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Américo Amorim. O homem que sonhava ter um banco, mas descobriu petróleo

13 Julho 2017656

Américo Amorim, o "Rei da Cortiça", morreu esta quinta-feira aos 82 anos. Era o homem mais rico de Portugal, não veio das grandes famílias do século XX mas subiu a pulso no mundo do negócios.

Ao lado de Belmiro de Azevedo, Américo Amorim, que morreu esta quinta-feira aos 82 anos, simboliza a imagem do empresário do Norte. Não veio das grandes famílias capitalistas do século XX e subiu a pulso no mundo dos negócios, graças a um killer instinct que todos lhe reconhecem. Os dois têm ainda outra característica em comum no seu percurso. Mesmo quando perdem, ganham, ainda que seja “apenas” dinheiro.

Inicialmente associado ao universo da cortiça, o rei da rolha colocou Portugal na liderança deste setor a nível mundial, o único onde dá cartas. Mas o império de Américo Amorim é muito mais do que a empresa que tem o nome de família, a Corticeira Amorim. O seu percurso está associado a alguns dos maiores negócios em Portugal. Esteve no nascimento do BPI, mas foi no BCP que o seu voluntarismo e vontade de investir fizeram a diferença, ajudando a criar aquele que seria o maior banco privado português.

Saiu do BCP contrariado (mas sem perder dinheiro) e em 2005 protagoniza o que será até hoje um dos maiores negócios feitos por um empresário português: “recupera” a Galp Energia para o controlo nacional, a empresa que à boleia das mega descobertas de petróleo nas águas profundas, fará de Amorim o homem mais rico de Portugal. Até hoje, mesmo com o petróleo na fasquia dos 50 dólares por barril.

Américo Amorim nasceu em 1934 em Santa Maria da Feira (Mozelos) — morreu a uma semana de completar 83 anos, o que sucederia a 21 de julho — e ficou órfão em criança, segundo a minibiografia publicada numa revista do Grupo Amorim em 2014. A empresa familiar com o nome Amorim já existia desde o final do século XIX, mas a Amorim & Irmãos é fundada em 1922. Américo não está na linha da frente dos herdeiros do negócio de família. E o empresário gosta de contar que ia à escola sem sapatos, porque que só os usava quando ia à missa. Amorim estudou na Escola Académica do Porto e o primeiro emprego em 1952 é na empresa familiar, mas não fica parado.

Por iniciativa do tio que então liderava a fábrica Amorim e Irmãos, Américo vai conhecer a Europa com a missão de vender cortiça. São os primeiros passos na internacionalização do grupo, que não para nas fronteiras da então cortina de ferro. Amorim vai à Europa do Leste e à União Soviética fazer negócios e deixa relações que virão ser úteis mais tarde. Faz também as primeiras viagens pela América Latina. Amorim ficou com o bichinho das viagens e aprendeu línguas, tornou-se um homem do mundo, numa altura em que os empresários portugueses estavam muito fechados no mercado nacional, então inflacionado pelas colónias.

Em Portugal, a Corticeira Amorim, empresa constituída em 1963 passa para o controlo dos quatro irmãos Amorim no final dos anos 60. A expansão internacional do grupo sofre travões do condicionamento industrial da política económica do regime de Salazar, mas Amorim encontra sempre um caminho para contornar os obstáculos e abre a primeira fábrica fora de Portugal (em Marrocos).

O 25 de abril chega, mas não assusta o empresário da cortiça. A agitação social entra pelas fábricas adentro, mas as nacionalizações não o tocam. As unidades do grupo já praticavam algumas das “regalias” exigidas pelos trabalhadores, segundo conta um perfil publicado no Diário Económico em 2012. E a empresa não era suficientemente grande e rica para despertar as atenções.

O empresário que se dá bem à esquerda

Já era um homem rico, um empresário de sucesso no mundo da cortiça, mas ainda lhe faltava dar o salto para a primeira divisão. Fez alianças à esquerda, improváveis para um dono de empresa. Investiu na Rússia, Cuba — onde fez amizade com Fidel Castro e foi um dos primeiros empresários estrangeiros autorizados a investir no turismo — , China e Angola e manteve sempre relações cordiais com as forças da esquerda.

E Américo Amorim tira partido das boas relações que mantém no mundo soviético. Quando os empresários e banqueiros que prosperaram no Estado Novo, fugiam de Portugal, do calor do Verão Quente e das nacionalizações, Américo Amorim aproveitou o vazio para crescer. A reforma agrária e a fuga dos grandes proprietários agrícolas do sul para comprar herdades no sul do país e a cortiça às cooperativas que exploram as terras dos antigos latifundiários. O empresário capitaliza no mercado interno e consegue abrir portas que estavam, então, fechadas para muitos capitalistas tradicionais. A cortiça serve de passaporte, mas não só.

A parceria com o grupo francês Accor para o turismo leva o grupo a Cuba nos anos 90, com a gestão de alguns hotéis. O empresário português, que desde 0 25 de abril exporta para Cuba, terá sido essencial para abrir o cobiçado e fechado mercado aos investidores franceses. Amorim é uma presença obrigatória na primeira visita de Fidel Castro a Portugal, em 1998. A fábrica do empresário em Vila Nova de Gaia fez parte do roteiro do líder cubano.

Amorim vende a sua participação neste negócio em 2007 e fica apenas com o Vilalara Resort no Algarve.

Com a economia a estabilizar no início dos anos 80 e o regresso do investimento privado aos setores nacionalizados, o empresário vê na banca a sua grande oportunidade para dar o salto para a primeira divisão. Amorim está entre os homens de negócios do Norte que apoia o projeto da Sociedade Portuguesa de Investimentos, uma iniciativa de Artur Santos Silva que está na origem do Banco Português de Investimentos (BPI).

Mas este projeto era demasiado pequeno para Américo Amorim, a vários níveis. Santos Silva queria apenas um banco de investimento e um capital disperso por vários acionistas, em que nenhum fosse dominante. Amorim é um dos promotores do futuro BPI que emigram para um projeto concorrente de criação de um banco privado e assume 20% do núcleo que viria a dar origem ao Banco Comercial Português (BCP). Amorim foi muito mais do que um acionista no arranque do BCP. Foi ele quem convidou, por conselho de terceiros, Jorge Jardim Gonçalves e convenceu o então presidente do Banco Português do Atlântico (BPA) a trocar a segurança da banca pública pelo risco de lançar um banco privado.

Começa aqui uma relação ambivalente entre os dois homens que viriam a criar o maior projeto empresarial na área da banca em Portugal, marcada pela empatia, mas também pelo conflito. No livro que assinala os primeiros dez anos do BCP, Miguel Figueira de Faria, descreve Jardim Gonçalves como o arquiteto (na verdade o banqueiro era engenheiro de formação) e Américo Amorim como o trator.

A paixão pelo BCP e o choque com Jardim Gonçalves

O empresário acabou por aceitar as exigências de Jardim Gonçalves que ambiciona um projeto nacional e os meios financeiros para o desenvolver. Nos primeiros anos de crescimento do BCP, Américo Amorim nunca faltou a um pedido de mais capital e houve muitos. O Grupo Amorim era o maior acionista do BCP. Amorim apoiou praticamente todas as decisões de Jardim, desde a atribuição de uma parte do capital aos administradores até à condição de que 30% do capital social fosse investido em informática.

“É um homem que gosta de investir todos os dias e sempre que tinha oportunidade comprava mais ações do BCP”, conta um colaborador. “Não olhava para o investimento como sendo de curto prazo”.

O sucesso do Banco Comercial Português acabou, também, por gerar tensões entre o presidente e o principal investidor. Américo Amorim tinha uma visão do que era ser acionista de um banco que não era compatível com a conceção de Jardim Gonçalves para os acionistas: mínima interferência na gestão e representação limitada ao órgão próprio que na prática tinha muito pouco poder para intervir. No entanto, e ao contrário de outros acionistas históricos do BCP, Amorim nunca procurou ter benefícios como cliente. Terá sido um dos poucos que não dependiam financeiramente do BCP.

O empresário sempre esperou chegar a administrador não executivo e nunca quis acreditar que Jardim não apoiava esta pretensão. Queria ter mais poder do que os outros acionistas porque também tinha mais capital. E tentou a todo custo ficar no BCP. Dizia sempre que “um filho não se vende”.

No livro dos 10 anos do BCP, Amorim testemunha o que lhe custou vender a participação no BCP. Foi “um cenário com muito desgosto da minha parte que previ cerca de três anos antes. Tentei, dentro do possível, com muita nostalgia, gerir o problema”.

Segundo o empresário, o divórcio começa a ganhar forma em 1989 quando Jardim inicia um processo de “descolagem do núcleo inicial de acionistas”. Na verdade, Jardim Gonçalves procurava ganhar autonomia face aos acionistas mais intrusivos, sobretudo Amorim, numa estratégia que marcou o estilo de gestão do fundador do BCP e a melhor forma de o fazer era pedir mais capital aos acionistas. Ao mesmo tempo que dispersou a base de investidores do banco (que já estava cotado em bolsa), foi escolhendo a dedo os acionistas de referência do banco que seriam seus aliados.

"Desprezei talvez alguns milhões de contos, não deliciei a imprensa portuguesa com cenários desagradáveis, não houve atitudes extremamente gravosas para a imagem do BCP. (...) Reconheço a minha fraqueza, neste sentido: empenhei-me demasiado no projeto, gosto demasiado do projeto. Não tive coragem de ter tomado atitudes que poderiam ter sido penalizantes para a instituição. Tentei, na minha forma de estar, resolver as coisas o melhor possível.”

Os dois homens fortes do BCP não era amigos, mas tinham uma boa relação que era, acima de tudo, institucional. Apesar das divergências, Amorim percebeu qual era o projeto de Jardim para o banco e deu-lhe o seu apoio enquanto empresário. Mas queria mais.

A sua ambição, conta um colaborador próximo, era ser administrador não executivo do BCP. Isto porque queria entrar no círculo restrito onde circula a informação que não é do domínio público. Pelo conselho de um banco passam muitos negócios e discutem-se as tendências do mercado, há informação sobre o que se passa nos mercados nacionais e internacionais. E Amorim queria ter acesso a essa informação reservada, quase secreta nos anos 80, quando não havia internet acessível a todos, que passava pelas salas do conselho de um banco para procurar pistas e oportunidades para investir.

Foi sempre a sua principal motivação enquanto investidor no setor financeiro e que veio conseguir enquanto acionista e administrador do Banco Popular espanhol. Amorim continua a investir na banca com esse objetivo em Angola, Moçambique e Brasil. “Amorim é uma esponja de informação. Absorve tudo. Não tem problemas em levantar questões e assumir ignorância sobre este ou aquele tema. Tem a humildade de dizer que quer saber mais e consegue captar o melhor de cada um.” (Jorge Armindo).

Saiu do BCP, mas manteve sempre um pé na banca

Se tivesse ficado no BCP, talvez o banco não tivesse crescido tanto, mas certamente que o grupo Amorim não estaria hoje tão saudável, admite um antigo colaborador. O empresário explica-se no livro do 10º aniversário do BCP.

“Optei por uma postura de saída, penalizando possivelmente o grupo. Desprezei talvez alguns milhões de contos, não deliciei a imprensa portuguesa com cenários desagradáveis, não houve atitudes extremamente gravosas para a imagem do BCP. Mas sobre este tema, as únicas pessoas que podem falar em concreto sou eu e o presidente. Reconheço a minha fraqueza, neste sentido: empenhei-me demasiado no projeto, gosto demasiado do projeto. Não tive coragem de ter tomado atitudes que poderiam ter sido penalizantes para a instituição. Tentei, na minha forma de estar, resolver as coisas o melhor possível.”

Amorim sai de cena, mas resta-lhe a consolação de ganhar dinheiro com a operação. Como aconteceu com outros negócios que lançou e depois vendeu. Fiel só mesmo à cortiça da qual lhe chamam o rei.

Nos anos 90, estava a rebentar o boom das telecomunicações e Américo Amorim não fica de fora. Foi um dos investidores originais da Telecel, a marca privada que chegou a ser sinónimo de telemóvel em Portugal, à boleia de um dos anúncios mais famosos de sempre: Tou Xim? A Telecel era uma empresa controlada por dois grupos nacionais, o Grupo Espírito Santo que era ao mesmo tempo acionista da Portugal Telecom que tinha a rival TMN, e Américo Amorim. Não seria, aliás, o único negócio de sucesso que Amorim faria com o Grupo Espírito Santo em quem acreditou até ao fim.

Os portugueses reduzem a sua participação com a entrada em bolsa da Telecel que mais tarde veio a ser adquirida pela Vodafone, a operadora que tinha comprado o parceiro estrangeiro AirTouch. Amorim sai, outra vez, com uma mais-valia no bolso. Um feito que viria a repetir na Petrogal, onde foi um dos acionistas do núcleo duro nacional que participou na primeira fase de privatização da petrolífera em 1992, então associados à francesa Total.

Os primeiros anos da Petrogal parcialmente privatizada foram duros para os privados. A petrolífera acumulou prejuízos de centenas de milhões de euros, o que logo alimentou um conflito entre o Estado e os privados. Para complicar ainda mais o ambiente, os privados entraram em choque entre eles, com os portugueses de um lado e os franceses do outro.

Em 1995, a Total vende a sua participação à holding nacional Petrocontrol, que aumenta a sua participação com uma injeção de fundos na Petrogal. É um sinal de confiança dos privados numa empresa onde até então tinham perdido dinheiro, mas a aposta viria a dar frutos, embora graças a um empurrão do governo de António Guterres.

Depois de algumas tentativas falhadas para encontrar um parceiro estrangeiro para a Petrogal, os privados liderados por Ricardo Salgado, convencem o ministro da Economia, Pina Moura, a transferir os ativos públicos de gás natural para a Petrogal. O negócio do gás estava em franco crescimento e era cobiçado por nacionais e estrangeiros. A nova Galp, enriquecida com o gás natural, consegue finalmente atrair investidores internacionais. A italiana Eni paga um bom prémio para garantir o lugar, num negócio muito polémico que incluiu também a compra da participação nacional no capital da petrolífera.

O grupo de investidores nacionais, com Ricardo Salgado e Américo Amorim, não só vendem a sua parte com um bom lucro, como conseguem em tempo recorde um bónus fiscal: isenção de imposto sobre as mais-valias. A operação deu comissão parlamentar de inquérito e alimentou a polémica sobre os centros de decisão nacional nas empresas estratégicas que tinha surgido depois de António Champalimaud ter vendido o grupo bancário aos espanhóis do Santander.

Américo Amorim, Ricardo Salgado e Vasco de Mello — estavam entre os empresários que assinaram o controverso manifesto dos 40 em defesa dos centros de decisão nacionais em 2002. Os três tinham vendido a Galp à Eni, com o argumento de que o governo lhes tinha pedido para saírem do capital de forma a viabilizarem o negócio com os italianos. No entanto, foram as alienações que realizaram depois do manifesto (Grupo Espírito Santo foi a exceção) que viriam a virar-se contra si. E Amorim protagonizou uma das mais polémicas quando vendeu o BNC (Banco Nacional de Crédito), um banco que lançou quando ainda estava no BCP, aos espanhóis do Banco Popular.

A anunciada em 2003 tinha uma nuance que, aliás, reproduzia uma das marcas do negócio Champalimaud. O empresário português foi pago não em dinheiro, mas em ações da instituição compradora. Amorim ficou com 4,5% do Banco Popular, sendo então um dos maiores individuais da instituição, o que lhe garantiu o tão ambicionado lugar no conselho de administração de um banco relevante.

Confrontado com acusações de falta de patriotismo, Amorim respondeu:

“Até fico chocado de ouvir isso. Sou português e vou morrer em Portugal, que é o meu país. As pessoas não sabem o que é patriotismo, as pessoas não sabem o que foi a revolução de Abril, não sabem o que foi o Dr. Salazar… É tudo muito superficial neste país para terem ‘o direito’ de pretenderem insinuar a mim… É tudo muito fútil”.

Em declarações ao Público, afasta-se do movimento, garante que não esteve fisicamente presente e lembra que não recebeu um euro em dinheiro (recebeu ações). Amorim viria a vender a sua participação no Popular anos mais tarde, uma instituição que o responsável máximo em Portugal, Carlos Álvares, descreveu como muito, muito conservadora.

O empresário nunca deixou, todavia, de ter um pé na banca. Foi acionista fundador do BIC Angola, ao lado de Isabel dos Santos, e lançou uma instituição em Moçambique. A aliança com a filha de José Eduardo dos Santos foi, aliás, instrumental para vários dos negócios que desenvolveu, mas não escapou às guerrilhas e desentendimentos que têm marcado quase todas as parcerias entre Isabel dos Santos e os empresários portugueses. A ligação a Isabel dos Santos esteve perto de implodir em 2010 por causa da Galp, mas valores mais altos se levantaram.

A Galp e a descoberta de petróleo

Américo Amorim nunca foi um grande entusiasta dos processos de privatização. Ao contrário de Belmiro de Azevedo, que analisou e participou em várias operações de venda de empresas do Estado — BPA, Portucel, Torralta — processos que quase sempre deram capital de queixa ao dono da Sonae, o empresário não mostrou um interesse especial. Ainda tentou concorrer ao Borges e Irmão e ao Fomento, bancos comprados pelo BPI, mas ficou pelo caminho. A Galp foi a exceção, por duas vezes.

Depois da primeira passagem pela ainda Petrogal, o Amorim volta a aliar-se a Ricardo Salgado para concorrer à uma nova fase de privatização em que a empresa ia para o mercado outra vez sem o isco do gás natural que um governo PSD-CDS tinha decidido dar à EDP e à Eni que aceitava ceder a opção que lhe dava direito a assumir o controlo da Galp.

Ao lado de Amorim, Salgado e Monteiro de Barros, estava o fundo de investimento americano Carlyle que competiam com a CUF do Grupo José de Mello e com a Petrocer, um agrupamento que juntou os acionistas do BPI sob o comando de Manuel Ferreira de Oliveira, o gestor que em meados dos anos noventa trocou a Petróleos da Venezuela pela presidência da Petrogal.

O concurso de venda da Galp que decorreu em 2004 foi um dos mais disputados das privatizações portuguesas. Correu muita tinta e, também, muitas acusações entre os concorrentes. A Petrocer acabou por ganhar, mas a operação não se pode concretizar nos moldes previstos porque a integração do gás na EDP foi chumbada pela Comissão Europeia.

Com um novo governo a chegar, Sócrates ganha as eleições de fevereiro de 2005, é tempo de baralhar e voltar a dar as cartas que vão definir o futuro da Galp. Os socialistas também queriam travar os italianos e vão encontrar em Américo Amorim um aliado improvável. Afinal, com ou sem justiça o empresário tinha ficado no passado recente mais associado à venda do que à compra de empresas estratégicas.

Isso mesmo admitiu numa entrevista que deu ao Jornal de Negócios depois de pagar 1,6 mil milhões de euros para ficar com 33,34% da Galp, a mesma posição que a Eni com quem ia dividir a gestão da empresa durante os próximos anos.

“Expliquei ao governo qual era a minha intenção. E disse a quem de direito na altura que, se a operação andasse para diante, iam dizer duas coisas: que eu ia vender rapidamente, por um lado. E que não tinha liquidez para a operação. Já paguei essa fatura em casos recentes no meu país.”

Amorim prometeu ao governo ficar cinco anos e já vai em dez anos, tendo até reforçado a sua participação depois de a Eni ter finalmente saído do capital da Galp. O empresário controla atualmente 38,34% da Galp Energia que é uma das poucas empresas ditas “estratégicas” que foi privatizada e que se mantém sob o controlo nacional. Uma promessa que não terá sido difícil de cumprir, considerando que o maior investimento da sua vida foi também o melhor negócio da sua vida.

Quando entrou no final de 2005, Américo Amorim valorizou a empresa em cinco mil milhões de euros. Quando a Galp entra na bolsa em 2006, vale 4,8 mil milhões de euros — 5,81 euros por ação — depois de ter distribuído dividendos extraordinários e da venda de ativos. Em 2007, a Petrobras confirma oficialmente a descoberta do mega campo petrolífero Tupi no pré-sal das águas profundas do Brasil. A Galp tem 10% do Tupi e o petróleo está na rota ascendente que o levará aos 140 dólares por barril.

Sergio Gabrielli, então presidente da Petrobrás, com Lula da Silva. O gestor brasileiro integrou mais tarde a gestão da Galp

Em 2007 e 2008, as ações da Galp brilham no PSI-20. Chegam a valer 19 euros, transformando a Galp na empresa mais valiosa da bolsa (durante alguns meses) e Américo Amorim no homem mais rico de Portugal, uma distinção que ainda não perdeu apesar do valor bem mais modesto das ações da petrolífera. Ainda assim, continuam confortavelmente acima do preço que Amorim pagou e já com 10 anos de generosos dividendos recebidos.

Em 2006, Amorim explicou o seu regresso à Galp com o facto de ser uma empresa de energia, mas sobretudo por se tratar de uma companhia “de dimensão estruturante na economia portuguesa” e por ter retorno económico. “A Galp tem tudo para ser um catalizador da economia e do seu país, chegando aos países de expressão portuguesa”.

O empresário assegurava que não tinha empenhado a sua fortuna para comprar a Galp. Amorim não é conhecido por sair para fora de pé. A Galp foi um risco calculado. “Ao longo de 53 anos de atividade industrial, nunca adquiri posições ou me envolvi em situações que não estivessem de acordo com a minha própria sombra. Seria insensato e imaginável, com a minha experiência que pudesse ficar dependente de alguém”.

Amorim foi financiado pelo Santander, mas conta com uma ajuda preciosa para dividir o esforço financeiro. A Sonangol e a Caixa Galicia assumem numa primeira fase uma parte do capital da Amorim Energia, a empresa que adquire a participação na Galp. A parceria com a petrolífera angolana “nasceu de uma conversa de circunstância em Luanda. Compreendi que tinham vocação e que gostariam de estar ligados à Galp e assim se proporcionou esta possibilidade. Aceitaram a regra de que não seriam maioritários”.

Isabel dos Santos, uma parceira nem sempre tranquila com Américo Amorim

A relação pacífica com o parceiro angolano treme com a entrada da holding de Isabel dos Santos na Amorim Energia, em substituição da Caixa Galicia. O lado angolano tem 45% do capital desta holding, mas não manda e quando as ações da petrolífera portuguesa começam a escalar na bolsa, Isabel dos Santos bate o pé, exige a entrada direta na Galp. Afinal, as ações da Amorim Energia pouco servem — é certo que recebem os generosos dividendos da Galp, mas não podem ser vendidas, nem ganham com a valorização da empresa.

A briga chega a ser feia, sobretudo quando está em cima da mesa a venda da posição da Eni à Petrobras. O negócio desagrava aos angolanos, que veem a galinha dos ovos de ouro cada vez mais ir na direção do Brasil, deixando Angola para trás. Mas Amorim resiste à birra, a Petrobras desiste de entrar na Galp e Angola conforma-se. As relações estabilizam, apesar de o empresário ter vendido a posição que tinha no BIC, o banco controlado por Isabel dos Santos, que em Portugal comprou o BPN.

Antes, Amorim deu provas de grande lealdade para a com a sua aliada angolana. Chegou mesmo a recusar dar uma entrevista com o argumento de que o órgão em causa tinha publicado um artigo com suspeitas sobre os negócios portugueses de Isabel dos Santos (que, aliás, processou o jornal).

O conforto político do governo de Sócrates ao negócio da Galp

Eis como o homem mais rico de Portugal descreveu em 2006 (entrevista ao Jornal de Negócios) o seu percurso:

“A minha atividade económica em Portugal foi marcada por três ciclos. Um foi no consulado de Oliveira Salazar, em que convivi com o condicionamento industrial. Conheci a violência do mesmo. Paguei um alvará para construir uma fábrica de aglomerados em Silves onde sou o único sobrevivente. Durante meses estive horas para ser recebido pelo então ministro da Economia e secretario de Estado. Venci-os pelo cansaço.

Depois veio a revolução de Abril. Fui expropriado das herdades do Alentejo. E em 1977 comecei a comprar futuros direitos de herdades, fiz dos maiores investimentos empresariais da minha vida. Estive na génese do BPI, estive na criação do BCP.

Estou neste dossiê (Galp Energia) por convicção. Estive em Angola em 1958 e percebi que o império colonial português tinha acabado depois do processo de independência da Argélia. Quando voltei a Angola há um ano, decidi tentar fazer um banco. As pessoas que iam comigo chamaram-me mais ou menos maluco.”

E à pergunta sobre se a aposta na Galp tem algo de loucura, responde: “Não podemos querer estar no nosso país, sem assumir uma quota-parte de presença na economia. Fui defraudado no processo do Borges e Irmão e do Banco do Fomento (ganho pelo BPI), que tinha recursos para ter comprado. Esta operação da Galp foi a primeira vez que, num processo com a dimensão que eu gosto, senti o apoio do governo para o abraçar. A primeira vez que senti em Portugal apoio político foi este dossiê”.

Nesta conversa, Amorim mostra-se muito crítico da forma que foram orientadas as privatizações nos últimos 10 a 12 anos. “Acho que o poder concentrado pelo poder, para além de coisas pontuais, não é a melhor forma para criar riqueza no pais. Por formação, separo razoavelmente a banca da atividade económica. O BCP, enquanto lá estive até 1993, só esteve na área financeira”.

E os anos da longa crise financeira vieram a dar razão à necessidade de separar as águas, então muito ligadas, entre a banca e o resto da atividade económica.

E os centros de decisão nacional? “São para quem tem melhor capacidade de gerir e rentabilizar os capitais e remunerar os acionistas e compensar os colaboradores. Sem criar riqueza, os centros de decisão não servem para nada”.

E a globalização? É o terceiro ciclo do percurso de empresário. “Não tenho medo dos chineses. A dinâmica é imparável e não vale a pena viver no fatalismo. É um processo sem regresso. Temos de encontrar nichos de mercado para a excelência”.

A história da Corticeira Amorim será um bom retrato de um nicho de excelência nacional no mercado global.

Apesar de ter passado a responsabilidade formal da administração, até aos seus últimos dias de vida Amorim fez questão de estar na reunião mensal com os diretores da área industrial. Os encontros com dezenas de quadros são sempre de manhã, em Santa Maria de Lamas. Os colaboradores já sabem com o que contam: intervenções sem papas na língua do patrão e uma viagem em económica — com partilha de carro, se possível porque a empresa não paga portagens nem despesas com refeição.

Amorim sempre teve a fama de ser unhas de forme, sobretudo no negócio da cortiça onde ganhou fama entre os concorrentes e fornecedores de conferir ao cêntimo as faturas, algumas das quais só seriam liquidadas sob a ameaça de processos em tribunal. O empresário faz questão de ser tratado por Sr. e não Dr. e abdicou do salário de um milhão de euros que poderia receber como presidente não executivo da Galp. Afinal, podia dar-se a esse luxo.

O quinhão que lhe calhou dos dividendos da Galp no ano passado ascendeu a 132 milhões de euros, que depois são divididos pelos acionistas da Amorim Energia, onde os sócios angolanos têm 45% do capital. Desde que a Galp foi para a bolsa, em 2006, a participação da Amorim na petrolífera rendeu mais de 740 milhões de euros em dividendos brutos.

O homem mais rico de Portugal não se considerava rico

Apesar da fortuna, a disciplina financeira do Rei da Cortiça é famosa. Como famosa ficou a frase que lhe saiu quando um jornalista (do Jornal de Negócios) lhe perguntou o que achava do imposto sobre os maiores patrimónios que o governo espanhol estava a preparar em 2011. “Não me considero rico. Sou trabalhador”, afirmou. Um mero assalariado.

Por esta data Amorim, já era o homem mais rico de Portugal. Imagine-se o que diria sobre o imposto de heranças que faz parte do programa do governo socialista, mas que ainda não saiu do papel.

O empresário gosta de viajar, mas tem um poiso preferencial na herdade do Peral no concelho alentejano de Portel que adquiriu nos anos 80 e onde reuniu ao longo dos anos amigos empresários para batidas de caça e conversas sobre negócios.

Não obstante a frugalidade, — Amorim não é conhecido pelas extravagâncias — o homem mais rico de Portugal ficou menos rico por causa do colapso dos negócios Espírito Santo. Américo Amorim, que fez no passado vários negócios com Ricardo Salgado, também é lesado do papel comercial do Grupo Espírito Santo. E um lesado de peso.

Na lista de credores das empresas do Grupo Espírito Santo, surgem duas empresas atribuídas a Américo Amorim. A Topbreach Holding e a Oil Investments, sociedades com a mesma morada na Holanda, aplicaram 179,4 milhões de euros em instrumentos de dívida da Espírito Santo Irmãos, empresas que foi declarada insolvente. O golpe não abalou, contudo, a sua posição como o português de maior fortuna em Portugal. A última estimativa à riqueza de Américo Amorim situava-a em 4,4 mil milhões de dólares.

Os sucessores do homem que queria ser eterno

Mas se Amorim continua à frente de Belmiro de Azevedo e de Alexandre Soares dos Santos na fortuna, demorou mais tempo a clarificar quem será herdeiro dos seus negócios. Na Sonae e na Jerónimo Martins o testemunho já passou de pais para filhos. Paulo Azevedo substituiu o pai em todos os cargos em 2015, depois de ter assumido a liderança da Sonae SGPS em 2007.

Na Jerónimo Martins, a passagem de testemunho ficou concluída em 2013, quando Alexandre Soares dos Santos abandonou a presidência não executiva. O empresário já não era presidente executivo do grupo de distribuição desde 2004, quando o cargo passou a ser ocupado por Luís Palha da Silva. Mas só em 2009 é que ficou consumada a escolha do filho, Pedro Soares dos Santos, para a liderança do grupo.

"O prazer que tenho hoje no trabalho é igual ao que tinha quando comecei. Às vezes falam-me da minha sucessão e eu digo: sou eterno". 
Declaração de Américo Amorim feita em outubro de 2006 e reproduzida na revista Visão

No universo empresarial dos Amorins, a escolha de um sucessor tem sido mais complexa. Talvez porque não há um sucessor óbvio, mas vários. Mas também porque o empresário parece ter resistido mais à ideia, como revela esta frase que lhe é atribuída num trabalho da revista Visão, publicado a 21 de outubro, a partir de declarações que proferiu em 2006 quando recebeu o prémio Empreendedor do Ano.

“O prazer que tenho hoje no trabalho é igual ao que tinha quando comecei. Às vezes falam-me da minha sucessão e eu digo: sou eterno”.

Américo tem três filhas, separadas apenas por um ano de idade. Apenas a mais velha, Paula Amorim, teve alguma visibilidade nos negócios do pai com a nomeação para a administração da Galp Energia em 2012 como não executiva.

O seu percurso empresarial está sobretudo ligado à Fashion Clinic, cadeia de lojas que vende as principais marcas de roupa de grandes designers, que gere desde 2005. Criou mais recentemente a Amorim Luxury que tem a representação da marca Gucci Portugal. Este negócio é independente do grupo Amorim, onde Paula Amorim exerce vários cargos. Mas a sua carreira de business woman tem sido muito discreta. Não faz aparições públicas nos fóruns dos empresários, nem presta declarações à imprensa.

Paula, de 45 anos, foi a escolha do empresário para o substituir na liderança não executiva da Galp, a participação mais valiosa do império Amorim, depois de um “estágio” como vice-presidente da petrolífera, desde 2015, e administradora não executiva desde 2012. O comunicado da empresa descreve-a como uma “empreendedora” que trabalhou ao lado do pai durante 25 anos.

Da sua biografia oficial consta a frequência do curso de gestão imobiliária da Escola Superior de Atividades Imobiliárias (ESAI). A sua principal escola foi, no entanto, o grupo familiar, para o qual entrou em 1992. Paula foi casada com Rui Alegre, que no passado foi um dos gestores da confiança do pai. Rui Alegre esteve à frente da área do turismo e do imobiliário, que foi vendida ao grupo espanhol Chamartín em 2007. Atualmente a filha mais velha de Amorim é casada com um gestor hoteleiro que tem uma carreira do poderoso sogro.

Paula Amorim assumiu a presidência não executiva da Galp em outubro de 2016

A renúncia de Amorim a chairman da Galp, no dia 14 de outubro, aos 82 anos, tornou mais evidente o quadro de sucessão do homem mais rico de Portugal. Apesar de ter vendido 5% da sua participação no verão passado, encaixando 485 milhões de euros, a presença dos Amorins na petrolífera onde são os maiores acionistas mantém-se com a entrada para a administração da segunda filha, Marta Amorim, como administradora não executiva.

Marta Amorim também exerce funções em empresas do grupo, é vice-presidente do Grupo Amorim e administradora da Amorim Energia. É licenciada em gestão de empresas pela Universidade Católica do Porto e trabalhou anos no setor bancário, esteve no Santander em Nova Iorque, e depois passou pelo banco da família o BNC.

Luísa Amorim também é uma mulher de negócios e fez carreira no grupo Amorim, desde a corticeira até à hotelaria. A filha mais nova de Amorim está à frente do projeto de produção de vinho na região do Douro, a Quinta de Nossa Senhora do Carmo, que explora também um hotel, um projeto inovador de enoturismo. É a única descendente direta na administração da corticeira.

Também dentro da família, ainda de forma indireta, outro gestor da confiança de Américo Amorim foi Jorge Armindo, que casou dentro do clã — não como uma filha, mas com uma sobrinha. Armindo foi o braço direito do empresário durante os anos 90, sobretudo nos negócios fora da área core da cortiça. Voltou ao grupo depois de ter sido presidente da Portucel, empresa controlada por capitais públicos. É presidente da Amorim Turismo, sociedade criada em 2007 após a reorganização das operações do grupo que conta na sua carteira com os hotéis Altis, da qual também é acionista.

Nesta entrevista publicada em 2007 no Jornal de Negócios, Armindo reconhece:

“Ganhei um grande protagonismo no grupo. Tinha consciência que isso podia ser pouco confortável…, para que outro membro da família pudesse tomar protagonismo.” E quanto questionado sobre a relação com a família Amorim e possíveis invejas, responde:

“Ter casado com uma Amorim foi o motivo que mais me levou a pensar como é que podia sair dali sem chocar a “opinião pública”.

Há outros “genros” na gestão do grupo. Segundo a revista Visão, o marido de Marta, Nuno Barroca, é vice-presidente da corticeira. E Francisco Teixeira Rego, casado com Luísa, está na administração da Amorim Holdings.

O empresário tem também apostado em gestores profissionais fora da família — e até contratou para a Galp um presidente que tinha sido seu opositor no concurso de venda de 2004. Ferreira de Oliveira foi uma escolha de Amorim. Saiu em 2015, tendo sido substituído por Carlos Gomes da Silva, outro gestor que não é do clã Amorim.

A Corticeira Amorim continua a ser a principal cara dos grupo, ainda que não seja a empresa mais valiosa, embora esteja a dar cada vez mais nas vistas ao duplicar de valor em cinco anos, num período marcado por desvalorizações na bolsa de Lisboa. O sucessor do rei da cortiça, como lhe chamou a revista Forbes, vem da família, mas não é filho do Amorim mais famoso.

A empresa é controlada pelos três ramos da família, mas o ramo do irmão António ganhou ascendência quando a corticeira passou a ser presidida pelo sobrinho de Amorim, António Rios Amorim, na sequência de uma divisão de negócios entre os três irmãos.

António Rios Amorim refocou a operação na área da cortiça e apostou na investigação e desenvolvimento e tornou a Corticeira Amorim numa referência mundial, também neste domínio.

Quando entrou para o capital da Galp no final de 2005, Américo Amorim gostava de aparecer em eventos da petrolífera — esteve no Brasil com Lula da Silva na cerimónia que assinalou o “primeiro óleo”, o início da produção de petróleo no mega campo do Tupi onde a Galp tem 10% — e de ser ouvido sobre a gestão da empresa. Enquanto foi presidente não executivo e até 2015 só faltou a uma das dez reuniões do conselho de administração da petrolífera. Só razões de saúde o afastaram do cargo na Galp a qual renunciou em outubro de 2016, invocando razões pessoais, que eramde saúde.

O empresário esteve hospitalizado em março de 2016 no Hospital de Gaia, onde foi sujeito a uma intervenção cirúrgica cardiovascular. Os meses de verão foram de recuperação e esteve internado na Alemanha onde terá sido submetido a uma intervenção no coração. Regressou a casa, mas retirou-se, finalmente, nessa altura, do mundo empresarial. Saiu da Galp e também deixou de comparecer às reuniões com quadros que se realizam mensalmente na sede do grupo.

Paula Amorim na cerimónia que assinalou os dez anos da Galp na bolsa

Mas o coração e a cabeça de Amorim estiveram sempre ligados aos negócios. E assim que os médicos o deixaram sentar-se, a primeira coisa que pediu foi um computador, para acompanhar ao minuto os resultados das várias fábricas da corticeira pelo caminho.

A saída do palco das suas empresas foi encenada com cautela e a passagem do testemunho foram trabalhadas com cautela. Vários órgãos de referência aproveitaram a ascenção de Paula Amorim na Galp para publicar trabalhos sobre uma sucessão tranquila e preparada. Quase não se falou no estado de saúde do homem mais rico de Portugal.

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