Paulo Barbosa. “Aqui os russos eram do KGB, na Rússia eu era da CIA”

16 Junho 2017

O início da Taça das Confederações na Rússia é a desculpa para uma conversa longa sobre Iuran, Kulkov, Mostovoi, Alenitchev, Sherbakov, Izmailov, Vukcevic, Caneira, Futre, Carlos Alberto etc. e tal.

Malta, vai começar amanhã a Taça das Confederações, a competição inventada por este senhor aqui ò: Fahd bin Abdul Aziz Al-Saud.

Quem? O Fahd, vá. Sexto filho dos 40 do Rei Ibn Saud, fundador da moeda moderna na Arábia Saudita em 1932, nomeado ministro da Educação em 1953 aos 33 anos de idade. É Fahd quem abre a escola pública às mulheres e introduz o ensino das ciências da natureza. Com a destituição do pai Saud em 1964 e o assassínio do irmão mais velho Faisal em 1975, Fahd assume o reinado em 1982. Reforma as forças armadas, a economia e também o desporto. Entra no mundo da FIFA e ganha o concurso do Mundial sub-20 em 1989, conquistado por Portugal de Queiroz, Nelo Vingada e outras figuras. Três anos depois, inventa a Taça Rei Fahd, depois a Taça das Confederações em 1992. A FIFA (olha quem) apropria-se do negócio em 1997 e aí está a prova para animar o Verão 2017, com Portugal pela primera vez metido ao barulho.

Como não se consegue chegar à fala com o Fahd, combina-se um café no Jardim das Amoreiras na companhia de Paulo Barbosa, um dos primeiros agentes FIFA de Portugal e o mais ilustre português da Rússia (com a devida permissão de José Milhazes). Quem faz a primeira pergunta é Paulo Barbosa. Está a gravar?

Está a gravar, sim. O Paulo é de onde?
Nasci em Viana do Castelo, dia 3 de Fevereiro. Sou minhoto e tenho também raízes em Trás-os-Montes, de onde é o meu pai.

Ia ao futebol, quando era criança, ou nem por isso?
Ia com o meu pai e vimos muito futebol. Quando era miúdo, com 5/6 anos, ia ver o Eusébio. E cheguei a apanhar o Matateu. Nunca mais me esqueço de ter visto um jogo do Matateu na Amora.

A jogar pelo Amora?
A jogar pelo Amora. E também vi o Coluna, naquela fase em que ele estava num clube francês, o Lyon. Mas o que ia ver mesmo era o Benfica.

Ligações familiares?
Sim, podemos dizer isso. Toda a família da parte da minha mãe era ligada ao Benfica e aquilo foi uma alegria. Os anos 60 e 70, quero dizer.

"Dá-se a invasão de campo num Benfica-Belenenses em 1970 e há um senhor ao lado do meu pai muito enervado com aquilo tudo. O meu pai, que estava a ler um livro no meio da bancada, dizia “o jogo vai continuar, não se chateie.” E o outro disse “eh pá, vamos fazer aqui uma aposta, aposto que já não há condições para se fazer o jogo” e o meu pai foi a jogo. Perdemos tudo, o jogo não se reatou e tivemos de ir a pé para casa. Nessa altura, vivíamos do outro lado de Lisboa, mais ou menos ali para o pé da Ajuda."

E o seu pai?
Tinha outros interesses. Ia comigo ao futebol, mais para me fazer companhia, até me lembro de um jogo, não faço ideia de qual foi o ano: Benfica-Belenenses com invasão de campo.

Foi em Janeiro 1970.
Nunca mais me esqueço desse jogo. Dá-se a invasão de campo e há um senhor ao lado do meu pai muito enervado com aquilo tudo. O meu pai, que estava a ler um livro no meio da bancada, dizia “o jogo vai continuar, não se chateie.” E o outro disse “eh pá, vamos fazer aqui uma aposta, aposto que já não há condições para se fazer o jogo” e o meu pai foi a jogo.

Resultado?
Perdemos tudo, o jogo não se reatou e tivemos de ir a pé para casa. Nessa altura, vivíamos do outro lado de Lisboa, mais ou menos ali para o pé da Ajuda.

Inesquecível mesmo.
[risos] O meu pai não voltou mais a apostar. Nesse jogo do Belenenses na Luz, havia um defesa espantoso chamado Freitas.

Que depois jogou no Porto?
Um jogador fabuloso, com muita qualidade. Foi ele que sucedeu, por assim dizer, ao Vicente, ao grande Vicente, irmão do Matateu. O Vicente, como sabe, teve aqueles problemas com a lesão na vista e o Freitas, ainda com 19/20 anos, entrou para o seu lugar. Digamos que esta geração dos Magriços, do Mundial 1966, é a minha primeira recordação. E foi daí que nasceu o gosto de ver jogar, mas também o de jogar.

Entre amigos?
Não, não. A nível federado, mesmo. Primeiro Atlético, depois Benfica.

Jogou futebol no Benfica?
Basquetebol, atençããão [e esboça um sorriso como quem diz ‘calminha aí gegé’]

Não sabia.
Até temos uma história interessante: eu jogava basquetebol e, quando fui estudar para o estrangeiro, deixei a minha camisola 7 ao Carlos Lisboa.

A sério?
É verdade. Já se falou sobre o assunto uma ou outra vez, não é propriamente segredo.

Rebobino a conversa. Antes do Benfica, jogou no Atlético?
Sim, sim.

Na Tapadinha?
Estive na inauguração da Tapadinha e do pavilhão da Tapadinha.

Que jogo é que foi?
Se não me engano, um Atlético-Benfica. Depois, fui para o Benfica e aí joguei com uma geração de jogadores muito interessantes.

Desembuche.
Havia o Leonel, por exemplo. É a época em que chega uma geração de jogadores angolanos e moçambicanos para dar outra qualidade ao basquetebol, quer ao nível competitivo, quer ao nível da técnica. E depois há uma figura fundamental que é o Teotónio Lima.

Porquê? Ele chegou e…
Chegou com uma mentalidade completamente diferente e revelou um grande nível para dar uma volta ao basquetebol.

O que é isso de dar a volta?
Tinha que ver sobretudo com os treinos, com a forma como se abordava o jogo, diferente daquilo que tínhamos. Se você reparar, o basquetebol em Portugal mudou a partir de 1974/1975, quando os primeiros americanos começam a integrar-se nas equipas. Foi um período extremamente importante e interessante, rico em emoções, competitividade, técnica. Ali o pavilhão da Ajuda estava constantemente a abarrotar, tal como o da Luz e o de Alvalade.

Era um campeonato distrital?
Não, não, era mesmo nacional: Sporting, Benfica, Porto.

Foi campeão alguma vez?
Iniciados, juvenis. Repare, não era difícil.

Mas era um campeonato equilibrado ou havia grandes cabazadas?
Tudo muito equilibrado. Na altura, os grandes clubes de Lisboa eram Algés, Atlético, Benfica, Cruz Quebrada, Ateneu.

E o Paulo jogava em que posição?
Sobretudo a base.

O pensador do jogo?
Baaaah [Paulo arregala os olhos num registo engraçado], não vou dizer que pensava muito, mas tinha alguma qualidade. Depois, mais tarde, acabei também por jogar a nível universitário.

"Entretanto, tive uma bolsa de estudo e fui para Moscovo.Foi um período extraordinariamente complexo, logo a seguir aos anos setenta. Pouco se conhecia, como você sabe. O mundo eslavo era completamente diferente e também uma aventura. Nunca contei aos meus pais que ia estudar para Moscovo e essa bolsa de estudo foi a possibilidade que tive de estudar, de fazer o meu doutoramento e, de uma forma ou de outra, ter acesso à literatura, por exemplo".

Universitário, onde?
Entretanto, tive uma bolsa de estudo e fui para Moscovo.

Como é que era Moscovo?
Uyyyy. Foi um período extraordinariamente complexo, logo a seguir aos anos setenta. Pouco se conhecia, como você sabe. O mundo eslavo era completamente diferente e também uma aventura. Nunca contei aos meus pais que ia estudar para Moscovo e essa bolsa de estudo foi a possibilidade que tive de estudar, de fazer o meu doutoramento e, de uma forma ou de outra, ter acesso à literatura, por exemplo.

E a Rússia, então…
Pois, é isso: ler Pasternak, Dostoiévski e Tolstói em russo é um fascínio. No fim de contas, é uma outra língua e eu sempre li boas traduções, nunca dos originais, quase sempre traduções do francês para o português.

E qual foi o primeiro livro lido em cirílico?
O Crime e Castigo do Tolstói. Há autores mais fáceis que outros. Um difícil, por exemplo, era o Cholokhov. Como qualquer um, começamos sempre pelos contos mais fáceis. É como um adulto sugerir um livro a uma criança. Não lhe vamos dizer para ler o “Em Busca do Tempo Perdido”, do Proust, não é?

É capaz de ser pesado.
Portanto, a universidade era uma possibilidade, não só de poder estudar numa universidade, mas também de aprender, conhecer um mundo diferente e, sobretudo, colecionar amigos de todo o mundo. Tinha amigos de todos os cantos, entre Nepal, EUA, Iémen, Afeganistão, Paquistão, China, Vietname, Panamá, América Latina, países de expressão portuguesa. Das coisas mais interessantes e divertidas da minha vida foi um jogo de futebol que tentámos fazer entre a nossa comunidade de expressão portuguesa, os chamados PALOP, contra uma equipa asiática.

Deu barraca?
Foi incrível, não dava para jogar futebol.

Como assim?
Os asiáticos, e estamos a falar de chineses e vietnamitas, não têm uma lógica. Estamos a falar de um jogo de onze para onze, em que a bola vai para ali e eles correm todos atrás dela, o que é contra as regras do futebol. Era tudo ao molho. Inesquecível.

Imagino. Foi o Paulo que escolheu Moscovo?
Numa primeira fase, estive numa pequena cidade ali perto e só muito mais tarde, quando estava a fazer o meu doutoramento, é que fui para Moscovo.

E foi aí que jogou basquetebol universitário?
Lá está, era uma equipa composta por muitos estagiários, entre americanos, ingleses e mais malta. Tínhamos uma seleção com piada e até jogávamos umas coisas. Também havia o futebol e foi aí que comecei a ganhar noção dos problemas regionais dentro da Europa: os ingleses e os escoceses jogavam sempre juntos, os russos consideravam-se europeus e por aí fora.

Jogava por quem?
Acabei sempre por jogar pelos PALOP.

E que tal?
Os torneios eram interessantíssimos pelas manifestações de magia com os congoleses, a malta do Mali.

"Nunca mais me esqueço de um jogo dos nossos contra uma equipa com jogadores do Mali, Congo e Benim em que tivemos de ir a penáltis. Antes do desempate, as mulheres africanas foram para trás da baliza e começaram a fazer algumas magias. Coincidência ou não, só sei que ninguém acertou com a baliza. De cada vez que marcávamos um penálti, a bola ia por cima, batia na trave. Espantoso."

Como assim?
Nunca mais me esqueço de um jogo dos nossos contra uma equipa com jogadores do Mali, Congo e Benim em que tivemos de ir a penáltis. Antes do desempate, as mulheres africanas foram para trás da baliza e começaram a fazer algumas magias. Coincidência ou não, só sei que ninguém acertou com a baliza. De cada vez que marcávamos um penálti, a bola ia por cima, batia na trave. Espantoso.

E qual foi a realidade russa?
Era a realidade de um país muito fechado e culturalmente muito rico. Uma das coisas mais fascinantes era o número de pessoas que liam sem parar. Fosse no metro, no café, no jardim. Depois, claro, havia um determinado nível de frieza, distanciamento e alguns instintos negativos relacionados com o passado. Era um país que tinha muitas pessoas ligadas à produção militar e quase todas as empresas tinham o estatuto de quase clandestinidade. Claro que sentia muitas vezes que as pessoas não estavam à vontade e tinham medo de se relacionar. Era um estigma muito grande e esse estigma manteve-se no relacionamento porque as pessoas tinham receio de tudo o que fosse novidade. E, óbvio, também havia aquele estigma: da mesma maneira que algum russo estivesse cá, seria obrigatoriamente dos serviços da segurança ou do KGB, quem lá estava pensava que eu era da CIA. Esse estigma não era fácil de ultrapassar.

E era fácil, aprendeu a língua?
Como em todas as línguas, é mais fácil ou mais difícil conforme o grau de prática. Se uma pessoa conviver com os russos, e eu convivia com três no mesmo quarto, se lhe disserem cinquenta vezes que isto é um cinzeiro [pega no cinzeiro da mesa e mostra-o ao mundo], à 49.ª já estamos mais que entendidos. No meio disto tudo, ainda havia o treino do francês com os africanos, do castelhano com os nossos amigos da América Latina. Dava para tudo. A ideia era relacionar-me com todos para aprender o mais que pudesse.

Ia ver jogos de futebol e de basquetebol, na Rússia?
‘Tá claro. Fui ver aquele célebre jogo dos cinco [URSS 5 Portugal 0 em 1983, no apuramento para o Euro-84]. E fui recebido com palmas e tudo, no auditório da universidade. O professor daquela aula era adepto de futebol e começou a brincar comigo.

E a sua resposta?
Nunca um país tão pequenino lhe tinha dado uma alegria tão grande.

Eheheheh.
Uns meses mais tarde, por causa do célebre penálti do Chalana, disse-lhe o contrário: nunca um país tão grande tinha vivido uma desgraça daquelas.

"Esse Dnipro-Bordéus vai a penáltis e o Chalana é quem marca o último, com o pé direito. Mas isso até nem foi o mais surpreendente. Durante semanas, a televisão da União Soviética andou a dar o jogo para tentar explicar às pessoas como é que um jogador consegue mudar tão abruptamente de direção. É que o Chalana era mágico e fez um jogo mágico em que pegava na bola e ia na direção do defesa. De repente, atirava o corpo para um lado e cortava caminho pela outro. Os defesas caíam-lhe aos pés. O Chalana é o nosso Garrincha. Em todos os aspetos. Nunca mais me esquecerei daquele Europeu de França."

Do que se lembra melhor do futebol da URSS?
Das duas escolas de bom futebol: a do Beskov, no Spartak Moscovo, e a do Lobanovsky, no Dínamo Kiev. A de Beskov mais latina, de bola no pé. A do Lobanovsky mais científica, com direito a duas vitórias na Taça das Taças.

E aquela meia-final da Taça dos Campeões com o Porto. Foi ver esse jogo?
Esse, não. Fui ver um que nunca mais me saiu da cabeça: Dnipro-Bordéus.

O dos penáltis?
Exatamente. Fui ver o Chalana. Se havia jogador que adorava, era o Chalana. Primeiro o Eusébio, depois o Chalana, a seguir o Diamantino. Esse jogo vai a penáltis e o Chalana é quem marca o último, com o pé direito. Mas isso até nem foi o mais surpreendente. Durante semanas, a televisão da União Soviética andou a dar o jogo para tentar explicar às pessoas como é que um jogador consegue mudar tão abruptamente de direção. É que o Chalana era mágico e fez um jogo mágico em que pegava na bola e ia na direção do defesa. De repente, atirava o corpo para um lado e cortava caminho pela outro. Os defesas caíam-lhe aos pés. O Chalana é o nosso Garrincha. Em todos os aspetos. Nunca mais me esquecerei daquele Europeu de França.

Já estava cá em Portugal?
Já, já. Foi a única vez na minha vida que dei cabo de alguma coisa a festejar um golo. O do Jordão, com a França.

Deu cabo do quê, já agora?
De um candeeiro.

Bonito.
Curioso só este aspeto, ainda sobre portugueses e russos: a relação entre Eusébio e Iashin era muito próxima, fortíssima, as famílias eram amigas e tudo. Quando o Eusébio morreu, a família do Iashin pediu a um amigo meu, que depois se encontrou cá comigo, para estar presente no funeral e depositar uma coroa de flores. E o Eusébio foi lá à União Soviética para o jogo de despedida do Iashin.

Quando é que o Paulo conheceu o Eusébio?
Quando jogava basquetebol no Benfica, tive uma lesão num adutor e conheci o Eusébio no centro de tratamentos. E, de facto, o Eusébio era impressionante pela simplicidade, amabilidade e disponibilidade para falar e ouvir. Quem o conhece, sabe do que estou a falar. Mais tarde, conheci-o numa outra fase, já como embaixador do Benfica. E vivemos juntos aquela vitória do Benfica em Londres, com o Arsenal.

Ah-ha, chegámos ao tempo do Paulo Barbosa empresário. Como é que entrou nesse mundo?
A Federação Portuguesa de Futebol organizou um exame ali na sede, na Praça da Alegria. Paguei 100 mil euros de caução e, nesse dia, fiquei a saber que tinha passado. O senhor responsável pelo pelouro chamava-se Sequeira.

O que fazia antes?
Era professor universitário.

De quê?
História e Literatura.

Com quantos anos de idade?
Ora bem, já tinha feito o meu doutoramento e estava com os meus trinta e poucos. Estava a caminho de Pequim, na China, com outra bolsa de cinco anos. Ia fazer o levantamento de tudo aquilo que, durante muitos séculos, se escreveu sobre a Revolução e estudar a presença dos primeiros europeus num país asiático. Curiosamente, tivemos agora um filme que conta um bocadinho essa história.

Do Scorsese?
Isso mesmo, tem que ver com os Jesuítas. No fim de contas, era preciso ler tudo e traduzir. Nesse entretanto, o Gaspar Ramos perguntou-me se eu queria ensinar português durante uns tempos a um jogador que chegara ao Benfica.

Quem?
O Iuran.

Conhecia o Gaspar Ramos de onde?
Curiosamente, ele entrou em contacto comigo através de uma pessoa amiga. E comecei a trabalhar. Primeiro o Iuran, depois o Kulkov.

"Sou eu que ajudo o Benfica a fazer a transferência do Mostovoi. É uma história muito interessante. Estamos a falar dos anos 90, numa altura em não havia contratos profissionais na União Soviética simplesmente porque não havia jogadores de futebol profissionais. Quando o Benfica chega a acordo com o Mostovoi, o Mostovoi não tem contrato, era um jogador livre. E mais: só a partir dessa altura, com a transferência do Mostovoi, é que os clubes soviéticos passam a fazer contratos registados como profissionais."

E o Mostovoi?
Sou eu que ajudo o Benfica a fazer a transferência. É uma história muito interessante. Estamos a falar dos anos 90, numa altura em não havia contratos profissionais na União Soviética, simplesmente porque não havia jogadores de futebol profissionais. Quando o Benfica chega a acordo com o Mostovoi, o Mostovoi não tem contrato, era um jogador livre. E mais: só a partir dessa altura, com a transferência do Mostovoi, é que os clubes soviéticos passam a fazer contratos registados como profissionais.

Mas o Mostovoi era amador?
Ele não era bem amador. Na prática, tinha um estatuto semi-profissional. Ora bem, o Mostovoi vem do Spartak Moscovo e o presidente é uma figura lendária do futebol chamada Nikolai Starostin. Devia estudar essa figura, perca tempo um dia e veja o que ele fez ao longo da história, dentro e fora dos relvados. Como jogador, era uma espécie de Matateu.

Starostin mais Mostovoi igual a Benfica?
Encontrámo-nos na Alemanha para desbloquear a questão.

Encontrámo-nos quem?
Gaspar Ramos, eu, Starostin e outros dirigentes do Spartak.

Como era o Gaspar Ramos?
Um dos melhores dirigentes do Benfica de sempre. Extremamente inteligente e capaz de perder um ou dois dias numa alínea do contrato para fazer o Benfica ganhar três, quatro mil euros.

E nessa negociação, que tal?
Foi num hotel em Colónia. Chegámos a um acordo porque o Spartak tinha a noção de que o Benfica podia até nem pagar nada pelo Mostovoi pela ausência de contrato profissional. Foi tudo tratado de forma elevada.

E o Mostovoi conhecia o Benfica?
Claro que sim, o Benfica fazia parte do imaginário das pessoas. O Benfica das duas Taças dos Campeões, o Benfica do Eusébio, o Benfica de Portugal, um país pequeno que batia o pé aos grandes da Europa. Se for hoje à Rússia, todos conhecem o Eusébio e o Benfica.

Pronto, Mostovoi no Benfica e agora?
O problema é que o Mostovoi já não é inscrito a tempo de jogar pelo Benfica de Eriksson.

Eriksson?
Sim, foi ele que pediu os três russos.

Gostava deles?
Muito. O problema é que o Eriksson vai para a Sampdoria e o Mostovoi já só apanha o Ivic.

"O Ivic veio parar a Portugal num período complexo da Croácia e a relação dos croatas com os russos não era a melhor. Como bons eslavos que eram, o Ivic quis rescindir o contrato com eles desde o início. Assisti a esta cena: o Kulkov vinha de lesão, o Ivic tocou-lhe no joelho e saiu-se com esta 'finito, finito'."

Ivic, que tal?
O Ivic veio parar a Portugal num período complexo da Croácia e a relação dos croatas com os russos não era a melhor. Como bons eslavos que eram, o Ivic quis rescindir o contrato com eles desde o início. Assisti a esta cena: o Kulkov vinha de lesão, o Ivic tocou-lhe no joelho e saiu-se com esta ‘finito, finito’.

E?
Sabe que o Ivic tinha uma paixão gigantesca pelo futebol, só pensava na bola e era um bocado descontrolado. Ao afastar os russos, apostou numa determinada estratégia e seguiu o seu caminho. Só que não teve resultados. Entrou o Toni. Como homem inteligente, percebeu que nada se faz contra ninguém, tudo se faz com toda a gente e reintegrou os russos.

Qual foi a sua primeira impressão do Iuran, o primeiro russo que conheceu?
Primeiro, o Iuran não era russo; era ucraniano. A identidade cultural era muito forte.

Já aí?
Desde sempre. Nós é que generalizávamos, ‘é russo’. E não é bem assim. Veja o caso do Marat: ele não é russo, é tártaro. Bem diferente.

O Izmailov?
Se agarrar no apelido Iz-mai-lov, Izmail, não é? Culturalmente é muçulmano. Muçulmano, mas também ortodoxo.

E os russos do Benfica eram o quê?
Nas brincadeiras entre nós, o Iuran era ucraniano, o Kulkov e o Mostovoi russos.

E vieram do mesmo clube?
O Kulkov vinha do Spartak Moscovo, o Iuran do Dínamo Kiev. Na União Soviética, jogaram muitas vezes um contra o outro. Eram rivais. Só se juntaram em Lisboa.

E que tal?
O Iuran era um touro, um 9 puro. O Kulkov jogava como central e nunca jogou a central no Benfica, sempre a 6, como organizador. O Mostovoi era um jogador do outro mundo e o Eusébio gostava muito dele. Agora, temos de ter a noção de que o Benfica tinha Rui Costa, Paulo Sousa, Isaías. O plantel era riquíssimo e ganhar um lugar no onze é complicado.

Como é que foi a sua primeira conversa com o Iuran?
Para já, havia um muito bom relacionamento porque ele encontrou alguém que falava a língua dele e isso resolvia uma série de problemas. O nosso primeiro objetivo foi começar pela base: as expressões dentro de campo e o léxico do jogo. Como sabe, dentro de campo, os jogadores têm expressões muito próprias que nem sempre respeitam a verdadeira natureza da palavra. Dou-lhe um exemplo: nenhum jogador diz ao outro, ‘cuidado, olha aí atrás’; dizem ladrão e já se sabe o que vem aí. Eles aprenderam isso muito rápido: uma coisa é a palavra em si, outra é a forma como as coisas se exprimem. Tanto assim é que ainda hoje eles falam bem português. Se estiverem de bem consigo, falam-lhe em português. As pessoas de Leste têm grande facilidade em aprender, até a nível da pronúncia.

E como é que era conviver com eles?
Era interessante, porque era um mundo diferente. Tinha a noção de que não era fácil para um jovem com 22/23 anos, com algum dinheiro e com muito tempo livre, saber gerir a sua liberdade. Você tem de pensar que, nos anos 80/90, os jogadores dos países de Leste tinham uma certa disciplina: estavam sempre em estágio, não tinham grande liberdade, era sempre tudo muito rigoroso, com a alimentação, os treinos etecetera e tal. Imagine um jovem num apartamento grande, sem estágios e com dinheiro? A vida era uma festa. Tinha de ser bem vivida, sempre com o equilíbrio entre a vontade de viver e o lado profissional. Não era fácil. Nesse aspeto, ainda hoje lhes digo que a vida da noite em Lisboa está muito triste desde que eles saíram. Ao contrário do que as pessoas possam pensar, eles não eram de discotecas.

Então?
Eram mais de reunir os amigos para jantar, comer, beber, conversar e cantar. Depois, iam todos para casa.

Tertúlia?
Isso, tertúlia.

"No Maxime? Não sei se iam lá muito. Eles [Iuran e Kulkov] eram inteligentes ao ponto de não irem ao Maxime. Se me perguntar se eles passassem por lá, acredito. Agora que ficassem lá, nãããã. Eram inteligentes. Nos dias de hoje, quando os jogadores têm o seu tempo livre, e também têm direito a divertir-se, aquilo que se discute não é se vão ou se não vão, é como é que eles conseguem gerir o tempo livre de uma forma inteligente. Por exemplo, qualquer jogador sabe que não deve ir para uma discoteca depois de um jogo. Só se for muito tonto. Nesse dia, um jogador quer é descansar. No dia seguinte, talvez já faça sentido."

Dizia-se que eles estavam sempre no Maxime.
No Maxime? Não sei se iam lá muito. Eles eram inteligentes ao ponto de não irem ao Maxime. Se me perguntar se eles passassem por lá, acredito. Agora que ficassem lá, nãããã. Eram inteligentes. Nos dias de hoje, quando os jogadores têm o seu tempo livre, e também têm direito a divertir-se, aquilo que se discute não é se vão ou se não vão, é como é que eles conseguem gerir o tempo livre de uma forma inteligente. Por exemplo, qualquer jogador sabe que não deve ir para uma discoteca depois de um jogo. Só se for muito tonto. Nesse dia, um jogador quer é descansar. No dia seguinte, talvez já faça sentido.

Costumava almoçar com os três?
Nem tanto, era mais jantar.

A sério?
E eles é que cozinhavam. Eles gostavam de cozinhar e cultivavam esse gosto.

E o que é que lhe davam a provar?
Ouça, davam-me a provar tudo. Até porque o Kulkov e o Iuran também viviam com as mulheres. O Mostovoi era o mais pacato e gostava muuuuuito, muito mesmo, de sumo de tomate.

E o que é que eles diziam do Eriksson?
Sempre tiveram uma certa admiração pelo Eriksson, o que é natural porque foi o homem que lhes deu a mão e apostou neles. Essa admiração ainda se mantém.

Iuran e Kulkov, campeões nacionais pelo Benfica e Porto em anos seguidos. Como é que se deu essa transferência?
O Gaspar Ramos tinha renovado o contrato com Iuran e Kulkov.

E o Mostovoi?
Não, o Mostovoi não.

Então porquê?
O Mostovoi achava-se uma estrela e estava magoado desde o tempo do Ivic por ter sido afastado. Resolveu sair, recomeçar do zero num outro clube, num outro país. Calma lá que é preciso lembrar as pessoas que ainda havia a questão do limite de estrangeiros e ele sentia que o seu futuro estava um bocado assim-assim.

Para onde é que o Mostovoi foi?
França, no Caen. Depois, Estraburgo. A seguir, Celta. Jogou sete anos em Vigo, sempre com um nível elevadíssimo em matéria de golos, assistências e regularidade. No Celta, o Mostovoi cruza-se com o Cadete e ele dizia-me que o Cadete era mais com a cabeça do que com os pés.

Mas estava a dizer que o Gaspar Ramos renovou o contrato com o Iuran.
Renovou o contrato com o Iuran mais o Kulkov, só que depois aconteceu uma coisa que não estava prevista: é que o Toni é campeão contra aquilo que seria razoável e lógico porque o Benfica vivia um momento turbulento interno e porque não era fácil juntar os três suecos Thern, Magnusson e Schwarz mais os russos, mais os portugueses e mais os brasileiros. Ou seja, o Toni conseguiu ganhar um coletivo. O que seria lógico era continuar. Só que entrou o Artur Jorge. Naquela conjuntura, foi um erro de casting.

E o Artur Jorge não quer a continuidade dos russos?
Pois, e tanto Iuran como Kulkov tinham assinado por mais três anos. É a altura do Damásio. Bom, a vida tem destas coisas e o que acontece nessa altura?

"Na altura, não, já estavam no Porto. Nós conhecemos o Bobby Robson, que tinha uma relação muito forte com o Cherbakov porque revia-se nele, em matéria de posição em campo e estilo de jogo. O curioso é que as histórias entrelaçam-se. Um dia, morreu o Rui Filipe num desastre de carro. E o Kulkov e o Iuram decidiram ir ao funeral. Discretamente, foram lá. Isso coincide com a fase em que o Damásio me diz para resolver os casos de Iuran e Kulkov."

O quê?
O acidente do Cherbakov.

Xiiiiii.
Quem é que nós conhecemos no hospital? Que ia lá sempre visitar o Cherbakov? José Mourinho e Bobby Robson.

Ainda estavam desempregados?
Na altura, não, já estavam no Porto. Nós conhecemos o Bobby Robson, que tinha uma relação muito forte com o Cherbakov porque revia-se nele, em matéria de posição em campo e estilo de jogo. O curioso é que as histórias entrelaçam-se. Um dia, morreu o Rui Filipe num desastre de carro. E o Kulkov e o Iuram decidiram ir ao funeral. Discretamente, foram lá. Isso coincide com a fase em que o Damásio me diz para resolver os casos de Iuran e Kulkov.

Como?
Pede-me para encontrar uma solução.

E?
Encontrei uns investidores judeus-russos que compraram os passes dos jogadores.

Portanto, Iuran e Kulkov deixam de ser do Benfica?
Exacto, e querem continuar em Portugal. O Pinto da Costa liga-me e pergunta-me se ainda é possível eles jogarem no Porto. Fui ao Porto para uma reunião com o Pinto da Costa e perguntou-me o que estavam a fazer no funeral. Disse-lhe que é assim na Rússia: se morre um companheiro de trabalho, é normal a presença no adeus. Depois apresenta-me uma proposta. Falo com os jogadores e eles dizem sim. Falo com os investidores e eles dizem sim. Falo com Damásio e diz não. Só que não dava para rejeitar, porque eles já não eram do Benfica e desejam realmente o Porto, até pela relação construída com o Bobby Robson.

E saíram porquê do Porto, um ano depois?
Havia uma boa relação com o Bobby Robson e ele estava de saída para o Barcelona, juntamente com o José Mourinho. Entretanto, o Iuran e o Kulkov receberam uma proposta do Millwall, de Inglaterra. Na verdade, cada um seguiu o seu caminho.

E eles, no Millwall?
Não se adaptaram bem à vida de Londres e acabaram por voltar à Rússia, onde acabaram as suas carreiras.

E o Sherbakov?
A nossa relação é forte, ainda hoje. É daqueles filmes que custa rebobinar. Era um jogador com um potencial enorme.

Conheceu-o durante o Mundial sub20, em 1991?
Já o conhecia antes. E conheci-o melhor quando o Sporting negociou com o Shakhtar Donetsk.

Através de quem?
Era o Sousa Cintra.

Que tal?
Uma figura, uma figura [e ri-se imenso]. Ele entrou em contato com um dirigente do Sporting, se não me engano era o Roseiro, que depois falou com uma pessoa russa e daí para mim. Acho que foi isso. Havia o interesse forte no Sherbakov e o jogador aparece durante o estágio de pré-época do Sporting, em França.

Que tipo de pessoa era o Sherba?
Tímido, reservado. Que se integrou muitíssimo bem no Sporting, até porque o plantel também era novo, com Figo, Peixe, Capucho, Nélson, Paulo Torres. Ele adora o Sporting e adaptou-se melhor a Lisboa que Iuran e Kulkov, por exemplo. Se não tivesse acontecido aquela tragédia, ele seria um jogador de alto gabarito. Repare, um ano em Portugal e ele já era uma certeza, e não apenas uma promessa.

O Sherba vivia onde?
Ali ao pé do estádio. Curiosamente, dava-se bem com o Iuran e o Kulkov. Atenção, Sherbakov era ucraniano como o Iuran.

Como é que o Paulo soube do acidente?
Ligaram-me de madrugada e pediram-me para ir ao hospital. Quando cheguei, a perspetiva de ficar paraplégico já era elevada. Na altura, organizámos um jogo de homenagem em Alvalade com todos os russos a atuar na Europa e aquilo ajudou-o.

Como é que encontrou o Sherbakov no hospital?
Digo-lhe isto: estranhamente tranquilo e uma forte crença de que era capaz de superar. A força dele era do outro mundo. Isso dá mais pena ainda, porque a ciência derrubou-lhe a esperança.

Ainda se dá com ele?
Falamos de vez em quando, sim.

Onde vive agora o Sherba?
Vive em Moscovo, está enquadrado no scouting do Lokomotiv Moscovo e faz observações de jogadores na Europa.

Que outros russos trouxe para cá?
Olhe, o Alenitchev.

Xiiiii, tenho um amigo meu que é maluco pelo Alenitchev. Todos os anos, comprava as camisas do Alenitchev.
Eheheheheh, boa, boa. Trouxe-o para o Porto, via Perugia (Itália). É a parte final do Fernando Santos.

Porquê Alenitchev?
O Porto estava à procura de um jogador com aquelas características: era ele ou o Roger.

Aquele brasileiro do Benfica?
Sim senhor, esse mesmo. Veio o Alenitchev.

Na mouche?
Um golo na final da Taça UEFA com o Celtic e um golo na final da Liga dos Campeões com o Monaco. É o primeiro russo a fazê-lo. Na mouche. Há uma história engraçada do Alenitchev no Porto.

Conte.
Ainda na altura do Octávio Machado, o Alenitchev só queria saber o resultado do Spartak Moscovo a meio de um jogo do Porto. O Octávio passou-se e confrontou o Alenitchev. Marquei uma reunião com o presidente Pinto da Costa, mais o Octávio e o Alenitchev.

E então?
Tudo em pratos limpos, tudo bem. O Octávio colaborou e esqueceu rapidamente o assunto. A partir daí, o Alenitchev vai sempre a subir no Porto.

Outros jogadores que trouxe?
Olhe, o Jankauskas. Emprestado pelo Real Sociedad ao Benfica e depois joga no Porto.

Porquê só meio ano no Benfica?
O Benfica tinha a esperança que a Real Sociedad baixasse os valores e tal não aconteceu. Neste impasse, o Jankauskas pediu-me ajuda e apareceu o Porto. Lá foi ele.

"Culturalmente, o Jankauskas era um jogador acima da média. Muito lúcido, muito frio, extremamente inteligente, agora uma figura na Lituânia, como selecionador nacional. Como jogador, um dos melhores profissionais que conheci. Acabou a carreira no Belenenses. Dizia-me que não se queria zangar com o Jesus e preferia, por isso, deixar de jogar. É ele que sofre a falta de que resulta o livre do 1-1 do Porto em Old Trafford. E é ele quem se lesiona no último treino para a final da Liga dos Campeões, com o Monaco."

O Jankauskas tinha um ar distinto.
Culturalmente, um jogador acima da média. Muito lúcido, muito frio, extremamente inteligente, agora uma figura na Lituânia, como selecionador nacional. Como jogador, um dos melhores profissionais que conheci. Acabou a carreira no Belenenses. Dizia-me que não se queria zangar com o Jesus e preferia, por isso, deixar de jogar. É ele que sofre a falta de que resulta o livre do 1-1 do Porto em Old Trafford. E é ele quem se lesiona no último treino para a final da Liga dos Campeões, com o Monaco.

Quem joga no seu lugar é o Carlos Alberto?
Também sou eu quem o traz para o Porto, via-Fluminense. Curiosamente era para vir para o Benfica.

E o que se passou?
Havia eleições e um dos candidatos estava interessado no Carlos Alberto. Como ganhou o Luís Filipe [Vieira], o interesse caiu por terra e o Porto interessou-se por ele. Em boa hora. Era um jogador espantoso. Devia ter continuado no Porto porque não fazia sentido um jogador com 19 anos sair do Porto. A lógica seria continuar mais uns quatro/cinco anos no Porto e só depois sair, só que havia uma grande pressão para o vender e lá foi ele para o Corinthians. Foi um erro crasso.

Isso é a ressaca do Porto campeão europeu 2004?
Houve uma certa subestimação por parte da estrutura. Talvez as pessoas tenham perdido a noção do que era fundamental. Atenção, não é fácil aguentar uma equipa campeã europeia, em que a maioria dos jogadores está com a cabeça num outro clube. Havia jogadores que teriam de sair, como Deco e Paulo Ferreira, e havia outros que não deviam ter saído. Quis-se fechar um ciclo e não se fez uma abordagem correta.

Quantos jogadores teve ao mesmo tempo?
Sabe, nunca gostei dos hipermercados, gosto mais das mercearias. Por isso, nunca tive muitos jogadores. E, acima de tudo, nunca fiz um contrato com eles. Era tudo de boca, à antiga. Quando há uma relação pessoal, no bom sentido, as pessoas acreditam naquilo que dizemos. Só assim temos verdadeiras provas de lealdade. E alegrias enormes.

Dê-me um exemplo.
Um jogador da 3.ª divisão da Sibéria que chegou ao Chelsea e ainda foi capitão da seleção russa. Está a ver?

Não.
Alexei Smertin. Fez uma carreira impressionante: Sibéria, dois anos no Bordéus, Portsmouth e Chelsea. Isto, sim, dá prazer. E sabe o que o Smertin gosta?

Nem ideia.
De Portugal. Ele adora isto, adora vir cá e comer. Adora vir cá e conhecer o nosso país. Adora-nos. Ele é muuuuuito, muita boa gente mesmo.

Mais feitos do Paulo?
O Júlio César, por exemplo, foi o primeiro brasileiro a jogar na Rússia. Era um 10. Fui eu quem o negociei. E o primeiro português a jogar na Rússia também fui eu.

Quem era?
Filipe Azevedo. Do Felgueiras para o Lokomotiv e ainda jogou nas provas europeias.

Continue, não páre sff.
Lembro-me do Cadete. Na altura, dispensado pelo Sporting e, num processo recambolesco, vai parar ao Celtic, onde é o melhor marcador da Grã-Bretanha. Mal ganha esse prémio, interessam-se por ele clubes como Newcastle, Valencia e Saragoça.

E vai parar ao Celta do Mostovoi?
Pela proximidade a Portugal, ele tinha saudades do nosso país.

Mais, mais.
Outro jogador com um percurso extraordinário: Varela. Formado pelo Sporting, é dispensado e vai parar ao Porto, clube pelo qual joga o Euro-2012, na Ucrânia, onde marca um golo decisivo à Dinamarca [3-2 em Lviv, na segunda jornada da fase de grupos].

Porquê dispensado pelo Sporting?
É na era do Paulo Bento, havia que escolher entre Varela ou Yannick. O Sporting optou pelo Yannick.

Que também é seu ou…?
Ah pois. Já percorreu meio mundo depois do Sporting: Rússia, EUA, Tailândia, França.

Pois é, aquela barraca na França, com o Nice. Como é que isso acontece?
Eles é que não depositaram na hora devida, distraíram-se.

"No fundo, o Yannick era como o Tom Hanks naquele filme do homem preso no aeroporto, sem nacionalidade. O Sporting não contava com ele e a transferência para o Nice fora abortada por ter sido registada fora do tempo regulamentar. Estava sem nada e apareceu o Benfica. Só que o Sporting não queria que ele fosse para o Benfica. Ora isso era boicotar o trabalho do Yannick. Como não lhe podia arranjar um quintal para jogar à bola, ele lá foi para o Benfica."

Por isso é que foi parar ao Benfica?
No fundo, o Yannick era como o Tom Hanks naquele filme do homem preso no aeroporto, sem nacionalidade. O Sporting não contava com ele e a transferência para o Nice fora abortada por ter sido registada fora do tempo regulamentar. Estava sem nada e apareceu o Benfica. Só que o Sporting não queria que ele fosse para o Benfica. Ora isso era boicotar o trabalho do Yannick. Como não lhe podia arranjar um quintal para jogar à bola, ele lá foi para o Benfica.

Há jogadores complicados no seu currículo?
Há sempre, mas, atenção, que as pessoas de fora não entendem que os jogadores são humanos e têm problemas em casa, têm diarreias e essas coisas todas. Claro que há jogadores com um feitio especial, só que não se pode partir disso para chamá-los de complicados. Olhe, o Carlos Martins, um jogador genial a um determinado nível, nem sempre estava disponível para aceitar as condições propostas. Outro que supostamente é complicado, e não era de todo, era o Maniche. Como estava quase sempre em rutura e com alguma dificuldade em aceitar um determinado enquadramento, as pessoas olhavam para ele com outros olhos. E é um porreiro.

E o inverso, jogadores sem problemas?
Ovchinnikov.

O guarda-redes?
Trouxe-o do Lokomotiv.

Naquele tempo, o titular era o Preud’homme. Porquê contratá-lo, nunca entendi…
Então veja isto: o Ovchinnikov queria jogar no Benfica porque era uma paixão antiga. Ele tinha sido treinado pelo Yashin e, conversa puxa conversa, aquilo que lhe disse sobre a ligação de Yashin com Eusébio, era seu desejo representar o Benfica.

Como é que foi a sua carreira aqui?
Acaba por sair na era Vale e Azevedo. Está um ano no Alverca e depois assina pelo Porto. As coisas até lhe correm bem, só que depois chega o Baía, que não jogava no Barcelona do Van Gaal, e aí ele percebeu que o seu tempo tinha acabado. Sem problemas para ele, sempre porreiro. Pode estar tudo a cair-lhe à volta e ele na boa. É um bom gigante. No fundo, o Ovchinnikov era como o Iuran: não fazia mal a ninguém.

O Iuran era assim?
Fora, sim. No dia-a-dia, era uma mosca morta. Dentro do campo, era tramado. Há um jogo entre Benfica e Boavista em que o Fernando Mendes entrou em campo para o irritar. Conhecia-o bem e sabia que o ponto fraco do Iuran era dar-lhe uma mocada. Bom, não é que o Fernando dá-lhe uma bem forte que o Iuran perde a cabeça. Nós, ao lado do banco de suplentes, só nos ríamos com a dança dos dois. O Iuran atrás dele e o Fernando ora era lateral-direito, ora lateral-esquerdo.

Ao lado do banco de suplentes?
Ah pois, esqueci-me de lhe dizer. Durante dois anos, tive o privilégio de ver o Benfica ao lado do Eusébio, num lugar VIP, ali junto à relva. O Eusébio tinha a sua cadeirinha e eu ouvia os seus comentários durante os 90 minutos. Um mimo. A melhor recordação que tenho é o jogo com o Arsenal, em Londres. Quando o público se apercebe do Eusébio, não vejo uma única pessoa sentada. Todos de pé a aplaudi-lo.

Há pouco, o Paulo falou do Izmailov. Que tal é o homem?
O Marat é um fenómeno e diz-se estar a trabalhar para chegar ao Mundial-2018 como um dos convocados da Rússia. Vamos ver. Sabe quem estava louco com o Marat?

Não.
O Mourinho. Aos 17 anos, o Marat já era titular da seleção russa. Ti-tu-lar. Só há um outro assim, que é o Cherenkov.

Maravilha.
O Mourinho tinha visto jogos dele na selecção, um deles com a França. Só que o Sporting é que acabou por contratá-lo.

Quando o Izmailov vai para o Porto, já o Mourinho está noutra galáxia.
Siiiiim, sim. É curioso isso do Izmailov no Porto. Havia três hipóteses em cima da mesa: Sporting, e eles não o queriam por lá; Benfica, nem pensar disse-me o presidente.

Resta o Porto?
Exacto. Encontrámos o Miguel Lopes e fizemos a troca.

Adaptou-se bem o Izmailov a Portugal?
Tão bem que está a viver cá, com filhos e tudo.

O Vukcevic também é do Paulo?
Também, sim. Estava parado no Saturn e trouxe-o para o Sporting. Facto curioso: o Vukcevic fala várias línguas e é cinturão preto nas artes marciais.

Era ele quem dormia na Academia de Alcochete?
Esse era o Marat.

Porquê?
O Marat é um perfeccionista, é daqueles jogadores que não admite um passe errado. Às vezes, perguntava-lhe ‘queres ver um passe errado do Zidane? Toma lá isto e mais isto’. Ele ficava angustiado com um passe errado.

E porquê acordar na Academia?
Para não perder tempo, para ir ao ginásio, para treinar, treinar e treinar. Tínhamos de o controlar para ficar sossegado.

"Uma transferência é a do Futre. O grande objetivo do Futre era ouvir os clubes interessados para tentar subir a parada do Sporting. Só que nós fizemos a coisa ao contrário, invertemos o processo e aparecemos na casa do Futre. Tudo combinado, às claras. O que o Futre não estava à espera era que aparecesse o presidente Jorge de Brito. Quando saímos da reunião, dizemos que o negócio está fechado. E não estava. Nem por sombras. Foi uma táctica. E resultou, porque o Sousa Cintra entra em parafuso. Na prática, nada está fechado, até porque não havia instrumentos para chegar a isso. Segue-se aquela bronca com um responsável da RTP que adiantou dinheiro para a transferência. Depois, até o Cavaco Silva entra em ação e afasta-o da RTP"

Puxa vida, há com cada um. Mais jogadores, mais transferências?
Uma engraçada, a do Futre. Trabalhava no Benfica nessa altura e queríamos o Futre. Só que, e dinheiro?

Pois, e dinheiro?
Nada, ou quase. O grande objetivo do Futre era ouvir os clubes interessados para tentar subir a parada do Sporting. Só que nós fizemos a coisa ao contrário, invertemos o processo e aparecemos na casa do Futre. Tudo combinado, às claras. O que o Futre não estava à espera era que aparecesse o presidente Jorge de Brito. Quando saímos da reunião, dizemos que o negócio está fechado.

E estava?
Nem por sombras. Foi uma táctica. E resultou, porque o Sousa Cintra entra em parafuso. Na prática, nada está fechado, até porque não havia instrumentos para chegar a isso. Segue-se aquela bronca com um responsável da RTP que adiantou dinheiro para a transferência. Depois, até o Cavaco Silva entra em ação e afasta-o da RTP.

Alguma transferência por fazer?
Lembro-me de uma, com um jogador do Barcelona. Um avançado do tempo do Figo.

Uyyyyy,isso agora.
Eu o Damásio encontrámo-nos com ele e os valores dele eram incomportáveis para nós. Pelo Barcelona, tudo bem. Por ele é que não.

Kodro?
[Paulo aponta o indicador] Isso mesmo, o Kodro.

Uma transferência inacabada?
Vágner Love, do Corinthians. Estava tudo pronto para jogar num clube russo e, à última hora, a mulher zanga-se com ele. Moral da história, o Vágner rói a corda e já não vai para a Rússia. É o que lhe digo, os jogadores são humanos e têm problemas destes, comuns a qualquer mortal.

A reunião mais rápida da sua vida?
Uma de dois minutos com Bilyaletdinov, então manager do Rubin Kazan.

Foi a Kazan só por dois minutos?
Isso mesmo. Fui negociar um argentino chamado Ansaldi para o Benfica [agora está no Inter]. A conversa durou um minuto, porque o jogador não estava de saída.

E o outro minuto?
Foi de silêncio. Saí de cena.

No início da conversa, falou-me de livros. Alguma vez aconselhou um livro a um jogador?
Um dia, pergunta-me um jogador ‘o que me sugeres para começar a ler?’

O que lhe respondeu?
Se queres uma coisa interessante e pequenina, começa pelas “Memórias das Putas Tristes”, do Gabriel García Márquez.

Quem era o jogador?
Marco Caneira.

Grande Caneira. Ele saiu a mal do Sporting, juntamente com?
Paulo Costa, Vasco Faísca e Alhandra. Dos quatro, só o último é que não vai para o Inter, que paga 1,5 milhões pelo três através do Alverca do Luís Filipe Vieira.

Como é que é?
O Caneira e o Paulo Costa ainda chegam a jogar pelo Alverca antes de assinar pelo Inter. E é o Inter que paga esse valor ao Sporting.

Pois ééééé, o Alverca. Lembro-me do falhanço do Paulo Costa em Alvalade.
Eheheh, ele assustou-se com o tamanho do Schmeichel. O Paulo tinha um potencial enorme. Já o Caneira chegou a ser capitão do Bordéus e ainda jogou no Valencia do Ranieri. Fez uma grande carreira. Sabe quem também jogou no Bordéus?

Pauleta?
Pauleta e Bruno Basto. O Pauleta foi cá uma negociação que nem lhe conto.

Agora vai contar.
O Pauleta estava no Jamor, em estágio pela seleção, e o Bordéus mostra-se interessado por ele nos últimos momentos do mercado. Não sei se sabe, mas o Lendoiro, presidente do Deportivo, só trabalhava a partir de determinada hora. Assim era difícil. Detalhe: o Jorge Gama, empresário do Pauleta, estava de férias. Acho que México. Delegou-me então para negociar. Como o Pauleta estava ao serviço da seleção e não podia embarcar no avião do Bordéus, a solução encontrada foi meter os papéis assinados pelo jogador e entregar o envelope nos correios ao pé do aeroporto para a transferência ir avante. Quando o Lendoiro começou a trabalhar, deu a permissão para o negócio e o Pauleta pôde regressar ao Jamor com o futuro em França.

E o Bruno Basto?
Outro com uma carreira interessante: Benfica, Bordéus, Feyenoord, Nacional e Yaroslavl. Depois, não quis jogar mais. Ainda chegou a trabalhar comigo no mundo empresarial.

Sempre que o vejo, está o Paulo Madeira ao lado.
Outro, o Paulo Madeira. Levei-o para o Fluminense com a ideia de ser o primeiro português a jogar um Fla-Flu, só que nunca conseguimos inscrevê-lo.

Então?
O Fluminense tinha tantas dívidas que mal o dinheiro chegava à conta, o Banco do Brasil desvia-o. Se falar com o Paulo Madeira, ele tem imensas histórias engraçadas do Brasil, do Fluminense, do Romário.

Soube de uma história em que lhe roubaram uma bicicleta.
A bicicleta e até o poste onde ele amarrou a bicicleta, eheheheh.

Só mais um jogador, vá.
Mauro Airez, do Belenenses para o Benfica.

Estava a treinar na praia, não era?
O Belenenses tinha salários em atraso e ainda se tentou uma situação de compromisso. Em vão. Foi treinar para a praia e assinou pelo Benfica, treinado pelo Mário Wilson. É dele o golo do very light, na final da Taça de Portugal com o Sporting. É daquelas coisas completamente imbecis, em que as claques são irresponsáveis e, neste caso, assassinas.

O futebol desumanizou-se?
O que faz falta ao futebol é devolver a voz aos intervenientes. Os jogadores têm de falar, e não os outros. Faz algum sentido um filme ser publicitado sem entrevistar os actores? Não faz. É isso que está a acontecer ao futebol. Há mais, claro. A aposta na formação, o afastamento dos fundos nos clubes e por aí fora.

Muito bem, obrigado por tudo.
Ora essa, sempre disponível.

(nem 10 minutos depois, toca o telemóvel)

Allô?
Ò Rui, esqueci-me de um jogador absolutamente imprescindível.

Quem?
O Miguel. Se ele sabe disto, ainda me deserda eheheheh. Ele foi um jogador fantástico, com um rendimento elevadíssimo desde cedo. Teve uma proposta da Juventus, só que o Benfica não o quis deixar sair. Houve ali uns problemas e encontrou-se a solução do Valencia. Digo-lhe, foi dos portugueses com melhor rendimento em Espanha e podia ter saído.

Para onde?
Real Madrid ou Barcelona. Cheguei a receber chamadas do Florentino Pérez e do Joan Laporta, só que o Valencia não o quis deixar sair. Sabe qual é o mérito do Miguel? Nunca deixou de ser amigo dos seus amigos e nem sempre os amigos eram aceites por este ou aquele. É pena, porque o Miguel é genuíno. Excelente pessoa e um jogador de categoria. Fez um Euro-2004 fantástico, por exemplo. Agora é que é, adeus e abraço.

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