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Vinte anos de OK Computer, o disco que destruiu o rock’n’roll para sempre

16 Junho 2017651

Assinalar os 20 anos do terceiro disco dos Radiohead pede afirmações inflamadas. Cá vai: OK Computer foi o último grande disco de rock'n'roll e é possível que o género esteja moribundo desde então.

Durante anos Thom Yorke foi de porta em porta explicar às pessoas que “Creep” era uma má canção. A obsessão era de tal ordem que o vocalista e principal compositor dos Radiohead tentou subornar o Papa de modo a que este, em vez de dizer “Amen”, inserisse a frase “A ‘Creep’ é uma má canção e não uma boa canção” nas suas homilias. O plano não resultou porque o Papa era fanático de “Creep” que, estava em crer, era uma óptima canção.

OK, humanos: nada disto é verdade. A patranha acima foi narrada faz hoje dois anos pelo Clickhole, um site de humor, para assinalar os 18 anos da edição de OK Computer. O Clickhole é uma criação dos donos do The Onion e pretende fazer humor gozando com os media digitais e as redes sociais da web 2.0.

É uma demonstração do estatuto que os Radiohead atingiram que a publicação tenha escrito uma “história oral da feitura de OK Computer” em que faz pouco da imagem pública de Thom Yorke: um sujeito que despreza a sua própria popularidade, que torna as coisas propositadamente difíceis para si mesmo, embrenhado em ideias negras e geek: não é suposto que sites populares de humor percam tempo com bandas como os Radiohead.

O terceiro disco dos Radiohead foi lançado em maio de 1997

Já perceberam que este é um texto a celebrar os 20 anos de OK Computer? Óptimo, assim sendo peço perdão de antemão mas lá terá de ser, as regras obrigam a que faça afirmações assertivas e inflamadas e aí vem a primeira: OK Computer foi o último grande disco de rock’n’roll, o último grande disco de guitarras e é muito possível que o género esteja moribundo desde então – isto se OK Computer ainda for rock’n’roll, isto se OK Computer não tiver sido um esforço consciente para fugir do rock’n’roll na sua matriz básica – guitarras, raparigas e drogas.

Isto se OK Computer der assim tanta importância às guitarras.

Um disco ou uma peça de museu?

O tempo tornou OK Computer tão iconográfico que de certo modo se tornou em peça de museu; mas na altura não era óbvio que este fosse o destino do terceiro disco dos Radiohead: na altura uma parte da humanidade não sabia bem o que fazer com OK Computer, embora uma parte de nós o tenha de imediato tatuado na rede neuronal como espécie de mapa sem saída para o caos que vivíamos então, embora uma parte de nós o tenha de imediato adoptado como “O” disco, e o tenhamos erguido à condição de monumento.

Talvez não se recordem mas este monstro foi alvo de bastos ataques: quando lhe chamavam “disco conceptual” (que o é) não pretendiam elogiá-lo – isto era coisa que se dizia apenas de relíquias balofas como os vinis dos Pink Floyd que ganhavam pó na discografia dos nossos tios que tinham a mania que sabiam de música. Chamaram-lhe o regresso do rock progressivo, porque não sabiam o que fazer com as quatro canções que havia dentro de Paranoid Android, o primeiro single. E claro que isto também era insulto – OK Computer foi alvo de muito bullying e ainda hoje há uma secção de pessoas (que, obviamente, não foram iluminadas) que cismam que o grande disco dos Radiohead é The Bends, o álbum imediatamente anterior a OK Computer.

Amnesiac.)

É de facto mentira que fosse um disco conceptual balofo ou a última emanação do rock progressivo: o progressivo tinha demasiadas notas e era manifestamente pouco centrado na canção; “Paranoid Android”, mesmo quando fugia da canção (tradicional, melódica) sabia como e quando voltar ao chão. Esse é, aliás, um dos méritos de OK Computer: o seu tema pode ser o da alienação, mas nunca perde de vista a melodia e sabe quando regressar à Terra.

Com OK Computer os Radiohead alcançaram um feito que não se via desde a década de 70 – criar um disco que não é apenas um disco, é uma obra de arte, um manifesto, um colosso. Isto era claramente algo que eles desejavam: até então os Radiohead eram vistos como a banda de "Creep", êxito inesperado do primeiro e anódino disco, que muito desgostava Thom Yorke.

“Paranoid Android” anunciava de facto alguma coisa. Com as tais quatro canções numa só dizia que OK Computer estava cheio, repleto de ideias e disposto a arriscar tudo – simplesmente não se fazem singles de seis minutos e trinta e oito segundos com não sei quantas partes diferentes e uma visão negríssima da humanidade que culminava naquele amarguíssimo “God loves its children” antes de uma explosão de guitarras.

De certa maneira, com OK Computer os Radiohead alcançaram um feito que não se via desde a década de 70 – criar um disco que não é apenas um disco, é uma obra de arte, um manifesto, um colosso. Isto era claramente algo que eles desejavam: até então os Radiohead eram vistos como a banda de “Creep”, êxito inesperado do primeiro e anódino disco, que muito desgostava Thom Yorke (pondo-o a jeito para futuros gozos do Cickhole). Mesmo The Bends não aletrou essa percepção pública por completo. A honestidade obriga-nos a reconhecer que sim, é verdade que OKC é pomposo, excessivo, dramático – só que o seu génio é tal que sobrevive a cada um destes defeitos de forma sumptuosa.

Não estou a querer insultar os Radiohead ao chamar a OKC “pomposo”; o facto de amarmos alguém não apaga os defeitos que essa pessoa tem. Do mesmo modo, OKC é uma obra de génio, mas é efectivamente pomposo. Estranhamente, isso à época funcionou a favor dos Radiohead – num meio que, apesar dos vídeos e das roupas e das coreografias, é muito pouco sofisticado, os Radiohead, com a sua postura-tudo-pelo-futuro-da- música-nada-pela-mundanidade ganharam crédito de “artistas”.

Pensem por um instante em “Fitter Happier”, tema em que uma voz robotizada repete, de forma mecânica, frases de “auto-ajuda” mas que extirpam o ser humano de qualquer tipo de emoção.Um advogado musical sabido conseguiria de facto montar um caso a favor de “Fitter Happier”, que termina com a frase “A pig in a cage on antibiotics”, que funciona como resumo do que é um homem, como a peça central de OK Computer, o culminar da desumanidade anunciada nas entrelinhas de cada compasso desta distopia.

Os Radiohead em abril deste ano, no Coachella. © AFP/Getty Images

Quem imaginava, em 1997, que se podia fazer um disco com algo que se assemelhasse a “Fittier Happier” e mesmo assim apelar às massa? Algo tão amargo e aparentemente tão pouco musical mas que, ouvido de perto, tem tanta música (em particular, uma qualidade cinemática que ecoa as bandas-sonoras dos filmes de paranóia americanos da década de 70)? No estado da indústria musical de então, isto era altamente improvável.

Esta era a banda que poucos anos antes ficara conhecida pelo doce-ruidoso-doce de “Creep” – e OK Computer não podia estar mais longe dessa simplicidade. Podemos defender que todo o percurso dos Radiohead a partir de “Creep” foi uma reacção à imediatez desses três imaculados minutos, uma rejeição do mais óbvio do rock’n’roll.

Os anos anteriores a “Creep” tinham como matriz Nevermind, dos Nirvana, que por sua vez tinha como matriz o esquema lento-explosivo-lento herdado dos Pixies. Nessa época, em que as guitarras ainda eram importantes, os Nirvana haviam conseguido o milagre de levar o ruído e a má onda às massa. Nevermind fora editado apenas seis anos antes, em 1991; quando OK Computer saiu era impossível adivinhar que os tops seriam, 20 anos depois, dominados pelas Ariana Grandes deste mundo.

Há uma linha a unir Nevermind e OK Computer – talvez não tanto para quem nasceu depois da década de 70, claro, porque a música popular tem sempre uma dimensão sociológica. Mas são, indubitavelmente, os discos-charneira da geração que era adolescente ou estava no início da juventude quando ambos os discos saíram.

Nevermind era angústia adolescente, niilista e condensada ao ponto da explosão; Ok Computer era essa angústia, na entrada da idade adulta, já não explosiva, antes causadora de dispersão psíquica como uma droga marada. De certa maneira Ok Computer dizia-nos que a angústia de Nevermind – a angústia de Creep – era adolescente e inútil: todos acabaríamos por ser “a pig in a cage on antibiotics”. De certa maneira Ok Computer esgravata desesperadamente à procura de uma manifestação real e concreta de zanga.

Quando os Radiohead se atiraram a OKC usaram o rock’n’roll tanto como uma benção – o som que amavam desde garotos – como um pesadelo – uma limitação, por assim dizer. De modo que o usaram para minar o próprio rock por dentro: a partir daí três acordes e meia bola e força soube sempre a pouco. Carregar num pedal de distorção tornou-se fácil de mais. E pode, sem exagero, alinhavar-se uma tese que defenda que nunca mais houve um disco de guitarras que atingisse esta dimensão: simultaneamente apelativo a multidões suficientes para encher estádios e ao mesmo tempo possuidor de uma tensão insondável que parece capturar o zeitgesit de um tempo e unificar uma geração.

Nevermind era angústia adolescente, niilista e condensada ao ponto da explosão; OK Computer era essa angústia, na entrada da idade adulta, já não explosiva, antes causadora de dispersão psíquica como uma droga marada.

Ainda há guitarras, aqui, enormíssimas guitarras – e em “Electioneering” explodem por todos os lados, um riff a bradar até ao fim do mundo; mas na maior parte do disco as guitarras já são outra coisa: quase abstractas e aparentemente sem direcção em “Airbag”, etéreas, sem chão, na estrondosa “Let Down” (uma espécie de “Television” em algodão doce). As guitarras não são mais um fim em si mesmo, são um elemento de uma peça de teatro que pretende abordar a ideia de isolamento humano. Eu disse que eles eram pomposos.

Thom Yorke estava empenhado em capturar a sensação de alienação e isolamento que ele próprio sentia, após anos de digressões contínuas da banda. Uma guitarra é demasiado real, demasiado concreta para providenciar essa sensação. Era preciso mais: cordas, electrónica, um imaginário distópico de seres humanos conectados por tecnologia ao ponto de se desligarem de si mesmos. Não sei se isto vos lembra de alguma coisa. A vossa vida, talvez?

Nunca mais houve um disco de guitarras assim – sim, surgiram os Strokes, os White Stripes, mas não são colossos. São bons ou grandes discos de rock’n’roll, sobre miúdas e drogas e sexo, mas estão muito longe de capturarem uma visão do mundo e encerrarem os seus ouvintes num universo único. Ok Computer é da ordem das grandes obras-primas do rock’n’roll – tão importante e emblemático como Pet Sounds, dos Beach Boys, ou Closer, dos Joy Division, discos que não apenas criam de imediato caminhos inusitados para a música popular, mas também encerram uma visão do mundo única.

Violência, acidentes de viação, monitores em aeroportos num mundo Orwelliano em que metade do mundo passa todo o seu tempo a vigiar o resto do mundo e vice-versa – o universo de Ok Computer era um sufoco, retratado no vídeo de “No Surprises”, em que Thom Yorke cantava dentro de uma campânula de vidro que se ia enchendo de água. Até no aspecto visual os Radiohead estavam, por esses dias, no topo do jogo.

Ok Computer era o retrato perfeito do mundo da “globalização”, palavra que por esses dias era repetida milhares de vezes por segundo, pelos gurus que nos explicavam como é que iríamos sobreviver ao século XXI, agora que tínhamos beeps e telemóveis. Era o negativo desse paraíso anunciado – lembram-se? Lembram-se de quando nos falavam de um mundo em que não havia barreiras, em que todos estavam em trânsito? Era Ok Computer. Era, em traço grosso, isto que estamos a viver agora.

Não que Yorke quisesse prever o que quer que fosse – apenas se muniu do que tinha para descrever a sua própria alienação e paranóia. No Surprises é isso: por trás daquela melodia inocente, quase infantil, está Yorke, que parece pedir uma vida pacata por oposição ao mundo corporate das ambições desmedidas: “A heart that’s full up like a landfill/ A job that slowly kills you/ Bruises that won’t heal/ You look so tired and unhappy”, canta ele.

Ao usarem guitarras para demonstrar que as guitarras não era mais suficientes, ao abrirem Ok Computer a todos os outros instrumentos, a todos os outros géneros, desde o rock germânico dos anos 70 à música para cinema, passando pelas técnicas de corte e cola de Dj Shadow (entre outros), os Radiohead criaram o último grande disco de guitarras.

O mundo da música popular, daí para a frente, tornou-se menos ruidoso, menos branco, mais rítmico. Na fronteira, na charneira entre esse mundo pré-web 2.0 e esta alucinação colectiva da hiper-conectividade que vivemos hoje, está Ok Computer, como um velho do Restelo que sabe que perdeu um jogo que os restantes humanos ainda nem se aperceberam que vão ser obrigados a jogar, já sem esperança de ver o mundo retornar a algo mais ordenado e são.

Este texto foi mandado do meu iPhone.

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