“Vivemos escravizados pelo que os outros possam pensar”

10 Setembro 20172.466

Há relações tóxicas e há quem viva em função de terceiros. O livro "Atrai pessoas fantásticas para a tua vida" fala de manipuladores e manipuláveis, autoestima e vitimização. Falámos com a autora.

Vivemos em função dos outros, do que eles gostam e do que querem, como se esta fosse uma espécie de “escravatura” autoimposta. Essa é, pelo menos, uma das mensagens de Diana Gaspar, psicóloga e autora do livro Atrai pessoas fantásticas para a tua vida, da editora Manuscrito.

No livro, Diana Gaspar explica que as relações que temos são, de alguma forma, reflexo das nossas necessidades, mesmo quando têm níveis de toxicidade acima do recomendado. Porque sim, todas as relações e todas as pessoas têm comportamentos tóxicos, o que interessa é identificá-los e saber dar-lhes a volta.

Em entrevista ao Observador, a psicóloga afirma ainda que muitas pessoas vivem uma vida falsa, pautada pelas opiniões dos outros que tanto querem agradar: “Vivemos em comunidade e, portanto, é perfeitamente normal este desejo de sermos aceites e nos sentirmos integrados. No entanto, o limite é ultrapassado quando nos privamos de determinadas escolhas em função daquilo que os outros vão pensar. A linha que separa uma coisa de outra não é assim tão clara.”

O livro foi publicado pela manuscrito no dia 6 de setembro e custa 13,90€.

Porque sentiu necessidade de escrever este livro?
O livro acaba por ser uma construção minha e da Manuscrito, tendo em conta aquilo que julgamos ser as maiores necessidades em contexto terapêutico e da psicologia. Acabei por perceber que as relações e a forma como elas são vividas por cada pessoa têm uma importância determinante e quase central na vida de todos aqueles que me vão procurando para obter ajuda. Muitas vezes o sofrimento vem das pessoas se relacionarem com os outros e com elas próprias.

Não existem vidas sem toxicidade — seja em que nível for — e é impossível existirem relações completamente limpas. Todos temos as nossas dificuldades e vulnerabilidades. No livro começo por identificar algumas características tóxicas — a inveja, o ciúme e o apego, no sentido de posse — para que o leitor perceba se se identifica ou não com algum padrão de toxicidade. Todos nós acabamos por ser tóxicos uns com os outros, mas é fundamental perceber como é que a toxicidade entra na nossa vida. O leitor pode chegar à conclusão que tem características tóxicas e não há problema nenhum com isso. O mal está em, uma vez identificada a toxicidade, não se fazer nada em relação a isso. Este é um livro de consciência e é não unidirecional, no sentido de que o leitor está certo e apenas lhe basta assinalar o que está errado à sua volta.

As relações tóxicas são relações destrutivas e de dependência emocional. Caracterizam-se pela presença de comportamentos que provocam sofrimento, pautados por algum tipo de agressividade e violência, de ciúme, de manipulação, de culpa, de crítica e de humilhação, de vitimização e de coscuvilhice. São relações com ausência de respeito pelo outro.” (Pág. 19)

Na prática, o que podemos entender por relações tóxicas?
Uma relação com características tóxicas é uma relação em que os envolvidos são extremamente inseguros. Quando a pessoa está segura do seu valor não precisa de desenvolver comportamentos de controlo em relação ao outro, de questionar “onde é que ele/a está e com quem está?”. A necessidade de controlo mostra que a pessoa não está bem consigo, que não desenvolveu a segurança interna suficiente para se manter tranquila numa relação.

A falta de autoestima parece estar na base das situações descritas. A que se deve?
Sim, é verdade. Enquanto crianças e adolescentes, bebés até, vamos percebendo o mundo pela forma como este é nos transmitido pelas nossas estruturas familiares e educacionais. A nossa estrutura enquanto pessoa é alicerçada — tal como uma casa — nessa base, que precisa de ser suficientemente segura. Muitas vezes observo pais a manipular os filhos para obterem determinados objetivos, sem que tenham consciência disso. Esta forma mais disfuncional de educar está centrada no medo e no excesso de proteção, ao invés de estar voltada para o desenvolvimento de competências pessoais. É uma educação que não deixa as criança errarem — e aqui o errar é uma forma de interpretação. Não digo para deixar a criança crescer entregue a ela própria, mas sim dar-lhe algum tipo de confiança e de segurança para que comece a relacionar-se com a consciência das suas escolhas e das suas responsabilidades, sempre com uma supervisão presente e afetiva.

O livro também vai tocar na construção das crenças. Se enquanto criança cresço com a necessidade de confirmar aos meus pais que sou uma boa filha, porque sou boa aluna ou tiro boas notas, isso significa que sinto que tenho algo a provar — é o desejo de corresponder às expectativas dos outros. Crescendo neste contexto, um adulto terá uma grande necessidade de manter este padrão de comportamento, uma vez que cresceu a achar que tinha de mostrar alguma coisa para ser gostado pelos outros. A verdade é que nós temos determinados comportamentos, mais ou menos tóxicos, tendo em conta a necessidade das pessoas gostarem de nós. Esta é a base de tudo. Quando isto não é alcançado de uma forma saudável na infância e na adolescência, na idade adulta manifesta-se nas relações que se estabelecem ao longo da vida.

Diana Gaspar é licenciada em Psicologia, com formação em Psicologia Positiva, e certificada em Coaching e Programação Neurolinguística. @ Divulgação

É esta necessidade de pertença que nos torna vulneráveis à opinião dos outros e que determina a influência deles nas nossas vidas. Esta é a dimensão social e integradora da natureza humana. (Pág. 18)

É por isso que o livro explora a ideia de que há muitas pessoas que vivem de acordo com o que os outros pensam?
Sim. Acho que essa é, até, umas das ideias centrais do livro. Mesmo em contexto terapêutico, o que vou sentindo é que muitas pessoas vivem aprisionadas, num sofrimento imenso, porque estão escravizadas em relação ao que os outros possam pensar [delas]. Isto é uma ideia muito central da nossa cultura. Acho que é extremamente tóxica, até na imposição de alguns limites. Às vezes não dizemos “não” e não nos manifestamos com medo daquilo que os outros possam pensar.

Parece uma ironia termos a necessidade de agradar os outros e, ao mesmo tempo, falar mal deles…
Só temos necessidade de falar dos outros quando não assumimos o nosso próprio poder ou quando não cuidamos da nossa própria vida. Quando nos cuidamos, quando estamos centrados e gostamos de nós, tudo isto se torna mais saudável.

Vivemos em comunidade e, portanto, é perfeitamente normal este desejo de sermos aceites e nos sentirmos integrados. No entanto, o limite é ultrapassado quando nos privamos de determinadas escolhas em função daquilo que os outros vão pensar. A linha que separa uma coisa de outra não é assim tão clara. Claro que todos nós temos este desejo de sermos queridos, mas isso não pode ser maior do que as nossas necessidades pessoais.

Quais as consequências de uma vida assim?
Muitas vezes ficamos tão presos e tão esgotados, perante a necessidade de passarmos por alguém que não somos, que isso acaba por ser a nossa maior fonte de desgaste. É altamente cansativo estarmos sempre a passar uma imagem daquilo que achamos que os outros querem ou gostam, quando muitas vezes esses outros não querem nada e não acham nada. As pessoas projetam nos outros aquilo que elas acreditam que têm de ser, provavelmente em função da educação ou das primeiras experiências de vida que tiveram — mas não tem sempre que ver com o pai e a mãe, até porque há uma série de pessoas envolvidas no crescimento de uma criança. Isto traz algumas consequências, nomeadamente sintomas de ansiedade e outros já a entrar no domínio da psicopatologia. Não aguentamos viver uma vida que não é a nossa ou que não vai ao encontro das nossas verdadeiras necessidades.

Eu nunca vou controlar a perceção que os outros têm de mim. Eu não controlo o que os outros pensam ou dizem sobre mim. Estas questões tóxicas surgem porque nós queremos controlar o que não é controlável.

"Não existem vidas sem toxicidade — seja em que nível for — e é impossível existirem relações completamente limpas. Todos temos as nossas dificuldades e vulnerabilidades."

Dado o papel determinante da infância na nossa autoestima, acha que, enquanto pais recentes, ainda vamos a tempo de “salvar” as próximas gerações?
Claro que sim. Se eu enquanto mulher não gostar de mim, vou ter muito mais dificuldade em educar os meus filhos no sentido de gostarem de si próprios. Mais do que falar, as crianças aprendem com aquilo que nós fazemos. Podemos dizer “tens de aprender a gostar de ti e a valorizar-te”, mas o nosso modelo de comunicação verbal e não verbal não pode ser um modelo de falta de autoestima. As crianças vão aprender mais com aquilo que veem do que com aquilo que nós dizemos. Se querem que os filhos desenvolvam determinada competência, os pais devem ser os primeiros a assumir o motor dessa mudança.

Considerando quem já é adulto e não pode regressar à infância, como é que se trabalha a autoestima?
O primeiro passo é termos muita paciência — quando queremos mudar, queremos mudar para ontem. É preciso percebermos que isto é um caminho e que não precisamos de nos zangar sempre que a nossa voz interior nos vier dizer que não valemos nada… A ideia é questionarmo-nos de cada vez que essa voz interior está presente, tentar perceber de onde vem e porque vem. Na maior parte das vezes isto acontece de forma tão automática que nem nos apercebemos do que anda a circular na nossa cabeça. E antes de querermos mudar alguma coisa, é preciso reconhecer que pensamentos circulam na nossa mente. Depois, é preciso ter um carinho enorme e uma paciência gigante porque há dias em que a voz está mais destrutiva e mais tóxica do que outros.

O facto de a voz interior nos dizer a mesma coisa a vida inteira não quer dizer que tal seja verdade. Trabalhar a autoestima é um trabalho tão profundo que, muitas vezes, a pessoa desiste. Isto é um investimento, tal como é um investimento ir ao ginásio. É um trabalho de consistência, que exige, num primeiro nível, consciência das coisas e, depois, paciência e carinho. Outra crença é achar que não conseguimos mudar. Claro que conseguimos mudar: leva trabalho e persistência. São vários os ingredientes, mas não há uma fórmula. Obviamente que vamos continuar a ser vulneráveis, a ter dias em que a nossa voz tóxica ganha mais poder, isso vai acontecer. Mas o que muda é a intensidade e a frequência dessa voz.

"Trabalhar a autoestima é um trabalho tão profundo que, muitas vezes, a pessoa desiste. Isto é um investimento, tal como é um investimento ir ao ginásio." 

A vitimização é uma resposta recorrente aos problemas para quem tem baixa autoestima?
A vitimização é um padrão de queixa constante em relação aos outros. É atribuir a responsabilidade aos outros por aquilo que sentimos e vivemos. É o retirar a nossa responsabilidade das escolhas e das oportunidades. A vitimização é tida como um comportamento tóxico. É uma forma de abdicar do meu poder pessoal. Todos nós, em algum momento, assumimos este comportamento. Agora, se a vitimização for uma coisa recorrente é porque estamos presos a esta forma de estar na vida…

No livro escreve que “só há agressores quando permites que te agridam”. Não é um pouco violento achar que a culpa é sempre nossa?
Isso não é uma questão de culpa. Se eu estou numa relação e alguém me agride, o agressor só se vai manter por perto se eu o permitir. É preciso colocar limites… Não podemos controlar se entram agressores na nossa vida, mas se ficam ou não já é uma escolha nossa. A ideia do livro não é culpabilizar o próprio ou os outros, mas sim convidar a pessoa olhar para si com carinho para perceber o que é que realmente tem na sua vida. É uma questão de percebermos porque é que nos mantemos (ou não) em determinadas relações.

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