“Toda a gente acha que as mulheres têm de trabalhar mais para mostrarem o que valem”

26 Outubro 2017318

Ana Tapia é psicóloga e autora do livro "Stop. As 50 Estratégias das Mulheres sem Tempo". Ao Observador, fala sobre pressões de trabalho internas e externas e na distinção de género no escritório.

São 09h30 de uma quinta-feira quando Ana Tapia chega ao nosso encontro, num café em Lisboa. Vem sorridente e bem disposta, com um ar descansado. Talvez a psicóloga ponha em prática as estratégias que apresenta no seu livro “Stop. As 50 Estratégias das Mulheres sem Tempo” (editora Esfera dos Livros, 16€), acabado de chegar às livrarias.

Ao longo de quase 300 páginas apresenta estratégias para mulheres sem tempo, isto é, “mulheres que estão sempre a correr, que não têm tempo para cuidar de si, para fazerem o que gostam ou para estar com as pessoas de quem gostam”. São soluções tão universais como saber dizer “não”, pôr o perfecionismo de lado e fazer as coisas uma de cada vez, mas também há propostas mais individualizadas.

Por ser mulher, psicóloga e mestre em psicologia de recursos humanos, Ana Tapia escreveu um livro dedicado ao sexo feminino, até porque, considerando um inquérito online que fez a 260 portugueses e portuguesas, a maior parte das pessoas, 80%, “acha que as mulheres têm de provar mais do que os homens para mostrarem aquilo que valem”.

O livro, da editora Esfera dos Livros, apresenta estratégias para consolidar a vida pessoal e profissional. © Divulgaçãoo

Quem são estas mulheres sem tempo? Que tipo de vida têm?
Em primeiro lugar são mulheres que sentem que não têm tempo. O que é que isto significa em termos práticos? São mulheres que estão sempre a correr, que não têm tempo para cuidar de si, para fazerem o que gostam ou para estar com as pessoas de quem gostam. Que se levantam muito cedo e trabalham até muito tarde. Essa é a caricatura das mulheres sem tempo. Mulheres sem tempo são todas aquelas que acham que, de alguma maneira, deviam conseguir fazer mais, gostavam de fazer mais.

É aquela mulher que está sempre cansada?
Se uma pessoa anda sempre a correr e sente que não tem tempo, tenderá a cansar-se efetivamente. Há um desgaste. Por isso é que existe uma grande relação entre o stress e a falta de tempo. As pessoas que sofrem disto muitas vezes ouvem da parte dos outros “Tu tens é que te organizar”; uma pessoa assim pensa “Como é que eu me posso organizar mais?”. A vida não é só andar a correr, fazermos mais e mais coisas, cada vez mais depressa. Precisamos de parar.

Porquê um livro sobre mulheres sem tempo e não sobre homens sem tempo?
Para começar, porque sou mulher, mas também pela minha experiência e pelo que tenho observado na vida pessoal e profissional. Acho que há um conjunto de especificidades que fazem com que as mulheres trabalhem muito mais e consigam muito menos.

"A vida não é só andar a correr, fazermos mais e mais coisas, cada vez mais depressa. Precisamos de parar."

Considerando quem anda sempre a correr um lado para o outro, será que temos ambições a mais?
Boa pergunta. Umas pessoas podem ter e, noutros casos, essa não é a situação — falamos de pessoas com a família a cargo, uma vida profissional exigente, que trabalham longe de casa… No fundo, pessoas que estão a tentar dar o melhor de si próprias, a tentar fazer tudo aquilo que conseguem para responder a tudo o que sentem. Muitas pessoas são assim, outras, de facto, não são realistas porque não têm uma noção exata e clara das suas prioridades.

Tendo em conta o primeiro grupo de pessoas, de onde vem a pressão para fazerem o melhor possível?
A resposta a essa pergunta é incómoda. A maior parte dessa pressão vem de nós próprias. Pode haver uma pressão no exterior, como um chefe dizer que é preciso terminar um determinado trabalho às 18h00 e serem 17h00. Isso é pressão, objetivamente. A pessoa pensa “se eu não fizer este trabalho vou ser penalizada por isso”. No entanto, a pessoa pode dizer que naquele dia não pode, que já tem um outro compromisso. Pode haver uma pressão, mas nós podemos escolher aceitar ou não essa pressão. Claro que isto é muito mais fácil de dizer do que fazer. Mas é uma questão de prática.

Qual é o perfil da pessoa que cede a essa pressão?
Apesar de ser psicóloga, ainda não tracei o perfil típico dessas pessoas sem tempo. Identifiquei, no entanto, um conjunto de erros. O primeiro capítulo do livro é precisamente sobre os sete erros capitais das “boas raparigas”, erros que nos predispõem a não termos tempo. O primeiro é matarmo-nos a trabalhar. O dia tem 24 horas mas nós não precisamos de trabalhar essas 24 horas. Será que precisamos até de trabalhar 8 horas? A solução é mesmo trabalhar menos — refiro-me a trabalho renumerado e não renumerado. Um segundo erro é querer fazer tudo muito bem feito, o que é um erro enorme. Há quem diga que isto se inclui nos dez maiores ladrões de tempo. O perfeccionismo, o querer fazer tudo muito bem feito, faz com que adiemos o que temos de fazer.

"Pode haver uma pressão, mas nós podemos escolher aceitar ou não essa pressão. Claro que isto é muito mais fácil de dizer do que fazer. Mas é uma questão de prática."

Mas esta questão do perfecionismo e do trabalhar muitas horas não poderá estar relacionada com algum tipo de insegurança?
Um dos fatores é, de facto, a insegurança. Uma insegurança que se traduz na nossa necessidade de mostrarmos o nosso valor através daquilo que fazemos e não daquilo que somos.

Porque é que acha que hoje em dia damos tanta importância ao que fazemos em detrimento da pessoa que somos? Porque é que as duas coisas estão tão misturadas?
Hoje em dia temos uma série de exigências em todas as áreas. Para sermos modernas temos de saber da tecnologia, para estarmos atualizadas temos de estar sempre a aprender e temos de estar bem arranjadas, porque uma mulher que não está bem arranjada… Temos desejos normais e que fazem parte da nossa saúde mental, necessidades ou motivações universais, só que o dia tem 24 horas e, por isso, temos de estabelecer prioridades. Dentro dessas prioridades temos de saber dizer “não”.

A sociedade premeia o que fazemos em vez do que somos? A tal insegurança interna que sentimos acaba por ser semeada?
Sim, sem dúvida. É semeada e aproveitada em vários sentidos. É aproveitada para trabalharmos mais e fazermos coisas que de outra maneira não faríamos… É semeada, às vezes, de formas indiretas, como quando alguém nos diz “Tu é que sabes fazer isto muito bem”. Isto poder ser uma armadilha. Há uma pressão externa muito grande, que nós também alimentamos muito. É preciso parar para pensar.

"Um dos fatores é, de facto, a insegurança. Uma insegurança que se traduz na nossa necessidade de mostrarmos o nosso valor através daquilo que fazemos e não daquilo que somos."

Ainda se exige mais às mulheres do que aos homens?
Para este livro, uma das coisas que fiz foi um inquérito online a cerca de 260 portugueses, homens e mulheres. Uma das perguntas era “As mulheres têm de provar mais do que os homens para mostrar aquilo que valem?”. Foi, de todas as perguntas, a que reuniu o maior consenso: cerca de 80% das pessoas acha que sim. Toda a gente acha que as mulheres têm de trabalhar mais para mostrarem aquilo que valem.

Porque é que é difícil dizer “não”?
Porque associamos o “não” a uma impossibilidade. Desde sempre, quando alguém nos diz que não, o caminho está vedado e nós não queremos ser desagradáveis. Esse é outro dos erros: nós gostamos de agradar e não gostamos de ofender. Ao dizer “não” podemos estar a ofender o outro.

Quem não diz “não”, não se impõe?
Não se respeita e acaba por não respeitar a outra pessoa, curiosamente.

Em que sentido?
Ao dizer “não”, estou a respeitar o meu espaço. Se disser que sim, estou a ser condescendente para com a outra pessoa, não estou a tratá-la de igual para igual. O respeito baseia-se em considerar as pessoas de igual para igual, salvaguardando as devidas distâncias.

Num cenário tão cliché como o chefe pedir-nos para trabalhar até tarde… O que é que se faz? Como é que dizemos “não”?
Temos de impor limites, que é uma das estratégias, e uma das imposições é termos um horário, que não precisa de ser fixo. Já trabalhei em empresas em que sofri essa pressão e observava algumas colegas que entravam e saíam à hora e nada acontecia, ainda se mantém lá. Uma delas foi “muito mal falada” por isso mas ainda lá está.

"Temos de impor limites, que é uma das estratégias, e uma das imposições é termos um horário, que não precisa de ser fixo. Já trabalhei em empresas em que sofri essa pressão e observava algumas colegas que entravam e saíam à hora e nada acontecia, ainda se mantém lá. Uma delas foi “muito mal falada” por isso mas ainda lá está."

Essa é uma questão interessante. Entrar e sair a horas é mal visto e o ficar até mais tarde continua a ser valorizado?
É a tal pressão que nos fazem, que podemos aceitar ou não. Por isso é que temos de ter as ideias muito claras. Se fico até mais tarde no trabalho, isso pode significar que não consigo dar aos meus filhos o apoio de que eles precisam ou que não consigo fazer outras coisas que sejam importantes para mim. Eu não vivo só para trabalhar. O trabalho é um meio, não um fim.

É incontrolável o que os outros pensam e o que fazem. A única coisa que podemos “controlar” é o nosso comportamento e termos muito claro o que é um direito [e o que é um dever]. O livro apresenta um conjunto de estratégias, mas nada disto funciona se uma pessoa não souber parar e descansar. Há estudos científicos que dizem que as pessoas que se mantêm permanentemente ligadas ao trabalho em período de férias descansam muito menos e, quando voltam ao trabalho, é como se não tivessem estado de férias, enquanto uma pessoa que muda totalmente de atividade consegue vir mais recuperada.

Por falar em estudos científicos, há vários que têm mostrado que há uma relação entre mais pausas ou menos horas de trabalho e a produtividade. Já é uma coisa da qual as empresas têm consciência?
Muitas já começam a reconhecer a importância disso, sem dúvida nenhuma, até porque as novas gerações valorizam muito o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Há uma distinção muito clara nas novas gerações, o que significa que as empresas têm de se ajustar se querem ter pessoas empenhadas e talentosas. Portanto, dar espaço e oportunidade a isso é uma forma de motivar e reter as pessoas. Nessa perspetiva, há muitas empresas que começam a considerar isso, mas entre a teoria e a prática vai uma grande distância.

"Nos casos de burnout, a pessoa sente-se esgotada, desvaloriza tudo e, um dos sinais, é ficar apática. Na Holanda já identificam o burnout como uma doença."

Psicologicamente falando, como é que o trabalho em excesso pode influenciar a nossa vida pessoal?
Torna-nos uma candidata ao esgotamento, ao stress, ao burnout que é o stress profissional prolongado.

O burnout é cada vez mais frequente? E há cada vez mais mães com episódios de burnout?
Não tenho trabalhado com muitas mães nesse contexto, portanto, não lhe posso dizer. O burnout é uma situação de stress profissional, portanto, é específico. Tem que ver com sentirmos que não temos capacidade para lidar com as exigências profissionais, o que resulta de tentarmos dar resposta a tudo e mais alguma coisa e, muitas vezes, fazermos as coisas por medo de represálias. Nos casos de burnout, a pessoa sente-se esgotada, desvaloriza tudo e, um dos sinais, é ficar apática. Na Holanda já identificam o burnout como uma doença.

Burnout. Os casos, as pistas e as soluções

Já fizemos um trabalho grande sobre burnout no Observador, onde se explicou que é difícil de descrever os seus sintomas e que não é considerado uma doença em Portugal. Porque é que é tão difícil identificar o burnout?
Talvez seja difícil porque isso tem grandes implicações na forma como trabalhamos e vivemos hoje em dia. Por outro lado, é um fenómeno que, como está a acontecer com tanta frequência, está-se a chegar à conclusão de que é necessário diferenciá-lo de outras situações como a depressão. Tem um contexto… Em Portugal confunde-se com esgotamento, com depressão, com ansiedade e com stress, o que podem ser sinais presentes num quadro de burnout.

Quais são os sinais de alerta?
Pode ser o facto de uma pessoa sentir que está sempre cansada e começar a perder o interesse pelas coisas de que gosta. Chega a casa ao fim de semana e quer é descansar no sofá e mais nada. Começa a pôr em causa aquilo que faz, nada daquilo que faz tem sentido… Uma pessoa num quadro de burnout põem-se ainda muito mais em causa do que o normal. Diria que estes podem ser alguns sinais.

No livro fala sobre o “esmagar da sensibilidade”, no sentido em que ficamos cada vez mais insensíveis tendo em conta as pessoas que estão à nossa volta…
Do meu ponto de vista, isto é o resultado do excesso de trabalho e não é uma coisa específica do burnout. É o resultado de termos mais coisas do que deveríamos ter, considerando a nossa maneira de ser. Tal pode apagar a nossa personalidade no sentido em que, na pressão de fazer as coisas, esquecemos os outros. Quando uma pessoa está muito cansada e com muitas exigências deixa de pensar, pura e simplesmente. A forma de sobreviver é esmagarmos a nossa sensibilidade.

Perdemos os filtros sociais de alguma forma?
Perdemos o controlo. Irritamo-nos, fazemos uma tempestade num copo de água. No livro falo do efeito borboleta, que tem que ver com pequenas coisas que têm um impacto desmesurado. Nas relações com as pessoas isto acontece. É importante estabelecermos limites para cada assunto.

Preto no branco, como é que nós podemos rentabilizar o nosso tempo?
Há várias estratégias. A primeira coisa é trabalhar menos — faça stop, pare, pense no que é mais importante fazer em determinados momentos e depois atue. Deixe de procurar a perfeição, o cemitério está cheio de pessoas perfeitas — às vezes não é preciso que um trabalho fique ótimo. Mobilize o clã, o que significa delegar e dividir tarefas e pedir ajuda. Outra estratégia é dormir: muitos problemas acontecem porque não dormirmos o suficiente, é fundamental ter uma boa higiene do sono. Depois, temos de nos motivar, isto é, arranjar um porquê — quem tem um “porquê” suporta qualquer “como”. É fazer uma coisa de cada vez.

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