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O inspector da PIDE que morreu duas vezes

15 Junho 2017

São 26 episódios de proezas, "furos", manchetes bombásticas e erros calamitosos nas primeiras páginas que atravessam todo o século XX. Gonçalo Pereira Rosa reúne-os no livro que aqui pré-publicamos.

É um livro sobre jornais, sobre jornalistas e sobre notícias: dos grandes furos às grandes gaffes, passando pelas manchetes que marcaram o século XX na imprensa portuguesa. Gonçalo Pereira Rosa reuniu em “O Inspector da PIDE que morreu duas vezes” 26 episódios memoráveis do jornalismo português: “É um livro que procura documentar, em episódios singulares, as pressões de todas as épocas, interpretando-as à luz de cada contexto e sugerindo ao leitor contemporâneo a complexidade desta função social exercida pelos jornalistas – atreita ao erro, volátil, muitas vezes sobranceira, mas ainda fundamental para a interpretação do quotidiano e para a atribuição de sentido aos eventos que se desenrolam à nossa volta”, escreve o autor.

Escolhemos um deles, precisamente aquele que dá o nome ao livro.

O inspector da PIDE que morreu duas vezes

Como uma sequência de pequenos lapsos motivou uma notícia escandalosa no Diário de Notícias sobre o subdirector da PIDE.

Falta um quarto de hora para as oito horas da manhã do dia 3 de Outubro de 1960: o telefone toca no velho primeiro andar da Rua do Monte Olivete, em Lisboa, onde reside o jornalista António Valdemar. É seguramente uma emergência nesta segunda-feira, já que no jornal sabem que Valdemar trabalhara na véspera, no domingo. “Sempre gostei de o fazer para poder folgar durante a semana”, reconhece o redactor açoriano. “Fazia-se um pouco de tudo, incluindo os serviços que mais ninguém queria fazer, como as farmácias, os cinemas e a necrologia. Não dava muito trabalho, era uma rotina fácil.”

"O caso era gravíssimo. Vesti-me à pressa e compareci", contou o jornalista na crónica "Uma história macabra", publicada na edição do centenário do jornal lisboeta, em 29 de Dezembro de 1964.

Estremunhado depois de uma noite que ainda o levara “a experimentar as moderadas irreverências das revistas do Parque Mayer”, Valdemar é despertado da pior forma. Do outro lado da linha, Mário Barros, velho secretário da redacção do Diário de Notícias, nem o deixa articular uma frase completa: “Vem imediatamente!”, ordenou.

Sem lhe explicar o motivo, mas já com dois inspectores da PIDE nas instalações do jornal exigindo respostas, Mário Barros, figura lendária do jornal da Avenida da Liberdade, o homem que velava o jornal durante a madrugada quando os outros dormiam, “numa luta em que ele se matou durante cerca de quarenta anos, algemado voluntariamente a uma cadeira e a uma mesa dezasseis horas por dia, sem uma folga na semana, sem um mês de férias”, exige a presença imediata de Valdemar na redacção. “O caso era gravíssimo. Vesti-me à pressa e compareci”, contou o jornalista na crónica “Uma história macabra”, publicada na edição do centenário do jornal lisboeta, em 29 de Dezembro de 1964.

Só então o jornalista percebe: existira um erro na notícia necrológica da edição do dia 3, escrita pelo seu punho. Um erro imprevisto. Explicável. Mas um erro aberto a várias interpretações. 

Finalmente, as palavras desabam sobre o jovem redactor do Diário de Notícias, admitido nesse mesmo ano de 1960 e oriundo das fileiras do República: “Ele disse-me: ‘O morto está vivo! Antes matasses o Dantas!'” (Mais tarde, ao recuperar a memória do episódio, o director Augusto de Castro pedir-lhe-ia que substituísse a alusão ao escritor Júlio Dantas, eminência parda da Cultura portuguesa, por uma referência mais vaga ao papa.) “Sobre mim, Mário Barros declinava terríveis ameaças, empurrava-me para um abismo em que se despenhavam, implacavelmente, todos os meus sonhos e esperanças e, sobretudo, a minha liberdade de cidadão.”

Só então o jornalista percebe: existira um erro na notícia necrológica da edição do dia 3, escrita pelo seu punho. Um erro imprevisto. Explicável. Mas um erro aberto a várias interpretações. A notícia dá conta do falecimento do coronel Rui Pessoa de Amorim, subdirector da PIDE. E, nessa manhã, o coronel começa a fartar-se de receber condolências demasiado precoces.

Um jovem redactor

António Valdemar ingressa no República no final da década de 1950, sensivelmente na mesma altura em que se aproxima da maçonaria através do médico Ramon de La Féria. O poeta e escritor Alfredo Guisado, um dos directores do jornal, tem a seu cargo a página literária do jornal e Carvalhão Duarte ocupa-se das lutas políticas, dos telefonemas com a Censura e de outros contactos oficiais. É Guisado que patrocina a entrada de Valdemar, apoiado na opinião de António Sérgio sobre o jovem açoriano – Sérgio fora encarregado de educação de Valdemar quando este frequentara o Colégio Moderno, em Lisboa.

O estagiário mostra, de imediato, credenciais no domínio das Artes e Letras e revela-se extraordinariamente culto e versátil. “Ao longo da minha carreira, houve só três coisas em que nunca me integrei – a Economia, o Desporto e tudo o que fosse falado em inglês”, diz Valdemar, numa divertida conversa que curiosamente teve lugar no dia do 150.º aniversário do jornal. Há uma certa ironia nesta afirmação, pois o jornalista desloca-se desde cedo à biblioteca do Instituto Britânico para conspirar com Carlos Estorninho (amigo íntimo de Sérgio, membro destacado da Oposição ao regime e do Conselho Fiscal do República). Ali conhece também o historiador Charles Boxer, que já assumira uma controvérsia com o Estado Novo a propósito da empresa Diamang e que, em 1964, será acusado de deslealdade e espionagem após a publicação do seu livro sobre o colonialismo português.

Entre 1959 e 1960, soa o alarme: surge um movimento que pretende promover uma candidatura do escritor Miguel Torga ao Prémio Nobel da Literatura, num momento em que Aquilino Ribeiro, já septuagenário, está na iminência de uma detenção inusitada após a publicação do seu provocatório Quando os Lobos Uivam. 

Valdemar conduz inquéritos, faz entrevistas, entre outros, com o escultor Canto da Maia e com o mimo Marcel Marceau. Dá explicações à filha de Almada Negreiros, aluna do 5.º ano do Liceu. Ganha créditos.

Entre 1959 e 1960, soa o alarme: surge um movimento que pretende promover uma candidatura do escritor Miguel Torga ao Prémio Nobel da Literatura, num momento em que Aquilino Ribeiro, já septuagenário, está na iminência de uma detenção inusitada após a publicação do seu provocatório Quando os Lobos Uivam. No seio da Oposição, para provocar um escândalo internacional, Vieira de Almeida, Manuel Mendes e Fernando Lopes-Graça alvitram a hipótese de promover o nome de Aquilino como potencial candidato, obrigando os mecanismos de repressão a recuar. Torga conta com numerosos apoios de intelectuais, como Amândio César ou José de Melo, que instrumentalizam o Diário Ilustrado para essa causa. “Travámos uma batalha tão política como literária”, conta António Valdemar. “No República, estávamos literalmente na mesma rua, em frente da redacção do Ilustrado.”

É, pois, com naturalidade, que Alfredo Guisado lhe diz um dia, num almoço nos Irmãos Unidos, que chegara a altura de encontrar um projecto jornalístico de maior pujança – ou O Século ou o Diário de Notícias. Valdemar replicou: "Os dois jornais são fascistas!"

O República inicia um inquérito nas suas páginas sobre qual dos dois escritores mais mereceria o galardão. Valdemar é encarregado do tema por Alfredo Guisado e entrevista várias figuras literárias. Vieira de Almeida, João Gaspar Simões, Jacinto Prado Coelho, João Pedro de Andrade e Jaime Brasil, entre outros, dão a sua opinião. “O movimento ganha força e produz uma carta colectiva, que Jorge Reis ajudará a distribuir em França, para obter apoios dos intelectuais franceses.” François Mauriac, Nobel da Literatura em 1952, e Simone de Beauvoir, subscrevem-na imediatamente.

No entanto, na entrevista do República com Jaime Brasil, o velho jornalista responde que, tão merecedor como os dois citados ou porventura até mais, era o escritor Ferreira de Castro, velho amigo do República e traduzido em todas as línguas da Europa. Carlos Estorninho complica ainda mais o novelo, alvitrando o nome de Jaime Cortesão como um candidato igualmente meritório. “O inquérito cessou porque o jornal não quis envolver-se mais na controvérsia, nem afrontar escritores muito amigos daquela casa. O República só apostara em Aquilino para assustar Salazar.”

"Respondi então que O Século estava fora de questão. Não gostava do modo como o Acúrcio Pereira geria aquela redacção, sempre aos gritos", conta. Por exclusão de partes, vai portanto para o Diário de Notícias.

O prestígio de Valdemar é cimentado por estes episódios e pela amizade crescente com Almada Negreiros, de quem se torna quase entrevistador exclusivo e confidente. É, pois, com naturalidade, que Alfredo Guisado lhe diz um dia, num almoço nos Irmãos Unidos, que chegara a altura de encontrar um projecto jornalístico de maior pujança – ou O Século ou o Diário de Notícias. Valdemar replicou: “Os dois jornais são fascistas!”, ao que Guisado retorquiu: “Todos os jornais são fascistas desde que tenham o visto da censura na primeira página.” “Respondi então que O Século estava fora de questão. Não gostava do modo como o Acúrcio Pereira geria aquela redacção, sempre aos gritos”, conta. Por exclusão de partes, vai portanto para o Diário de Notícias.

Guisado arquitecta um pequeno complot. A recomendação da contratação do jornalista é feita por Almada Negreiros sem qualquer menção a Alfredo Guisado, permitindo por isso que Augusto de Castro, o director do Diário de Notícias (DN), possa pedir informações a Guisado sobre Valdemar!

A carreira de Valdemar no Diário de Notícias parece lançada. Até à segunda-feira maldita de 1960.

Proveniente do República e ligado a figuras históricas do Reviralho, Valdemar sente-se no DN como um animal num aquário, observado à lupa por uma redacção constituída quase exclusivamente por militantes do regime, com algumas excepções, como o anarquista Cristiano Lima, os velhos monárquicos Sebastião Cardoso e Artur Maciel ou o velho chefe da redacção de jornais republicanos, Rocha Júnior. “Adoptei um estratagema que tinha ouvido certa vez o medievalista Rodrigues Lapa contar a Jaime Cortesão, antigo director da Biblioteca Nacional (BN) – Cortesão quis saber como Lapa conseguira passar com uma das mais altas classificações numa cadeira leccionada por Leite Vasconcelos, conhecido pelas suas aulas sinuosas e desconexas. Lapa respondeu-lhe: ‘Como não tinha nada que fazer na BN, li todos os livros dele e estudei-o a fundo. Conhecia melhor do que ele as suas obras e sabia explicá-las melhor do que o próprio autor’.” É exactamente assim que António Valdemar se torna notado aos olhos de Augusto de Castro no Diário de Notícias: “Fui a um alfarrabista e comprei os livros todos dele. Percebi as suas referências intelectuais – o Dantas, o Junqueiro, o Malheiro Dias, o João Lúcio, o Pierre Benoit, o Edmond Rostand, o Marcelino Mesquita, o Marcel Prévost, o André Maurois e, claro, o seu tio José Luciano de Castro. Tirei-lhe as medidas assim.”

A carreira de Valdemar no Diário de Notícias parece lançada. Até à segunda-feira maldita de 1960.

Como nasce um equívoco

No domingo, 2 de Outubro, a edição do Diário de Lisboa publicara a notícia necrológica do coronel de infantaria Rui Padrão Pessoa de Amorim. Sebastião Cardoso, com a tarimba própria de quem gere a agenda desde os tempos de A Voz, passa o recorte a António Valdemar e pede-lhe que se dirija à casa mortuária do Hospital Militar da Estrela para recolher mais informações e uma fotografia do falecido, uma vez que o funeral está marcado para o dia seguinte. Indica-lhe que se trata do subdirector da PIDE, ignorando que existe (ou melhor, que cessara de existir) outro Rui Pessoa de Amorim, primo do dirigente da polícia política, igualmente coronel e igualmente sexagenário.

Vieira dá instruções: quer a notícia com um palmo de comprido a abrir a secção de necrologia, com um corandel. Tudo para ontem!

No átrio do elevador, prestes a sair para a rua, António Valdemar é interpelado pelo chefe da redacção, Tomé Vieira, que contraria a ordem de Sebastião Cardoso e incumbe Valdemar de traduzir o artigo da semana de André Maurois que o jornal regularmente publica. Valdemar ainda balbucia a necessidade de confirmar dados e recolher uma fotografia actualizada, mas é invectivado por Tomé Vieira com a expressão “Tu gostavas de ser rico?” que repete a todo o instante, como um tique. Objectivou depois: “Querias passear sem fazer o expediente. Na biblioteca, tens uma fotografia recente numa sessão de homenagem na PIDE em que também estive. Usa essa.”

Vieira dá instruções: quer a notícia com um palmo de comprido a abrir a secção de necrologia, com um corandel. Tudo para ontem!

Valdemar escreve: “Faleceu ontem o Sr. Coronel Rui Padrão Pessoa de Amorim, inspector-superior da PIDE. Pertencia à arma de Infantaria. Estava na situação de reserva. Tinha 60 anos…”

Está em curso um engano terrível.

As repercussões

Na própria manhã do dia 3, o jornalista Flamínio de Azevedo, conhecido pela sua participação em sessões de espiritismo e amigo de Pessoa de Amorim desde o tempo em que o coronel integrara a equipa de Ferreira do Amaral na PSP, “sentira-se na obrigação de dar os pêsames à família e rezar por alma daquele velho amigo”, contou Valdemar, no seu relato de 1964 sobre o episódio. “Ainda ajoelhado junto da câmara ardente sentira uma forte pancada nas costas. Era o ‘morto’.” Entra em pânico até perceber o equívoco. Pessoa de Amorim exclama: “Mataram-me! Ainda por cima com uma notícia de merda na necrologia, ao lado de mortos da Rua dos Fanqueiros. Eu que salvei a Pátria por duas vezes do abismo…” Flamínio retorque, capitalizando o engano do seu próprio jornal: “Querido comandante, não sabia de nada, estive ontem de folga. Veja bem quem são os seus amigos. Eu vim cá!”

"Ainda ajoelhado junto da câmara ardente sentira uma forte pancada nas costas. Era o 'morto'." Entra em pânico até perceber o equívoco. Pessoa de Amorim exclama: "Mataram-me! Ainda por cima com uma notícia de merda na necrologia, ao lado de mortos da Rua dos Fanqueiros. Eu que salvei a Pátria por duas vezes do abismo…"

O redactor corre de seguida para o jornal para apurar, junto de Mário Barros, o que se passara e quem escrevera o texto. Admite maliciosamente que o engano pode ter sido propositado, circunstância que, ainda hoje, António Valdemar desmente categoricamente. Quando se encontram no Diário de Notícias, Flamínio, enterrado numa velha poltrona, limita-se a repetir com malícia para o estagiário: “Claro… É muito grave… Claro.” O nervosismo aumenta com a incerteza. Rui Pessoa de Amorim dispõe, de facto, neste dia 3 de Outubro, de uma ocasião rara para perceber quem são os seus amigos. E não está a gostar do que vê. Parte do seu espólio documental e epistolar foi entregue, nos últimos meses, pelo neto, José Manuel Durão, ao arquivo Ephemera de José Pacheco Pereira, com uma curta nota explicativa. Nela, regista-se o “salazarista incondicional”, “militar, monárquico, ligado às polícias políticas”, a cuja génese pertenceu no início da década de 1930. Combatera na Primeira Grande Guerra como voluntário “para substituir outro militar, que tinha mulher e filhos e que procurava desesperadamente alguém para ir em seu lugar”, lembra o neto. Nas trincheiras francesas, “foi ferido nas pernas por disparos de metralhadora e foi a Conselho de Guerra por deserção, episódio curiosíssimo que só mesmo num tempo daqueles se podia passar”, acrescenta ainda.

Entretanto, na sede do Diário de Notícias, ninguém tem ordens para telefonar a Augusto de Castro antes das duas horas da tarde. O director já terá lido a notícia, mas nada sabe ainda sobre o lapso.

Condecorado no conflito, foi depois observador da guerra civil espanhola em 1936, fintando o destino quando deu o seu lugar num avião ao general José Sanjurjo, “livrando-se da queda logo a seguir desse avião, que vitimou o general espanhol e levou à ascensão de Franco”. E, claro, estivera ligado à fundação da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado entre 1932 e 1933.

Entretanto, na sede do Diário de Notícias, ninguém tem ordens para telefonar a Augusto de Castro antes das duas horas da tarde. O director já terá lido a notícia, mas nada sabe ainda sobre o lapso. Como um réu aguardando o veredicto do juiz, Valdemar sai da redacção. “Saí amarfanhado, pressentindo a triste sorte que me esperava. Desci a Avenida, fui para casa. Deitei-me. Levantei-me. Tornei a deitar-me, tornei a levantar-me. Fumei cigarros sobre cigarros e, de mãos na cabeça, andei quilómetros à volta do meu pequeno quarto.”

Pelas 15 horas, regressa ao Diário de Notícias. Como o meirinho escoltando o condenado, Mário Barros leva-o à presença do director, que “rabiscava assinaturas sobre assinaturas da empresa Companhias Reunidas Gás e Electricidade, da qual era administrador […] Mário Barros, aproveitando um hiato, uma altura em que Augusto de Castro abria uma gaveta, anunciou-lhe: ‘Cá está o homem que matou o coronel’. Imperturbável, Augusto de Castro perguntou-me: ‘E como foi, como foi?'”

"Olhe que eu tenho o currículo que você conhece e nunca me calhou um morto que se levantasse. Como sabe, não fui eu neste jornal quem se enganou na morte do Proust, mas fiquei com essa responsabilidade." 

Valdemar em breve descobre que Castro descortinou o humor da situação, só compreensível pela azáfama diária de uma redacção. “Olhe que eu tenho o currículo que você conhece e nunca me calhou um morto que se levantasse. Como sabe, não fui eu neste jornal quem se enganou na morte do Proust, mas fiquei com essa responsabilidade.” Castro referia-se ao velho caso do anedotário do Diário de Notícias, relatado no capítulo “Proust e Gualdino, o diabo bateu à porta duas vezes”.

“Castro era um homem justo nestes casos”, lembra António Valdemar. O director recomenda a publicação de um desmentido, que Valdemar, ainda nervoso, não sabe como escrever. O director dita-lhe o texto: “Por lamentável erro de informação, noticiámos ontem o falecimento do distinto oficial do exército […]. Quem faleceu foi o também distinto oficial do exército com o mesmo nome.” À despedida, atira-lhe em jeito premonitório: “Você ainda se vai rir deste incidente!”

"Durante anos, mandaram-me fazer missas, mas, quando a situação se complicou, pedi ajuda ao cónego Alberto Carneiro de Mesquita, secretário do cardeal Cerejeira que residia no Patriarcado."

Nessa noite, à medida que a tempestade amaina, António Valdemar procura medir as repercussões futuras do engano. Puxando-o para um canto da redacção, Cristiano Lima adverte-o: “Você está tramado neste jornal! Vai ser trucidado durante anos. Vão-lhe marcar missas, procissões pontificais na Sé. O Mário Barros vai querer convertê-lo. Fez o mesmo comigo. E você terá de aprender como isso se faz.”

A premonição viria de facto a confirmar-se: “Durante anos, mandaram-me fazer missas, mas, quando a situação se complicou, pedi ajuda ao cónego Alberto Carneiro de Mesquita, secretário do cardeal Cerejeira que residia no Patriarcado.” Amigo íntimo de Salazar, dizia-se dele que era mais salazarista do que o próprio Presidente do Conselho, apesar de Cerejeira lhe dirigir palavras peculiares nos seus Vinte Anos de Coimbra – “Carneiro de Mesquita tinha estranhas teorias, como a de que a posição horizontal era a posição normal do homem (e, de facto, precisando de vinte e cinco horas de sono por dia, tinha de aproveitar todas as horas de sono por dia a ver se conseguia perfazer a conta […])”. Corria, porém, o rumor de que o cónego era o único confessor tolerado por Salazar.

Quis o destino que, semanas depois, Valdemar frequentasse o barbeiro no mesmo dia em que Rui Pessoa de Amorim ali se dirigiu, na companhia de Luís Lupi, fundador e director da agência de notícias Lusitânia. Pressuroso, Lupi apontou o jornalista do Diário de Notícias e acusou: "Foi este gajo que o matou na necrologia do jornal."

“Divertido com o meu problema, Mesquita explicou-me, passo a passo, as rotinas cerimoniais, uma sequência de rituais como outro espectáculo qualquer. Percebi o mecanismo daquilo, li algumas notícias das Novidades sobre missas dessa natureza e tornei-me perito no serviço que deveria constituir o meu castigo. Acabei por ser eu a rir-me», lembra Valdemar.

Epílogo

No início da década de 1960, António Valdemar usava barba, então aparada na Barbearia Campos, em frente de A Brasileira, de encontro de membros da Oposição e de agentes da PIDE. Quis o destino que, semanas depois, Valdemar frequentasse o barbeiro no mesmo dia em que Rui Pessoa de Amorim ali se dirigiu, na companhia de Luís Lupi, fundador e director da agência de notícias Lusitânia. Pressuroso, Lupi apontou o jornalista do Diário de Notícias e acusou: “Foi este gajo que o matou na necrologia do jornal.”

“Eu ouvi, olhei para ele e, palavra de honra, o monóculo até faiscava de raiva”, conta Valdemar. “Nunca mais nos cruzámos, mas fiz questão de me vingar do Lupi.” Na viagem inaugural da DETA (um voo entre Portugal e Moçambique), num jantar de imprensa na Beira, Luís Lupi apareceu, preparado para se sentar à mesa dos jornalistas. “Levantei-me e disse: ‘Não me sento à mesa com este gajo.’ Solidarizaram-se comigo o Manuel Luís Rodrigues (do Diário de Notícias), o Luís Rosa Duarte (de O Século) e outros jornalistas. Aterrado, Lupi só repetia: ‘Nunca me aconteceu isto na minha vida.’ E foi jantar para o fundo da sala, com o conde do Funchal, redactor da Lusitânia. Fiquei mesmo vingado!”

O coronel Pessoa de Amorim faleceu efectivamente em 1969. António Valdemar (nome profissional de José Stone de Medeiros), já então à frente da delegação de Lisboa de O Primeiro de Janeiro, não escreveu a notícia.

Não fosse o morto voltar a levantar-se.

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Maria João Marques
1.612

Gabriela Canavilhas é uma política socialista exemplar. Tem arrogância (daquela não proveniente de méritos próprios) em abundância e não percebe patavina da maioria dos assuntos de que debita palavras