 38 anos, que andava a fazer um curso no IEFP para arranjar emprego. Os vizinhos ainda as chamaram para ficarem abrigadas num tanque cheio de água (que salvou a vida a várias pessoas), mas as duas mulheres, em pânico, preferiram meter-se no carro e sair dali. Anabela Araújo levou consigo todo o ouro que tinha em casa e 30 mil euros em notas, mas as duas acabariam por morrer na estrada, encurraladas pelas chamas no interior do carro de Anabela Esteves.

Manuel André Almeida, de 62 anos, e Maria Cipriano, de 59 anos, eram proprietários de uma empresa de confeções nos Moinhos da Funcheira, na Amadora, e de uma loja na mesma cidade. Maria Cipriano, conhecida pelos amigos como dona Bia, era natural de Vale de Vargo, em Serpa. Manuel era natural de Góis e mantinha lá uma coletividade. No último sábado, o casal foi até Góis para um almoço com outros membros dessa coletividade. Mas quando regressavam à Amadora, a estrada onde seguiam foi encurralada pelo fogo. Os dois morreram. Os corpos estão agora na morgue do Instituto de Medicina Legal de Coimbra.

Na foto, Manuel André Almeida, de 62 anos, e Maria Cipriano, de 59 anos.

José Maria, tipógrafo reformado, e São Graça tinham ido passar o fim de semana a Vila Facaia, onde um deles mantinha uma casa de família com outros quatro irmãos. Dois desses irmãos tinham lá estado nos dias anteriores ao incêndio deflagrar, mas tinham partido devido ao calor. Quando o fogo chegou à aldeia, os vizinhos tentaram convencê-los a não fugir para a Bobadela (Loures), onde viviam, mas o casal pegou no carro e seguiu por aquela que viria a tornar-se na “estrada da morte”. Foram encurralados pelo fogo e morreram.

Na foto, José Maria e São Graça.

Aurora e Manuel viviam em Monte Abraão, Queluz, mas decidiram ir com o filho, Fernando, um maquinista da Comboios de Portugal recém-reformado de 60 anos, e com a mulher de Fernando, passar uns dias na terra que os viu nascer. Foram apanhados de surpresa pelas chamas, que se aproximaram da aldeia onde viviam, e fugiram de carro. Morreriam pouco depois, cercados pelo fogo, no interior do carro.

Susana Marques Pinhal, 41 anos, estava com o marido, Mário, e com as duas filhas em Pedrógão Grande. Joana Pinhal, de 15 anos, estudava na Escola D. Martinho Vaz e Margarida Pinhal, com 12 anos, andava na Escola Aristides de Sousa Mendes. Ambas praticavam ginástica acrobática na Euterpe Alhandrense. Quando o fogo começou a deflagrar em Pedrógão Grande, a família da Póvoa de Santa Iria decidiu fugir: Mário entrou num carro com os pais e a madrinha e Susana entrou com as filhas noutro automóvel. Em declarações à SIC, Mário explicou que a mulher e as filhas, uma das quais não levava o cinto posto, morreram por inalação de fumos enquanto atravessavam a “estrada da morte”: “Houve uma pessoa que saiu de dentro do carro e começou instantaneamente a arder. Caiu ao lado do meu carro”, recorda. Ao fim de várias manobras para escapar aos carros incendiados, Mário percebeu que a temperatura estava mais baixa no lado de fora do carro do que no seu interior e saiu. Ele, os pais e a madrinha sobreviveram com queimaduras de segundo e terceiro graus.

Na foto, Susana Marques Pinhal com as filhas, Joana e Margarida.

Vítor tinha 56 anos e vivia sozinho numa casa em Pobrais. Reformado por ter problemas de saúde e dificuldades de mobilidade, Vítor recebia apoio regular do do lar de Vila Facaia, onde costumava passar o dia. Naquele sábado, funcionários do lar tinham levado Vítor de regresso a casa ainda antes de o incêndio deflagrar e nunca mais souberam dele. Sabiam apenas que a casa onde vivia esteve a arder desde sábado à tarde até domingo à noite e que era impossível lá entrar. Na segunda-feira, um voluntário de Leiria, que tinha tirado três dias de folga para ajudar a combater o fogo em Pedróogão Grande, entrou na casa e encontrou o cadáver de Vítor. O telhado, as janelas e o interior da casa estavam completamente destruídos.

Em Sarzedas de São Pedro, trabalhadores de uma fábrica de têxteis, a Albano Morgado, SA, tentaram fugir a pé quando o incêndio chegou à aldeia. Seria um grupo de oito pessoas e, de acordo com a proprietária da fábrica, todos morreram engolidos pelo fogo. “Quem ficou em casa, conseguiu sobreviver. Quem tentou fugir, morreu”, explicou Ana Morgado.

Cristina, que trabalhava em próteses dentárias, e Eduardo Costa, assistente num consultório dentista, um casal da Pontinha (Odivelas), tinham ido passar o fim de semana com a mãe de Eduardo em Pedrógão Grande. Quando o incêndio deflagrou, os três tentaram fugir pela estrada nacional 236, mas foram apanhados pelo fogo. Tinham dois filhos de 20 e 24 anos.

Na foto, Cristiano e Eduardo Costa.

Quando o incêndio começou a ameaçar as habitações da aldeia de Nodeirinho, o madeireiro Mário Carvalho saiu de casa para garantir que as suas máquinas de trabalho estavam fora de perigo. Com ele foi o sobrinho, Diogo Carvalho. Ambos morreram à beira da estrada que atravessa a aldeia quando o fogo se aproximou.

Fernando Rui Mendes Silva, um engenheiro civil da Câmara Municipal de Castanheira de Pêra de 48 anos, morreu ao lado do filho pequeno, Luís, e da mulher quando foram apanhados pelas chamas da estrada nacional 236. O Jornal de Notícias diz que os três podiam estar acompanhados por mais familiares. Fernando era funcionário da Câmara desde 2005, depois de ter feito o ensino secundário e a universidade em Coimbra. Fez parte da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra e era fã de fotografia e artes plásticas.

Na foto, Fernando Rui Mendes Silva.

Sara Antunes, natural de Sesimbra, estava em casa com a sogra quando o fogo chegou a Figueiró dos Vinhos. A mulher de 33 anos e a mãe do marido tentaram fugir, mas morreram no jardim da casa por inalação de fumos. O incêndio já tinha chegado às portas da sua aldeia.

Na foto, Sara Antunes.

Luciano Joaquim, de 78 anos, morreu quando entrou dentro do carro e se encaminhou para a “estrada da morte” para tentar fugir ao fogo. Terá sido atingido pelo incêndio ou sufocado com o fumo. A mulher, Amélia Pires, de 80 anos, não ia com Luciano no carro e sobreviveu.

Alzira Carvalho da Costa, 71 anos, era natural e residente na Senhora da Piedade em Vila Facaia. Morreu durante o incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande. Vai ser enterrada no Cemitério de Vila Facaia.

Vasco e Luísa Rosa tinham ido com o filho passar o fim de semana na casa que mantinham em Nodeirinho. Vasco e Luísa foram apanhados pelas chamas e morreram. Já o filho sobreviveu e está bem de saúde, confirmou o Observador.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros em França noticiou que um homem de nacionalidade francesa morreu no incêndio em Pedrogão Grande. A sua identidade ainda não foi revelada.

O Jornal de Notícias avançou que Felismina, uma mulher de 82 anos, morreu por ter decidido ficar dentro de casa, em Avelar, em vez de fugir com a vizinhança. Os vizinhos garantem que a casa foi consumida pelas chamas.

Artigo atualizado às 23h37 com a informação de que o filho de Luísa Rosa está vivo, ao contrário do inicialmente avançado.

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