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Teresa Leal Coelho: “A assiduidade não é bitola da qualidade de um vereador”

30 Março 20172.139

Teresa Leal Coelho, candidata do PSD a Lisboa, desvaloriza as suas 91 faltas às reuniões de câmara. Quer o IMI a 0% na capital e diz não estar fragilizada no partido. Leia a sua primeira entrevista.

Teresa Leal Coelho não considera “que a assiduidade seja a bitola da qualidade do trabalho desempenhado pelos vereadores”, numa forma de justificar as suas faltas às reuniões de câmara em Lisboa. Na sua primeira entrevista como candidata do PSD ao município da capital, justifica ao Observador que os vereadores fazem trabalho que vai muito além das reuniões de câmara. A vice-presidente do PSD, escolha pessoal de Pedro Passos Coelho para o principal concelho do País, diz ter aplaudido inicialmente a hipótese Pedro Santana Lopes, e assume que “um resultado aceitável é ganhar as eleições”. Mas, se perder, Passos deve ser poupado.

Numa entrevista que foi emitida em direto esta quinta-feira de manhã no site do Observador e através do Facebook, incluindo perguntas de leitores — agora reproduzida por escrito –, Teresa Leal Coelho revelou promessas eleitorais como o IMI a 0%, a concessão da Carris a privados mesmo estando municipalizada e a abolição do imposto municipal de proteção civil. Apesar das críticas a Fernando Medina e apesar de dizer que Assunção Cristas não é sua adversária, a social-democrata reconhece que “Lisboa está mais bonita”.

“Um resultado aceitável é ganhar as eleições”

Esta foi uma candidatura muito polémica antes sequer de o ser. Mas na primeira intervenção como candidata disse que daqui a seis meses seria presidente da Câmara de Lisboa. Tendo em conta as circunstâncias, poderia dizer outra coisa?
Naturalmente que me candidato para ganhar as eleições e ser presidente da Câmara de Lisboa e tudo farei para isso. Sou a candidata do PSD, que é um grande partido em Portugal e não há razão para temer os resultados depois de apresentarmos o nosso projeto que temos para Lisboa. Não há razão para temer ou renunciar à minha vontade de ser presidente da câmara.

Nas últimas eleições, o PSD teve um resultado de 23% com Fernando Seara em 2013, que tinha notoriedade. Em 2007 obteve 15% com Fernando Negrão. O melhor resultado neste ciclo foi com Santana Lopes coligado com o CDS, em 2009, com 38%. Tendo em conta que o histórico não é positivo, para si o que é um resultado aceitável?
Um resultado aceitável é ganhar as eleições. Mas que aquilo que esperamos e o que toda a equipa vai fazer é uma campanha com muita dignidade e elevação, em que as ideias para Lisboa sejam divulgadas. Queremos terminar esta campanha com muito orgulho no projeto que apresentámos e na forma como nos comportámos durante o período eleitoral. Também há um objetivo pedagógico de divulgar ideias e promover o que é o nosso ponto de vista para a cidade.

"Vamos compor as listas com pessoas que queiram servir a cidade, que queiram servir o partido, mas que não se queiram nem servir-se da cidade nem servir-se do partido."

Tem noção das suas dificuldades, tendo em conta estes resultados do PSD e por até ter menos notoriedade do que Fernando Seara…
Naturalmente. Mas temos seis meses à nossa frente para apresentar aos lisboetas o meu perfil, o nosso projeto e a minha equipa. Estou acompanhada e caminharei a par e passo com José Eduardo Martins que é o meu candidato à Assembleia Municipal de Lisboa e faremos um trabalho de divulgação do que é o nosso diagnóstico para Lisboa.

“Santana era uma escolha que aplaudi na altura”

Já tem número dois da lista?
Não. Estamos em preparação das listas para a vereação, para a Assembleia Municipal e para as Juntas de Freguesia. Vamos compor as listas com pessoas que queiram servir a cidade, que queiram servir o partido, mas que não se queiram nem servir-se da cidade nem servir-se do partido. Pessoas com competência demonstrada nas suas áreas profissionais, que tenham um projeto de vida que tenha já obtido resultados naquilo que é a sua participação profissional ou política e que não sejam dependentes da política.

Houve altos e baixos neste processo, com vários nomes avançados e retirados, notícias sobre supostos convites que não foram aceites e um período longo de espera por um candidato que era Pedro Santana Lopes. Ele empatou o processo?
Não, não empatou. Não considero que se tenha esperado demasiado. O presidente do partido desde cedo disse que em março anunciaria a candidatura e assim fez. Pedro Santana Lopes é um ex-presidente do meu partido, é um ex-presidente da câmara, foi primeiro-ministro e era uma escolha que naturalmente aplaudi na altura. Por isso, o partido esperou pela ponderação de Santana Lopes, que anunciou rapidamente a sua opção porque quer servir o país, mas no exercício das funções de provedor da Santa Casa da Misericórdia.

Preferia que o candidato tivesse sido Pedro Santana Lopes?
Não. Estou totalmente empenhada nesta campanha, para alterar o que têm sido as políticas do partido socialista, que há praticamente 10 anos está à frente dos destinos da câmara e tem maioria absoluta com a coligação que formou. Durante os últimos três anos, teve uma oposição construtiva que lhe deu todas as condições para executar o seu projeto. Não estamos de acordo com a linha de orientação de Fernando Medina para Lisboa, fundamentalmente vocacionada para o negócio imobiliário e para o turismo. Não pode sobrepor-se a uma política dirigida às pessoas que vivem e querem viver em Lisboa.

"Aquilo a que chama faltas não são faltas, são substituições. No âmbito das vereações é muito comum."

A vereadora Teresa Leal Coelho faltou a 91 reuniões em 153. O dia da reunião até foi alterado por causa dos seus compromissos na Assembleia da República, e mesmo depois disso só teve 5 presenças em 27 reuniões… Não foi mais uma oposição por omissão, tendo em conta as suas faltas às reuniões de câmara?
Não, não foi. Aquilo a que chama faltas não são faltas, são substituições. No âmbito das vereações é muito comum. Há equipas que decorrem da apresentação de candidaturas por listas, que podem fazer-se substituir e fazem-no em todos os partidos.

É verdade que é substituída. Mas é a sua não presença que está em causa.
Não é a minha presença, porque o trabalho não se faz exclusivamente no momento em que estamos na reunião de câmara. A preparação dos processos que depois vão a votação ou discussão faz-se fora das reuniões de câmara. As minhas substituições decorreram sempre ou quase exclusivamente da necessidade de assegurar outras responsabilidades políticas. No último ano e meio fui presidente da Comissão Parlamentar do Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa, onde o trabalho é bastante árduo no sentido de que é uma das principais comissões parlamentares.

A entrevista a Teresa Leal Coelho em 25 tweets

A questão é saber se Lisboa para si é a prioridade. Não estava a ver-se nesta situação. Se soubesse que ia ser candidata à câmara, não teria sido mais assídua do que foi?
Não. Não concordo com esse diagnóstico. Lisboa pode ser a prioridade e os vereadores serem substituídos na reunião da câmara. Naquilo que são os pacotes essenciais, tivemos um papel muito relevante, sobretudo em setores que trouxeram melhores condições de vida aos cidadãos de Lisboa, como o Pacto Fiscal. Esse trabalho faz-se fora das reuniões de câmara — tal como as reuniões do plenário do Parlamento. As reuniões são a ponta do iceberg, aquilo que é visto e mediatizado. Não quer dizer que não se faça um trabalho por Lisboa ou pelo país, noutro dos patamares.

Perguntas rápidas para respostas rapidíssimas

No sábado vai à Luz ver o Benfica/Porto?
Não, não vou.

Porquê?
Não costumo ir ao estádio assistir a jogos de futebol. Acompanho muitas vezes pela televisão, dependendo dos jogos.

Que tipo de adepta é? Não é fervorosa?
Sou benfiquista, isso não significa que tenha de se ver os jogos de futebol. Eu tenho muito orgulho de ter sido durante muitos anos atleta do Benfica, 17 anos federada, cerca de 8 no Benfica.

De que modalidade?
Voleibol.

Em que posição?
Rematadora.

Chama nomes aos árbitros?
Nunca. A prática como jogadora de voleibol era que nós próprias, quando cometíamos falta, púnhamos o braço no ar para avisar. Este código é aquele em que acredito: cometemos falta, auto-denunciamo-nos.

Vale e Azevedo ou Luís Filipe Vieira?
Para presidente do Benfica? Não possa dar outra resposta que não seja Luís Filipe Vieira. Esta comprovado que João Vale e Azevedo cometeu crimes, foi condenado e lesou o Benfica. Não posso ter outra opção.

Sabe os horários doa aviões entre Lisboa e Madrid?
Sei, sobretudo da TAP.

Viaja mais para visitar o seu marido [o embaixador português em Madrid] ou é ele que vem mais a Lisboa?
Viajo mais eu.

Um bom exemplo de Madrid para aplicar a Lisboa?
As bicicletas partilhadas.

O seu lugar preferido em Lisboa?
Terreiro do Paço. É a praça mais bonita do mundo e com um simbolismo muito relevante para Portugal.

Passos Coelho é mais um amigo ou um chefe?
É um amigo. É antes de mais um amigo, mas é também um grande homem que serviu Portugal com resultados muito efetivos e continua disponível para servir Portugal e isso é muito bom, porque Portugal precisa de pessoas como Pedro Passos Coelho. Abnegadas, dedicadas aos seu país, que querem resultados efetivos, independentemente das eleições.

Vem de fora da política. A política vicia?
Não, a mim não. Acredito que vicie alguns, a mim não. Entrei em 2011, o que não quer dizer que não tenha feito política antes. Entrei no PSD muito tarde, em 2007, numa altura em que o partido estava na mó de baixo. Mas não me vicia. Em 2011, quando Passos Coelho me lançou o repto foi num contexto em que acreditava que precisaríamos de 8 anos para tirar o país das condições de pré-bancarrota em que se encontrava. Modernizar o país, alterar as mentalidades.

“Irei revogar a taxa de proteção civil” e “IMI para zero por cento”

Temos aqui perguntas de leitores que estão a seguir a entrevista no Facebook. Tiago Correia pergunta o seguinte: “Se for eleita presidente da câmara irá reduzir o valor da fatura da água já que grande parte do valor são taxas e mais taxas municipais sem sentido e provocam que muita gente tenha dificuldades em ter acesso a um bem fundamental?”
Seguramente que irei revogar a taxa de proteção civil, que é paga no âmbito da fatura da água. O PSD opôs-se de forma violenta à criação dessa taxa de proteção civil. Tivemos desde o primeiro momento duvidas sobre a constitucionalidade dessa taxa. Chamámos-lhe um imposto encoberto, um IMI encoberto. Como é sabido, ontem o Provedor de Justiça deu-nos razão nessa avaliação. Essa taxa será abolida na primeira oportunidade no início das minhas funções: por ser inconstitucional e por ser injusta. O que mais me preocupa em relação às taxas e taxinhas, é que fizemos um pacto fiscal com a maioria na câmara de Lisboa, que tinha o objetivo de criar melhores condições de contexto às famílias. Não só através da aplicação do IMI pela taxa mínima, mas também pela devolução do IRS às famílias de Lisboa, nos termos da lei. Para nós é essencial ter uma Lisboa bonita, sem dúvida, agradável para os turistas, sem dúvida…

Reconhece que Medina pôs Lisboa mais bonita e mais agradável?
Reconheço que nos anos do PS na câmara, como nos anteriores, Lisboa foi ficando cada vez mais bonita. E em muitos destes projetos nós participámos. Mas isso não chega, porque entre 2011 e 2015, 10% da população teve de sair.

Outra questão de um leitor: Eurico Rodrigues Conde pergunta que medida vai tomar para haver mais gente a habitar na cidade sobretudo na baixa e travar o contínuo aumento do arrendamento de curta duração.
Embora tenhamos um IMI baixo, esse IMI pode passar mesmo para o nível 0%.

Mas como assim, pode explicar?
Com a devolução e a aplicação de taxa zero no que diz respeito ao IMI. Mas o problema principal não é tanto a taxa do IMI. É o valor patrimonial sobre o qual incide o IMI. Sobre isso há responsabilidade desta maioria da câmara. O preço do imobiliário sobe de forma exponencial em Lisboa. Está na moda, há investimento estrangeiro em imobiliário, e não há reabilitação. A última vez que houve reabilitação séria foi com Pedro Santana Lopes na zona da Baixa, na rua da Madalena e de São Bento. O que há licenciamento de novos hotéis.

"Reconheço que nos anos do PS na câmara, como nos anteriores, Lisboa foi ficando cada vez mais bonita. E em muitos destes projetos nós participámos."

Houve reabilitação no Intendente.
Houve reabilitação no Intendente, mas não houve criação de novos fogos para habitação. O que está em causa é criar condições não só de arrendamento como de aquisição para uma faixa mais jovem: aqueles que se autonomizam dos seus pais e querem continuar a viver em Lisboa. O preço do imobiliário decorre do mercado. Mas quem fez a reavaliação patrimonial do imobiliário, à qual de aplica a taxa do IMI e outras taxas, foi esta maioria na câmara. Essa inflação do valor patrimonial também tem influência no preço da habitação. É meu entendimento que temos de estabelecer como prioridade criar melhores condições de contexto nestas circunstâncias em Lisboa.

“Assunção Cristas não é minha adversária”

Reconhece que a lei das rendas do Governo PSD/CDS, da autoria da sua adversária Assunção Cristas, está a prejudicar o comércio tradicional e o que era Lisboa? Como pensa inverter essa tendência?
Deixe-me dizer primeiro que Assunção Cristas não é minha adversária. O meu adversário é Fernando Medina. Mas no que diz respeito ao que tem sido as reclamações do pequeno comércio e tradicional…

"Mas o que não pode acontecer é olhar para o turista em prejuízo dos cidadãos. Em primeiro lugar, estão as pessoas que vivem e que querem viver em Lisboa."

Que são obrigados a sair e a fechar as suas lojas…
A câmara tem de tomar medidas de proteção de algum desse comércio tradicional, mas temos também de compreender que a cidade está a mudar, que o país está a mudar e que o mundo está a mudar. E há muitas evoluções que não preservam tudo o que devia ser preservado.

Teresa, o Benfica e Vale e Azevedo

Consegue resumir a sua experiência na administração de Vale e Azevedo?

Foi extraordinária. Fui colaborar depois de recrutada por uma empresa de recrutamento. Ao contrário do que é referido, praticamente não conhecia João Vale e Azevedo. Tive três dias de testes, entre vários candidatos. Orgulho-me de uma coisa e muito: quando se realizaram as eleições em que concorreram Vale e Azevedo e Manuel Vilarinho, impus uma condição na administração da SAD: que as eleições fossem escrutinadas por fora. A reação não foi a melhor inicialmente, mas coloquei a questão: ou se faz assim ou então temos de explicar porque não se faz. E houve uma entidade externa que fez o escrutínio e observação, o controlo das eleições. Nenhum dos candidatos pôde ter qualquer interferência no apuramento dos resultados. E fiz isto porque acredito na transparência. Lamento muito que João Vale e Azevedo tenha cometido um conjunto de crimes, o sistema funcionou e ele tem pago. E tem pago de forma que muitos outros nunca pagaram nem vão pagar.

Mas qual deve ser o papel da câmara nisso? Intervir ou não intervir?
O papel da câmara será intervir na medida certa, fazendo o diagnóstico em função também daquilo que for a a vontade dos lisboetas e isso já aconteceu por diversas vezes: muitos estabelecimentos comerciais. Essas medidas são importantes, mas mais importante é fixar pessoas em Lisboa. Porque se a massa crítica que pode consumir nesse comércio for manifestamente alargada, isso permite outras condições, adaptando-se o comércio tradicional ao que são as exigências da vida de hoje.

O turismo está a tornar a cidade melhor?
Naturalmente, porque é economia. Mas o que não pode acontecer é olhar para o turista em prejuízo dos cidadãos. Em primeiro lugar, estão as pessoas que vivem e que querem viver em Lisboa. O turismo é muito importante para os que vivem e querem viver em Lisboa, porque é economia. Mas não podemos dar prioridade ao turismo e secundarizar a verdadeira prioridade: as pessoas. Que vivem com enormes dificuldades de mobilidade: o trânsito é caótico, os transportes públicos têm decrescido em qualidade, o tempo de espera é imprevisível…

"A última vez que andei de autocarro em Lisboa terá sido há dois anos e meio."

Qual foi a última vez que andou de autocarro em Lisboa?
A última vez que andei de autocarro em Lisboa terá sido há dois anos e meio.

Costuma usar transportes públicos?
Não costumo, tenho essa circunstância. Desloco-me no meu automóvel e também a pé. Esta é a minha circunstância, mas tenho de trabalhar para aqueles não só que querem deslocar-se de automóvel, e que enfrentam as dificuldades que o trânsito caótico e a falta de estacionamento provoca, mas também os que usam os transportes públicos. No Metro, a qualquer hora, o tempo de espera é imprevisível e as pessoas deparam-se com um cenário de sardinha em lata.

“Defenderei a concessão da Carris a privados”

O PSD opôs-se no Parlamento à municipalizarão da Carris. Se for eleita, vai lutar para que a medida seja revertida? Prefere que a empresa seja concessionada?
Não defendemos a municipalização, mas adaptamo-nos. Consideramos que a concessão a privados tanto pode ser feita a nível central como municipal.

Então, como presidente da câmara vai defender a concessão a privados?
Defenderei a concessão a privados e considero que isso permitirá aumentar a qualidade do serviço que é prestado pela Carris.

A Câmara não tem capacidade para fazer essa gestão?
Não deve estar sobretudo vocacionada para este tipo de atividade, mas para a reabilitação urbana, ou a criação de condições de mobilidade.

Promete mais assiduidade como vereadora no próximo mandato?
Prometo mais assiduidade como presidente da Câmara. É o que tenho para prometer.

Se não for eleita será vereadora. Votando em si, as pessoas podem contar consigo como vereadora?
Podem, como têm contado comigo como vereadora.

"Não tenho problema nenhum em dizer sim, [serei vereadora] com mais assiduidade. Mas não considero que a assiduidade seja a bitola da qualidade do trabalho desempenhado pelos vereadores, nem do meu partido nem dos outros partidos."

Com mais assiduidade?
Não tenho problema nenhum em dizer sim, com mais assiduidade. Mas não considero que a assiduidade seja a bitola da qualidade do trabalho desempenhado pelos vereadores, nem do meu partido nem dos outros partidos. As questões de assiduidade colocam-se nas vereações pelo país fora. Não sei qual a percentagem de deputados que são vereadores. Mas é muito elevada em todos os partidos. Mesmo na câmara de Lisboa há quem também acumule como outros cargos.

Quando é que vai deixar a liderança da Comissão Parlamentar de Finanças para se dedicar a tempo inteiro à sua candidatura?
Só programo deixar a presidência da comissão quando e se for presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Os outros cenários não os coloquei, não os ponderei.

Não vai deixar já o cargo?
Não vejo porquê. Os deputados eleitos são candidatos, alguns bem longe da sede do Parlamento. Há candidatos que são parlamentares europeus.

“Não me considero nada fragilizada”

Também há uma líder partidária. Como comenta as declarações do coordenador autárquico do PSD, Carlos Carreiras, que diz que tanto faz que ganhe o PSD ou o CDS desde que Fernando Medina seja derrotado?
Disse isso, mas depois disse outra coisa. Veio dizer que foi um momento infeliz e que acreditava que eu seria a candidata mais votada.

"Não considero que o processo tenha sido mal conduzido, porque muitos dos nomes que apareceram na praça pública resultaram de especulação."

Mas se é o próprio coordenador autárquico a dizer isto, o que é que isto revela? Que este processo não foi consensual, nem bem conduzido dentro do PSD?
Não considero que o processo tenha sido mal conduzido, porque muitos dos nomes que apareceram na praça pública resultaram de especulação ou de propostas de níveis do partido que não foram os que vieram a escolher o candidato — que foi escolhido pelo presidente do partido. Mas foi votado por uma enorme maioria não só na concelhia como na distrital.

Mas o presidente da concelhia não foi consultado.
Mas também deu uma entrevista a dizer que iria fazer tudo para que eu fosse a próxima presidente da Câmara.

E ao mesmo tempo disse que não votaria mais em Passos Coelho.
Isso é uma liberdade que assiste a todos. O PSD é um partido plural e todos têm direito à sua opinião e têm direito a outras opções de liderança.

Tendo em conta que o candidato preferido era Santana Lopes, que houve estruturas de Lisboa a defenderem uma coligação com Assunção Cristas, e que o próprio presidente da Concelhia não gostou da forma como a escolha foi feita, isso não são muitas fragilidades juntas para mobilização do PSD em torno da sua candidatura?
Não me considero nada fragilizada, estou muito bem acompanhada e estarei cada vez melhor acompanhada. Cada vez serão mais os que me acompanharão neste percurso até 1 de outubro e com todo o empenho para ganhar estas eleições. Sempre que o PSD governou, quer fosse o país, quer fosse a autarquia, a qualidade de vida dos cidadãos subiu. [Mostra folha com um gráfico].

Estava a falar da sua equipa. Carlos Barbosa, o presidente do ACP, poderá integrar essa equipa?
Não vou adiantar nenhum nome, porque a equipa não está feita e porque isso será discutido em sede própria. Verá que será uma boa equipa e boa para Lisboa.

Quando em em que termos é que Pedro Passos Coelho lhe fez o convite?
Fez-me o convite da mesma forma que qualquer líder partidário faz um convite para alguém se candidatar à Câmara de Lisboa. Seria deselegante estar a fazer revelações sobre os termos da conversa. Fui convidada, aceitei ser candidata e orgulho-me muito de ser a candidata do PSD a Lisboa. E tenho particular orgulho no PSD de Pedro Passos Coelho, que governou num dos momentos mais críticos e difíceis de Portugal. E para a cidade de Lisboa foi bom porque o Orçamento da cidade não chega a 800 milhões, mas está perto. E o seu Governo transferiu para a câmara de Lisboa cerca de 300 milhões de euros, por causa dos terrenos do aeroporto. Estamos a falar de 30% do Orçamento da Câmara. Demonstrou também como primeiro-ministro a sua isenção e imparcialidade e transparência. Valores muito importantes na política.

"A única responsabilidade do resultado eleitoral será minha e da minha equipa e o meu programa. Pedro Passos Coelho não será afetado."

O facto de ter sido um convite direto do líder do partido responsabiliza Passos Coelho ainda mais pelo resultado que vier a ter em Lisboa? Sente o peso dessa responsabilidade naquilo que pode afetar ou não a liderança?

Não, de todo. A única responsabilidade do resultado eleitoral será minha e da minha equipa e o meu programa. São os únicos responsáveis. Estamos a falar de uma candidatura a uma autarquia local, não estamos a falar de uma candidatura nacional. Pedro Passos Coelho não será afetado.

Olhando para o plano nacional: em 2013 o PSD teve o pior resultado de sempre e perdeu 30 concelhos face a 2009. Há uma fasquia colocada agora? Vencer em mais um concelho é considerado suficiente?
Em 2013 tem um contexto de troika em Portugal

Todos os anos têm um contexto…
Mas nem todos têm o contexto de execução de um memorando de entendimento e da troika em Portugal. Os partidos no Governo são sempre penalizados, apesar desse contexto o PS não teve um resultado excecional nessas eleições.

Teve o melhor resultado de sempre.
Mas não o que foi expectável, porque o anterior presidente da Câmara de Lisboa e atual primeiro-ministro utilizou precisamente esse argumento, e alguns segmentos no PS, para por em causa a liderança do anterior secretário-geral. Nem tudo foram rosas nesse período do PS.

Há uma fasquia ou não? Pior do que em 2013 é impossível?
A fasquia é ganhar as eleições. Não ganhando, a fasquia é no dia 2 de outubro estarmos orgulhosos da campanha que fizermos.

O que é ganhar estas eleições?
É ter mais votos que qualquer outro candidato.

Mas se não for assim, Passos Coelho deve deixar a liderança do PSD?
Não. Não uma ligação entre a liderança do PSD por Passos Coelho e o resultado autárquico seja ele qual for. São patamares distintos.

Mas um mau resultado nacional nas autárquicas não fragiliza um líder de um partido?
Não fragiliza.

Até já o Presidente da República disse que haverá um novo ciclo político após as autárquicas…
Não tenho esse entendimento. Pedro Passos Coelho tem todas as condições para ser presidente do PSD. Às vezes esquecemo-nos de que, apesar de tudo, ganhou as últimas eleições. E ganhou as eleições em Lisboa. Tivemos o melhor resultado dos últimos 20 anos em Lisboa nas últimas legislativas. É significativo e talvez um indício. E depois temos 55% de abstenção, nalguns casos porque as pessoas estão deslocalizadas mas também porque as pessoas estão fartas, da política, seja nacional ou autárquica e estão desmotivadas para participar.

“Defendo o loteamento da Feira Popular”

Outro leitor, Paulo Magalhães, pergunta: “Quais as políticas que vai implementar para apoiar os mais carenciados, nomeadamente os mais idosos, e inverter a tendência de os expulsar das suas casas para dar lugar a negócios relacionados com o Turismo?
A reabilitação. Há 2 mil fogos vagos na cidade de Lisboa e, segundo os números apresentados pela maioria, 2.500 pessoas a precisar de casa. Há muita habitação social degradada e muita que está desocupada. Depois, uma gestão urbanística muito virada para grandes investimentos e para o turismo tem levado a Câmara a colocar à venda os seus imóveis para ter receita imediata, em vez de os reabilitar e de os colocar à disposição para arrendamento ou aquisição. Esta gestão urbanística tem muitos contra-sensos. Passo todos os dias pelos terrenos da Feira Popular. Estão devolutos.

Qual a sua proposta?
A minha proposta foi a que fiz a Fernando Medina e desde logo passava pelo loteamento dos terrenos. A Câmara não quis. Preferiu levar a hasta pública e já levou duas vezes, pelo valor de 110 milhões de euros — e não há comprador com esta capacidade de investimento. Por isso proponho o loteamento e com ele permitir então que vão a hasta pública cada um dos lotes e que permita que os investidores, nacionais ou estrangeiros o possam fazer.

Há um leitor que nos enviou uma pergunta sobre as ciclovias: “Vai denunciar a estupidez de aplicar a uma cidade de sete colinas como Lisboa uma rede de ciclovias que faria mais sentido numa cidade plana? Proponha uma investigação à sua utilização efetiva?”
A cidade de sete colinas é um privilégio. Mas naturalmente as ciclovias fazem sentido se houver uma gestão integrada daquilo que é a utilização de bicicletas com os transportes públicos. Temos ciclovias mas depois as bicicletas não podem entrar no metro, nos autocarros. Fica coxo o projeto das ciclovias. Tem de haver uma outra articulação. A cidade é envelhecida mas é para todos, e há muita gente que utiliza a bicicleta. Há opções erradas: uma ciclovia na Fontes Pereira de Melo é para inglês ver. E transtorna a vida dos cidadãos, porque encurta faixa de rodagem. Não quer dizer que não possa haver uma ciclovia naquele troço, mas porquê a Fontes Pereira de Melo? Há a Duque de Loulé, ou outras vias onde se pode dar condições para os ciclistas, mas nunca fazendo guerra ao automóvel.

O argumento tem sido a necessidade de tirar automóveis do centro da cidade. Não há necessidade disso?
Só pode fazer-se isso e tomar-se medidas dessa natureza, quando os transportes públicos tiverem outras condições. De acordo com os dados estatísticos há cerca de 160 mil automóveis em Lisboa e entram por dia cerca de 300 mil. Esta é a realidade. Devemos e podemos criar condições, até em pareceria com os concelhos limítrofes, para a criação de parqueamentos à entrada de Lisboa, depois acompanhados de uma boa rede de transportes. Isso podia ter resolvido em parte boa medida deste problema.

Pode ver aqui a entrevista na íntegra.

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