Um guia para seis temporadas: tudo o que já aconteceu na “Guerra dos Tronos”

14 Julho 20171.627

É uma daquelas duas pessoas que nunca viram “A Guerra dos Tronos”? Ou o que lhe dava jeito antes de começar a nova temporada era recapitular o que se passou nas seis primeiras? Então, isto é para si.

É já esta segunda-feira, no SyFy, que voltamos a ouvir aquele tan-tan, tararan-tan, tararan-tan. Vai começar a sétima e penúltima temporada de “A Guerra dos Tronos”. Mas ainda se lembra de tudo o que aconteceu desde que David Benioff e D. B. Weiss estrearam o primeiro episódio da adaptação da saga de George R. R. Martin? Desde abril de 2011? Nós ajudamos. Estas são as primeiras seis temporadas, os primeiros 60 episódios, resumidos em 30 mil caracteres. Uma espécie de apontamentos Europa-América para a série mais popular de sempre, incluindo as coordenadas-chave para se guiar na história: quem ocupa o trono de ferro no fim de cada temporada, quem é o herói, quem é o vilão, quem morreu e quem levou com que contar. Não esquecendo uma secção à parte para os episódios 9, pequeno fétiche que os fãs de GoT (“Game of Thrones”) há muito aprenderam a cultivar.

[o trailer da nova temporada:]

Temporada 1

Tudo começa quando Jon Arryn, a Mão do Rei (o conselheiro mais próximo do monarca), é assassinado e o Rei Robert Baratheon convida o amigo Ned Stark para ser a nova Mão. Ned deixa Winterfell e parte para a capital, King’s Landing, para auxiliar Robert no governo dos Sete Reinos. Para selar a aliança, o rei propõe o casamento do seu filho e herdeiro, o príncipe Joffrey, com uma das filhas de Ned, Sansa, ignorando em absoluto todo o mal que há-de vir deste encontro entre Starks e Lannisters. Basta contar o gancho do primeiro episódio: está o pequeno Bran, o benjamim dos Stark, a brincar, quando espreita por uma janela e vê a rainha, Cersei Lannister, na cama com o irmão gémeo Jaime (a.k.a., o regicida). Jaime não vai de modas. Suspira, diz: “O que um homem não faz por amor…” e zás, vai de empurrar Bran janela afora, até se estatelar uns bons metros lá em baixo.

Bran não morre, mas nunca mais consegue andar, e torna-se até ao fim de “A Guerra dos Tronos” na personagem com todas as “boring lines”, enquanto o resto da malta anda em bordéis, grandes cenas de pancadaria, acrobacias com dragões – enfim, na galhofa. Quanto aos restantes Stark, Robb, o mais velho, fica de guarda ao Norte, e Rickon, o mais novo, anda por lá esquecido à espera que um dia seja preciso sacrificar mais um Stark que não faça muita falta à intriga. Sansa e Arya vão com o pai para King’s Landing; e Jon Snow, bastardo que Ned teve de uma mulher desconhecida, alista-se na Patrulha da Noite, um exército de homens que juram celibato e servir até à morte na guarda à Muralha que separa os Sete Reinos de Westeros da barbárie daqueles a quem conhece, simplesmente, como “Selvagens”.

Entretanto, no continente do lado, Essos, separado por Westeros pelo Mar Estreito, Viserys e Daenerys Targaryen, filhos do rei anterior, o falecido “Rei Louco”, lutam pelos seus interesses. Os irmãos sonham recuperar o trono, mas são os últimos de uma espécie: parecem sozinhos neste mundo. Sem poder de fogo à altura das ambições, Viserys oferece a irmã em casamento a Khal Drogo, chefe dos guerreiros Dothraki; em troca, os Dothraki deveram servir de exército a Viserys, quando chegasse a hora. Como prenda de casamento, Daenerys recebe três ovos de dragão, espécie extinta há 300 anos, mas cujos ovos permanecem belos como jóias e considerados um símbolo de status. Uma lembrança gira que, porém, dificilmente retirará aos dinheiro para uma lua-de-mel numas ilhas quaisquer com palmeiras a liderança nas preferências entre as moçoilas casadoiras da nossa praça.

Na sua investigação às causas da morte de Jon Arryn, Ned Stark descobre não só o envolvimento dos Lannister, mas as traições de Cersei: nenhum dos filhos de Robert e da rainha é realmente dele. Já Catelyn, a mulher de Ned, manda prender Tyrion, o anão e irmão feio de Cersei e Jaime, acusando os Lannister de envolvimento na conspiração para lhe matarem o filho.

"O fantástico, que os não iniciados n’ “A Guerra dos Tronos” temem que seja o pão nosso de cada dia da série, é na verdade administrado em doses homeopáticas. Nesta primeira temporada, faz duas curtíssimas intervenções, uma a abrir; outra a fechar."

Na sequência de um acidente de caça, Robert morre, deixando livre o trono, mas sem que isso aproveite a Viserys Targaryen, morto pelo cunhado Khal Drogo, farto de o aturar. Ned Stark altera então o testamento de Robert, para que a coroa não caia nas mãos do ilegítimo Joffrey, bastardo da rainha e do próprio irmão Jamie, mas nas de Stannis Baratheon, irmão de Robert. Atraiçoado por Lord Baelish, Ned é, no entanto, denunciado aos Lannister. Joffrey sobe ao trono e manda castigar a antiga Mão do Rei, mantendo, no entanto, a intenção de casar com a filha Sansa. Tyrion, que escapa, entretanto, à execução pedindo um julgamento por combate que é ganho pelo mercenário Bronn em sua representação, é designado como nova Mão.

O fantástico, que os não iniciados n’ “A Guerra dos Tronos” temem que seja o pão nosso de cada dia da série, é na verdade administrado em doses homeopáticas. Nesta primeira temporada, faz duas curtíssimas intervenções, uma a abrir; outra a fechar. O primeiro episódio abre com um soldado de Winterfell a fugir de uns fantasmas aparentemente imortais (por já estarem mortos) que atendem pelo nome de Caminhantes Brancos; o último termina com Daenerys a sair das chamas onde ardem os corpos do seu falecido marido Khal Drogo e da bruxa que o matou, com três pequenos e-supostamente-extintos dragões ao ombro, saídos da casca e prontos a tratá-la como a mãe que nunca tiveram.

O que acontece no episódio 9: O novíssimo rei Joffrey quebra a promessa de castigar Ned Stark enviando-o para a Muralha e manda-o matar, exibindo a cabeça decapitada espetada numa estaca, perante uma plateia onde se contam as filhas – incluindo a futura mulher, Sansa. É o momento em que compreendemos que “A Guerra dos Tronos” não é, exactamente, uma série como as outras, já que se dá ao luxo de matar o protagonista e continuar, e aquele em que passamos a odiar Joffrey com o mesmo ardor com que aquelas velhinhas que vêem a novela batem depois com a mala no actor que faz de vilão quando se cruzam com ele no supermercado. Uma vergonha, é certo, mas mais forte do que nós.

Quem é o rei? No início, Robert Baratheon; no fim, Joffrey Baratheon

Quem é o herói? Ned É-melhor-nem-falarmos-nisso Stark

A quem arrancávamos os olhinhos com uma colher de plástico? Jamie Lannister (tudo somado)

Baixas a lamentar: Viserys Targaryen, Robert Baratheon, Ned Stark, Syrio Forel e Khal Drogo

Lesões: Bran (paraplégico)

Temporada 2

Há guerra aberta entre os Stark e os Lannister. Robb, o filho mais velho de Ned, lidera as tropas fiéis aos primeiros; Tywin, o pai Lannister em pessoa, as dos segundos. Enquanto Stannis Baratheon passa a série inteira de perfil, à frente da sua armada, avançando rumo ao trono que considera seu por direito e à inevitável batalha final em King’s Landing, decorrem todas as jogadas políticas. Robb quer a paz a troco da independência do Norte; Catelyn Stark quer que os Baratheon abdiquem das pretensões em favor do filho; e os Baratheon estão-se mais ou menos nas tintas para tudo – até mesmo um para o outro. Renly, o Baratheon mais novo, acaba morto por umas criaturas de sombra paridas por Melisandre, a Mulher Vermelha; e as suas tropas colocam-se ao serviço de Stannis. Noutra frente, Catelyn solta Jaime em segredo e manda-o para King’s Landing, escoltado por Brienne, uma antiga cavaleira de Renly mais ou menos do tamanho dum panzer, para que, em troca, os Lannister lhe devolvam as filhas Sansa e Arya.

Entretanto, na capital, Tyrion “bebe e sabe coisas”. Na preparação da defesa para a batalha com Stannis, toma conhecimento da existência de enormes quantidades de “Fogo selvagem” guardado nas caves da cidade; tem o seu mercenário Bronn à frente da Guarda Real e apaixonou-se pela prostituta Shae. No Norte, Theon Greyjoy, antigo aliado de Robb, atraiçoa os Stark e tenta conquistar Winterfell para ele e sua gente das Ilhas de Ferro. Lord Baelish negoceia o apoio da rica família Tyrell aos Lannister e o rei Joffrey decide desprezar Sansa e tomar em casamento Margaery, a bela Tyrell que acaba de ficar viúva de Renly. Arya e Gendry, ferreiro que é filho bastardo do falecido rei Robert, em viagem e fuga permanentes, libertam um grupo de prisioneiros em Harrenhal entre os quais se conta Jaqen H’ghar, um assassino letal que, em agradecimento, se oferece a Arya para matar três pessoas de quem ela se queira livrar e que troca mais facilmente de cara do que uma miúda adolescente de foto de perfil no facebook.

Lá longe, Daenerys continua a tentar reunir os soldados e os barcos suficientes para atravessar o Mar Estreito e marchar sobre King’s Landing, Jon Snow luta na Muralha e apaixona-se por uma selvagem de nome Ygritte que vai passar a vida a dizer-lhe que “não sabe nada” (quem nunca?); Robb, por seu turno, cai de amores por Talisa, uma bela jovem de Volantis, para grande preocupação da mãe, que o prometeu em casamento a uma das filhas de Walder Frey em troca do apoio de Riverrun à causa dos Stark.

No último episódio, aprendemos a dizer “Valar Morghulis”, que em Alto Valiriano significa: “Todos os homens têm de morrer.” Já estávamos desconfiados.

O que acontece no episódio 9: A épica Batalha da Água Negra. Lannisters e Stannis Baratheon medem finalmente forças, com a arma-surpresa de Tyrion, o “fogo selvagem”, a fazer a diferença. No fim, Stannis bate em retirada, derrotado; Tyrion é ferido, mas sobrevive; Tywin é a nova Mão do Rei.

Quem é o rei? Joffrey Baratheon

Quem é o herói? Robb Stark

A quem arrancávamos os olhinhos com uma colher de plástico? Joffrey Baratheon

Baixas a lamentar: Renly Baratheon

Lesões: Tyrion passa a ter uma bela cicatriz a atravessar-lhe a cara na diagonal, fruto de golpe de espada sofrido na Batalha da Água Negra

Temporada 3

A terceira temporada ensina-nos, logo a abrir, que, à fatalidade de “Valar Morghulis”, se responde: “Valar Dohaeris”, e ficamos logo todos muito mais descansados. Para aqueles –poucos – que, porventura, estejam com o Alto Valiriano mais enferrujado, isto significa, obviamente, que “Todos os homens têm de servir”.

Robb e Talisa casam, contra a vontade da mãe Stark, e esperam um filho. Quebrado o acordo com Frey e vendo-se na contingência de perder o seu apoio militar no terreno, Robb chega a um novo acordo com o senhor de Riverrun, prometendo, desta vez, que o seu tio, Edmure Tully, em casamento a Roslin, filha de Frey. Ainda no capítulo das alianças, Tywin Lannister decide contra a vontade de todos os envolvidos e mais alguém casar a filha e rainha-mãe Cersei com Loras Tyrell, homossexual e viúvo não oficial de Renly Baratheon, e o filho Tyrion com Sansa Stark, recusada e humilhada por Joffrey. Quando começamos a gostar de Jaime Lannister, que continua a tentar voltar para King’s Landing, escoltado por Brienne de Tarth, cortam-lhe a mão direita, uma arreliação, digamos, para quem como ele é um sex-symbol, espadachim exímio e gosta de comer a sua sopa, coçar a sua orelha, enfim, fazer a sua vida.

Entretanto, Theon Greyjoy é capturado, torturado e amputado da parte do corpo que mais o liga às tentações terrenas por Ramsay Bolton, louco bastardo de Roose Bolton, um dos generais de Robb Stark. Noutra parte desses Sete Reinos, Arya e Gendry são capturados pela Irmandade sem Bandeiras, onde descobrem – e nós por arrasto – que no mundo de “A Guerra dos Tronos” a ressurreição é possível, fazendo o ritual apropriado e dirigindo as orações certas ao Deus da Luz. Melisandre sequestra Gendry e tortura-o com sanguessugas em busca de sangue real para o sacrifício que acredita poder fazer de Stannis Baratheon rei do Trono de Ferro. Já Arya é raptada por Sandor “O Cão” Clegane, que a tenciona levar à presença de Robb Stark para exigir um resgate.

Bem a norte, para lá da Muralha, Jon Snow continua envolvido com Ygritte na possível formação de um exército misto de selvagens e homens da Patrulha contra a ameaça do “inverno” que está para chegar desde o primeiro episódio. Tarly, o mais gorducho e inapto dos guardas da Muralha, mostra-nos que, afinal, é possível matar os mortos-vivos: um golpe de vidro de dragão e os Caminhantes Brancos explodem em mil bocadinhos. A leste, Daenerys Targaryen compra todo o exército dos 8000 Imaculados, soldados de elite castrados e que lutam sem nada terem a perder, a troco de um dos seus dragões; mais tarde, reavê o dragão e dá a escolher aos Imaculados ficarem ao seu serviço ou partirem em liberdade – eles escolhem ficar com a “Mãe dos Dragões”, cada vez mais poderosa e carismática, agora também com a cidade de Yunkai a seus pés.

A terceira temporada ensina-nos, logo a abrir, que, à fatalidade de “Valar Morghulis”, se responde: “Valar Dohaeris”, e ficamos logo todos muito mais descansados. Para aqueles –poucos – que, porventura, estejam com o Alto Valiriano mais enferrujado, isto significa, obviamente, que “Todos os homens têm de servir”.

Ficamos ainda a saber como foi que Varys ficou eunuco, em criança, e como mantém cativo o feiticeiro que o fez assim (há muito eunuco nesta terceira série, agora que reparamos nisso. Há mais eunucos que dragões). Tyrion e Sansa casam, para desgosto da própria Sansa e de Shae, a amante de Tyrion – mas Tyrion, que é cada vez menos um dos maus, jura a Sansa não consumar o casamento até ela assim o querer.

No fim da temporada, Roose Bolton é nomeado guardião do Norte, Jaime Lannister volta, finalmente, a reunir-se com Cersei em King’s Landing e, basicamente, tudo parece perdido.

O que acontece no episódio 9: É o dia do casamento entre Edmure, tio de Robb, e Roslin, filha de Frey – aliás, o dia do “red wedding”. Tudo parece correr bem até que. A banda começa a tocar a canção dos Lannister e aprendemos a temê-la como a nenhuma outra. Em segundos, começa a carnificina… Os homens de Frey matam Talisa, esfaqueiam-lhe a barriga, grávida de muitos meses, e degolam Catelyn, a mãe Stark. Depois, o próprio Roose Bolton vira a casaca e mata Robb Stark, o herói que achávamos que ia restabelecer a justiça e vencer isto no fim. Sim, aconteceu tudo outra vez. N’ “A Guerra dos Tronos”, não se pode confiar em ninguém; muito menos nos autores.

Quem é o rei? Joffrey Baratheon

Quem é o herói? Daenerys Targaryen

A quem arrancávamos os olhinhos com uma colher de plástico? Walder Frey

Baixas a lamentar: Robb Stark, Catelyn Stark e Talisa Maegyr

Lesões: Fim da linha para a mão direita de Jaime Lannister. E para as vergonhas (expressão vintage) de Theon Greyjoy

Temporada 4

Talvez a melhor temporada até hoje – e a mais letal, embora estes dois aspectos não estejam necessariamente relacionados. O grande acontecimento na capital é o casamento do rei Joffrey com a jovem Margaery Tyrell. Tudo corre bem até ao copo de água, altura em que Joffrey morre esbugalhado e cheiinho de veneno até às unhas, em que todos saltámos no sofá lá de casa, qual Tom Cruise na Oprah, com a diferença de que nós tínhamos realmente uma vontade maluca de pular. A emérita responsável foi a cidadã dona Olenna Tyrell, avó da noiva, mas ninguém sabe disso para já. De modo que as culpas são atiradas a Tyrion, que, apesar do metro e pouco de altura, já tem as costas largas nestas coisas. Atraiçoado e abandonado por toda a gente, incluindo a amante Shae, em tribunal, exige, pela segunda vez em “GoT”, um julgamento por combate.

Oberyn Martell, príncipe de Dorne que deseja vingar a morte da irmã, violada e assassinada por gente dos Lannister, combate em sua representação contra o Montanha, cavalheiro parecido com uma betoneira, mas menos afável. Oberyn começa por dominar o combate, mas acaba com os miolos a espirrarem-lhe pelos ouvidos, depois de Montanha lhe partir o crânio enfiando-lhe os dedos nos olhos enquanto confessava os seus crimes, incluindo os que à irmã de Oberyn diziam respeito. Condenado à morte por Tywin, seu próprio pai, Tyrion evade-se com a ajuda do irmão Jaime – cada vez mais, um dos bons – , mata Shae, que afinal andava a dormir com Tywin e o próprio Tywin, numa cena épica, quando este está sentado no mais real dos tronos: a retrete, para depois fugir, com a ajuda de Lord Varys, rumo às cidades livres.

Sansa, por seu turno, escapa de King’s Landing com a ajuda de Lord Baelish e é levada para o Ninho da Águia, que é uma localidade no Vale a que já aqui nos referimos e não um restaurante na zona do centro de estágios do Benfica, que dispõe de tv cabo, sala para grupos e serviço de mini-pratos. Apresentada como sobrinha de Baelish, não lhe fica bem ser vista aos beijinhos com o “tio” pela anfitriã, Lysa Arryn – azar de Lysa, que acaba atirada da Porta da Lua por Baelish. Continuando na família Stark, Arya parte para a cidade livre de Braavos, em busca de Jaqen H’ghar, depois do seu captor/companheiro de viagem Sandor “O Cão” Clegane ser deixado às portas da morte por Brienne de Tarth, encarregada por Jaime Lannister de recuperar e pôr em segurança as órfãs Stark. Quanto a Bran, continua a sua estranha digressão pelo Norte com os amigos em busca do Corvo de Três Olhos, numa camada da história que anda ali sempre perigosamente entre a aventura infanto-juvenil e o documentário acerca dos efeitos nefandos do consumo de ácidos.

Entretanto, para garantir o domínio sobre Winterfell, Roose Bolton entrega aos seus homens a missão de capturar e matar a descendência masculina restante de Ned Stark, que é o mesmo que dizer: o bastardo Jon Snow e os pequenos Bran e Rickon Stark. Em Essos, Daenerys Targaryen liberta a terceira cidade escrava: Meereen. Tendo em conta as conquistas de Yunkai e Astapor, era agora rainha de toda a Baía dos Senhores dos Escravos, mas enfrenta as primeiras dificuldades de tentar ser uma líder realmente democrática: as tentativas de traição, as insurreições, as queixas dos populares, que, entre outros, começam a perder os filhos para a ira dos dragões.

Os Selvagens carregam sobre a Muralha e a Patrulha da Noite contra-ataca como pode, com Jon Snow num papel ambíguo entre as razões de Estado e as do coração.

Longe dali, na capital, Bronn treina a mão esquerda de Jaime Lannister para que este possa voltar a combater; Tommen, o mais pequeno dos filhos da relação incestuosa de Cersei com Jaime, mas, em termos oficiais, um Baratheon, sobe ao trono; e a velha Olenna, antes de partir, instrui a neta Margaery para casar com o novo rei, ainda que seja apenas uma criança, e o irmão do seu falecido esposo.

Na Muralha, Stannis Baratheon vem em socorro de Jon Snow e salva a Patrulha de uma humilhante derrota perante a tentativa de invasão dos Selvagens do mundo “civilizado” de Westeros.

O que acontece no episódio 9: A grande Batalha do Castelo Negro. Milhares de figurantes e de computer-generated imagery, incluindo gigantes de muitos metros. Os Selvagens carregam sobre a Muralha e a Patrulha da Noite contra-ataca como pode, com Jon Snow num papel ambíguo entre as razões de Estado e as do coração. Tudo há-de acabar da pior maneira para Jon, que tem de ir para lá da Muralha matar o “rei” selvagem Mance Rayder, que sempre respeitou e admirou. E só não é morto pela namorada Ygritte porque o jovem Olly, a quem os Selvagens mataram o pai, a mata primeiro, pondo-lhe uma flecha no coração.

Quem é o rei? Tommen Baratheon

Quem é o herói? Tyrion Lannister

A quem arrancávamos os olhinhos com uma colher de plástico? Gregor “Montanha” Clegane

Baixas a lamentar: Lysa Arryn, Joffrey Baratheon, Oberyn Martell, Tywin Lannister, Shae, Mance Rayder, Ygritte e mais uma quanta rapaziada da Patrulha da Noite

Lesões: Sandor “O Cão” Clegane, a quem já não bastava ter metade da cara queimada, levou agora ainda com mais uns quantos golpes de espada de Brienne de Tarth

Temporada 5

É a temporada mais fraca e a primeira em que ficamos com a sensação de que os criadores da série podem não saber, exactamente, para onde vão. Os episódios 5-01 a 5-10 são escritos a partir do que sobra de “A Feast for Crows” e “A Dance with Dragons”, respectivamente, quarto e quinto ou, dito de outro modo, penúltimo e último livros da saga. George R. R. Martin continua sem parir um volume desde que a série estreou e se tornou no maior acontecimento da televisão desde – vejamos – a invenção da televisão e, volta e meia, começa a parecer que os argumentistas estão – ó manobra mortal – a encher chouriço. Entra em cena uma nova localização – Dorne – que não interessa ao menino Jesus e que será rapidamente descartada na temporada seguinte. E começa a explorar-se o pano de fundo religioso da série, que, porém, fica ali na corda bamba entre o sim senhor, isto ainda é mais denso e interessante do que pensávamos, e o pantanoso.

Lancel Lannister, sobrinho e ex-amante da rainha-mãe Cersei, regressa à capital, agora como fervoroso membro dos Pardais, os guardiães da velha Fé dos Sete. Achando que lhes podem convir no duelo com as aspirações da jovem rainha (e nora) Margaery e restante clã Tyrell, Cersei dá-lhes poder – até que lhe escapam ao controlo. Impondo o puritanismo na capital dos Sete Reinos, os Pardais julgam e condenam Loras por actos homossexuais, a rainha Margaery, por ter mentido perante o tribunal para defender o irmão, e, finalmente, a própria Cersei, por incesto com o sobrinho Lancel. A temporada acaba com uma célebre cena em que a rainha-mãe é levada nua perante a população, enquanto lhe gritam, repetidamente, “Vergonha!”, “Vergonha!”, e escarnecem de toda a forma e feitio.

No Norte, Jon Snow é eleito comandante da Patrulha do Norte e, nessa condição, conduz o polémico acordo com os Selvagens, para que, pela primeira vez na história de Westeros, venham viver para cá da Muralha, e, juntos, se defendam da iminente chegada dos mortos – o infame inverno, que há tanto está para chegar. Em combate directo com os Caminhantes Brancos, Snow mata um deles com a sua espada de aço valiriano, o que já nos dava uma segunda forma de aniquilar estes zombies que, comparados com os “walkers” de “Walking Dead”, são mais ou menos como uma selecção de Cristianos Ronaldos a jogar contra a associação recreativa da Casa de Repouso de Vila Nova do Zombie. Só que não. Ainda Snow e os Selvagens que se lhe aliaram estão a virar costas e já o Rei da Noite (não um pato bravo que tem muitas discotecas em Albufeira, mas o líder dos mortos-vivos) o ressuscita sem dificuldade. Sem a protecção do velho Mestre Aemon Targaryen, entretanto falecido, Snow é, ainda por cima, uma presa cada vez mais exposta à facção da patrulha que contesta as suas opções.

A temporada termina com a cena que bloqueou a internet no dia seguinte: Jon Snow é traído por um grupo de companheiros da Patrulha da Noite, atraído a uma cilada, e assassinado, cobardemente, pelo jovem Olly. Mas todos sabíamos – de alguma maneira, sabíamos – que as coisas não iam ficar por aqui…

Em Winterfell, Ramsay substitui, oficialmente, o odioso rei Joffrey no nosso coração. O bastardo de Roose Bolton, um dos carrascos dos Stark, casa com Sansa, numa manobra de Lord Baelish para aliar os Bolton ao Vale. Ramsay não desaponta e violenta Sansa física e psicologicamente, diante do impotente Theon, a quem agora trata apenas por “Fedor”. No Sul, que é o mesmo que dizer o extremo oposto de Westeros, Jaime Lannister e Bronn vão a Dorne tentar resgatar Myrcella, a filha de Cersei, mas esta acaba envenenada por Ellaria, a viúva de Oberyn Martell, que ali tem, finalmente, a oportunidade de se vingar. Na cidade livre de Braavos, onde passamos cada vez mais tempo, Arya quer entrar para os Homens sem Nome e aprender-lhes os dotes de assassinos letais. Para isso, porém, tem de abdicar de tudo quanto é e tem – nome, objectos pessoais, paixões. Mas a jovem Stark, que temos visto crescer desde o primeiro episódio, deixa-se levar pelo ódio quando avista Meryn Trant num bordel e ajusta contas com o antigo guarda real que lhe matou Syrio, o professor de esgrima, esfaqueando-o repetidamente na garganta e no peito. O Deus das Muitas Caras não está pelos ajustes e castiga-a duramente tirando-lhe a visão…

Quanto ao nosso novo herói, Tyrion, segue viagem com Varys por Pentos, Volantis, pela mítica Valíria, capital colapsada do império antigo, e acaba capturado por Jorah Mormont, que o leva, afinal, aonde quer: a Meereen, à presença de Daenerys Targaryen, a quem oferece como compensação pelas falhas passadas. Em Meereen, contudo, está o caos, com os Filhos da Hárpia a revoltarem-se contra a autoridade de Daenerys e a rainha a aceitar os serviços de Tyrion como seu conselheiro.

A temporada termina com a cena que bloqueou a internet no dia seguinte: Jon Snow é traído por um grupo de companheiros da Patrulha da Noite, atraído a uma cilada, e assassinado, cobardemente, pelo jovem Olly. Mas todos sabíamos – de alguma maneira, sabíamos – que as coisas não iam ficar por aqui…

O que acontece no episódio 9: Lutando desesperadamente contra as tropas dos Bolton, Stannis Baratheon sucumbe à mais imperdoável das tentações: sacrifica a própria filha, Shireen, já que a bruxa Melisandre há muito lhe garante que só o sacrifício de sangue real fará dele automaticamente rei. A ganância conduzirá, directamente, à queda de Stannis em desgraça: perdida a filha, a mulher mata-se e as suas tropas desertam, acabando Stannis capturado e, eventualmente, morto por Brienne de Tarth (a verdade é que nunca se vê o golpe). Entretanto, em Meereen, quando tudo parece perdido para Daenerys, cercada num poço de combates pelos Filhos da Hárpia, eis que Drogon, o maior e mais imprevisível dos seus dragões, surge para a salvar e levar de volta aos Dothraki, numa fuga épica, sobre a multidão atónita.

Quem é o rei? Tommen Baratheon

Quem é o herói? Jaime Lannister, Jorah Mormont, Brienne de Tarth

A quem arrancávamos os olhinhos com uma colher de plástico? Ramsay Bolton

Baixas a lamentar: Mestre Aemon, Shireen Baratheon, Selyse Baratheon, Stannis Baratheon (?), Myrcella Baratheon, Meryn Trant e Jon Snow

Lesões: Arya fica cega; Jorah Mormont contrai a doença dos homens de pedra, contágio fatal que começa por ir endurecendo e matando a pele.

Temporada 6

A sexta temporada começava com apreensão. Depois da perda de fulgor no quinto andamento, era o teste decisivo à vitalidade de “A Guerra dos Tronos”, sobretudo agora que, pela primeira vez, não havia livro de George R. R. Martin em que se basear – apenas as ideias do futuro (hipotético?) “The Winds of Winter”, partilhadas e discutidas com os produtores. O começo foi tudo menos auspicioso, com a bruxa Melisandre a ressuscitar Jon Snow com umas palavrinhas mágicas e nada mais, como todos os fãs haviam previsto durante os longos meses de espera (ficamos também a saber que, quando a atraente Melisandre tira o colar, se transforma numa senhora, digamos, pelo menos tão velha quanto a Sé de Braga – e uma pessoa que já dava o desconto da maquilhagem…). Quem diria que dali embalaríamos para uma temporada de regresso ao melhor nível “GoT”, com Jon Snow a assumir, talvez definitivamente, o papel de Luke Skywalker desta brincadeira?

Na Muralha, Snow executa os seus assassinos, que é um luxo a que nem toda a gente pode dizer que se tenha dado, mesmo considerando as personagens de ficção. Foi a oportunidade de dar mais uns mortais no sofá, quando Alliser Thorne foi, finalmente, ter com os Sete Deuses Nossos Senhores. Assumindo as suas falhas, Lord Snow renega o cargo e o juramento e deixa a Patrulha para assumir o destino que há tanto tempo o aguarda: ser rei do Norte e assumir o comando da luta contra os Lannister. Para isso, porém, precisa primeiro de derrubar os Bolton, que controlam, presentemente, o Norte. Mas uma das novidades que a sexta temporada traz é que os Stark parecem, finalmente, ter parado de sofrer: de maneira que os irmãos sobreviventes começam, enfim, a reunir-se e ajudar-se. Sansa, com o apoio de Baelish, junta as casas poderosas do Norte e do Vale para ajudarem Snow e os Selvagens no campo de batalha; e mais à frente, será Arya a regressar. A jovem Stark acaba condenada à morte pelos Homens sem Rosto, mas, na verdade, é ela quem mata a sua executora e renega a organização, deixando Braavos para se reassumir como Stark e acabar a temporada a vingar a família, matando Walder Frey e demais cúmplices do “casamento vermelho”.

Em Essos, Danaerys domina a rebelião dos senhores que tentavam reinstalar a escravatura e parte para Westeros, para finalmente reclamar o Trono de Ferro, com os seus dragões, os seus Dothraki, os seus Imaculados, e ainda os apoios angariados por Tyrion e Lord Varys, os Tyrell, Ellaria Sand e até o de uma nova e memorável sacerdotisa vermelha de seu nome Kinvara (Kinvara Marisa, anda cá ao pai).

Baixas a lamentar? Ora bem, ehem: Tommen Baratheon, Rickon Stark, Margaery Tyrell, Loras Tyrell, Mace Tyrell, Kevan Lannister, Lancel Lannister, Doran Martell, Trystane Martell, Alto Pardal, Roose Bolton, Walda Bolton, Ramsay Bolton, Walder Frey, Hodor, the Waif, Olly, Alliser Thorne e o Corvo de Três Olhos, só para citar aqueles de quem sabemos o nome.

Para lá da Muralha, Bran Stark dá largas à camada mais new age, zen, freak, esotérica, o que quer que lhe queiram chamar, de “A Guerra dos Tronos”. Regressado depois de uma temporada de ausência e em plena fase mutante da puberdade, adquiriu novos poderes e consegue agora ver o passado e o futuro de Westeros. Nas visões, revela-nos que Jon Snow não é, afinal, filho de Ned Stark, mas o bastardo que Lyanna Stark teve do príncipe Rhaegar Targaryen e que Ned adoptou depois da morte da irmã, durante a rebelião do rei Robert. As visões, contudo, abrem também uma espécie de portal aos Caminhantes Brancos (que Bran compreende agora terem sido criados pelas Crianças da Floresta para se protegerem dos Primeiros Homens – o que quer que isto queira dizer) que, assim, conseguem segui-lo e matar o velho Corvo de Três Olhos e, numa das mais memoráveis cenas das seis temporadas de “GoT”, o fiel servidor Hodor (num lance que, de resto, mostra que, n’ “A Guerra dos Tronos”, a lógica temporal entre passado, presente e futuro, pode estar longe de ser algo linear).

Todavia, o final épico está guardado para King’s Landing. Na capital dos Sete Reinos, há muito que sabemos que Cersei Lannister se vai vingar da humilhação do fim da temporada anterior – só não sabíamos quando, nem como. A verdade é que, ao contrário da ressurreição de Jon Snow, a vingança de Cersei supera todas as expectativas. Ela vai, pura e simplesmente, fazer explodir o Grande Septo de Baelor – a Basílica de São Pedro, digamos assim, da Fé dos Sete – com toda a gente lá dentro: o Alto Pardal, os pardais todos, o sobrinho Lancel, o primo Kevan, a nora Margaery, o compadre Mace Tyrell, quem quer que lá estivesse. E como o faz? Usando as velhas reservas de fogo selvagem das caves da cidade, como fez Tyrion, na longínqua Batalha da Água Negra. A explosão causa ainda mais uma vítima, indirecta, mas, porventura, a maior: o filho de Cersei, aliás, rei Tommen, que não resiste ao sofrimento perante a tragédia e se lança da janela do palácio, deixando assim o caminho livre para que a mãe, que, desde o início é a rainha na sombra, assuma finalmente o trono de ferro.

O que acontece no episódio 9: É o dia da épica Batalha dos Bastardos. Ganancioso até ao ponto do grotesco, Ramsay matou o pai, Roose, a madrasta, Walda, e até o meio-irmão recém-nascido, para, assim, se tornar, sem concorrência, senhor do Norte. Mas agora vai ter que disputar esse título com os Stark. Reunidos no campo da batalha porventura mais espectacularmente filmada de “A Guerra dos Tronos”, Ramsay ainda inflige o primeiro golpe – a morte de Rickon, o jovem Stark que andava nesta história desde o início sem uma personagem propriamente dita, só à espera de morrer – mas com o apoio surpreendente de Sansa, Baelish e dos cavaleiros do Vale, Jon Snow vira o jogo e acaba aclamado rei do Norte. O episódio não termina sem os criadores nos fazerem o gosto de porem Sansa a dar Ramsay a comer aos seus vorazes cães de guarda.

Quem é o rei – aliás, rainha? Cersei Lannister

Quem é o herói? Jon Snow

A quem arrancávamos os olhinhos com uma colher de plástico? Edmure Tully (um sonso que tem escapado entre as gotas da chuva desde o “red wedding”)

Baixas a lamentar: Ora bem, ehem: Tommen Baratheon, Rickon Stark, Margaery Tyrell, Loras Tyrell, Mace Tyrell, Kevan Lannister, Lancel Lannister, Doran Martell, Trystane Martell, Alto Pardal, Roose Bolton, Walda Bolton, Ramsay Bolton, Walder Frey, Hodor, the Waif, Olly, Alliser Thorne e o Corvo de Três Olhos, só para citar aqueles de quem sabemos o nome.

Lesões: Quem não morreu, está aí para as curvas. Pela primeira vez, vamos começar a nova temporada com todo o plantel à disposição.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).

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