Uma bienal para que os artistas se percam: começa agora a BoCA

17 Março 2017

Vhils num palco, Salomé Lamas vai ao teatro, Tânia Carvalho chega ao desenho. A primeira edição da bienal BoCA, em Lisboa e no Porto, faz-se de experimentação e há portugueses em novos territórios.

Estão inseguros quanto ao resultado das suas criações mas não só porque a incerteza é parte integrante de todo o processo criativo. Inseguros também por estarem, pela primeira vez, a usar linguagens artísticas, ou até locais, a que estão pouco ou nada habituados. São os portugueses da BoCA, a muito aguardada bienal de artes contemporâneas cuja primeira edição começa nesta sexta-feira, 17, e se prolonga até 30 de abril, em Lisboa e no Porto.

Do vasto programa, com mais de 60 propostas, o Observador falou com artistas portugueses conhecidos do grande público que desta vez associam o nome a territórios artísticos que lhes são mais ou menos inóspitos. A saber: a realizadora Salomé Lamas, o ator e encenador John Romão, a dupla de artistas plásticos João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, a coreógrafa Tânia Carvalho e o artista urbano Vhils.

Com direção artística de John Romão, a bienal tem como premissa a exibição de objetos artísticos novos. Fundamentalmente, gente das artes de palco a fazer artes visuais e vice-versa (mas não só). A experimentação é o princípio.

A BoCA faz o “elogio do provisório, do temporário, do diferente, do transitório, do irregular, do incomum”, disse o diretor artístico no discurso de apresentação do programa, em inícios de Fevereiro.

Na bienal BoCA uma “pen drive” cimentada é arte contemporânea

“Toda a arte contemporânea fala esta linguagem animal, secreta, visceral, universal. Precisamos dos museus, teatros, galerias, discotecas. Estes espaços são os novos templos de uma sociedade que é hoje confrontada com reformulações e ameaças aos pilares da democracia, com a emergência de ideologias extremas que fazem a propaganda do medo e da incerteza”, sublinhou.

Esta semana, em conversa com o Observador, John Romão acrescentou que a bienal “não é necessariamente, e apenas, um espaço para os artistas operarem fora da sua zona de especialização”. É isso e um pouco mais. É um “contexto de diálogo entre territórios artísticos e instituições culturais, porque também há artistas na BoCA a trabalharem dentro da sua linguagem habitual, dando-se o deslocamento a nível do contexto de apresentação”. Por exemplo: um artista plástico que se apresenta num teatro.

“Não há aqui regras, estamos a tentar fugir das convenções, por isso não queremos cair em novas convenções”, insistiu.

Nas próximas semanas, vamos ver trabalhos do argentino Rodrigo García, da alemã Ulla Von Brandeburg, do russo Kirill Savchenkov, do mexicano Héctor Zamora, do italiano Romeo Castellucci, da sueca Anastasia Ax, tantos outros. A nacionalidade dos criadores é hoje considerada irrelevante. Ainda assim, vale a pena observar de perto alguns portugueses que já nos são familiares (todas as informações e programação completa da BoCA aqui).

Tânia Carvalho

coreógrafa, apresenta uma exposição

O título da exposição parece remeter para uma cidade espanhola. Mas não. “Toledo”, da coreógrafa e bailarina Tânia Carvalho, é um conjunto de seis desenhos de grande formato, feitos ao correr da imaginação, como lucubrações a que a autora não quer dar importância.

“Sou de Viana do Castelo e lá a palavra ‘toledo’ significa ‘tolice’. Quem me conhece sabe bem que é uma palavra que uso muitas vezes. Estes desenhos são tolices que andam na minha cabeça, faço-os sem pensar no que estou a fazer, é como um descarregar de energia”, explica.

“Passo os dias a pensar coreografias, é normal que as desenhe, é o método mais eficaz. Neste caso, são tolices, talvez tenham alguma conotação psicanalítica. Sento-me, começo a desenhar sem intenção, saem de forma automática.”
Tânia Carvalho

Aos 40 anos, com uma visibilidade internacional assinalável e um ritmo frequente de criação coreográfica, Tânia Carvalho aceitou a proposta da bienal BoCA para mostrar as incursões que tem feito nas artes plásticas. Não é a primeira vez. Há um ano, por exemplo, quando da estreia em Marselha de “Glimpse – 5 Room Puzzle” (com Luís Guerra e Marta Cerqueira), exibiu desenhos a partir dos quais construiu aquele espetáculo. Na bienal, mostra inéditos, desligados de qualquer criação em dança.

“Nunca fiz uma coreografia a partir destes desenhos que vou exibir na BoCA, mas para fazer as minhas peças costumo desenhar, só que são desenhos menos artísticos do que estes”, conta. “Passo os dias a pensar coreografias, é normal que as desenhe, é o método mais eficaz. Neste caso, são tolices, talvez tenham alguma conotação psicanalítica. Sento-me, começo a desenhar sem intenção, saem de forma automática.”

Sempre em casa, com uma folha branca e uma caneta preta de desenho industrial. Às vezes numa mesa, outras vezes no chão. Há alguns anos usava aguarelas e outras tintas. Mas nada é por acaso. E, em rigor, a coreógrafa não está em território novo.

Tânia Carvalho por Rui Palma

“Depois do secundário cheguei a fazer o primeiro ano de Artes Plásticas na escola superior das Caldas da Rainha. Tinha dúvidas. Só depois é que fui estudar dança”, recorda Tânia Carvalho. “Mas acho que acontece com muitas pessoas: quando gostamos de criar, acabamos por estender isso a várias linguagens. Acho que é quase impossível uma pessoa que faz fotografia ou desenho não se expressar noutras áreas. Ficamos conhecidos por trabalharmos numa certa disciplina, mas acho que fazemos sempre várias coisas ou, pelo menos, pensamos nisso.”

“Toledo”, no Teatro da Politécnica, em Lisboa (18 de março a 1 de abril) e no Palacete dos Viscondes de Balsemão, no Porto (5 a 30 de abril)

João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira

artistas plásticos, criam um espetáculo de circo

Caso de artistas que na BoCA fogem totalmente ao que se espera deles é o da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, conhecidos por obras insólitas e provocadoras, marcadas por erotismo ou sexo explícito.

Precisamente: “Palhaço Rico Fode Palhaço Pobre”, título do espetáculo que vão apresentar, surgiu-lhes há alguns anos, quando pensaram fazer um filme pornográfico que desse sequência ao primeiro desse género que tinham feito: “Hero, Captain and Stranger”, exibido em 2009 no antigo Cine Paraíso (hoje Cinema Ideal, no Chiado).

Em vez de um porno com palhaços, criaram agora uma peça de teatro sobre o circo – com forte componente de texto. Já conceberam figurinos para peças de outros, já pensaram o aspeto plástico de vários espetáculos, desta vez são encenadores e autores.

Chen Tianzhuo. Abertura no Lux com “absurdo transgressivo”

Uma estreia mundial na primeira noite da bienal BoCA. O artista visual chinês Chen Tianzhuo apresenta nesta sexta-feira à noite um espetáculo de dança e música, descrito como uma “espécie de teatro do absurdo transgressivo”. É na discoteca Lux, em Lisboa, a partir das 23h00, com entrada a 10 euros.

Criador de instalações, vídeos e performances, Chen Tianzhuo, de 31 anos, é considerado um dos nomes promissores da arte contemporânea.

Estreou-se a solo na Europa em 2015, no Palais de Tokyo, um centro de arte contemporânea em Paris. Tem vindo a deixar marca em espaços pouco óbvios para um artista visual, sobretudo discotecas e clubes noturnos. No Berghain, em Berlim, apresentou há poucas semanas um espetáculo muito idêntico o que agora vai estrear no Lux.

Quem já viu diz que o imaginário de Chen Tianzhuo contém elementos religiosos do budismo e do cristianismo, referências à cultura rave e transformista, à cultura pop e aos “cartoons”, à dança butoh e ao vogueing.

O artista, ele próprio, não vai aparecer em cena. O espetáculo dura cerca de uma hora e foi criado para dois elementos do colectivo chinês Asian Dope Boys. São eles os intérpretes, conjugados com a música ao vivo da suíça Aïsha Devi.

“Eu próprio tenho grande expectativa, não sei bem o que vamos ver”, disse John Romão ao Observador. O diretor artístico da BoCA deu carta branca ao criador chinês. “Ele é difícil de definir, geralmente as pessoas dizem que se trata da coisa mais estranha que viram nos últimos tempos.”

“Não queríamos fazer teatro num palco, daí também termos optado pelo circo. A estrutura do nosso espetáculo segue a estrutura circense com números, como na lógica do teatro de revista: cenas separadas, mas com uma coerência”, explica Nuno Alexandre Ferreira, de 43 anos “Alugámos uma tenda tradicional de circo, há roulotes com pipocas, recriámos uma trupe de circo.”

O filme “Freaks” (1932), de Tod Browning, e “Os Palhaços” (1970), de Federico Fellini, são duas das referências que a dupla teve em conta, assim como obras do artista visual Ugo Rondinone ou até mesmo a performance de 2005 “Entering the Other Side” de Marina Abramovic, em que esta utilizava uma saia gigante em forma de tenda de circo.

“Elegemos o circo como reduto desviante da normatividade”, afirma Nuno Alexandre Ferreira. “Fomos a vários circos, falámos com muitas pessoas do circo, e percebemos que eles continuam a fazer uma socialização à parte das outras pessoas, ainda vivem em itinerância, um pouco isolados do resto da sociedade, com uma estrutura familiar muito forte, como se fossem clãs. A visão que têm do mundo é diferente.”

Ora, Vale e Ferreira procuram muitas vezes, nas suas obras, denunciar a assimilação, a normalização dos comportamentos e das identidades. “A nossa postura tem mais que ver com a defesa do direito a ser diferente do que à igualdade. Nesse sentido, a dramaturgia deste espetáculo procura exaltar a diferença, mais do que reclamar igualdade para minorias, sejam gays, negros, o que for.”

O tema constitui óbvia paixão intelectual para Nuno Alexandre Ferreira. Na conversa com o Observador, o artista alongou-se na dissertação: “No fundo, reivindicamos o direito a sermos monstros, não queremos os mesmos direitos nem os mesmos deveres, queremos estar fora do sistema. Porque às tantas, quando se fala das mais diversas temáticas, há uma coisa sempre presente: o lado económico da equação. De repente, a luta pelos direitos dos gays transforma-se na luta pela comunidade ‘queer’, que é mais abrangente, e por aí fora. Porque quanto mais abrangente for a comunidade, maior é o mercado constituído pela minoria. Quanto mais elementos forem assimilados pelo sistema, maior a hipótese de haver consumidores, o que é uma coisa autofágica.”

Em termos concretos, “Palhaço Rico Fode Palhaço Pobre” foi “muito desafiante” para a dupla. “Quando estava a escrever, entrei em pânico, porque criar um texto para ser dito obedece a regras próprias e não é uma coisa a que esteja habituado. Também não quis cumprir as regras só porque sim, quis perceber se me interessava ou não segui-las.”

João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira

Além disso, como artistas plásticos, Vale e Ferreira estão habituados a tomar decisões em conjunto, de maneira autónoma, a qualquer momento, mesmo a escassos dias da abertura de uma exposição. Neste caso, tinham elenco e equipa. O processo durou mais tempo do que numa obra plástica: cerca de um ano e meio.

“Qualquer mudança ou decisão implicou muito mais gente”, diz Nuno Alexandre Ferreira, mas o resultado final não deixa de ser uma obra plástica, entende. “Não consigo deixar de ver este espetáculo como instalação total, e gostava que ele fosse entendido assim, o que obviamente me escapa ao controlo. As pessoas vão ver isto como teatro, porque é esse o formato. Mas como artistas plásticos, tirámos partido da linguagem do teatro como se o teatro fosse a nossa matéria-prima para uma obra plástica.”

“Palhaço Rico Fode Palhaço Pobre”, no jardim do Museu da Cidade de Lisboa (31 de março, 1 e 2 de abril) e na Praça D. João I, no Porto (7 e 8 de abril).

Vhils

Artista urbano, estreia-se num palco

A sinopse diz que “Periférico” constitui um “assumido desvio conceptual” no trabalho de Alexandre Farto (conhecido pelo nome artístico Vhils) e que se trata da sua primeira criação de palco – neste caso, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB). É assim, em rigor, mas parece que não devemos esperar um espetáculo tradicional de palco.

O artista urbano, de 30 anos, diz que se trata de “um híbrido entre escultura, teatro e dança, uma peça multidisciplinar”. “Fiquei responsável pela parte visual, a imagética, e as outras pessoas trabalharam nas suas áreas, mas tudo funciona em simbiose.”

"O conceito da BoCA passa por nos tirar da nossa zona de conforto, mas o lugar de onde venho está presente no conceito da peça e o facto de estar no CCB não tira nada, só adiciona”
Vhils

De resto, a imagem de promoção do espectáculo, distribuída à imprensa pelos organizadores da bienal, não representa propriamente algum objeto que vá estar no CCB. O alto-relevo branco (a imagem principal no topo deste artigo) “representa a malha urbana a formar um rosto, ou seja, a ideia de que a periferia da cidade forma as pessoas, mas nem sempre as pessoas formam a periferia”, explica Vhils.

Anaísa Lopes (ou Piny), coreógrafa e bailarina de hip-hop, o rapper Chullage e ainda DJ Ride têm sido os co-criadores da obra.

Há dias, quando falou com o Observador, Vhils ainda não tinha uma ideia fechada sobre resultado, porque a obra estava ainda em construção. Mas os pressupostos estavam bem definidos.

“Estamos a navegar nas mesmas águas em que costumamos. O conceito da BoCA passa por nos tirar da nossa zona de conforto, mas o lugar de onde venho está presente no conceito da peça e o facto de estar no CCB não tira nada, só adiciona”, explicou.

Alexandre Farto, ou Vhils

“A peça tenta refletir o ‘background’ de muitos artistas do hip-hop, tenta contar a evolução do movimento em Portugal, em conjunto com as suas peculiaridades. Aborda o contexto socioeconómico de Portugal, desde o 25 de Abril de 1974, com a explosão da urbe e da periferia, e como isso influenciou esta geração a tentar criar e falar com a sociedade. É uma peça que tenta fazer uma homenagem a este percurso e à evolução que houve, com muita gente hoje a canta, tocar, dançar ou pintar em contextos mais clássicos.”

Neste sentido, a obra aparenta estar relacionada com um outro projeto para o qual Vhils foi convidado pela Câmara de Cascais: a abertura de um Museu de Arte Urbana, a que irá ceder obras de sua autoria. O museu também inclui elementos históricos desde 1974 até hoje e, segundo Vhils, tem abertura prevista para o próximo ano.

“Periférico”, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa (7 e 8 de abril).

Salomé Lamas

Realizadora, torna-se encenadora

Pode dizer-se que “Fatamorgana”, que Salomé Lamas apresenta no CCB, é um documentário de ficção sob a forma de espetáculo multimédia? Talvez. É ficção pura e dura, história onírica de uma mulher que dá por si fechada num museu de Beirute e subitamente tem de lidar com personagens históricas e contemporâneas que protagonizaram acontecimentos políticos fundadores. A mulher é Hanan, interpretada por Antónia Terrinha. O museu existe: é um museu de cera com figuras cinéticas, que falam, lugar “kitsch” nos arredores da capital do Líbano, que Salomé Lamas visitou no verão passado. E as figuras que ali aparecem são igualmente reais: Hosni Mubarak, Yasser Arafat, Bill Clinton, Donald Trump, Saddam Hussein, George W. Bush, Bashar al-Assad.

“É um espectáculo ultra-saturado de informação, o espectador é bombardeado”, resume Salomé Lamas, de 29 anos. “O que se pretendeu foi selecionar eventos, recortar fragmentos de história desde a queda do Muro de Berlim. As alianças políticas têm hoje padrões completamente distintos, o que conta é a ‘realpolitik’, porque no fundo os interesses são puramente económicos”, contextualiza.

Salomé Lamas

O texto que suporta a peça foi escrito a meias com a jornalista e escritora Isabel Ramos, porque “era importante que aquilo que as personagens dizem tivesse pendor real”. “Tudo o que as personagens dizem é retirado de uma fonte documental, não estamos a colocar palavras na boca delas, estamos a organizar o discurso, por isso diria que se trata de avatares.”

Hanan está praticamente sempre sozinha em palco. As personagens surgem num ecrã, não em imagem, mas em som, falando as suas línguas de origem. O dispositivo central é uma faixa de som, gravada, que acompanha a peça do princípio ao fim, pelo que Hanan está em diálogo com a faixa de áudio, ou seja, as personagens históricas.

Salomé Lamas – cujo documentário “Eldorado XXI” se estreou em Fevereiro nas salas portuguesas, ao mesmo tempo que ela voltou a ser umas das realizadoras portuguesas em competição no Festival de Berlim, com “Coup de Grâce” – fala desta estreia em palco com a habitual convicção com que descreve os filmes que realiza. Mas admite, meio a brincar, ter estado “completamente à rasca” na criação de “Fatamorgana”.

À procura de ouro nos Andes, Salomé Lamas encontrou um filme

“Por um lado, são os desafios orçamentais, porque o projeto tem uma escala desadequada ao orçamento que lhe foi alocado, o que condiciona sempre a parte criativa; por outro lado, a novidade de trabalhar com teatro, que tem todo um léxico distinto e comporta riscos: a contracena da personagem com a faixa de áudio e com a componente vídeo. Têm de estar em total sincronia, não pode haver imprevistos, porque não podemos parar a meio.”

“Fatamorgana” é, para já, um espetáculo da BoCA, mas em 2018 deverá ser também um filme (à espera de financiamento em França, através da produtora Les Films du Bal). São projetos irmanados, com o mesmo texto, mas um existe sem o outro.

“Fatamorgana”, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa (12 e 13 de abril).

John Romão

Encenador, faz de Romeu Runa uma escultura

“Não me interessa saber se sou eu a dirigir o intérprete, possivelmente até sou, mas ele também é criador”, resume John Romão, que além de diretor artístico da BoCA é um dos artistas que vão apresentar trabalho novo: “Que Difícil é ser um Deus”, assim se chama, misto de performance e instalação. “Neste caso a definição de papéis não é interessante, o interessante é o espaço e o corpo, no fundo é uma criação ‘site-specific’.”

Ora, o espaço é o Pavilhão Branco do Museu de Lisboa (antigo Museu da Cidade), sendo a obra observada pelo público através de uma grande janela voltada para o jardim do museu: espectadores dentro, obra fora. “Quero que as pessoas olhem para fora, o que é um dispositivo que já está a propor algo na relação com a obra”, descreve, em conversa com o Observador

"Há muito tempo pensava criar assim, num local em branco, com poucos recursos, achei que o corpo seria a melhor matéria, em particular o corpo do Romeu Runa, que é uma escultura, pela dimensão, pela fisicalidade, pela linguagem que foi desenvolvendo ao longo dos anos.”
John Romão

Quanto ao corpo, é do bailarino português Romeu Runa, ex-Ballet Gulbenkian, mais recentemente conhecido pelos trabalhos com o coreógrafo belga Alain Platel.

“Interessou-me sempre o percurso dele”, conta John Romão, de 33 anos. “Tem um lado plástico muito atraente para criadores fora do território da dança; no meu caso, enquanto encenador. Como estou a criar para um espaço em que nunca trabalhei, uma galeria, e há muito tempo pensava criar assim, num local em branco, com poucos recursos, achei que o corpo seria a melhor matéria, em particular o corpo do Romeu Runa, que é uma escultura, pela dimensão, pela fisicalidade, pela linguagem que foi desenvolvendo ao longo dos anos.”

O encantamento artístico parece em estado de graça. Prossegue o artista: “O trabalho dele não se confunde, de todo, com o trabalho de outro bailarino, não tem um género, há uma plasticidade muito sedutora. Não por acaso, a artista flamenga Berlinde De Bruyckerea escolheu-o como modelo das suas esculturas e têm trabalhado noutras criações.”

John Romão

Em Fevereiro passado do ano passado, John Romão foi “de propósito” a Nova Iorque para ver na galeria de arte moderna Hauser & Wirth uma exposição da artista flamenga que incluía uma performance criada em conjunto com Romeu Runa.

“Que Difícil é ser um Deus” não tem texto, é obra silenciosa. “Tem um tempo longo para permitir que se observe com detalhe, interessa-me focar num movimento escultórico.”

Nas outras criações, as mais recentes sobretudo, em torno da obra de Pier Paolo Pasolini, John Romão apresentava o corpo dele e dos intérpretes como objeto central, como problema erótico e político. Agora, com a nova proposta, “não falamos da representação do corpo, mas de desaparecimento, uma coisa pós-humana”, classifica. Será preciso ver para entender.

“Que Difícil é ser um Deus”, Pavilhão Branco do Museu de Lisboa (26 de abril).

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