Tarjas, cânticos, very light e desvio de jogadores: esta é a história de uma rivalidade sem fim

20 Abril 2017

Já aumentaram a rivalidade com o desvio de jogadores, já mostraram o outro lado com a cedência dos seus campos. Sporting e Benfica, os adversários centenários, estão de relações cortadas desde 2015.

De onde vem o último corte de relações entre Sporting e Benfica? De um fim-de-semana onde houve dérbi de futsal na Luz, onde foram entoados cânticos do adepto que foi morto no Jamor em 1996 e, em resposta, de Eusébio. Não, não foi este fim-de-semana que passou, mas sim a 7 de fevereiro de 2015. Houve mais algumas coisas que levaram a essa tomada de posição, mas tudo começou no pavilhão. E ainda agora se mantém: esta semana, o Conselho de Disciplina abriu um inquérito por uma queixa do Sporting por causa do alegado apoio do Benfica às claques não legalizadas e, ao mesmo tempo, desconfia que o rival poderá estar por trás da queixa que Leixões e Freamunde apresentaram sobre a alegada utilização irregular de jogadores do Sporting na sua equipa B.

8 de fevereiro de 2015. 24 de maio de 2015. 6 e 7 de junho de 2015. 13 e 14 de junho de 2015. 9 de agosto de 2015. 27 de setembro de 2015. 17 de outubro de 2015. 21 de outubro de 2015. 25 de outubro de 2015. 14 de novembro de 2015. 21 de novembro de 2015. 6 de fevereiro de 2016. 13 de fevereiro de 2016. 5 de março de 2016. 19 de março de 2016. 3 de abril de 2016. 12 e 13 de junho de 2016. 18 de junho de 2016. 19 e 20 de junho de 2016. 16 de novembro de 2016. 3 de dezembro de 2016. 28 de janeiro de 2017. 15 de abril de 2017. Todas estas datas tiveram dérbis daí para cá.

Entre futebol, futsal, andebol e hóquei em patins, as modalidades que conseguem encher estádios e pavilhões em dia de dérbi, houve sempre qualquer coisa. Um cântico sobre o adepto morto no Jamor, uma cantiga contra Eusébio, um assobio a imitar um very light. Quem disser o contrário, está a faltar à verdade ou revela desconhecimento. Por isso é que facilmente se percebeu que havia algo mais por trás, neste caso outra batalha – a guerra em torno das claques, este ano bem mais em voga do que em épocas anteriores.

O Sporting quer que se investigue ou dê seguimento à ideia de que o Benfica apoia as suas claques, que não estão legalizadas (o que leva a sanções, a mais pesada das quais a interdição do estádio); o Benfica quer provar que não tem claques oficiais porque não fazem qualquer sentido, devendo tratar-se todos os associados por igual sem exceções. Ao mesmo tempo, o Benfica mostra que, apesar de condenar qualquer cântico ofensivo, todos fazem o mesmo; já o Sporting destaca que, apesar de condenar qualquer cântico ofensivo, não se pode comparar as duas coisas na mesma proporção. Medidas ou formas práticas de erradicar de vez esta parte triste do espetáculo? Zero.

O fim-de-semana que levou ao último corte de relações

As relações entre Sporting e Benfica não eram as melhores, praticamente nem existiam, desde o incêndio no estádio da Luz que provocou muitos estragos no setor dos adeptos visitantes em novembro de 2011. Ainda assim, e apesar do distanciamento, havia uma tentativa mútua de pelo menos não aumentar em escala as divergências. Tanto é que, no início da temporada 2013/14, quando uma carrinha de apoio do futebol dos encarnados foi atacada por adeptos leoninos em Alvalade, o Sporting condenou o ato. Havia então uma espécie de “guerra fria” entre rivais, até porque o principal foco de atenção verde e branca era mesmo o FC Porto, com quem cortara relações em junho de 2013.

Dérbi de futsal a 7 de fevereiro de 2015: começou aqui a guerra que levou ao corte de relações institucionais entre os dois clubes

No entanto, o fim-de-semana de 7 e 8 de fevereiro de 2015 veio alterar tudo e teve como epílogo o corte de relações institucionais entre ambos, promovido novamente pelos leões tal como acontecera com os azuis e brancos. Tudo começou no dérbi de futsal, ao início da tarde de sábado: no local onde se concentravam as claques do Benfica, atrás de uma das balizas, foi levantada uma tarja que dizia “Very Light 96”, numa alusão a Rui Mendes, adepto que morreu no Jamor nessa final da Taça de Portugal vítima de um artefacto pirotécnico. A atitude apanhou a todos de surpresa e, passados uns minutos, os responsáveis de segurança dialogaram com os adeptos, que a deixaram cair. Seguiram-se cânticos iguais aos que ouvimos agora este fim-de-semana, de ambos os lados.

No dia seguinte, à noite, o dérbi teve mais focos de violência, nomeadamente o arremesso de um artefacto pirotécnico aceso da bancada onde estavam os adeptos do Benfica para o topo Norte do estádio José Alvalade. O Sporting, através do presidente, Bruno de Carvalho, pediu punições severas e João Gabriel, na altura diretor de comunicação dos encarnados, comentou que “tinha acabado o blackout [n.d.r. os leões tiveram um período sem falar à comunicação social, algo que terminou por essa altura]” e começado o folclore”. Foi a gota de água que fez transbordar o copo.

Para o Sporting, o Benfica “disse tudo” ao não apresentar desculpas pelo sucedido no pavilhão da Luz e em Alvalade, argumentando ainda que estariam vários dirigentes no dérbi de futsal que viram o que se passou de forma impávida; para os encarnados, houve a garantia de que, mal a tarja surgiu, a mesma só não foi retirada porque as autoridades entenderam que seria ainda mais problemático em termos de segurança, além de acusarem o clube verde e branco de não ter ainda pedido desculpa pelo incêndio de 2011 e por haver uma tarja nas claques do clube fazendo alusão a Eusébio em Alvalade.

Daí para cá é o que se sabe: à exceção de pontos muito específicos, como as reuniões de preparação de jogos com a polícia e que contam com o Oficial de Ligação aos Adeptos de cada clube, e os encontros na Federação ou na Liga sobre matérias que tenham a ver com o modelo de negócio e de gestão do futebol, as relações não existem. E são queixas atrás de queixas a cada semana que passa, que já originaram até alguns castigos.

Apresentar queixas? Essa história já tem mais de 100 anos…

Agora, a questão curiosa: sabia que as queixas de ambos já têm mais de 100 anos? Em 1908, por causa de um pontapé de baliza marcado de forma inadvertida com dois toques e transformado pelo árbitro inglês do dérbi em grande penalidade (as regras eram omissas em Portugal em relação a esses lances, mas o árbitro argumentou junto dos jogadores que era assim no seu país), o Sporting protestou um jogo, o Benfica até deu razão às queixas, mas como nada se alterou nem o encontro foi repetido, os leões saíram do Campeonato.

Dez anos depois, os papéis inverteram-se: o Benfica tinha apresentado queixa por causa de um golo mal anulado contra o V. Setúbal mas não houve provimento e, depois dos oito jogos do Campeonato de Lisboa, houve necessidade de se jogar uma finalíssima a duas mãos. O Sporting tinha ganho a primeira mão e venceu também na segunda, mas o jogo ficou marcado pela forte polémica, com três expulsões e agressões no final entre os jogadores do Sporting e adeptos do Benfica. Os encarnados protestaram aí porque Jusa teria recebido ordem de expulsão mas ficara em campo. A queixa não teve provimento.

Também conseguimos ver alguns exemplos de encher de orgulho qualquer um dos clubes: em 1923, numa altura em que o proprietário dos terrenos onde o Sporting jogava moveu uma ação de despejo que fez com que os leões deixassem de ter campo para jogar, o Benfica cedeu o seu ao rival enquanto o litígio não foi resolvido; em 1937, quando o Sporting arrendou o Stadium de Lisboa, cedeu as instalações do Campo Grande ao Benfica por sugestão do ministro Duarte Pacheco Pereira.

Ainda assim, e vasculhando bem na história desta rivalidade, também conseguimos ver alguns exemplos de encher de orgulho qualquer um dos clubes: em 1923, numa altura em que o proprietário dos terrenos onde o Sporting jogava moveu uma ação de despejo que fez com que os leões deixassem de ter campo para jogar, o Benfica cedeu-o ao seu ao rival enquanto o litígio não foi resolvido; em 1937, quando o Sporting arrendou o Stadium de Lisboa, cedeu as instalações do Campo Grande ao Benfica por sugestão do ministro Duarte Pacheco Pereira. E por falar em estádios, convém não esquecer que, na antecâmara da apresentação da candidatura ao Europeu de 2004, esteve em cima da mesa durante algum tempo a hipótese de passar a haver um recinto municipal partilhado.

De quando em vez, as relações podiam não ser as melhores, mas nem por isso deixavam de promover atividades em conjunto. Exemplo paradigmático: desde a transferência de Eusébio para o Benfica que os rivais de Lisboa nunca tiveram uma boa ligação – algo que foi quebrado em 1974, com ajuda “política”, quando os presidentes João Rocha e Borges Coutinho selaram as pazes com um aperto de mão na final da Taça de Portugal, no Jamor – mas nem por isso deixaram de fazer digressões conjuntas, como aconteceu em 1969 a Moçambique e Angola e em 1972, aos Estados Unidos. Pelo meio, ainda houve a célebre Taça do Emigrante, em Paris.

Antigamente, os futebolistas; agora, tudo e mais alguma coisa

Carrillo foi contratado pelo Sporting como jovem esperança peruana em 2011...

Carrillo foi o último jogador a trocar diretamente um rival por outro (neste caso, foi do Sporting para o Benfica), mas se é verdade que entre as décadas de 70 e 90 isso afetava as relações entre clubes – como aconteceu com Artur Correia, Laranjeira, Eurico, Botelho ou Fidalgo e, mais tarde, no Verão Quente de 1993, com Paulo Sousa e Pacheco –, hoje as coisas são diferentes e não é isso que belisca algo que já está mal.

... mas não deu ouvidos à proposta de renovação e assinou pelo Benfica em 2016

Desde que Luís Filipe Vieira assumiu a presidência do Benfica, já se cruzou com cinco presidentes do Sporting: Dias da Cunha, Filipe Soares Franco, José Eduardo Bettencourt, Godinho Lopes e Bruno de Carvalho. E se, com os quatro primeiros, conseguiu manter uma relação suficientemente aberta entre (muitos) arrufos e farpas ao ponto de serem organizados almoços e jantares em prol do desenvolvimento do futebol português, as coisas mudaram com o atual líder verde e branco. E ainda hoje continuam más, sem perspetivas sequer de melhorarem.

Das famosas cartilhas à questão das claques não legalizadas, mais recentemente, ao caso dos “vouchers” e às cartolinas e moedas arremessadas no último dérbi na Luz, nada tem passado ao lado da mira de Bruno de Carvalho contra o Benfica. Nem mesmo os seis milhões de adeptos encarnados em Portugal, que diz serem só 4,5 milhões.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: broseiro@observador.pt

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site