“Trump deve estar a rezar para que não lhe peçam para falar sobre armas”

06 Outubro 2017

Aos 73 anos, Mike Weisser vendeu mais de 40 mil armas e escreveu 7 livros sobre o tema — mas apoia uma maior regulação. Depois do tiroteio de Las Vegas, diz em entrevista que Trump pode ter problemas.

No registo civil, chama-se Michael Weisser, mas na Internet é conhecido por ser “Mike, The Gun Guy”. Ou seja, Mike, o Tipo das Armas. É um bom epíteto para este homem de 73 anos que desde criança trata as armas por tu. Quando entrou na vida adulta, montou uma loja de armas no estado do Massachusetts. Desde 1965, vendeu, distribuiu, produziu e exportou mais de 40 mil armas. Além disso, já publicou sete livros sobre armas. Escreve regularmente no Huffington Post e é doutorado em História Económica. Em entrevista ao Observador, diz que é um “maluquinho das armas” e que assim será “até morrer”. É até sócio, entre os mais exclusivos, da National Rifle Association (NRA), a maior face do lóbi das armas nos EUA.

Porém, Michael Weisser está longe de alinhar com a ideia de que as armas, a sua venda e a sua posse não devem ser reguladas. É a favor de uma maior regulação deste setor nos EUA — com 323 milhões de habitantes, o país tem entre 250 e 280 mil armas, fora as ilegais — e até tem um sistema pensado por ele. A inspiração parte do que se fez com os frascos de medicamentos em 1970.

No domingo passado, 58 pessoas morreram naquele que foi o pior tiroteio da História dos EUA. Foi esse o pretexto desta entrevista, onde Mike Weiss diz que Donald Trump pode ter aqui uma das suas maiores crises políticas. “O que ele quer fazer é nada, o que ele quer dizer é nada, mas não me parece que ele se safe assim”, diz. Entretanto, a NRA veio defender um controlo mais apertado sobre os bump stocks, dispositivos que permitem converter armas semi-automáticas em automáticas. Uma tomada de posição rara, escreve o New York Times, mas suficiente?

O tiroteio de Las Vegas é o mais mortífero na história dos EUA. Morreram 58 pessoas, fora o atirador. Porém, não parece estar a atrair a atenção e o debate que, por exemplo, há 10 anos uma matança destas criaria. Os EUA já se habituaram a isto?
Uma das razões porque esse debate não está tanto nas notícias como noutros tiroteios é porque em Las Vegas não há muitos media. Mal aconteceu o tiroteio de Sandy Hook, houve uma avalanche de jornalistas de Nova Iorque que chegaram lá em menos de uma hora, porque é ali ao lado. Depois, muitos dos media que estão nestes eventos são atraídos pela possibilidade de o Presidente se envolver. Mas Trump fez um discurso de 30 segundos! Estava na Casa Branca, falou em pouco menos de um minuto e pronto. Foi tudo o que ele disse. Quando Sandy Hook aconteceu, Obama apareceu ao país, fez um discurso em lágrimas, dois dias depois foi a Newtown. Obama aproveitou a ocasião para falar sobre a necessidade de discutirmos o tema das armas.

No discurso de Trump não havia nenhuma pista ou sugestão para políticas a adotar daqui para a frente. A única medida que ele anunciou foi que a bandeira ia ficar a meia haste. Que mais é que entende que ele devia fazer?
Ele está de pés e mãos atados, por isso é que isto é uma grande crise para ele. O que ele quer fazer é nada, o que ele quer dizer é nada, mas não me parece que ele se safe assim. Estas pessoas que foram mortas são a base dele. As pessoas que votam nele são as pessoas que vão a estes concertos!

Mike Weisser, mais conhecido por Mike The Gun Guy, é autor de sete livros sobre armas

Sim, pessoas brancas, conservadoras, que ouvem música country.
Isso. Por acaso, o tipo que estava no palco na altura do tiroteio [Jason Aldean] é um cantor pró-Trump. Durante a campanha evitou apoiá-lo com todas as letras, mas deixou claro nalgumas entrevistas que gosta de Trump e do que ele diz. Eu não ficaria surpreendido se, nos próximos seis meses, ninguém vá a Las Vegas. As pessoas vão ter medo. As pessoas vão indagar se devem ir lá, com medo da próxima pessoa que se lembre de levar armas para o 32.º andar. Trump tem sido muito inteligente até agora, porque mal tem falado das armas. Mas isso agora já não vai funcionar. De repente, voltou a haver uma discussão tremenda a acontecer em Washington D.C., sobretudo entre democratas. Ele deve estar a rezar para que, nos próximos dias, não lhe peçam para dizer nada sobre armas.

Qual é que acha que é o verdadeiro pensamento de Donald Trump sobre armas? No passado recente, antes da candidatura presidencial de 2016, ele era ambíguo neste tema. Agora, parece querer fugir do assunto. No dia a seguir ao tiroteio, disse que ia falar de armas “à medida que o tempo passasse”. Qual é o pensamento dele, afinal?
Ele é um nova-iorquino típico de classe alta. Não quer saber de armas para nada. Os filhos dele pagam dezenas de milhares de dólares para ir à caça, que é o que a classe alta faz. Ele é puramente cínico em relação a isto. Não quer saber de uma lei para as armas, só quer saber que a única maneira de ser um republicano credível é fingir que se é muito a favor das armas. Mas, pessoalmente, ele não quer saber de armas.

Mas acha que ele se pode dar ao luxo de não fazer nada perante o maior tiroteio dos EUA? Se estivéssemos a falar de um atirador estrangeiro ou de um terrorista islamista, a conversa seria certamente diferente.
Se tivesse alguma coisa a ver com um grupo terrorista de qualquer tipo, a reação dele e dos republicanos seria uma reação do género “temos de fechar a fronteira!”. Iam tornar isto num total ataque à imigração. Mas não é o caso. Por isso é que eu digo que isto é um problema para ele, porque não é claro que os republicanos consigam sobreviver a este problema sem fazer nada. Estamos a três meses do início do próximo ciclo eleitoral. No final deste ano, os dois partidos têm de ter candidatos em todas as campanhas para a Câmara dos Representantes e também no Senado. Nessa altura, vão começar a fazer estudos de opinião e vão começar a perceber em que temas são mais vulneráveis. E, se os republicanos forem vulneráveis, Trump vai ter de fazer ou dizer algo. Por isso é que eu não ficaria surpreendido se na próxima semana, ou assim, ele fizesse um comentário vago sobre armas só para testar a reação da base dele e dos republicanos em geral.

(Richard Ellis/Getty Images)

Mas, em vez de falar de armas e de leis das armas, como Obama fez após vários tiroteios, Donald Trump preferiu dizer que o atirador era um “homem muito doentio”. Ele tem interesse em desviar a discussão das armas para a saúde mental?
Claro que tem, claro que sim.

Mas não acha que há um problema conjunto, de armas e de saúde mental?
Não há nenhum facto que possa ser usado para determinar a extensão em que as pessoas com problemas mentais são potencialmente violentas. Além disso, este tipo de Las Vegas não tinha nada na sua vida que indicasse qualquer tipo de doença ou instabilidade mental. Por isso, se Trump quer dizer que ele é obviamente maluco, é non sequitur, não quer dizer nada. Ninguém vai levar isso a sério, sequer. O problema é que há muitas pessoas que acreditam piamente que, para haver direito às armas, temos de encontrar uma maneira de as pessoas que encaixam nas categorias “erradas” não possam ter acesso às armas. Mas não há nada neste tipo que indique que ele não pode ter armas! Esse argumento é logo desfeito aqui. E, claro, este tem sido o argumento que os republicanos usam contra o controlo das armas. Eles vão ter um problema muito grande quando, ao se prepararem para o próximo ciclo eleitoral, perceberem que isto é um problema. E vai ser ainda pior para os republicanos se eles não fizerem nada. Matar quatro ou cinco pessoas é uma coisa. Mas matar quase 60? Meu Deus, isto é inacreditável!

Além disso, foi à distância, o que não é comum nestes casos. Aqui houve contornos militares, com armas colocadas numa posição destacada, apoiadas em tripés.
Ainda para mais, já que são armas automáticas, o mais certo é que a maioria delas sejam legais! É possível comprar armas automáticas, o processo de seleção é mais complicado, mas dá para comprá-las. E se ele passou por esse processo de seleção, que é muito detalhado, então podemos ver que ele não faz absolutamente nada para reduzir o risco das armas. Não faz nada.

"Trump é um nova-iorquino típico de classe alta. Não quer saber de armas para nada. Os filhos dele pagam dezenas de milhares de dólares para ir à caça, que é o que a classe alta faz. Ele é puramente cínico em relação a isto. Não quer saber de uma lei para as armas, só quer saber que a única maneira de ser um republicano credível é fingir que se é muito a favor das armas."

O Mike vendia armas, agora é instrutor para quem quer ter licença para usar armas. Visto de dentro, consegue dizer onde é que o processo falha, então? Qual foi a falha pela qual uma pessoa como esta conseguiu passar?
Isto começou logo com a lei das armas de 1968. Essa lei criou a ideia de que a posse de armas seria controlada ao identificar pessoas que, por algo que estivesse no seu passado, não deviam ter uma arma. Por isso, assumiu-se que alguém que tivesse um historial violento, sobretudo se tivesse cometido um crime, não devia ter uma arma, já que demonstraram incapacidade para se comportarem de forma adequada. Basicamente, passou a haver categorias proibitivas que diziam se uma pessoa podia usar uma arma ou não.

E isto não ajudou?
Não. Não ajudou um chavo! Depois em 1994 criaram um sistema informático, onde o FBI podia verificar automaticamente todas as pessoas que estivessem a comprar uma arma numa loja para saber se estavam a dizer a verdade sobre o seu passado ou não. Esse sistema funciona, mas há um problema: a maior parte das pessoas que usa uma arma para cometer violência não fizeram nenhuma das coisas que indicariam que seriam um risco no caso de terem uma arma. É esse o problema! Se disséssemos que todas as pessoas neste país que foram condenados por um crime sério nunca pudessem tocar numa arma, garanto que o nível de violência com armas não iria diminuir grande coisa. Esta é a grande armadilha da regulação. Não é como conduzir um carro. Se o limite de velocidade for 30 milhas à hora, toda a gente cumpre. Ponto final. Não fazem exceções. Mas não há nenhuma regulação assim com armas. Eles dizem que montam um sistema em que dizem que quem estaria em risco por ter uma arma não pode tê-la e que quem não estaria em risco então pode tê-la. Isso é um disparate!

Fora os quase 300 milhões de armas que há nos EUA, também há muitas armas ilegais. Como é que vai dizer à maior parte dos cidadãos que têm armas para caçar, ou para defesa, que eles não têm o direito de ter uma arma, quando ao seu lado pode haver alguém que tem uma arma ilegal?
Sabe o que quer dizer “dissonância cognitiva”?

Não, já agora agradecia que me explicasse.
Quer que dizer que aquilo que nós sabemos não tem base em nada racional ou verdadeiro. O que temos aqui é um caso clássico de dissonância cognitiva, em que muitas pessoas que acreditam que precisam mesmo de uma arma para se protegerem de um crime nunca foram vítimas de um crime. Nós desenvolvemos uma cultura onde a crença na nossa vulnerabilidade não tem nada a ver com o quão vulneráveis nós verdadeiramente somos. E a indústria das armas aproveita-se dessa crença. Mas as pessoas acreditam mesmo nisso. O problema é que, quando se tenta usar uma estratégia reguladora ao lado dessas crenças, acabamos por ter regulações que não mudam nada. Entre 1995 e 2015 houve um declínio de crimes violentos de 50%. Ainda assim, o americano comum acredita que o crime está mais alto do que nunca. Trump fez uma campanha em torno desta ideia. Como é que se explica isto? Eu sei lá! [Risos]. Não é verdadeiro. Simplesmente não é verdadeiro.

Mas como é que diz a um cidadão que cumpre a lei e tem uma arma que ele não pode tê-la, ao mesmo tempo que há gente com armas ilegais?
Eu acho que esse cidadão tem um argumento válido. Muito válido. Mas chega a um ponto em que eu coloco um limite. Tudo bem, vão comprar todas as armas que quiserem, mas há aqui um problema: elas não vão ajudar se forem vítimas de um ataque. Esse é que é o problema. O problema não é eles pensarem que precisam de uma arma, o problema é eles acreditarem que ter uma arma os vai proteger no caso de serem vítimas de um crime. Isso não é verdade. Há uma diferença muito grande entre ter uma arma e saber usar uma arma.

"Trump está de pés e mãos atados, por isso é que isto é uma grande crise para ele. O que ele quer fazer é nada, o que ele quer dizer é nada, mas não me parece que se safe assim. Estas pessoas que foram mortas são a base dele. As pessoas que votam nele são as pessoas que vão a estes concertos!"

Quando foi o tiroteio de Sandy Hook, muita gente disse que bastava os professores terem um arma para evitar tantas mortes. Mas no caso de Las Vegas, não havia como resolver essa questão. Concorda?
Sim, concordo em absoluto. E em Sandy Hook, se houvesse um guarda armado em frente à escola na altura em que o Adam Lanza desatou aos tiros, o mais certo é que ele também tivesse matado esse guarda. É o mais provável.

Por causa do tipo de armas que ele usou?
E porque estes tipos não são lá muito bem treinados.

Iam estar desprevenidos?
Completamente. Eu dou muita formação a forças de segurança. Quem quiser ser um segurança armado no Connecticut [estado onde se situa a Newtown, onde fica a escola de Sandy Hook] precisa de passar um teste. Nós fizemos um curso para uma das empresas que trabalha em edifícios públicos do Connecticut. Nesse curso, havia cerca de 30 pessoas que foram empregadas por esta empresa. Dessas 30, talvez duas estivessem aptas para possivelmente usar uma arma de forma adequada. Na melhor das hipóteses! Os outros não passariam de uns patos sentados à espera de levarem um balázio. Além disso, o número de pessoas que usam armas com sucesso para deter um crime é muito pequeno. Isso é tudo conversa sem sentido da NRA.

O lóbi das armas é mais forte com Donald Trump ou corre o risco de, ao fiar-se no facto de ter um Presidente que lhe é favorável, adormecer e perder força?
Eles ficam mais fracos se ele decidir que afinal não precisa de ser tão pró-armas. Depende tudo de Trump. Se ele decidir testar as águas e ver se a sua base é agora tão pró-armas como era há uma semana, pode ser mau para eles. O problema do lóbi das armas é que vão estar dependentes de tudo o que Trump diz. Quando Barack Obama estava na Casa Branca eles tinham um alvo perfeito. Agora já não é bem assim.

Na campanha eleitoral de 2016, Donald Trump recebeu o apoio da NRA (Scott Olson/Getty Images)

O Mike já estuda a relação da sociedade norte-americana com as armas e a influência que elas têm enquanto tema na política. Nestes anos todos, alguma vez conseguiu perceber o seu verdadeiro valor eleitoral? Qual é a percentagem de pessoas que votam por causa das armas?
Há muitos estudos sobre isto. Perguntam às pessoas para responderem qual é o assunto mais importante para elas quando vão às urnas. Há várias temas e as armas nunca são um tema importante por si só. A questão é que as pessoas que são pró-armas também costumam ser conservadoras, contra impostos, contra assistência social aos mais pobres, contra os pretos, e por aí fora.

O que é que os democratas podem fazer para dominarem o debate em torno das armas depois de Las Vegas?As eleições estão já ao virar da esquina.
Provavelmente, vão querer aumentar os background checks. Aqui parece que funciona, é fácil de fazer e há muita gente que apoia uma medida assim, até na direita. Vai agradar a muita gente, mas provavelmente não vai fazer grande coisa.

E a Segunda Emenda? É uma vaca sagrada impossível de discutir, até para os democratas?
Ninguém do lado dos liberais vai discutir a Segunda Emenda. Se for preciso, os liberais até vão dizer que também acreditam na Segunda Emenda, porque eles não querem que andem a dizer que são contra a Constituição.

Hillary Clinton fez precisamente isso durante a campanha de 2016: falou de armas mas nunca pôs em causa a Segunda Emenda.
Se alguém for a favor de qualquer regulação para o uso e porte de arma, o outro lado vai dizer que essa pessoa é contra a Segunda Emenda. Mas isso é tudo retórica, não quer dizer nada. [Risos] Há um professor de Direito Constitucional na University of Texas chamado Sanford Levinson. Em 1988, 20 anos antes da decisão Heller (ver caixa), ele escreveu um artigo importantíssimo onde dizia que os liberais tinham de defender a Segunda Emenda se também queriam defender a Primeira Emenda, que consagra liberdade de expressão. Esse artigo foi o que criou o impulso legal que levou ao caso Heller. O que os juristas conservadores no caso de Heller fizeram foi fazer citações de Heller atrás de citações de Heller. Foram os constitucionalistas liberais que defenderam a Segunda Emenda.

District of Columbia v. Heller

Em 2008, depois de décadas de lóbi da NRA, o Supremo Tribunal chegou a um veredito inédito no caso District of Columbia v. Heller. Neste, Dick Anthony Heller, um segurança que trabalhava para um órgão estatal, conquistou o direito de levar a sua arma de serviço para casa, num bairro problemático da capital de Washington D.C., para defesa pessoal. Longe de ser uma decisão revolucionária — conseguir uma arma para fins de caça ou desporto, já era relativamente fácil nos EUA —, esta decisão facilitou ainda mais o acesso às armas por parte de todos os norte-americanos que alegassem motivos de defesa pessoal.

É posssível olhar para as armas sem uma perspetiva política…
Não!

… e olhar para o assunto como se fosse um problema de saúde pública?
As únicas vezes em que houve leis federais sobre armas foi em 1968 e 1994. Nas duas ocasiões, havia uma sulista liberal na Casa Branca [Jimmy Carter e Bill Clinton, respetivamente] e os democratas tinham o controlo, ou perto disso, do Congresso. No ano passado, parecia que ia haver o mesmo alinhamento. Tudo bem, Hillary Clinton não é totalmente sulista, mas é mais ou menos. Parecia que ela ia ganhar, parecia que o Senado ia ser dos democratas, parecia que a Câmara dos Representantes ia ser dos democratas e que eles iam conseguir aprovar uma lei para as armas. Mas, já agora, conhecendo a legislação que eles queriam implementar para as armas, posso garantir-lhe que assim que ela fosse implementada, a indústria das armas acabaria na hora.

Porquê?
Porque o que eles queriam fazer era que os fabricantes de armas policiassem a venda de armas nas lojas. Isso ia ser impossível. Eles teriam de inspecionar as lojas e garantir que os vendedores seguiam todas as regras. E, depois, os fabricantes de armas que não cumprissem essa função de supervisão iam ter multas enormes.

Porque é que que diz que isso ia acabar com a indústria das armas? Por razões logísticas e práticas?
Sim, isso mesmo. Veja bem: 90% de todas armas deste país são vendidas em pequenas lojas independentes. Há uma loja em cada vila! Só de um ponto de vista prático, seria impossível para um fabricante fazer isto. E as medidas que eles iam impor a estes vendedores ia levá-los à falência. Sistemas de vídeo-vigilância, armas guardadas de determinada maneira, segurança por todo o lado. Acredite em mim: isto é demasiado para as capacidades dos pequenos comerciantes. O pior disto tudo é que seria uma tentativa do Governo de transferir para o fabricante aquilo que deve ser uma competência do Estado.

"Nenhum comerciante quer regulação, porque nós acreditamos sempre que estamos a fazer um bom trabalho. Será que estamos? Sei lá! Mas ninguém quer ser sujeito a regulação. Não há ninguém que esteja metido num negócio, seja ele de que tipo for, que queira ser regulado. Pelo menos neste país. Vá a Wall Street e fale com os bancos!"

Mas quando diz que isso ia destruir a indústria das armas está a falar apenas dos pequenos vendedores?
Não! Os fabricantes estariam dependentes disto tudo e se não cumprissem iam ter de pagar multas enormes.

E isso está longe de ser aquilo que o Mike deseja, certo?
Claro que é! Nenhum comerciante quer que isto aconteça, porque nós acreditamos sempre que estamos a fazer um bom trabalho. Será que estamos? Sei lá! Mas ninguém quer ser sujeito a regulação. Não há ninguém que esteja metido num negócio, seja ele de que tipo for, que queira ser regulado. Pelo menos neste país. Vá a Wall Street e fale com os bancos! [Risos]

E qual é a sua solução para resolver o problema das armas nos EUA?
Eu tenho uma solução muito simples. A indústria das armas devia ser obrigada a medir a letalidade de cada arma que é produzida. 90% de toda a violência com armas neste país, sobretudo violência intencional, tem a ver com o facto de as pessoas terem acesso a armas pequenas, que podem ser escondidas. As caçadeiras não têm nada a ver com isto, espingardas de caça também não. São pistolas. Para mim, o que devíamos fazer era classificar as armas pela sua letalidade. Se alguém entrar na minha loja hoje e quiser comprar uma caçadeira de um tiro velha e ferrugenta que se calhar nem funciona, ele tem de passar pelos mesmos passos legais se quiser comprar uma pistola Glock. Isto é um absurdo! É ridículo! Devia haver um sistema regulatório a partir do tipo de armas que são usadas quando há violência. Metade das armas que estão em qualquer loja não são usadas dessa maneira. Então para que é que estamos a regular essas? Devíamos era obrigar as pessoas que querem comprar uma arma pequena a submeterem-se a um sistema de background cbeck, mas também garantir que ele é responsável ao longo dos anos. Seria preciso ir à polícia mostrar a arma uma vez por ano, para provar que ela não foi roubada, por exemplo. Dessa maneira, talvez começasse a guardá-la como deve ser.

Mas como é que isso podia impedir o que se passou em Las Vegas?
As armas que ele usou eram muito letais. Ele tinha 20 armas daquelas! E se o meu sistema entrasse em funcionamento, provavelmente ele não teria mais do que uma arma. Como teria de ser submetido a um processo de seleção mais detalhado, talvez notássemos alguma coisa no seu comportamento.

Então no seu sistema ele não teria maneira de possuir 43 armas, como pelos vistos era o caso?
Claro que não.

Mas ele não disparou só uma?
Não importa. A questão é que, uma vez que ele tinha tantas, estávamos claramente perante alguém que tinha um problema.

Mas isso está longe de ser 100% certo, não acha?
Aqui não há 100% para nada. O que eu quero dizer é que não percebo como é que temos um sistema de regulação para reduzir a posse de armas e a violência com armas, mas que ao mesmo tempo não se foca no tipo de armas que criam esta violência. Nós olhamos para a pessoa. Lamento, mas isso não funciona! É preciso olhar para o instrumento. Em 1970, foram feitas leis por causa das crianças que pegavam em frascos de medicamentos e que engoliam alguns 30 comprimidos. E o que é que eles fizeram? Mudaram a tampa, tornando-a muito mais difícil de abrir, especialmente para crianças. O resultado foi que o número de crianças que morreram dessa forma caiu 50% em três anos. Não tentaram regular as crianças, regularam o frasco!

Quantas armas é que tem?
À volta de 30.

Não há muita gente com essa quantidade de armas que pense da mesma maneira do que o Mike.
Pois não. Estou completamente sozinho.

Mas sempre pensou assim?
Sim. Adoro armas desde pequeno e vou ser um maluquinho das armas até morrer. Acontece que também sou um democrata ferrenho [risos]. Eu sei o quão letais as armas podem ser e sempre acreditei que, para possuir algo tão letal, o Governo tem o direito de obrigar os cidadãos a demonstrarem que conseguem proteger-se a eles e aos outros dessa letalidade.

O Mike é sócio da NRA…
… não sou só sócio, sou um sócio Life, Endowment, Patron!

Qual é a diferença?
A diferença é que assim lhes dou muito dinheiro. E assim eles não me podem tirar de lá.

Isso é curioso, porque o Mike defende, em muitos aspetos o contrário daquilo que a NRA apoia. Gosta de armas, já foi vendedor, é instrutor e tem 30 em casa. Mas a verdade é que está nos antípodas da NRA no que diz respeito à perspetiva política das armas. Como é que ainda assim lhes dá dinheiro?
As pessoas são complicadas. O facto de eu acreditar naquilo que eu acredito não faz de mim uma pessoa lógica!

Quanto dinheiro é que lhes dá por ano?
Uma quantia substancial…

Dezenas de milhares?
Não, não, isso não.

Milhares, então?
Sim.

Mas qual é a sua relação com eles? É bem recebido?
Muito bem, sim.

Está a ser irónico?
De maneira nenhuma, estou a falar a sério. Estamos a falar de uma organização enorme, que tem 1400 assalariados e uma folha salarial de 200 milhões de dólares por ano. Acredite quando digo que a última pessoa com quem eles têm de se preocupar sou eu. Vendo bem as coisas, eles sabem que eu também sou um tipo das armas. Não podem negar isso! Há uma coisa neste mundo: ou se tem armas ou não se tem armas. E se alguém tiver armas, está a ir para lá de uma linha que a maior parte dos americanos não atravessam. Isso cria uma relação com um certo je ne sais quoi entre portadores de armas. Para mim é impossível falar de armas da mesma maneira com uma pessoa que as tem e com outra pessoa que nunca pegou numa. Uma das razões para eu estar tão envolvido neste tema é que a maioria das organizações a favor da regulação das armas vêm falar comigo, porque querem saber o que é que nós achamos. Eles não sabem falar com a malta das armas. Não fazem ideia.

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