“Por Treze Razões”. A série polémica que retrata (ou glorifica?) o suicídio adolescente

09 Maio 2017240

O suicídio é o tema central da série "Por Treze Razões", que se tornou um fenómeno. Especialistas falam de romantização da morte e crueza excessiva. Adolescentes acham que é necessário para alertar.

“Olá, sou a Hannah. Hannah Baker. Isso. Não ajustes o teu… o que for que estiveres a usar para ouvir isto. Sou eu, ao vivo e em estéreo. Sem compromissos de retorno, sem bis, e desta vez sem qualquer pedido. Faz um lanche. Põe-te confortável. Porque vou contar-te a história da minha vida. Mais especificamente, por que razão a minha vida acabou. E se estás a ouvir esta cassete, é porque tu és uma das razões.”

Começa assim a série que está a ser um sucesso entre os adolescentes um pouco por todo o mundo, Portugal incluído. Com a voz de Hannah Baker a sair de uma velha aparelhagem, em tom firme, seguro e com grande clareza, lançam-se os grandes temas de “Por Treze Razões”: suicídio, culpa, vingança, bullying e violência entre adolescentes.

“Por Treze Razões” foi a série mais falada no Twitter até ao momento, em 2017, à frente de “The Vampire Diaries” e “The Walking Dead”. Outros dados do Twitter, divulgados pela Variety, adiantam que desde a sua estreia, a série compilou mais de 11 milhões de tweets, sendo que Hannah foi a personagem mais mencionada nessas publicações. A Netflix não divulga dados de audiências.

Baseada num livro de 2007, da autoria de Jay Asher, esta série norte-americana conta a história de Hannah Baker que, aos 17 anos, decidiu pôr fim à sua vida, deixando como legado sete cassetes, com um total de 13 gravações, dirigidas às 13 pessoas que considera serem as responsáveis pela sua morte. Produzida por um dos ícones dos adolescentes, a atriz e cantora Selena Gomez, que dá a cara pela série, “Por Treze Razões” está a gerar polémica. Muita polémica.

O suicídio é demasiado romantizado? A violência demasiado gráfica? Os autores da série já duplicaram o número de avisos que aparecem antes dos episódios e fizeram um documentário — intitulado “13 Reasons Why | Beyond The Reasons” (“Por Treze Razões | Para lá das Razões”) — a dar explicações, mas isso não parou a avalanche de críticas que chegam de profissionais que trabalham com crianças e adolescentes. Fomos ouvir jovens portugueses que veem a série e os especialistas que também a analisaram.

O que é o suicídio?

O Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2013/2017 descreve o suicídio como “um fenómeno complexo e multifacetado fruto da interação de fatores de ordem filosófica, antropológica, psicológica, biológica e social”.

Marta ouviu falar da série através de amigos e das redes sociais. O facto de estar a ser transmitida na Netflix — disponível na plataforma desde o dia 31 de março — foi a cereja no topo do bolo. “Através das redes sociais, apercebi-me que imensa gente estava a ver a série e alguns amigos também insistiram para eu a ver. Como achei o tema [do suicídio] interessante, e como tinha Netflix, comecei a ver”, conta a adolescente de 18 anos ao Observador.

Tudo isto aconteceu há mais de um mês. A jovem viu a série “quase de empreitada” com amigos, à exceção dos dois últimos episódios a que assistiu sozinha. “É viciante. Ficamos a querer saber o que está na próxima cassete e como as pessoas estão implicadas no suicídio”.

Apesar de tudo o que já tinha ouvido falar da série, Marta não estava à espera “de gostar tanto”, especialmente tendo em conta o tema “mórbido”. “Mas eles dão um twist à história”, acrescenta.

No caso de Wilmara, de 19 anos, foi o seu assumido vício em séries que a levou ao mais recente sucesso neste universo. Quando começou a ver, não sabia que a narrativa girava em torno da questão do suicídio: “É uma boa série que pode levar as pessoas a verem o outro lado, a estar na pele de quem sente vontade de se suicidar“.

Pedro, de 18 anos, ainda não viu todos os episódios, mas está expectante. À semelhança de Marta, foi aconselhado por amigos a ver a série e também a tem visto com um grupo de amigos. “A série tem sido um fenómeno e eu quis perceber porquê. Está tanta gente a falar nela por causa do tema do suicídio — um tema real e terra a terra. É uma questão mais influente nos adolescentes do que noutras faixas etárias e, por isso, captou a atenção dos adolescentes”.

“Estas cenas de violência e de crueza são excessivas”

O suicídio é efetivamente um tema real, como diz Pedro. Mas qual é a melhor forma de abordar esta questão? É através de cenas gráficas, como a série faz? “Sendo algo que acontece de facto, precisa de ser discutido e quanto mais gráfica for [a cena], maior será o impacto e mais se vai falar. Se for abordado de maneira mais leve, as pessoas não falam”, afirma Pedro ao Observador.

Marta defende que há a necessidade de se “tomar consciência” de uma questão tão importante. “A cena do suicídio é gráfica, mas no meio de tanta coisa não se olha para aquilo de uma forma tão horrorosa. É como se nos ajudasse a compreender a realidade das pessoas que cometem suicídio e nos levasse a ajudá-las. A intenção foi chocar para as alertar. Nós não podemos achar aquilo violento, porque aquilo é verdade”.

Os produtores da série acabaram por mudar a forma como Hannah “pratica” o ato suicida. No livro, a personagem toma comprimidos, na série corta os pulsos dentro de uma banheira cheia de água. A cena é extremamente violenta, uma vez que se filmam os cortes num plano muito próximo.

Segunda maior causa de morte entre jovens

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que de 40 em 40 segundos suicida-se uma pessoa, isto é, cerca de três mil pessoas por dia em todo o mundo.

Por cada pessoa que efetivamente comete suicídio, 20 ou mais tentam fazê-lo.

É a segunda maior causa de morte nos jovens entre 15 e 24 anos, a seguir a acidentes de viação.

OMS

Os especialistas argumentam que a forma como esta série está a retratar a questão não é a indicada. Pelo contrário. “A adolescência está muito associada a um comportamento do agir em vez do refletir. Quando uma série é muito crua incita à não reflexão e a que não haja uma digestão [do conteúdo]. Se as coisas aparecem a cru, não são transformadoras, e na adolescência não há maturidade para digerir uma coisa crua. Ela é traumática“, defende a psicóloga Patrícia Câmara.

Maria Azenha, ex-vice-presidente da SOS Voz Amiga — linha telefónica de apoio a questões do foro emocional, problemas nas relações familiares, solidão, etc — ressalva que “a distância que há dos pensamentos ao ato [nos adolescentes] é curtíssima, relativamente a uma pessoa adulta”, o que pode levar a um “contágio”. “Há uma predisposição nos adolescentes para confundir realidade com ficção, para romantizar as situações e imitar o comportamento“.

"Há uma predisposição nos adolescentes para confundir realidade com ficção, para romantizar as situações e imitar o comportamento."
Maria Azenha, SOS Voz Amiga

Para o pedopsiquiatra Pedro Pires, é útil que questões como o suicídio sejam faladas entre adultos — sejam pais ou professores — e adolescentes, mas quando estes temas são abordados “de uma maneira não filtrada”, podem-se correr “riscos” com os “adolescentes mais frágeis, do ponto de vista emocional”, levando-os a ter “comportamentos de imitação — não necessariamente do suicídio, mas de comportamentos autodestrutivos”.

Estas cenas de violência e de crueza são excessivas e não são necessárias para se falar da gravidade do que quer que seja. É como se, hoje em dia, a palavra e o pensamento não fossem suficientes para mostrar os riscos, e fosse preciso uma imagem ou uma filmagem”, critica o chefe de serviço do departamento de pedopsiquiatria do Hospital Garcia de Orta.

Wilmara também sublinha o lado negativo de mostrar este tipo de situações. ” [As cenas mais gráficas] foram uma boa ideia para comover as pessoas, para levá-las a refletir mais e para causar impacto. É bom por um lado para sensibilizar, mas é mau por outro porque as pessoas podem levar um pouco a sério”.

"[As cenas mais gráficas] foram uma boa ideia para comover as pessoas, para levá-las a refletir mais e para causar impacto. É bom por um lado para sensibilizar, mas é mau por outro porque as pessoas podem levar um pouco a sério"
Wilmara, 19 anos

Para Marta, “quando se está fragilizado, qualquer coisa pode ser suficiente para despertar isso“. Já Pedro apresenta uma visão totalmente oposta: “Uma pessoa que já se sinta mal, ao ver este tema a ser abordado pode sentir que há solução para o seu problema. Pode pensar ‘se calhar não sou só eu que tenho estes sentimentos’ ou ‘não é só a mim a quem acontecem estas coisas'”.

Maria Azenha fala também na hipótese de se cair numa “dessensibilização” com o excesso de violência nas imagens. Algo que acontece não só nesta série em particular, mas também nas imagens que passam diariamente nos telejornais, por exemplo. “Uma dessensibilização em relação à dor e sofrimento, porque ela passa a entrar [nas nossas vidas] como rotina”, acrescenta.

Pedro Pires alerta ainda para o risco da banalização do sofrimento, “como se fosse normal um sofrimento deste nível”. “A adolescência é uma idade de crise, em que faz parte o sofrimento, mas [retratá-lo] desta maneira pode levar a uma banalização”.

804 mil mortes em 2012

Em 2012, registaram-se cerca de 804 mil mortes por suicídio, adianta o documento da OMS, “Preventing suicide: A global imperative”. Um valor que muito provavelmente não corresponderá à realidade, uma vez que há países em que o suicídio é ilegal.

OMS

Hannah Baker é sempre retratada como uma rapariga normal, que só começou a ter problemas quando chegou àquela escola. E o seu suicídio é quase como uma “vingança” que ela leva a cabo em relação aos amigos e colegas supostamente “culpados” pelo ato que ela pratica.

Marta recorda que, no início da série, o retrato que fazem da vítima é o de uma adolescente “super normal” e que não aparenta qualquer problema a nível psicológico. “Aconteceram alguns problemas que a magoaram e a levaram a fazer as cassetes”.

Nenhuma destas ideias é vista com bons olhos pelos especialistas.

“É um erro crasso da série” defende Patrícia Câmara. “Nunca é apontado que uma ideação suicida tem sempre por detrás um problema de depressão ou doença mental”, acrescenta Maria Azenha.

Pedro Pires também sublinha a importância de se contextualizar a questão do suicídio e do sofrimento emocional. “A própria série devia ter o cuidado, ao apresentar um tema tão delicado, em fazê-lo no seu todo e não só no lado mais impressionante. É uma forma pedagógica de falar sobre assuntos delicados”.

Patrícia Câmara considera que a série quase que passa uma “perspetiva romântica” da morte, quando o suicídio é algo de negativo, especialmente para a vítima. “É preciso transmitir a ideia de que a culpa que se tenta passar aos outros dura ‘dois dias’ e depois a vida continua. Só não continua para quem morreu“.

“É uma boa narrativa para adultos que queiram pensar no assunto, mas não me parece adequada ao pensamento construtivo da importância da vida e de formas de lidar com a dor“, diz a especialista.

Fatores de risco

Os fatores de risco mais importantes para comportamentos suicidas são de natureza psicológica e social, entre os quais discriminação — bullying na escola, por exemplo — isolamento social, conflitos relacionais com a família e amigos, desemprego e pobreza, refere o Eurostat.

Nove em cada dez casos estão ligados a problemas psicológicos como a depressão e o desespero.

O consumo de álcool e drogas também estão relacionados com estes casos, sendo que cerca de um quarto dos suicídios estão ligados a abusos no consumo de álcool.

Eurostat

A verdade é que ao longo de toda a história, Hannah tem ao seu lado uma pessoa que se preocupa com ela — Clay Jensen, um dos protagonistas da série –, mas a adolescente está tão centrada na sua dor que não parece dar-se conta de mais nada à sua volta. “O máximo que se pode tirar da série é que é preciso estar atento para ver que há pessoas que gostam de nós”, considera a psicóloga.

Marta também fala na importância que uma personagem como Clay pode ter na vida daqueles que estejam a sofrer. “Esta personagem pode mostrar às pessoas que há sempre alguém que as apoia e está mesmo ali ao lado”.

Uma das mensagens que estes adolescentes retiraram da série é a importância de se estar atento a pequenos sinais de pessoas que estejam mais deprimidas. “A série mostra, por exemplo, que os pais estavam muito preocupados com a loja [o negócio da família que estava com dificuldades financeiras] e acabam por não ter tanto tempo para reparar nos sinais”, recorda Pedro.

Maria Azenha, da SOS Voz Amiga, afirma que ainda há “um grande estigma” em relação à questão do suicídio e “uma grande incultura sobre sinais e fatores de risco“. Estes sinais e fatores de risco, acrescenta, devem ser divulgados através de uma “boa campanha de sensibilização”, que deve começar a ser feita nas escolas.

Haverá luz ao fundo do túnel?

A falta de alternativas ao suicídio para as pessoas que estão em sofrimento é também apontada como outra das falhas de “Por Treze Razões”. No quarto episódio, depois de Hannah abordar a questão do suicídio através de um bilhete anónimo numa aula, quando a professora começa a falar de recursos alternativos, a sua voz dissipa-se, sobrepondo-se a voz da adolescente. Ou seja, os espectadores acabam por não ouvir quais são essas alternativas. “Seria importante que a série mostrasse que quando a dor é insuportável há outras soluções“, acrescenta Patrícia Câmara.

“Durante os episódios nunca se vê a chamada de atenção para uma saída positiva. Nunca é mencionada uma linha de ajuda”, recorda Maria Azenha. “[Teria sido importante] deixar a mensagem que a depressão é tratável e o risco de suicídio é sempre acompanhável. A série não evidencia o que a personagem poderia ter feito antes para não se suicidar”.

São estes avisos que agora surgem no documentário que acabou por ser produzido a posteriori e que já está disponível na Netflix e no Youtube. Selena Gomez, produtora executiva da série, deixa uma mensagem no final do documentário a incentivar todos aqueles que estejam a precisar de ajuda a recorrerem a um site 13reasonswahy.info, que disponibiliza vários contactos de ajuda, consoante o país do utilizador. No caso de Portugal, surgem os vários contactos da SOS Voz Amiga, o horário de funcionamento da linha de apoio (em inglês) e o site.

Tendo em conta o carácter anónimo desta linha de apoio e o pouco tempo desde a estreia da série, não é possível perceber se “Por Treze Razões” terá tido algum impacto nos contactos que têm recebido, explica Maria Azenha. Ainda assim, é factual que, comparativamente a anos anteriores, aumentou o número de pedidos de ajuda, não só na camada dos adolescentes como nos mais idosos.

"Seria também importante que a série mostrasse que quando a dor é insuportável há outras soluções."
Patrícia Câmara, psicóloga

Culpa e vingança — duas ideias perigosas

As cassetes que Hannah gravou e que deixou para os supostos “culpados” ouvirem são o centro da narrativa. Uma vez consumado o suicídio, a vítima deixa as cassetes como uma “espécie de cartas de despedida” e uma “glorificação do suicídio”, considera a ex-vice-presidente da SOS Voz Amiga. “Como se amigos fossem culpados e o herói é quem se suicidou“, acrescenta. Patrícia Câmara, por sua vez, afirma que as cassetes passam uma ideia de vingança — “quase como se a violência se tratasse com a violência”.

Sarah Hulyer, uma ativista britânica para a saúde mental, deixa esta questão no Guardian: “Será que um programa que retrata uma jovem rapariga que usa a sua própria morte para infligir dor nos outros merece mesmo ser colocada num pedestal?”

Marta sublinha o facto de as cassetes só darem a perspetiva de Hannah — que já “não está lá para garantir que é a verdade” –, mas acredita que a série mostra bem os “dois lados da história”. Isto é, também conta o lado dos acusados. Ainda assim, esta adolescente não lhes retira toda a responsabilidade: “Ela tinha-se mudado há pouco tempo para a cidade e de cada vez que começa a fazer amigos, de cada vez que se sente confortável com amigos e conhecidos, parece que as pessoas acabam sempre por desiludi-la”.

Pedro critica as cassetes, ressalvando que, por vezes, nem sequer se percebe por que motivo determinada pessoa é “culpada”. “Nem sequer sabemos se [as acusações] são verdade. Acabam por acusar determinadas pessoas e expô-las a fatores de suicídio”. É o caso do outro protagonista, Clay Jensen, que estava apaixonado por ela e cuja “culpa” é difícil (senão impossível) de compreender.

E a série não se fica apenas pelo suicídio de Hannah. No último episódio, um dos adolescentes visados nas cassetes tenta suicidar-se com um tiro na cabeça. Fica a dúvida: até que ponto as acusações de Hannah e tudo aquilo que estas cassetes geraram não contribuíram para o suicídio (ou tentativa de suicídio) de Alex?

“Responder que sim seria, no fundo, corrermos o risco de estar a fazer aquilo que Hannah aparentemente faz. Perpetuaríamos responsabilidades assentes numa lógica de causalidade linear, que nunca me parece ser o caminho a escolher quando se quer compreender o sofrimento — neste caso, o sofrimento que leva ao suicídio. Para este rapaz, talvez a cassete possa ter feito parte de uma amálgama de coisas que já traria dentro“, defende Patrícia Câmara.

Pais: acompanhar em vez de proibir

Apesar de todos os defeitos, a psicóloga não se mostra favorável à ideia de proibir o visionamento da série, sugerindo antes uma “supervisão” por parte dos adultos: “Uma série destas implica digestão, portanto seria importante ter uma conversa sobre a série e o sentido da morte, acentuando a ideia de que apesar de a Hannah querer fazer justiça, ela é que ficou sem vida, ou seja, não houve justiça nenhuma“.

Portugal com taxa mais baixa

Em 2011, nos países da UE, a Lituânia, a Letónia e a Finlândia são os países com maior taxa de mortalidade por lesões autoinfligidas voluntariamente. Já Portugal, Espanha, Grécia, Chipre e Itália são os países com a taxa mais baixa, refere o Eurostat.

Eurostat

“Não me parece que a repressão e a proibição sejam as atitudes corretas — aliás, até pode aguçar a curiosidade. É importante os pais estarem a par das questões, através de um diálogo com os adolescentes, de modo a abordar e a desconstruir estes aspetos”, acrescenta o pedopsiquiatra. Pedro Pires considera ainda que, neste tipo de questões, a prevenção é o melhor ‘antídoto’, já que “com a internet, o controlo é muito difícil”.

Exemplo disso é o facto de os avisos de que os episódios podem conter cenas consideradas chocantes só aparecerem se a série for vista na Netflix, e não se for visualizada (ilegalmente) online.

Mas até a Netflix apresenta problemas neste campo. Nos Estados Unidos, “Por Treze Razões” está rotulada como sendo para maiores de 17 anos. Em Portugal a série só não se encontra nos perfis de crianças, ou seja, para menores de 12 anos. Está disponível nas categorias “para adolescentes e mais novos” e “todas as faixas etárias”.

Suicídio: “Silêncio é igual à morte”

Apesar do amontoar de críticas, os criadores e autores da série continuam a defendê-la. Nic Sheff, um dos escritores de “Por Treze Razões”, diz ter lutado desde o primeiro dia para dar um retrato “o mais detalhado possível” desta situação dramática. “No que toca ao suicídio, acredito que a mensagem deve ser a mesma [silêncio = suicídio]. Enfrentar estes assuntos desde o início será sempre a nossa melhor defesa contra perder mais uma vida. Tenho orgulho de ter feito parte de uma série televisiva que nos obriga a ter estas conversas, porque o silêncio efetivamente é igual à morte. Temos de continuar a falar, continuar a partilhar e continuar a mostrar as realidades com as quais os adolescentes da nossa sociedade têm de lidar todos os dias. Fazer qualquer outra coisa não só seria irresponsável, como perigoso”, argumenta Nic à Vanity Fair, aproveitando para descrever a sua própria tentativa de suicídio.

No documentário , criadores, produtores e atores explicam os vários momentos série, adiantando que o objetivo das cenas mais gráficas é desencorajar os jovens a tomarem uma atitude destas. “Queríamos [deixar] muito claro que não há nada, de maneira alguma, que valha a pena no suicídio“, explicou Bryan Yorkey, criador e um dos produtores executivos da série.

Também o autor da obra aparece na linha da frente dos defensores da série. “Estamos a lidar com um assunto com o qual as pessoas se sentem muito desconfortáveis. Mas garanto que não há nada que aconteça na série, ou no livro, que não tenha já acontecido com adolescentes”, afirmou Jay Asher, numa conferência sobre a série no estado de Minnesota (EUA).

Este foi apenas um dos estados norte-americanos em que as escolas — e os pais — se mostraram alarmados com o enredo da série. Foram, aliás, várias as escolas norte-americanas e inglesas que decidiram alertar os encarregados de educação para os possíveis impactos que “Por Treze Razões” poderia ter nos adolescentes. No Canadá, uma escola enviou um email aos encarregados de educação dos alunos do sexto ano para que avisassem os filhos de que não podiam sequer mencionar a série na escola, lê-se na Variety.

Ainda assim, Patrícia Câmara destaca alguns elementos positivos: “É uma série onde acima de tudo se veicula a ideia de um mistério, o que prende as atenções. Fala nas múltiplas dificuldades da adolescência e põe em jogo a barreira entre a vida e a morte, evidenciando a dor que os desencontros e as colisões trazem”, refere a especialista.

Ao longo da série, acrescenta, é constante a “sensação de que queremos impedir a morte de Hannah”. Isso pode ajudar “a pensar no cuidado a ter com os outros e connosco”, mas também pode ajudar “a debater um tema que habitualmente se silencia”.

Uma coisa é certa. Esta é uma discussão nada consensual e parece estar longe do fim. Ainda este fim de semana foi confirmado que “Por Treze Razões” terá uma segunda temporada. Uma boa notícia para Wilmara: “Espero vivamente pela segunda temporada para sabermos o que aconteceu, se algum deles foi punido pelo mal que fez”.

Resta saber se terá em conta algumas das críticas feitas pelos especialistas e que questões irão abordar. É que se os produtores da série argumentam exatamente o oposto daqueles que os criticam, a verdade é que reconhecem os problemas. No início do primeiro episódio, surge agora um aviso que deixa um número de uma linha de apoio para todos os “espectadores ou ouvintes que foram afetados pelo conteúdo desta história”.

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