Saltar de curso em curso em busca da verdadeira vocação

20 Julho 2016493

Na véspera da divulgação das vagas no ensino superior, todos os alunos deviam conhecer Jorge, Sebastião, Pedro e José. Os quatro entraram num curso e a meio decidiram mudar. Hoje estão felizes.

Desde pequeno que gostava de meter as mãos na massa, literalmente — mas nunca lhe passou pela cabeça ser cozinheiro. O pai tinha uma empresa de informática e Jorge Alves, sempre rodeado de computadores (numa altura em que poucos tinham esse privilégio), achava que aquela era a sua vocação. No final do 12.º ano foi fácil decidir: Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, no Instituto Superior Técnico. Mas ao fim de um ano já estava a saltar fora.

“Comecei a perceber que aquelas matemáticas não eram para mim. Não tinha grande aptidão para estudar tanto quanto era necessário”, explica ao Observador. Do Técnico mudou para Engenharia de Telecomunicações e Informática, no ISCTE. E três anos depois atingiu “um momento de rutura”. “Senti que estava ali a perder tempo, o meu pai já não tinha a empresa e apercebi-me que a carreira de engenheiro informático não seria como eu pensava.”

Jorge Alves, agora com 35 anos, não queria perder mais tempo. Começou a delinear uma estratégia tendo em conta três objetivos, que no fundo se resumiam a um: “Ter um trabalho garantido, que me interessasse e que me permitisse viajar.” E foi nessa altura que voltou a piscar o olho aos tachos e às panelas. Inscreveu-se num curso técnico-profissional, de três anos, na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, que lhe viria a carimbar o passaporte para Angola, onde está há mais de cinco anos como chef de cozinha no restaurante Chill Out, na Ilha de Luanda.

"Cheguei a um momento de rutura. Senti que estava ali a perder tempo, o meu pai já não tinha a empresa e apercebi-me que a carreira de engenheiro informático não seria como eu pensava."
Jorge Alves, 35 anos

Curiosamente, esta oportunidade em Luanda só surgiu graças a uns antigos colegas do ISCTE que estavam a fazer consultoria em Angola e, ao saberem da vaga naquele restaurante, recomendaram o nome do ex-companheiro de curso. Nessa altura já Jorge tinha passado pela cozinha do Casino Lisboa, trabalhado num restaurante com uma estrela Michelin em Barcelona, noutro em Menorca e no Altis de Belém.

“Não me arrependo nada de ter vindo para cozinha, menos quando as coisas não correm bem, mas isso é como em tudo [risos]. E também não me arrependo de ter entrado para a universidade, nem para o curso que entrei. Aprendi muito e abriu-me muitos horizontes”, garante o cozinheiro, natural de Torres Vedras, sem deixar contudo de frisar que “em cozinha o mais importante não é ter um canudo”. “Dão valor ao currículo e às pessoas com quem se trabalhou.”

Sebastião sonhou com cuecas e deu asas à criatividade

E se Jorge, ao menos, estava (aparentemente) certo da sua vocação quando chegou ao fim do ensino secundário, do mesmo não se pôde valer Sebastião Teixeira. Quando começou a “focar os interesses”, já estava na área errada. “Ainda no secundário comecei a gostar de arquitetura, mas não estava em artes, tinha escolhido ciências. Na sucessão do erro, acabei por escolher Engenharia Civil na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Nova de Lisboa.”

Ao terceiro ano de curso “começou a ser um martírio, porque era tudo muito específico, e não aguentei”, recorda Sebastião. Com 22 anos foi fazer o exame nacional de geometria descritiva e os 19 valores que conseguiu permitiram-lhe entrar para a Faculdade de Belas Artes, em Design de Equipamento.

seb observador

Sebastião Teixeira em Hong Kong, este ano, durante a viagem de promoção por Hong Kong, Xangai, Seul e Tóquio

“No fundo, fui experimentando os cursos. Fui a engenharia aprender algumas coisas de matemática e física, que depois utilizei no curso de Design de Equipamento”, graceja.

E o curso até nem estava a correr mal, acontece que Sebastião começou a ficar sem tempo porque os pequenos trabalhos de design gráfico para amigos, que vinha fazendo já desde a altura do primeiro curso, começaram a dar lugar a trabalhos maiores: para a Nike, para a Câmara de Lisboa, entre outros pedidos. Decidiu então interromper o curso, já lá vão 10 anos, para se dedicar ao design gráfico.

Até que, uma certa noite, teve um sonho. “Sonhei com umas cuecas inspiradas em jogos de computador, mostrei a ideia a uma amiga, fizemos um protótipo e lançámos uma campanha de crowdfunding nos Estados Unidos que correu super bem.” Nasceram aí as pixel panties e, no ano passado, a dupla abriu uma loja online que, para já, vende só as cuecas e os soutiens. “Em janeiro deste ano apresentámos a coleção, já com mais peças de vestuário, numa feira em Paris. E a ideia é crescer”, resume ao Observador.

Olhando para trás, o criador das pixel panties diz que “não teria ido para a faculdade e teria feito cursos mais curtos”. Mais: “Se tivesse ido para a faculdade nunca teria cometido o erro de ir para engenharia”.

Do Direito, à força, para o Jornalismo, por opção

Pedro Pereira é daqueles que ainda hoje, com 25 anos, não tem bem a certeza do que quer fazer da vida. Na transição do 9.º para o 12.º ano, optou pela área de humanidades — e não podia ter corrido melhor. Teve 20 no exame nacional de português. O problema foi quando se aproximou o momento da candidatura ao ensino superior. “Honestamente, fui na conversa de que o Direito serve para tudo. Os meus pais, os dois advogados, acabaram, naquela altura, por influenciar a minha escolha. Fiquei com a ideia de que era uma área próxima das pessoas. E esse foi o maior choque que senti quando entrei no curso. É que Direito não tem nada a ver com pessoas”, desabafa.

Foram quatro anos de braço-de-ferro, sobretudo com o pai. “Não me sentia feliz. Foi uma luta constante com os meus pais porque eles não queriam que eu mudasse, e muito menos que fosse para jornalismo. Diziam que se tirasse o curso de Direito conseguiria ser jornalista na mesma. Mas para mim o sacrifício já estava a ser imenso e não conseguia continuar.”

Em 2008, no quarto ano do curso, mudou para Jornalismo, também na Universidade Católica. Soube a alívio, mas esteve longe de ser fácil. “Pensei que estava a deitar quatro anos ao lixo, mas cheguei a um momento em que os benefícios de sair eram mais elevados do que de permanecer no curso. Eu até já tinha ataques de pânico sempre que ia a oral.”

"Pensei que estava a deitar quatro anos ao lixo, mas cheguei a um momento em que os benefícios de sair eram mais elevados do que os de permanecer no curso. Eu até já tinha ataques de pânico sempre que ia a oral."
Pedro Pereira, 25 anos

O curso de Jornalismo encheu-lhe as medidas, mas, como não conseguiu trabalho na área, decidiu que iria avançar para o mestrado em Cinema e Televisão. “Assim fico tipo canivete suíço”. Mais uma opção com que o pai não concordou e por isso Pedro teve de começar a trabalhar como administrativo numa empresa para pagar essa formação, que fará em regime pós-laboral.

“Foi toda esta experiência e estes desafios que me deram maturidade suficiente para fazer um novo curso, mesmo com a pressão de ser o mais velho e de não poder falhar. Já sabia o que não queria e agora ainda sei melhor o que não quero e aquilo em que sou bom. Acho que foi um processo de ensinamento. Mas bastariam um ou dois anos, escusava de ter feito quatro”, conclui o estudante, que deixa um conselho aos jovens que agora estão a decidir que opções irão colocar no boletim de candidatura: “Nunca vejam o primeiro ano da faculdade como uma aposta permanente. Não significa que seja isso que vão fazer para o resto da vida.”

Da engenharia mecânica para a música, o percurso do trovador José Grossinho

José Grossinho também nunca foi daqueles miúdos que sonha um dia ser astronauta. Na verdade, “nunca soube bem o que queria ser”, confessa, sendo que desde cedo — logo aos 11 — começou a tocar guitarra e a gostar de música.

Mas com pai engenheiro, mãe professora de matemática e dois irmãos mais velhos a estudarem engenharia estava “quase que predefinido, embora não tivesse sido imposto, que teria de ir para a universidade”. A hipótese da música nem nunca a colocou porque sabia que “nunca seria muito bem vista pela família”. E como era muito bom a física e a matemática e até gostava de carros, escolheu Engenharia Mecânica, na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa.

E entrou. Ou será melhor dizer que entrou para a tuna? “Naquele grupo havia um grande gosto por fazer boa música e muito bons músicos amadores e eu comecei a dedicar-me bastante àquilo.” Chegou mesmo a ir tocar regularmente em vários pontos do país. José dedicou-se tanto à música que o curso de Engenharia foi-se fazendo. Ao fim de quatro anos só tinha feito seis cadeiras.

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José Grossinho, durante uma serenata, na rua

Decidiu que não ia adiar mais. “Foi difícil”, admite, mas teve de dizer aos pais que queria desistir. A alternativa não podia ser outra se não a música. Em setembro de 2001 entrou no curso de Ciências Musicais, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da UNL. No quinto ano já só andava a terminar algumas cadeiras ao mesmo tempo que trabalhava num estúdio de gravação e dava aulas de música. Seguiu-se um mestrado em Acústica e Tecnologias da Música, em Edimburgo, na Escócia, para o qual lhe deu jeito os “conhecimentos em física e matemática”.

De regresso a Portugal, em 2007, voltou a trabalhar na área da música e, atualmente, além de dar aulas de guitarra, está envolvido em vários projetos, inclusive num projeto que iniciou com a namorada: o Cant’Amor, que é um serviço de serenatas. José Grossinho é o trovador principal.

"Em todos os sítios por onde passei aprendi imenso. Em engenharia mecânica aprendi muito pouco de mecânica, mas aprendi outras coisas que me serviram para mais tarde, até para o mestrado. E hoje em dia estou contentíssimo!"
José Grossinho, 36 anos

Quando lhe perguntam se se arrepende de algo no seu percurso académico, José, agora com 36 anos, responde que não. “Até porque em todos os sítios por onde passei aprendi imenso. Em engenharia mecânica aprendi muito pouco de mecânica, mas aprendi outras coisas que me serviram para mais tarde, até para o mestrado. E hoje em dia estou contentíssimo!”

“Há jovens que só experimentando é que percebem o que gostam ou não gostam”

Jorge, Sebastião, Pedro e José são apenas quatro de muitos milhares de estudantes que alteram as suas escolhas já a meio do caminho. Em 2014, 18,9% dos alunos que se tinham matriculado num curso do ensino superior no ano anterior já não estavam nesse curso: 9,8% (4.322 alunos) tinham, pura e simplesmente, saído do sistema de ensino superior — ou porque decidiram tirar cursos mais profissionalizantes, ou por motivos económicos, ou porque emigraram; 4,4% (1.956 alunos) frequentavam o mesmo estabelecimento de ensino mas outro curso e 4,7% (2.075 alunos) tinham mudado de curso e instituição, segundo os dados disponibilizados pela Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. Olhando para os dados mais refinados, é possível verificar que em 32 cursos — considerando ensino público e privado — mais de 50% dos alunos já não estavam matriculados naqueles cursos um ano depois.

E estes desvios no percurso não estão colados a um “aluno-tipo”, garante a psicóloga Joana Magueijo. Ou seja, não estão associados apenas a pessoas com más notas, que não conseguiram entrar no curso que desejavam e que depois mudam a certa altura do campeonato. Estamos a falar de tudo um pouco: dos bons alunos aos menos bons, dos que estão completamente perdidos aos que até estão até convencidos da sua escolha, dos mais aos menos maduros.

O importante é que estes jovens não desperdicem capacidades. E por isso é tão aconselhável que eles busquem este autoconhecimento mesmo antes do 12.º ano. Que percebam pelo que é que sentem interesse, onde é que se sentem mais confortáveis e satisfeitos, que procurem conhecer bem as cadeiras dos cursos e as saídas profissionais, no sentido de evitar frustrações e tantas dúvidas na hora da escolha”, aconselha a psicóloga Joana Magueijo, da clínica Bioplus.

"É preciso retirar-lhes algum peso e pressão de cima porque há sempre oportunidade de adequar o percurso." 
Joana Magueijo, psicóloga com formação em aconselhamento vocacional

“Agora, é preciso retirar-lhes algum peso e pressão de cima porque há sempre oportunidade de adequar o percurso”, remata. Joana Magueijo frisa que quando um aluno desiste de um curso e muda para outro, “não pode ver isso como uma perda de tempo. Deve antes pensar que foi um momento de aprendizagem”. “Há pessoas que só experimentando é que percebem o que gostam ou não gostam.”

A psicóloga fecha a conversa com um último conselho: “Além da escola, vão participando em atividades e ponham-se à prova, desde cedo, porque isso vai ajudar a chegar ao 12.º ano com muito mais certezas”.

Na madrugada de terça para quarta-feira, à meia-noite, o Observador publica a lista completa de vagas no ensino superior. Confira todos os dados no site.

Texto de Marlene Carriço, ilustração de Milton Cappelletti.
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