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Paraquedistas: a força especial que entrou na guerra de Angola pelo ar

04 Junho 2017746

Em operações como a EXARCO ou nas movimentações em Ninda, a força especial foi essencial. O Observador faz a pré-publicação do livro "Os Páras em África 1961-1974", que recorda causas e consequência.

No início dos anos 60, quando os conflitos em África mobilizaram tropas portuguesas, o corpo de Paraquedistas era ainda uma força militar nova, já que tinha sido criada apenas em 1955. Apesar disso, foi uma das primeiras forças especiais a entrar nos diferentes conflitos que se espalhavam pelas então colónias portuguesas. “Os Páras em África 1961-1974” é o livro que recorda como este corpo de elite participou na guerra: os motivos, as operações e as consequências.

John P. Cann é o autor de “Os Páras em África 1961-1974”. Oficial aeronáutico da Marinha dos EUA, interessou-se por este período da história portuguesa quando desempenhava funções nas instalações da NATO em Oeiras. Tornou-se entretanto um especialista, professor e historiador que trabalha regularmente o tema. No King’s College na Universidade de Londres sobre o desempenho original do Exército Português na guerra em África de 1961-1974, que adaptou depois no seu célebre livro “A maneira dos Portugueses fazerem a Guerra “.

O excerto que o Observador revela em pré-publicação recorda os princípios das operações militares em Angola a partir do final dos anos 60, com especial atenção na operação EXARCO e nas movimentações em Ninda.

“Os Páras em África 1961-1974”, de John Cann (Tribuna)

“A Zona Militar Leste (ZML) de Angola era um vasto planalto com uma área de cerca de 700 000 km2 situado a cerca de 1000 m de altitude. Compreendia os distritos de Lunda, Moxico, Bié, Cuando Cubango e parte de Malange e correspondia a cerca de sete vezes e meia o tamanho de Portugal Continental. Fazia fronteira com a Zâmbia a leste e o Zaire a nordeste.

Era um deserto para a doutrinação pelos guerrilheiros, pois tinha apenas 1,3 milhão de habitantes, ou seja, cinco almas por quilómetro quadrado. E até este último número era enganador, porque a maior parte da população vivia ao longo do caminho de ferro de Benguela (CFB) ou nas cidades principais, de modo que no mato havia, na realidade, menos de um habitante por quilómetro quadrado. Os guerrilheiros tinham claramente o objetivo de penetrarem suficientemente para oeste em direção ao planalto central do Huambo e a Nova Lisboa, perto da costa atlântica, onde uma população mais numerosa reagiria bem à mensagem de insurreição e havia uma importante infraestrutura comercial para poder ser atacada. O problema dessa abordagem era que obrigava a percorrer um longo e complexo caminho a partir da Zâmbia, até chegar à zona mais desenvolvida junto ao oceano Atlântico, e muita coisa poderia correr mal entretanto.

De um modo geral, a ZML era uma enorme savana com esporádicas zonas arborizadas. Do ponto de vista do rebelde, havia sítios ideais para se esconder, dispersos pelas terras mais altas, caracterizadas por barrancos e uma floresta densa. Tanto as amplas savanas como os terrenos semimontanhosos representavam, para Portugal, um problema de monta no que dizia respeito a patrulhamentos eficazes, porque descobrir uma coluna ou mesmo um pequeno «esquadrão» de guerrilheiros era, em qualquer dos dois ambientes, extremamente complicado, e reunir informações vitais sobre as suas atividades e intenções constituía um enorme desafio. Quando, em 1966, se iniciaram as infiltrações dos rebeldes, essencialmente do MPLA e da UNITA devido a um bom entendimento com as autoridades da Zâmbia, já que o Zaire era «território» do FNLA, o Exército só tinha quatro batalhões estacionados nessa zona. Mesmo com o aumento dos efetivos militares, a enorme área da ZML absorvia um grande número de efetivos para se conseguir qualquer tentativa de contacto com o inimigo. As chaves teriam de ser a mobilidade e a exibilidade, asseguradas pelos páras.

A estratégia dos guerrilheiros

O MPLA planeou o assalto em duas frentes, a partir das suas novas bases na Zâmbia. O da frente sul seria montado a partir de Mongu, Shangombo e Sikongo, na que ficou conhecida como a Rota do Cuando. Seguiria o vale deste rio em direção a oeste, com o objetivo de chegar ao populoso e rico distrito do Bié e à planície central do Huambo, o coração de Angola. A partir desse ponto, os guerrilheiros esperavam conseguir controlar todo o país e chegar até Malange, seguindo um eixo de penetração ao longo do vale do rio Cuanza.

"Enquanto combatiam esse assalto em vários eixos, os Portugueses rapidamente se deram conta de que a UNITA e a UPA/FNLA poderiam ser facilmente contidas, e que o MPLA constituía a verdadeira ameaça. Desenvolveram então uma estratégia de teatro de operações em três fases."

O assalto pelo Norte seguiria a chamada Rota do Luena, ou «Rota Agostinho Neto» segundo o MPLA, e devia ser lançado a partir de Chipango e Cassamba e dirigido ao longo deste rio diretamente para o Luso, e daí até ao altiplano de Malange. O plano era conseguir o controlo sobre o caminho de ferro de Luanda-Malange, alcançar Luanda, e fazer então a ligação com as forças que viriam do Norte. A penetração seguindo as rotas que, partindo do território Saliente e seguindo o rio Luena, chegavam à frente definida por uma linha interior que ligava os centros populacionais de Cazoa, Cazage, Cassai-Gare e Lucusse, tendo o Luso ao centro, nunca foi bem sucedida. O MPLA conseguia reunir no máximo cerca de 4000 homens, dos quais cerca de 3000 estavam armados. As suas operações baseavam-se em minas anticarro e antipessoal, no recrutamento forçado e na intimidação das populações, na reação aos ataques dos Portugueses, e em algumas rajadas contra as instalações militares portuguesas em táticas de «toca-e-foge».

Os planos de campanha da UPA/FNLA no Leste eram muito menos claros. Tal como em 1961, tentou atingir centros económicos onde poderia infligir danos. Foi humilhada em combates com os Portugueses e com o MPLA e, por consequência, perdeu o importante apoio internacional da OUA. Em 1971, a UPA/FNLA dispunha de uns 600 homens na frente leste, dos quais apenas cerca de 400 estavam armados. Abandonou a ofensiva em setembro de 1972, uma vez que as suas forças estavam bloqueadas na fronteira do território português, controladas tanto pelo MPLA como pelos Portugueses, a norte e a leste da ZML, tendo por isso poucas hipóteses de êxito. Ambos os grupos da UPA/FNLA se mantiveram relativamente inativos, contentando-se com sobreviver.

A UNITA pretendia simplesmente estabelecer uma base no interior de Angola e, pondo em prática algumas noções da teoria da «mancha de óleo», expandir progressivamente o controlo e mobilizar um número cada vez maior de populares, visando atingir a «total independência de Angola». Savimbi viu-se forçado pelas circunstâncias a adotar essa postura pouco credível ao ser definitivamente expulso da Zâmbia em julho de 1967, tendo então afirmado que um movimento verdadeiramente nacionalista deveria operar a partir de bases dentro de Angola. O que é certo é que essa política levou ao seu completo isolamento. Em 1971, a UNITA encontrava-se cercada, e Savimbi contava com menos de 1300 seguidores. Para sobreviver à derrota, ele e seus homens chegaram a um entendimento com os Portugueses. Entre 1971 e 1973, as atividades da UNITA estavam limitadas a uma zona preestabelecida, na nascente do Lungué-Bungo, e o movimento acordou em cessar as operações contra os Portugueses. Em contrapartida, a UNITA receberia armas e apoio médico, e teria liberdade para combater o MPLA. Nessa altura, Savimbi já só dispunha de uns 500 homens armados. […]

A estratégia portuguesa

Enquanto combatiam esse assalto em vários eixos, os Portugueses rapidamente se deram conta de que a UNITA e a UPA/FNLA poderiam ser facilmente contidas, e que o MPLA constituía a verdadeira ameaça. Desenvolveram então uma estratégia de teatro de operações em três fases. Primeiro, as forças portuguesas verificariam a expansão da penetração dos guerrilheiros. Isto significava definir o campo de batalha das populações e trazer segurança às que estivessem ameaçadas. Em seguida, as forças militares cercariam os guerrilheiros e bloqueá-los-iam na zona geográfica delimitada pelos rios Cuito, Cuanza, Munhango e Cassai, numa frente que ia de Dirico, no Sul, até Teixeira de Sousa, no Nordeste. Era sem dúvida uma grande extensão de terreno, mas pouco povoado sob qualquer ponto de vista, pelo que proporcionaria pouco sustento. Assim isolados, os guerrilheiros não poderiam causar muitos danos e acabariam por morrer lentamente de fome. No interior dessa área, as forças portuguesas perseguiriam implacavelmente o inimigo, que ficaria cada vez mais acossado e cercado. Finalmente, em 1973 e 1974, à medida que o cordão ia apertando progressivamente a zona, o inimigo foi completamente destruído.

"A Operação EXARCO foi lançada pelos páras a 25 de setembro de 1968 com o objetivo de destruir o acampamento «Dengue» do MPLA, comandado por Manuel António da Costa Kiako, que tinha o nome de guerra Mundo Real. A base estava situada a uns 150 km da fronteira leste com a Zâmbia, e 65 km a norte do rio Cuando."

A necessidade dessa abordagem lenta foi motivada por uma série de fatores. Em primeiro lugar, Portugal tinha efetivos limitados para patrulhar a vasta região do Leste. Esta limitação ditou uma abordagem que consistiu em usar a pobreza do terreno, o afastamento geográfico e a severidade do clima como aliados no isolamento dos guerrilheiros, numa guerra de desgaste. Em segundo lugar, essas três características regionais pareciam favorecer o guerrilheiro, na medida em que ele podia esconder-se ou deslocar-se facilmente, praticamente sem ser incomodado pelas forças portuguesas, pelo que era necessário dar tempo para o perseguir e destruir.

A partir de 1967, o BCP 21 passou a destacar, rotativamente, uma das suas companhias para a ZML, com a missão de conter a infiltração da UNITA e do MPLA. Os páras eram colocados em Ninda ou em Léua, cada uma das quais localizada junto a uma das conhecidas linhas de infiltração inimigas – Ninda, na linha do Cuando; e Léua, na linha do Luena. Uma das primeiras e mais notáveis operações dos páras no Leste foi montada a partir de Ninda, na zona a sul de Muié, no rio Dengue, onde o MPLA tinha estabelecido uma base.

Operação EXARCO

A Operação EXARCO foi lançada pelos páras a 25 de setembro de 1968 com o objetivo de destruir o acampamento «Dengue» do MPLA, comandado por Manuel António da Costa Kiako, que tinha o nome de guerra Mundo Real. A base estava situada a uns 150 km da fronteira leste com a Zâmbia, e 65 km a norte do rio Cuando. Informações obtidas junto de operacionais do MPLA capturados indicavam que, provavelmente, estariam presentes alguns dos seus principais líderes, em reuniões de planeamento na sequência de uma assembleia regional de funcionários da zona leste. A operação foi, do ponto de vista do MPLA, descrita num relato de Ivan de Castro, cujo nome de guerra era Janginda. Segundo o combatente, na manhã de 25 de setembro, o dia dos «Combatentes da Liberdade» em «Dengue» começou com nevoeiro no horizonte, os tradicionais aplausos, a higiene pessoal e a formatura de todos na parada, para atribuição dos trabalhos desse dia. Foram todos avisados para estarem preparados para um ataque, porque se pensava que a base não ficaria mais de uma semana sem ser descoberta. Não se sabia se a «Dengue» seria poupada, nem se os Portugueses depositariam muita confiança nas «confissões» dos capturados. Em qualquer caso, deveriam estar todos preparados e alerta. Entre os presentes, estava o Dr. Américo Boavida, com o nome de guerra N’Gola Kimbanda ou «curandeiro-chefe», médico responsável pelo setor leste.

Às 7.00 horas teve início a reunião de planeamento, estando quatro comandantes presentes:

Ivan de Castro (Janginda);
Justino Frederico Katwiya (Mwihula);
Inácio João Batista (Massunga Kota), comissário político;
Bernardo Kapangue (Likambuila), responsável pela logística do setor leste; e
Donald Barnette, um jornalista.

Os presentes aperceberam-se quase imediatamente do ruído distante de um motor de avião, e pensaram que era um noratlas – popularmente conhecido como ginguba (amendoim) por causa da forma da sua fuselagem. Poucos minutos depois, houve gritos de alarme, porque não se tratava de um «amendoim», mas sim de um ataque. O comandante da base deu ordem para que todos se dispersassem. […]

Quando as primeiras bombas caíram, gerou-se a confusão total, com mulheres gritando, crianças chorando, ordens e contraordens. As primeiras bombas caíram na cozinha e na tenda médica. Rapidamente a «Dengue» ficou vazia. Enquanto isso, uma força de oitenta páras desembarcava a cerca de 500 m da «Dengue» e dava início à sua progressão. Um desorientado Dr. Boavida correu por erro na direção dos páras e encontrou-se de repente com um deles na orla do acampamento. Houve uma curta luta entre os dois, e a pistola do pára disparou à queima-roupa, matando instantaneamente o médico.

"Na manhã da operação, quando o amanhecer tropical se aproximava, os helicópteros aprontaram-se, com as pás a rodarem a um ritmo constante. Os páras, previamente transportados para o local e informados sobre a operação, correram para os helicópteros que os esperavam, mantendo dobrados os corpos e baixas as cabeças para evitarem as pás."

Os páras revistaram o acampamento e encontraram equipamentos de todos os tipos, como fatos de banho, excelentes máquinas fotográficas, e documentos valiosos, tendo todos sido destruídos ou transportados para os helicópteros. O comandante dos páras tomou nota do tamanho e da qualidade da base, que tinha uma sofisticada cozinha equipada para responder às necessidades da assembleia e da importante reunião dos líderes do movimento. Havia também um centro de doutrinação política, uma parada e umas 40 cabanas, que entretanto foram todas destruídas. As redes defensivas, modulares e interligadas à volta da base tinham sido dispostas contra um ataque convencional por terra e não estavam preparadas para proteger a base de um ataque aéreo. Daí o total sucesso dos páras. Essas redes eram impressionantes pela sua camuflagem cuidadosa e ilustravam a extraordinária importância da Base «Dengue» enquanto principal posto de comando do MPLA no Leste.

Ninda

Esta operação, que foi descrita pelo tenente Joaquim Mensurado, visava uma pequena coluna do MPLA que se infiltrara na ZML e tinha montado um acampamento localizado a alguma distância da base dos páras, em terreno difícil. A escolha desse local significava que qualquer aproximação dos Portugueses no terreno seria demorada e que perderiam o elemento-chave da surpresa, e portanto qualquer esperança de sucesso. Um ataque de páras helitransportados foi a resposta. Os helicópteros serviam para encurtar o tempo que as forças levariam a percorrer essas distâncias, introduzindo assim a oportunidade de surpreender o inimigo. Com alguma sorte, seria esse o caso para os páras da 2.a CCP.

Na manhã da operação, quando o amanhecer tropical se aproximava, os helicópteros aprontaram-se, com as pás a rodarem a um ritmo constante. Os páras, previamente transportados para o local e informados sobre a operação, correram para os helicópteros que os esperavam, mantendo dobrados os corpos e baixas as cabeças para evitarem as pás. Estando todos a bordo, os helicópteros levantaram em sequência, levantando grandes nuvens de poeira. Uma vez no ar, os páras escrutinaram o horizonte no lusco-fusco através dos parabrisas curvos, em busca de sinais de vida na imensa savana à sua frente. Durante mais de uma hora, os helicópteros voaram sobre os arbustos que pontilhavam a inóspita vastidão, até que por m viram um pequeno bosque de árvores – o alvo. Os helicópteros aproximaram-se da orla desse bosque para pairarem e largarem os paraquedistas. Segundo todas as indicações, esse bosque isolado seria a escolha correta, por ser a única possibilidade de camuflagem no horizonte visível.

Depois de desembarcarem, saltando a 1 m de altura do terreno, os páras começaram a correr como se fossem um só homem, e depois a força dividiu-se em duas equipas que caminharam lado a lado e cercaram parcialmente o bosque. Era difícil ver para dentro dele, mas avançando os páras encontraram um conjunto de pequenas cabanas bem escondidas no mato denso. A primeira equipa abriu fogo sobre alguns guerrilheiros, que foram apanhados de surpresa e fugiram em várias direções. A equipa, bem treinada e disciplinada, perseguiu o inimigo até ao meio do acampamento e controlou cabana após cabana, com grandes eficácia e profissionalismo. O inimigo, já em fuga, ripostou desordenadamente ao fogo. A equipa do flanco sul feriu dois e abateu um terceiro guerrilheiro. A equipa do flanco norte encontrou alguma resistência, e forçou o inimigo a fugir em direção ao fogo da outra equipa, abatendo dois guerrilheiros. […]

Este tipo de operação foi repetido vezes sem conta a partir de Ninda, e era característico da atuação dos páras ao longo da linha do Cuando.

Olhando para trás

[…] O maior esforço permanecia nessa altura concentrado no Norte, mas quando, em 1968, a doutrinação da população do Leste atingiu níveis alarmantes, exigindo atenção e recursos, o Leste recebeu-os do comandante supremo, o general Costa Gomes. Portugal passou então a estabelecer o campo de batalha, e a desenvolver uma estratégia de contenção e desgaste que fosse compatível com os amplos espaços abertos do Leste e com os seus limitados efetivos. Foi posto em prática um ambicioso plano de desenvolvimento das condições de vida das populações, para conseguir o seu apoio.

"Em 1972, os comandos tinham assumido a liderança no Leste e os páras tinham voltado a sua atenção novamente para o Norte, enquanto implementavam as suas equipas de reconhecimento recentemente especializadas na destruição das colunas e bases inimigas que restavam no Norte."

Os grupos altamente móveis das tropas de elite, empregadas como forças de deteção e destruição, fizeram parte da solução, e o poder aéreo e os páras foram elementos-chave dessa abordagem e do seu sucesso. As intenções e o comportamento do inimigo tornaram-se facilmente previsíveis, e essa previsibilidade tornou-o altamente vulnerável às forças aerotransportadas. A chegada dos helicópteros pesados SA-330 Puma em 1970 fez, com o aumento da capacidade de carga, uma enorme diferença na mobilidade e na letalidade dos páras. Desenvolveu-se uma sintonia perfeita entre os pilotos de helicóptero e os páras e a articulação entre o serviço de informações e essa equipa de «força aérea-força terrestre» permitiu uma perseguição muito eficaz e a destruição das colunas inimigas. A prática assídua deste conceito, através de uma série de campanhas sazonais, produziu equipas táticas com capacidades devastadoras num ambiente físico difícil, destruindo totalmente o inimigo.

Em 1972, os comandos tinham assumido a liderança no Leste e os páras tinham voltado a sua atenção novamente para o Norte, enquanto implementavam as suas equipas de reconhecimento recentemente especializadas na destruição das colunas e bases inimigas que restavam no Norte. Na frente leste, a atuação dos Flechas foi particularmente relevante, sobretudo no que dizia respeito aos recrutados na etnia dos 10000 bochímanes de Angola como pisteiros de combate. Por volta de outubro de 1973, as forças da UPA/FNLA e do MPLA na ZML estavam acabadas. Para a UPA/ FNLA, a crise era total. O MPLA viu-se limitado a atravessar a fronteira partindo das suas bases na Zâmbia e a colocar minas ao longo das estradas de fronteira. As suas ações ao longo da fronteira eram violentas, e limitadas na duração e na penetração. A ideia era destabilizar os Portugueses, e assim abrir caminho para que uma coluna conseguisse penetrar no interior. Mas isso nunca resultou.

Do lado português, deu-se uma profunda reviravolta nos conceitos estratégicos e táticos e, num momento raro na História, a guerrilha tinha sido derrotada. Mais importante ainda tinha sido a mobilização da população para, com apoio financeiro, conseguir uma recuperação económica que resultou na indispensável estabilidade social. Numa avaliação da situação, o brigadeiro Hélio Felgas informou que, no início de abril de 1974, já não havia nenhum contacto entre as forças portuguesas e os grupos de guerrilheiros de qualquer uma das organizações nacionalistas. O Batalhão n.o 3 da FNLA, a última força no Leste, tinha-se retirado para o Zaire em setembro de 1972 e o último grupo armado do MPLA em Angola, sob o comando de Daniel Chipenda, foi derrotado a 29 de junho na região de Ninde. A UNITA manteve-se nas nascentes do Lungué-Bungo, mercê de um acordo com as autoridades portuguesas. No final de abril 1974, o Sudeste de Angola estava calmo e a atividade de guerrilha era praticamente inexistente. Será o próprio Daniel Chipenda a reconhecer a vitória portuguesa no Leste, no Primeiro Congresso do MPLA em Lusaca, a 15 de agosto de 1974. A população procurava escapar ao controlo do MPLA e dos outros movimentos nacionalistas, e em nenhum outro caso isso foi mais evidente do que na verdadeira explosão da educação durante a guerra em Angola. Na década de 1970, sob a proteção da teia de segurança, viam-se milhares de crianças irem diariamente para a escola com as suas batas brancas. Estatísticas incontestadas demonstram esse alargamento da escolaridade. Uma década antes, esse seria um fenómeno difícil de imaginar. […]”

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