Quanto vale um livro? Nesta leiloeira há páginas aos milhares (de euros)

14 Abril 2017

A Nova Ecléctica é uma casa de leilões dedicada exclusivamente aos livros. Pela sala de licitações no Bairro Alto, passam manuscritos valiosos, capazes de satisfazer os clientes mais exigentes.

Nuno Gonçalves cresceu no meio dos livros. O pai, Alfredo Gonçalves, é há mais de duas décadas dono de uma livraria, a Nova Ecléctica, na Calçada do Combro, em Lisboa, que recebeu o nome em honra de uma outra loja de livros, há muito desaparecida. “Chama-se assim porque já havia uma Ecléctica, onde é agora o silo automóvel”, conta-nos Nuno, rodeado por estantes de livros antigos, na sala onde realiza com frequência leilões de raridades portuguesas. “Era uma coisa que fazia parte da infância dele e reconheceu isso como tal.”

A Ecléctica original, uma das mais conhecidas livrarias alfarrabistas lisboetas, ficava no número 56. Fechada a Ecléctica, nasceu em 1992 a Nova Ecléctica, seis números atrás. “Comecei a trabalhar com livros há mais de 25 anos, com o meu pai. Fez parte da minha vida e do meu crescimento”, admite Nuno. Já o pai, Alfredo, trabalha com livros desde que se lembra. Daí aos leilões, foi um tirinho.

Licenciado em História, Nuno Gonçalves sempre gostou da parte de investigação. Porque “os livros precisam sempre de ser um bocadinho investigados”. “Aliás, qualquer antiguidade. Fui sempre eu quem fez esse trabalho com o meu pai, e depois apareceu uma biblioteca para leiloar e associei-me a uma empresa leiloeira, a Silva Leiloeira, e comecei a organizar leilões.” O primeiro foi em 2003. “Depois fiz três leilões com eles e, desde 2005, tenho sido eu sozinho a organizá-los.” A Ecléctica teve então de se estender da Calçada do Combro até à Travessa André Valente, no Bairro Alto, onde funciona atualmente o salão de leilões, onde cabem cerca de 70 pessoas. “Um número já aceitável”, garante Nuno.

Sócia da Asociación Ibérica de Librerias Anticuarias e da International League of Antiquarian Booksellers, a Nova Ecléctica é, segundo Nuno, a única leiloeira em Portugal que se dedica exclusivamente aos livros. “As outras também têm livros mas esta é a única dedicada ao livro, ao papel. Enfim, a tudo o que não seja arte e esteja relacionado com o papel, em especial o livro e o manuscrito. Somos os únicos especializados no ativo.” Há 25 anos, quando Alfredo Gonçalves abriu a Nova Ecléctica, não era bem assim. “Havia para aí umas dez”, lembra Nuno Gonçalves.

Nuno Gonçalves seguiu a pisada do pai no amor pelos livros. Hoje dedica-se exclusivamente aos leilões

“Um leilão é uma coisa muito dispendiosa de se fazer, só se justifica a partir de um determinado volume. O problema é que, ao contrário de outros anos de crise em Portugal, as pessoas não quiseram transformar os objetos em dinheiro. Em 1993, por exemplo, houve uma quantidade relativamente grande de pessoas que quiseram fazê-lo. Nestes últimos anos tem sido o contrário”, explica o leiloeiro. “As pessoas percebem que as coisas têm um determinado valor que não desaparece, o dinheiro sim.”

Apesar de a crise não ter afetado diretamente o mercado leiloeiro, relativamente estável, fez com que houvesse menos material para venda. “Desse ponto de vista, é um bocadinho mais fácil ter uma livraria — não requer um investimento no material, as coisas são postas à venda e depois vendemo-las. Mas também tem um bocadinho a ver com a idade”, admite Nuno Gonçalves. À medida que a geração mais velha se foi reformando, não foi aparecendo gente nova, interessada, e capaz de pegar no negócio. “O mercado livreiro em si não é uma coisa que tenha perdido muita dinâmica. Até parece que apareceu gente nova, capaz de fazer coisas muito giras e diferentes.”

Com 42 anos, Nuno Gonçalves pode não pertencer à geração mais nova, mas diz que tem a mesma vontade. “Sou o único desta geração que agarrou esta ideia de fazer catálogos, catalogar”, admite. “Não é fácil fazer as fichas bibliográficas, é uma coisa relativamente difícil.” Mas uma coisa que lhe dá um gozo enorme. Até porque é nos catálogos que tudo começa.

Livros raros, raríssimos

Primeiro recebem-se os livros do cliente. Depois é feita a catalogação, impresso o catálogo e enviado para os possíveis compradores. O leilão acontece na sala da Travessa André Valente, no meio dos livros, mas chegou a ser no Hotel Fénix, no Marquês de Pombal. “Depois surgiu a oportunidade de vir aqui para esta sala.” Nuno faz cerca de três por ano, “porque isto leva de facto muito tempo a preparar”. O número de lotes depende do valor dos livros que estão para venda. “Vender peças de 100 mil euros é diferente de estar a vender coisas de cinco. É preciso haver volume para justificar o custo”, mas o um volume costuma ser relativamente grande.

No último leilão que fez, em novembro do ano passado, vendeu um total de 159 lotes, que surgem cuidadosamente descritos no catálogo que preparou nessa altura. Os catálogos — com a descrição dos lotes, imagens e preço base — são os meninos dos olhos de Nuno Gonçalves. “Com a catalogação sempre fui mais cuidadoso e rigoroso”, afirma, “também um bocadinho devido à minha formação académica”. “Portanto, ponho de facto algum cuidado nas fichas, na investigação que faço.” É ele quem faz tudo, desde o design ao texto, passando pelas imagens.

Apesar da importância dos catálogos, é nos leilões que tudo acontece. Nuno afirma que não são exatamente como nos filmes, mas quase. “Há uma tensão na sala, uma troca de olhares, às vezes um sinal”, explica o leiloeiro. O ambiente “aquece, “as pessoas sentem mesmo a adrenalina de estar na sala”. E às vezes a adrenalina é tanta que podem surgir alguns problemas. “Já vi nesta sala duas pessoas estarem de tal maneira picadas que uma delas voltou-se para trás. Assustei-me porque aquilo estava a começar a ficar azedo. Não houve nenhuma troca de palavras, não houve nada, mas estavam a disputar os mesmos lotes praticamente desde o início. Houve ali um problema. Havia uma tensão muito grande.”

Um leilão é também um local de rituais. “Há clientes que não fazem sinal nenhum para o pregoeiro sobre como licitar. Tive uma vez um cliente que, quando não estava a fazer e não fazia sinal nenhum, era quando estava a licitar. Era o oposto de todos os outros. Há pessoas que só licitam com a caneta, outros que não licitam com não sei quê, outros que só o fazem com o olhar.” Uns preferem sentar-se mais à esquerda, outros mais à direita, naquela cadeira ou na outra. “Enfim, há de facto um ritual que é uma coisa única. É uma experiência única.”

Ultimamente, Nuno Gonçalves tem estado a trabalhar com uma biblioteca privada, que considera uma das melhores do género de Portugal. Esta chegou-lhe às mãos em 2012, pouco tempo antes de o proprietário morrer. O primeiro leilão aconteceu ainda nesse ano. “Ele ainda não tinha falecido quando comecei a organizar a biblioteca, que é de facto extraordinária, provavelmente uma das melhores bibliotecas privadas que se reuniram até agora. Conheço mais duas ou três com um nível igual ou superior, mas não há muitas deste género. Tem coisas fantásticas. Uma delas ainda aqui tenho.”

Ao seu lado em cima da mesa, dentro de uma caixa, está escondido um manuscrito medieval português do século XIII, uma das últimas raridades que lhe foi parar às mãos. Escrito à mão em pergaminho, o exemplar inclui uma primeira parte em latim com as calendas de janeiro do calendário da Ordem de Cister. “É basicamente o calendário litúrgico, com as celebrações de cada dia. Foi feito ainda com o antigo calendário em vigor [calendário juliano] e tem uma edição da Regra de Cister. Está datado de 1212, mas tem de se recuar para se fazer o acerto. São 36 anos, por isso dá 1272.”

Na segunda parte do manuscrito, há uma tradução portuguesa, mais tardia, da Regra de Cister, datável de finais do século XV. “Aqui provavelmente alguém lhe arrancou aquilo a que chamamos uma miniatura”, diz Nuno, apontado para um quadradinho em falta numa página. “É uma letra manuscrita. Mais para a frente existe uma iluminura.”A imagem mostra um frade sentado, a escrever, rodeado por texto e por outros desenhos, também eles de frades. No final, a letras vermelhas, o autor do documento explicou o seu propósito: foi feito pelo “Frei Pedro do Mosteiro de Salamanca” em “honra do Filho de Deus e da Beata Virgem Maria para ser utilizado no Mosteiro de São João de Tarouca”, cuja fundação está ligada a D. Afonso Henriques.

"É normal aparecerem coisas fantásticas, bonitas, raras, mas como esta nunca [apareceu nenhuma]. Até porque estamos a falar de um documento muito antigo."
Nuno Gonçalves

O manuscrito é o mais antigo que Nuno Gonçalves alguma vez teve de leiloar. “É normal aparecerem coisas fantásticas, bonitas, raras, mas como esta nunca [apareceu nenhuma]”, explica. “Até porque estamos a falar de um documento muito antigo. Coisas do século XV, XVI, vão aparecendo. Desta época é um bocadinho mais difícil.”

O documento estava avaliado entre 20 mil e 30 mil euros. Foi vendido por 32 mil. Com as comissões (que correspondem a 16% do valor da arrematação), o cliente vai ter de pagar à volta de 36 mil euros. “Deste catálogo sobrou também isto”, diz Nuno, esticando o braço para pegar num outro volume, de capa castanha. “É um incunábulo português”, explica. “Os incunábulos são livros impressos no século XVI.” Este reúne as cartas que Cataldo, um dos responsáveis pela introdução do humanismo em Portugal, enviou a D. João II, a D. Manuel I e a outras figuras da nobreza portuguesa.

Cataldo, que terá nascido por volta de 1455 na Sicília, chegou a Portugal no final da década de 1480 a convite do rei D. João II para ensinar o infante D. Jorge. As cartas que trocou com nobres portugueses “são, ainda hoje, tidas como muito importantes”. “Isto foi impresso em Portugal, em 1500, e é um dos últimos incunábulos portugueses. Estamos a falar das origens da tipografia em Portugal”, salienta Nuno Gonçalves. O primeiro livro impresso em solo nacional, o Pentateuco, data de 1487, o que significa que as cartas do humanista italiano foram impressas pouco tempo depois. “É de facto um livro muito bonito mas, infelizmente, tem uma falta — a última folha é fac-similada.” Ainda assim, foi vendido por 17 mil euros, um valor muito superior ao estimado (12 mil euros).

Se as cartas de Cataldo ajudam a contar a história de Portugal, a que D. António Prior do Crato enviou a D. Diogo, não é muito diferente. Vendida por seis mil euros, também no leilão de novembro do ano passado, a missiva “é muito interessante” porque diz respeito a um período conturbado da história nacional. “Quando houve a perda de independência depois de D. Sebastião, D. António ergue-se como um dos pretendentes à coroa”, explica o leiloeiro. Filho ilegítimo do infante D. Luís, filho de D. Manuel I, António, Prior do Crato, não tinha qualquer legitimidade. Mas, ainda assim, “ergueu-se como tal”.

Contudo, as coisas não correram como previsto. O seu tio, o Cardeal D. Henrique, acabou por ser aclamado rei e António viu as suas tropas serem derrotadas na Batalha de Alcântara pelas forças espanholas de Filipe II, que pretendia ocupar o trono à força. Depois de uma série de peripécias, acabou por fugir para os Açores, onde tinha o apoio da população. Desesperado, pede ajuda à rainha de Inglaterra, Isabel I, que envia uma armada para Lisboa. Mas a sorte não estava do lado do Prior.

“Foi uma coisa completamente falhada! Tentam entrar por Lisboa mas acabam por entrar por Peniche”, conta Nuno. As tropas inglesas, lideradas por Francis Drake, “um pirata”, perdem “completamente o tempo de chegada e D. Filipe consegue rebelar a tentativa”. Esta tentativa falhada aconteceu em 1583 e será provavelmente dessa altura a carta de D. António que Nuno vendeu em novembro passado. Nessa data, o Prior do Crato já se encontrava fora de Portugal, mas continua a acreditar ser possível vir a ser o próximo rei de Portugal. E, para isso, precisava do auxílio de Isabel I.

“D. António está a pedir ajuda à rainha de Inglaterra para alguma coisa. Nós não conseguimos precisar muito bem se é para o auxílio na invasão da Terceira, na defesa da Terceira ou se é já para depois de Peniche. Ele fala num conjunto de detalhes, em várias pessoas, inclusivamente no filho.” Apesar do tempo que Nuno Gonçalves dispensa com cada catálogo, o leiloeiro admite que não se pode “fazer crítica histórica”. “O trabalho que estamos a fazer aqui é comercial.” Por esse motivo, as informações que disponibiliza aos possíveis compradores são, de um modo geral, superficiais.

“Às vezes são mais aprofundadas, como no caso desta, mas nunca é com garantias”, admite. “Não pode ser, neste tipo de coisas. Isto requeria uma crítica muito mais séria que nós, obviamente, não temos tempo para fazer. Não podemos fazer, mas fazemos o melhor possível. Quando não temos certezas absolutas, levantamos hipóteses de trabalho e depois quem fica com o objeto que faça esse trabalho.”

Alfredo Gonçalves abriu a livraria Nova Ecléctica em 1992. Os livros são uma presença constante desde que se lembra que existe

“As pessoas colecionam de tudo. Disso não há a mínima duvida!”

O manuscrito do Mosteiro de São João de Tarouca e as Epistole et Orationes de Cataldo Sículo (ou Parísio) são apenas duas das muitas coisas “fantásticas” que já passaram pelas mãos de Nuno Gonçalves. Mas não são as mais curiosas. Com mais de 20 anos de trabalho no mundo dos livros e mais de dez nos leilões, Nuno já viu um pouco de tudo. E tem uma certeza: há colecionadores de todos os tipos.

A primeira biblioteca que Nuno leiloou, em 2003, pertencia a um arquiteto que, durante anos a fio, colecionou livros de arte portuguesa. Um deles ficou para sempre na memória do leiloeiro. “Tinha uma biblioteca extraordinária de arte portuguesa e tinha um livrinho, muito bonito, que se chamava A Arte de Voar. Era uma coisa do último quartel do século XIX sobre asa delta, com três ilustrações, salvo erro.” Foi nessa mesma biblioteca que Nuno Gonçalves encontrou uma das primeiras obras editadas em Portugal sobre bilhar. “Se não mesmo a primeira!” Com ilustrações a cores e explicações das jogadas, efeitos, regras e técnicas de jogo.

Obras como estas são a prova viva de que as pessoas colecionam de tudo: “Disso não há a mínima dúvida!”. Até gramáticas de árabe. Num dos leilões que fez recentemente, Nuno Gonçalves vendeu um exemplar da primeira gramática árabe impressa, de Pedro de Alcalá, a um colecionador que tem “todas as gramáticas ocidentais de língua arábica”. “Faltava-lhe esta.” Impressa 13 anos depois da tomada de Granada, o último território a ser conquistado aos árabes em Espanha, a obra, que desempenhou um papel importante na conversão dos muçulmanos naquela região, é extremamente rara e “muito bonita”. Foi vendida por 42 mil euros, mais de 20 mil euros acima do estimado pela Ecléctica.

Quando lhe perguntamos se se lembra de mais algum livro curioso com que se tenha deparado ao longo dos anos, Nuno começa a folhear os antigos catálogos da leiloeira. “Isto é muito difícil de escolher!”, acaba por admitir. Mas vender as obras nem tanto. Apesar do amor que tem aos livros, afirma que é preciso ceder à tentação e “separar um bocadinho as coisas”.

“Havia coisas que poderia ter, mas não tenho mesmo coleção à exceção das bibliografias, que são os meus objetos de trabalho”, entre as quais se inclui uma lista de todos os livros de autores portugueses impressos até ao século XVIII, reunida por Barbosa Machado. “De resto, tenho-me inibido bastante de querer fazer uma coleção porque precisamos mesmo de não criar relações com os livros porque, às vezes, podem tornar-se filhos.” Mas isso não significa que, volte e meia, diga para si próprio: “Ihhhhh, caramba! Gostava muito de ter este!”.

"Tenho-me inibido bastante de querer fazer uma coleção porque precisamos mesmo de não criar relações com os livros porque, às vezes, podem tornar-se filhos."
Nuno Gonçalves

Comprar livros em leilões? “Não é assim tão inacessível”

Os preços praticados pelas leiloeiras em Portugal não são tão elevados quanto se possa pensar (lá fora os preços praticados são outros), mas nem toda a gente está disposta (ou pode) pagar mais de 30 mil euros por um manuscrito. Mas isso não significa que todos os livros que são leiloados tenham esse preço — há um pouco de tudo, do mais barato ao mais caro. “Trabalhamos com tudo”, admite Nuno Gonçalves, dando como exemplo a biblioteca privada que tem vindo a leiloar nos últimos anos. “Esta biblioteca tem coisas de cinco até aos cento e tal mil euros.”

Apesar disso, o leiloeiro tem consciência de que “às vezes as pessoas têm um bocadinho a ideia de que” os leilões são “um meio muito fechado”. “Não é assim tanto. E mais: não é uma coisa assim tão inacessível”, afirma. “Uma grande parte das coisas são relativamente acessíveis e hoje consegue-se formar uma coleção por sete, oito mil euros. Não se pode querer ter tudo do Fernando Pessoa em primeiras edições, por exemplo, porque estamos a falar de alguns valores já relativamente altos, mas é possível fazer uma Pessoana interessante com quatro mil euros. Ao longo da vida! Não é quatro mil euros a gastar agora — é ao longo da vida.”

Para Nuno Gonçalves o que é preciso é “adaptar o nosso gosto e a nossa carteira ao tipo de coleção que fazemos”. “Aqui temos todo o tipo de clientes. Não temos só clientes que são capazes de gastar isto [um valor elevado] por um objeto. Também temos clientes que só têm capacidade para gastar 200 ou 300 euros num leilão. Gente normal, de classe média, com um emprego normalíssimo.”

"Não temos só clientes que são capazes de gastar isto por um objeto. Também temos clientes que só têm capacidade para gastar 200 ou 300 euros num leilão. Gente normal, de classe médica, com um emprego normalíssimo."
Nuno Gonçalves

De um modo geral, são pessoas mais velhas que frequentam os leilões. Por uma razão óbvia: é que, apesar de haver preços para todos os gostos, é preciso ter alguma estabilidade financeira. “E depois também é preciso que já se tenha feito um caminho, um percurso.” Um caminho que demora cada vez menos tempo a traçar. “A gente mais nova é que é mais instruída do que a minha geração. Isto significa que adquiriram muito cedo um conjunto de valências que lhes permite chegar aqui com mais facilidade e perceber que há coisas às quais não se tem acesso a não ser aqui. E quando digo aqui, digo no mercado, livreiros, antiquários e leilões.”

Nos últimos anos, o mundo dos leilões tem recebido cada vez mais jovens, entre os 20 e os 30 anos. Em junho de 2016, Nuno Gonçalves leiloou na Nova Eclécticta a biblioteca particular de René Souto, uma das mais importantes dedicadas ao Surrealismo em Portugal. Foram mais de mil lotes, de preços variados, com as obras fundamentais do Surrealismo português e ainda algumas curiosidades, como uma edição de A Ampola Miraculosa, de 1949, com uma tradução manuscrita, à margem, feita pelo próprio Alexandre O’Neill. Ao contrário do que se podia esperar, muitos clientes tinham até 30 anos. “O que é uma coisa rara”, garante Nuno. “Há uma geração mais nova, e isso tem reflexos no gosto.”

A livraria da Nova Ecléctica fica na Calçada do Combro e tem livros amontoados até ao teto. A sala de leilões fica Travessa André Valente, no Bairro Alto

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.” A frase é de Camões e aplica-se a quase tudo. Até aos leilões. “Faço leilões há 14 anos e posso dizer-lhe que as coisas que interessam hoje são muito diferente das coisas que interessavam na altura”, garante Nuno Gonçalves. É que, quando se começou a aventurar no mundo dos leilões, os interesses eram outros — na altura, os livros de arte eram os mais procurados, era difícil encontrar publicações mais recentes sobre o tema. Hoje é a literatura contemporânea que está na moda. “Deu um salto muito grande nestes últimos 15 anos. E mais do que isso: mais do que pessoas mais velhas, clientes do costume, aparece muita gente nova a comprar literatura contemporânea.”

Claro que colecionar livros contemporâneos tem outro risco. “Sei que o Eça de Queirós é um autor importante, sei que Camilo Pessanha é um autor importante, mas não sei qual vai ser a importância do Gonçalo M. Tavares daqui a dez, 20 ou 100 anos. E, portanto, desse ponto de vista, tem um risco maior associado.” Contudo, para quem coleciona este tipo de livros, faz sentido ter na sua coleção as obras de Gonçalo M. Tavares, que tem cada vez mais procura.

"Acho que as pessoas são muito mais colecionadoras do que o que eram há uns anos. Estão muito mais conscientes desse papel e, portanto, é muito mais difícil vender a mesma coisa."
Nuno Gonçalves

“Se eu sou colecionador de primeiras edições de literatura portuguesa do século XX, se me interesso por isso, naturalmente que vou começar a procurar os autores novos. Vou ter essa preocupação — eles hoje são novos mas amanhã já não vão ser”, disse em jeito de brincadeira. “Vão ser velhos não só sentido da idade, mas até mais no sentido do peso que têm para a literatura. Estas primeiras edições existem porque alguém as conservou, porque alguém percebeu que existia ali alguma coisa de importante, de interessante. Senão os livros não estariam cá. O mesmo se passa hoje.”

Além disto, houve outra coisa que mudou no mercado de leilões em Portugal — a capacidade de valorização. “O que o mercado valoriza hoje é muito diferente. E as pessoas são muito mais colecionadoras do que o que eram há uns anos. Estão muito mais conscientes desse papel, é muito mais difícil vender a mesma coisa. É preciso que a pessoa queira mesmo.”

Para Nuno Gonçalves, ter nas mãos um livro raro é uma experiência única

Mas, independentemente do dinheiro que podem gastar e do motivo que os leva aos leilões, todos compradores têm uma coisa em comum — o amor ao livro. “O objeto é uma coisa única. Sentir, tocar, viver, ter na mão uma primeira edição dos Lusíadas, por exemplo, é uma coisa única. Ou a primeira edição da Mensagem. Enfim, livros charneira.”

“Deparamo-nos com as coisas mais vulgares e mais mundanas, mas depois também nos deparamos com um folheto que fala do que é ser mulher no século XIX. O que é ser uma excelente dona de casa e o que é que isso implica, com todos os anacronismos que conhecemos e que, felizmente, superámos. Mas depois, reparamos em alguns pormenores através dos quais se percebe que já existe ali a semente de qualquer coisa. Quem escreveu aquilo, já percebia a dignidade da mulher. Ou seja: sentimos um bocadinho este pulsar da História, o desabrochar de pequenas ideias que hoje são tidas como normais e adquiridas e que nem sequer questionamos. E depois há estas “coisas muito especiais”, como o manuscrito do Mosteiro de São João de Tarouca ou a gramática árabe de Pedro de Alcalá.

Nuno di-lo com um sorriso rasgado. É que são mesmo “muitoooo especiais”. E isso vale por tudo.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Fábio Pinto e Henrique Casinhas.
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