Perguntámos a uma galinha, a um panda e a uma raposa o que acharam da Web Summit. Quer ouvir?

10 Novembro 2017

Testámos os animojis do novo iPhone X no Parque das Nações e perguntámos a sete participantes da Web Summit o que gostaram mais e menos no evento. E o que aprenderam nestes dias de partilha de ideias.

Estiveram 59.115 pessoas em Lisboa de 170 países diferentes. O objetivo era o mesmo: participar na maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa. Num evento onde até dois robôs foram oradores, era de se esperar que o novíssimo iPhone X — que está nas lojas portuguesas desde a semana passada e que o Obervador anda a testar — passasse despercebido. Não foi bem assim. Quando puxávamos do bolso o iPhone mais caro de sempre (custa no mínimo 1.180 euros) para tirarmos fotografias ou atualizar o liveblogue, o que não faltaram eram olhares curiosos e a pergunta: “Posso experimentar?”. Logo de seguida, as atenções viravam-se para aquela que foi uma das novidades que mais fãs captou desde a apresentação do topo de gama da Apple em setembro: “Como posso brincar com os Animojis?”.

O que são os famosos animojis do iPhone X? São bonecos que ganham vida ao interagirem com o utilizador. Como? A câmara frontal do iPhone permite gravar mensagens de 10 segundos, que através de reconhecimento facial transforma a cara das pessoas em animais à escolha: um panda, um gato, uma raposa ou um coelho. Aproveitámos que estávamos num evento de tecnologia para perguntar a empreendedores, voluntários e visitantes que opinião têm sobre a Web Summit e o que fariam se liderassem uma startup unicórnio (avaliada em mais de mil milhões de euros). Mas, se temos a brincadeira mais cara da história da Apple nas mãos, por que não brincar com ela?

Assunção Vassalo, 24 anos, advogada

Animoji escolhido: Galinha
“O que gostei mais foi de ver a quantidade de pessoas que isto move e a quantidade de startups inovadoras que isto tem. O que gostei menos foi a quantidade de encontrões que já levei.”

Muita gente empurrou Assunção Vassalo na Web Summit, mas o que esta advogada de 24 anos gostou mesmo foi das startups inovadoras que por lá encontrou. Pena que o cheque de um milhão de euros da Comissão Europeia para a capital mais inovadora da Europa tenha ido para Paris e não para Lisboa. De qualquer forma, se for para ter sucesso, não há-de ser para agora. No palco da Web Summit, Andra Keay, diretora da Silicon Valley Robotics, afirmou que a maioria das tecnologias mais inovadoras que estavam a sair do mercado vinham de laboratórios que têm mais de cinco anos de experiência. “Para fazer crescer a inovação temos de ter pensamentos de longo prazo e não de curto prazo. Não se trata de tecnologia, nem de empresas nem de impostos”, disse num debate no palco central.

Quando toda a gente que enchia o Altice Arena quis saber qual vai ser a próxima grande inovação do mundo, Brian Halligan, fundador do HubSpot, respondeu que serão os robôs. Já Alexander Zosel, chefe de inovação na Volocopter, defende que a “próxima grande cena” é mesmo a mobilidade, porque “tudo vai estar mais ligado”. Zosel quer carros a voar nos céus e “não é daqui a 20 anos, é daqui a três”. A avaliar pelo que foi dito e mostrado no palco principal nos dias anteriores não será o único. Mas o comissário europeu que tutela a pasta, Carlos Moedas, não pensa o mesmo. “Há projetos mais interessantes do que carros voadores. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um projeto de impressão 3D em que é possível imprimir uma casa por 35 euros. Imaginem isso num continente como África. Isso muda mais a vida de alguém do que carros voadores.”

Assunção Vassalo tem 24 anos, é advogada e também não gostou dos encontrões que levou

José Rainho, 47 anos, professor universitário

Animoji escolhido: Panda
“Aquilo que eu gostei mais na Web Summit foi a interação e o ‘networking’ junto dos empreendedores, que abre novos mundos e novas oportunidades de negócios para todos.”

O professor José Rainho gostou das oportunidades de negócios que a Web Summit cria — que o diga a startup vencedora do pPitch, a Lifeina. Levou para casa 50 mil euros com um mini frigorífico portátil que promete ajudar milhões de pessoas, mas segundo o presidente executivo “nem sabia que havia dinheiro envolvido”. A apresentação que o Uwe Diegel fez do seu projeto conseguiu mais de 50% dos votos do público e foi o inegável vencedor. Quando subiu ao palco para aceitar o prémio, aproveitou para utilizar um tema que trouxe algum sucesso na conferências, dizer mal de Donald Trump.

Este networking — conhecer pessoas –, Uwe Diegel conseguiu na conferência de imprensa, quando esgotou os cartões de visita que trouxe a Portugal para entregar a inúmeros jornalistas presentes. Tudo graças a um pitch perfeito. O que precisou para que o conseguisse? Segundo o empreendedor neozelandês: “Alma e coração”. Sem estas componentes “nem vale a pena vender uma ideia”. Foi com este ar espirituoso que aproveitou para brincar sobre a inovação que criou para levar canetas de insulina e outros medicamentos para todo o lado sem a preocupação de precisar de um frigorífico. Segundo Diegel, quem quiser “também pode usar para guardar vodka”.

José Rainho tem 47 anos e é professor universitário em Aveiro

Sofia Bicho, 18 anos, estudante de gestão e voluntária na Web Summit

Animoji escolhido: gato
“Gostei imenso da minha experiência como voluntária, porque tive oportunidade de conhecer outros voluntários, mas não gostei da comida do segundo dia, porque foi uma massa de peixe muito má.”

Na sala de imprensa não se comeu mal, mas compreendemos Sofia. De acordo com o que Paddy Cosgrave anunciou no Twitter, a equipa de voluntários, segurança e de outros colaboradores da Web Summit era composta por 5.000 pessoas. Não é fácil alimentar tanta gente, mas talvez tenha sido destas pessoas que Marcelo Rebelo de Sousa falou no encerramento da maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa. “Obrigada, Paddy! Obrigada ao Governo de Portugal. E obrigada a toda a gente que está aqui. A mesma palavra de sempre: orgulho. Tenho muito orgulho de Portugal e dos portugueses.”

O Presidente da República foi o último a pisar o palco do Altice Arena, logo a seguir ao ex-vice-presidente dos EUA e Nobel da PAz em 2007, Al Gore. “Parabéns a todos. E às pessoas que estão em redor do mundo a criar uma revolução. Vocês são os transformadores, são vocês que estão a mudar a sociedade, a cultura e a forma de vida. Eu estou preocupado com os políticos. Nem todos, mas alguns: eles negam a alteração climática. Em Portugal vamos continuar no Acordo de Paris. Esta revolução significa uma mudança radical para muita gente. Estamos atrasados. E finalmente: esperança, esperança”, afirmou o presidente que disse a Paddy Cosgrave que esperava vê-lo novamente em 2019 e 2020. “Porque nós merecemos isto. À mesma hora, no mesmo lugar. Portugal merece, os portugueses merecem.”

Sofia Bicho tem 18 anos, é estudante de gestão e trabalhou como voluntária na Web Summit

Jorge Ribeiro, 36 anos, coordenador da equipa técnica

Animoji escolhido: coelho
“Positivo, a partilha de ideias e conhecimento das novas tecnologias. Pontos negativos, a confusão gerada pela quantidade enorme de pessoas que participam no evento.”

Para Jorge Ribeiro, um dos pontos negativos foi a confusão de ter tantas pessoas num só evento. Nestes quatro dias a população de Lisboa cresceu mais de 10%. No total, os visitantes de 170 países usaram mais de 205 mil copos de papel e utilizou-se fibra ótica suficiente nos pavilhões da Feira Internacional de Libsoa (FIL) e no ALtice Arena para se subir ao topo do Evereste oito vezes. Fizeram-se mais de 2,2 milhões de logins no Wi-Fi do evento. Paddy Cosgrave prometia que ia funcionar a 99,9%, mas sabemos por experiência que valeu mais confiar no pacote de dados do que no intermitente Wi-Fi.

A confusão nestes eventos é realmente grande e o que não faltou à volta do Parque das Nações — graças à Web Summit — foi muito trânsito. Para resolver este problema, A Uber já tem um plano: carros voadores. Em pleno palco principal, o responsável pelo desenvolvimento deste produo da Uber, o UberAIR, anunciou uma parceria com a NASA para que em 2020 já haja carros voadores a serem testados em Los Angeles. A Intel e a Waymo também tiveram uma palavra a dizer sobre este assunto e levaram para o palco da Web Summit dois carros que se conduzem sozinhos. Pelo menos, se houver trânsito, pode sempre optar para fazer outras brincadeiras.

Jorge Ribeiro tem 36 anos e o líder da equipa técnica da Primavera BSS

Tomás Jonet Mata, 24 anos, advogado

Animoji escolhido: Panda
“O que gostei mais foi de todas as startups que vi com grandes ideias e o que gostei menos foi todas as filas.”

Tomás Mata gostou das “boas ideias” que viu na Web Summit, mas não gostou das filas que encontrou por todo o lado. Não admira: estiveram 59.115 pessoas de 170 países na Web Summit, 2.600 eram jornalistas, 1.200 eram oradores e estiveram representadas 2.100 startups. Em destaque, a participação feminina (que era um dos objetivos de Paddy Cosgrave): 42% das pessoas que participaram na Web Summit eram mulheres, tal como no ano passado. Em palco, 35,4% dos oradores eram mulheres.

A desigualdade de género na comunidade tecnológica foi um dos temas mais falados na Web Summit. “O problema quando as mulheres são assediadas no lugar de trabalho não termina no facto de um homem se julgar dominante em relação à mulher. Ele aumenta quando as pessoas sabem o que está a acontecer e não fazem nada”, afirmou Susan Herman, presidente da American Civil Liberties Union, num debate no palco principal. Blake Irving, presidente da GoDaddy, acrescentou que a falta de diversidade não é um problema das mulheres. É também um problema dos homens. Se estás numa empresa tens de ajudar a resolver isso. É um problema de todos”.

Tomás Jonet Mata tem 24 anos e é advogado, mas não gostou de tantas filas

Sander de Graff, 29 anos, empreendedor

Animoji escolhido: raposa
“Se a Red Duck Post fosse um unicórnio chegaria a dezenas de milhões de pessoas por mês com vídeos engraçados para o seu feed de notícias.”

O objetivo do inglês Sander de Graff é o de chegar ao maior número de pesssoas possível com o produto que está a mostrar aos investidores e a quem passa no seu stand no evento. Mas, só por ter lá estado, consegue isso? De acordo com o fundador e presidente executivo da Web Summit, Paddy Cosgrave, “41% das empresas que participam na Web Summit encontram investidores”. São números que podem ajudar bastante a escolher se vale a pena o investimento (cada bilhete custa em média 750 euors) para se estar no evento. Sander de Graff comprova aquilo que também já tinha sido avançado pela organização: mesmo com o Brexit, o Reino Unido continua a ser o país com mais empresas representadas.

E quais foram as ideias mais interessantes que andaram pelo Parque das Nações nos últimos dias? Segundo a escolha do Observador, há de tudo. Um semáforo para poupar água, um teste de gravidez em bambu ou uma app para facilitar os divórcios, foram apenas alguns dos produtos que andavam pelos pavilhões da FIL à procura de investimento. O que não faltou na Web Summit foi startups onde investir.

Sander de Graff tem 29 anos e é empreendedor no Reino Unido

André Dias, 22 anos, diretor de tecnologia na Snapcity e mestrando em engenharia informática

Animoji escolhido: unicórnio
“Olá! Nós somos a Snapcity e estamos na Web Summit para angariar dinheiro. Se fôssemos uma empresa unicórnio comprávamos um Tesla e íamos todos até às Maldivas passar os meus anos.”

Unicórnios não faltaram no palco da Web Summit — temos pena que ainda não seja o do André — mas a comissária europeia para a concorrência, Margrethe Vestager, que foi responsável pela aplicação das multas recorde à Apple e à Google, deixou uma mensagem importante a todas as empresas tecnológicas na Web Summit, quer tenham muito ou pouco dinheiro nas contas: é necessário “regras básicas” para a utilização das tecnologias. “O objetivo é que todas as empresas paguem os impostos”, afirmou, sublinhando que a Europa ainda está a tentar perceber como taxar a economia digital.

“Temos de reconquistar a democracia. A sociedade é formada por pessoas, não por tecnologia”, afirmou a comissária, que elogia o mercado único europeu. “Construímos um mercado enorme, mas é um mercado em que nos preocupamos, com o ambiente, condições de trabalho, etc. Temos de intervir, temos de garantir que não é a lei da selva, mas as leis da democracia.” Não sabemos em que é que se baseia o produto da startup de André, mas se for composto por algoritmos, Vestager tem um recado para ele: que vá estudar Direito. “Alguns algoritmos deviam ir para a escola de Direito antes de serem disponibilizados”, afirmou.

André Dias tem 22 anos e é diretor de tecnologia na Snapcity

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