Os detritos do progresso

27 Setembro 2015

A editora Carpet Bombing Culture tem vindo a documentar em fotografia o rasto de ruínas deixado pelo progresso, como atestam os livros de Andre Govia, Rebecca Litchfield e Tong Lam.

Pela primeira vez em muitos anos, a geração de ocidentais em idade de entrar no mercado de trabalho não está certa de a sua vida poder gozar de um nível de desafogo material superior ao dos seus pais. As cinco décadas ininterruptas de paz, crescimento económico e dilatação do acesso a produtos e serviços que se sucederam ao final da II Guerra Mundial apagaram-nos a memória, adormeceram-nos o espírito crítico e fortaleceram-nos a arrogância, de forma que nos convencemos de que o progresso era uma inevitabilidade e o futuro seria sempre mais risonho e abundante. As crises financeiras iniciadas em 2008 despertaram-nos do sonho do crescimento ilimitado alimentado pelo capitalismo omnipotente e pelos discursos irrealistas de políticos, economistas, gestores e “marqueteiros” e vieram lembrar-nos de que, às vezes, a vida também anda para trás.

Nada melhor para nos dar uma aguda consciência da efemeridade dos nossos conseguimentos e da vanidade das nossas ambições do que a contemplação das ruínas – delas diz Alain de Botton, no estimulante Status Anxiety (2004), que “convidam-nos a desistir das nossas labutas e imagens de perfeição e realização. Lembram-nos de que não podemos desafiar o tempo e que somos joguetes de forças de destruição que, na melhor das hipóteses, poderemos manter à distância mas nunca vencer. Podemos obter vitórias localizadas, um par de anos em que somos capazes de impor ordem sobre o caos, mas tudo está, em última análise, condenado a regressar ao caldo primordial. Se esta perspectiva oferece algum consolo, é porque a maior parte das nossas ansiedades radicam num exagerado sentido da importância dos nossos projectos e preocupações.”

A sensação não é nova e os alemães, que têm palavras para tudo, cunharam, no século XVIII, nos alvores do Romantismo e em pleno entusiasmo pela arqueologia suscitado pela descoberta das cidades de Pompeia e Herculaneum, em 1750, a expressão Ruinenlust para descrever o prazer extraído da contemplação de edifícios e monumentos arruinados (na verdade cunharam três, aproximadamente equivalentes, embora Ruinenempfindsamkeit e Ruinensehnsucht tenham tido pouco curso entre os não-germânicos).

Os alemães, que têm palavras para tudo, cunharam, no século XVIII, a expressão "Ruinenlust" para descrever o prazer extraído da contemplação de edifícios e monumentos arruinados.

Mas pode fazer-se recuar o fascínio por colunas tombadas e pedras corroídas à máxima “Roma quanta fuit ipsa ruina docet” – “Quão grande Roma foi, as suas próprias ruínas o contam” – que surge no Opusculum de mirabilibus novae et veteris urbis Romae, um guia para as ruínas de Roma da autoria de Francesco Albertini, editado em 1510 (que isto dos guias de viagens não começou com os Lonely Planet e os Rough Guides). Sobre essas vetustas glórias romanas diria Stendhal, três séculos depois, numa frase que rescende a Ruinenlust: “Hoje, em ruínas, o Coliseu é talvez mais belo do que nos seus maiores dias de glória.”

A sugestão de Stendhal e o gosto romântico por ruínas, que levou alguns aristocratas a encomendar a construção de edifícios novos cuja aparência emulasse o desgaste do tempo, encontraram eco, no século XX, em Albert Speer, o arquitecto de eleição do III Reich, que explanaria o conceito de Ruinenwert – “Valor da ruína” – no livro Die Ruinenwerttheorie (1936): os edifícios deveriam ser concebidos de forma a que, após o tempo e as calamidades os terem feito colapsar, mantivessem um aspecto esteticamente agradável e digno e transmitissem às gerações futuras um sentimento de orgulho no passado.

“Hoje, em ruínas, o Coliseu é talvez mais belo do que nos seus maiores dias de glória.”
Stendhal

Os megalómanos planos arquitectónicos e urbanísticos de Speer e Hitler, numa variante boçal e ciclópica dos clássicos gregos e romanos, não deram em nada e o III Reich durou muito menos que mil anos, mas se nalguma coisa este se revelou eficaz foi na produção de ruínas: dos Pirinéus às estepes do Cáucaso, da Sicília à Noruega, a Europa ficou juncada de escombros, mas, desgraçadamente, quase todos destituídos de Ruinenwert.

Mas quer os românticos quer os nazis viveram num tempo em que o progresso humano ainda não começara a produzir desgastes visíveis no planeta e em que a viabilidade a longo prazo da civilização não era questionada. A Ruinenlust de hoje está permeada de novas inquietações: estes edifícios esventrados, estes corredores vazios, estes tectos abatidos, estas escadarias interrompidas, podem ser o futuro da Terra e este poderá não estar muito longe.

Os livros de fotografia Abandoned Planet (2014), de Andre Govia, Soviet Ghosts (2014), de Rebecca Litchfield, e Abandoned Futures (2013), de Tong Lam, estão igualmente imbuídos de premonições de apocalipse, mas têm Ruinenwert bem diversos.

Planeta abandonado

Abandoned Planet, de Govia, cobre ruínas da mais diversa natureza em 22 países, mas poucas delas revelam sinais posteriores a meados do século passado.

As fotos de Abandoned Planet mostram sobretudo interiores, sob uma luz fantasmagórica, baça, fria e difusa, de tons esverdeados ou azulados, filtrada por vidraças que a sujidade tornou foscas ou que o crescimento desregrado da vegetação privou de luz. São imagens de mansões, hotéis, igrejas, escolas, sanatórios, termas, prisões, asilos de alienados, fábricas, piscinas, bibliotecas, salas de espectáculos, mas as cores esbatidas e a iluminação velada conferem-lhes um ar de família, uma perturbadora homogeneidade, como se fizessem parte de um continuum planetário de ruínas.

Todas estas fotos provocam desconforto, mas é nos hospitais que surgem os resultados mais arrepiantes: o abandono converte as mesas de operações e o equipamento médico em instrumentos de tortura e as alas com filas de camas remetem para campos de concentração e extermínio.

Nalgumas fotos poderá julgar-se que aquele espaço ainda está vivo e alguém poderá, a qualquer momento, entrar para folhear um livro ou para resgatar o chapéu de que se esquecera. Mas um exame atento logo encontra sinais inequívocos de abandono – assim que a mão do homem se ausenta, logo a entropia começa a fazer valer o seu poder. Mais uns anos e é a vez do reino vegetal começar a reclamar o território perdido, fazendo brotar do soalho do que foi um salão de baile um esgalgado e insolente arbusto.

As fotos não têm legendas, apenas comentários pontuais, quase todos redundantes, uma vez que uns se limitam a descrever o que a foto mostra (“tinta a descascar nas pesadas portas de ferro e nas paredes”) e outros são generalidades anódinas (“cada divisão desta casa senhorial abandonada tinha uma história para contar”).

Fantasmas soviéticos

Soviet Ghosts é uma deambulação pelas ruínas do vasto império que se desmoronou em 1991 e cobre não só os territórios da ex-URSS (Rússia, Ucrânia, Estónia e Letónia) como a Bulgária, República Checa, Eslováquia, Hungria, Polónia e ex-República Democrática Alemã. Se muitas ruínas são indistinguíveis das de qualquer outro lugar, os monumentos têm a marca do estilo colossal e abrutalhado favorecido pelo realismo socialista.

Algumas das construções de Soviet Ghosts fizeram parte do dispositivo militar do Pacto de Varsóvia durante a Guerra Fria – a ironia é que, tendo sido concebidas para fazer face a uma III Guerra Mundial que nunca ocorreu, o abandono, a pilhagem e os elementos tenham acabado por produzir efeitos análogos, pelo menos na aparência, aos de uma guerra nuclear.

Mas há uma série de fotos em que o espectro nuclear não é apenas sugestão: a cidade de Pripyat, na Ucrânia, fora fundada em 1970 para albergar os trabalhadores da central nuclear de Chernobyl e acabou por ser vítima do acidente ocorrido a 26 de Abril de 1986, tendo sido evacuada poucos dias depois. Pripyat, que em tempos albergou 50.000 habitantes, é hoje a maior cidade-fantasma do mundo, fazendo parte da Zona de Exclusão de 30 Km de raio em torno de central. É quase inevitável pensar na Zona do filme Stalker (1979), de Tarkovsky, uma área a que o governo interditou o acesso, invocando perigos nunca especificados, e onde ruínas, lixo e pesadelos apodrecem lentamente entre a vegetação

Futuros abandonados

Abandoned Futures, de Tong Lam, raramente tem a nobreza lúgubre de Abandoned Planet: boa parte das suas ruínas são construções relativamente recentes, “banais, baratas e até descartáveis” e os estragos do tempo não lhes conferiram dignidade, revelaram antes toda a sua insignificância, precariedade e até mau gosto. Algumas estão já maculadas pelo balbuciar inane dos graffiti, que extinguem instantaneamente qualquer resquício de majestade.

Dos vários capítulos em que o livro se organiza, um dos mais curiosos, por desafiar a ilusão que cada geração tem de ser “a última palavra” e tender a olhar com sobranceria para as gerações anteriores, é o do Modernismo da Era Espacial, que documenta, entre outras ruínas, construções futuristas dos anos 60 em Taiwan, da autoria do arquitecto Matti Suuronen, e em Phoenix, Arizona, da arquitecta Ivone Grassetto, e que aos olhos de hoje sugerem cenários de filmes de ficção científica de série Z.

Um capítulo é dedicado a Hashima (também conhecida como Gunkanjima), uma ilha minúscula (480 x 160 m) situada perto de Nagasaki, onde, em tempos, se amontoaram 5000 habitantes, que trabalhavam numa mina de carvão cujos túneis se estendiam sob o leito do oceano. A mina encerrou em 1974 e a ilha está deserta desde então, mas o fascínio que exerce não tem parado de crescer, alcançando até Portugal, onde se tornou o assunto do livro GKJMA (Artefacto), de João Silveira. É provável que muitos já tenham visto imagens de Hashima sem disso ter consciência, uma vez que as suas ruínas ameaçadoras e claustrofóbicas serviram de cenário a um filme de James Bond, Skyfall (2012), ao blockbuster japonês Battle Royale (2000) e ao vídeo-jogo Killer 7.

O capítulo sobre Detroit, não sendo particularmente conseguido do ponto de vista fotográfico, tem o mérito de nos lembrar que a decrepitude pode instalar-se até nos centros mais pujantes do país mais poderoso do mundo.

Com o término da II Guerra Mundial, a poderosa indústria automóvel de Detroit, que fora colocada ao serviço do esforço de guerra, produzindo tanques e aviões, ressurgira com vigor redobrado, vomitando, todos os anos, novos modelos de automóveis, cada vez mais compridos, mais largos, mais potentes, mais luxuosos e mais ávidos de gasolina, e que, a partir do momento em que a conquista do espaço entrou na moda, em meados dos anos 50, foram ganhando aletas e cromados cada vez mais extravagantes, de modo a parecerem-se com foguetões.

Mais do que um meio de transporte, os automóveis dos anos de ouro da Motor City eram um símbolo do American Dream, do urbanismo centrado no automóvel individual e nos movimentos pendulares entre a cidade e os subúrbios, do império do capitalismo, dos mercados e da livre concorrência, das virtudes da obsolescência planeada, do primado da jactância e da ostentação, de uma sociedade de abundância ilimitada, que atirara os tempos de crise e carestia definitivamente para trás das costas e podia entregar-se a todos os excessos.

“Todas as coisas humanas estão sujeitas à decadência/ E quando o destino os convoca, até os monarcas devem obediência”
John Dryden

Porém, apesar da emulação das naves espaciais, o futuro de Detroit estava menos em Star Trek do que em Mad Max: uma combinação de grandes golpes e erosões imperceptíveis, que incluíram as crises petrolíferas dos anos 70, a concorrência japonesa e a deslocalização da indústria do Ocidente para países asiáticos, deixaram o sector automóvel de Detroit de rastos e arrastaram a cidade na queda.

A população, que atingiu um pico de 1,8 milhões na década de 1950, fica-se hoje pelos 700.000 habitantes, a câmara municipal entrou em bancarrota em 2013 e é incapaz de assegurar muitos dos serviços básicos – policiamento, iluminação pública, recolha de lixo – em vastas áreas da sua jurisdição, e alguns dos edifícios e complexos fabris mais emblemáticos estão convertidos em cenários pós-apocalípticos.

Mas se o declínio de Detroit parece vertiginoso, passando do apogeu a semi-ruína em poucas décadas, há casos em que a decrepitude ataca ainda antes de a flor desabrochar: o New South China Mall, na cidade de Dongguan (10 milhões de habitantes), ambicionava ser o maior centro comercial do mundo, com 2350 lojas em 660.000 metros quadrados, mas desde a inauguração, em 2005, que tem 99% das lojas por ocupar.

Se nem todos serão sensíveis à “beleza da decrepitude” que se espraia nestas páginas, que ao menos estas imagens sirvam de lições de humildade para as nossas vidas. Como lembram os versos de John Dryden, citados em Soviet Ghosts, “Todas as coisas humanas estão sujeitas à decadência/ E quando o destino os convoca, até os monarcas devem obediência”.

Título: Abandoned Planet
Autor: Andre Govia
Editora: Carpet Bombing Culture
Páginas: 250
Preço: 24,95£

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Título: Soviet Ghosts
Autor: Rebecca Litchfield
Editora: Carpet Bombing Culture
Páginas: 192
Preço: 19,95£

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Título: Abandoned Futures
Autor: Tong Lam
Editora: Carpet Bombing Culture
Páginas: 192
Preço: 19,95£

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